Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 33 de 36

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Inocência

Capitulo XXIX: Resistencia de Corça

Acasto—Não póde ella falar?

Oswaldo—Se ralar é tão somente fazer ouvir sons por meio da lingua e dos labios, é aquella creatura muda; mas se tão maravilhosa faculdade consiste tambem em tornar comprehensiveis os menores pensamentos por accionados e expressivos gestos, póde dizer-se que ella a possue, pois seus olhos brilhantes como estrellas do céu tem uma linguagem intelligivel, bem que falha de sons e de palavras.

SHAKESPEARE.

Deixámos Innocencia tão abatida de corpo, quanto resoluta de espirito.

Presentia os choques que tinha de supportar, e robustecia a alma na meditação continua e firme da sua infelicidade.

Estava de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de seu pae a fez levantar.

—Nocencia! chamava elle.

Rapidamente passou a pobresinha a mão pelo rosto para apagar os vestigios de copioso pranto, e com passo quasi seguro penetrou na sala.

Estavam Pereira e Manecão sentados junto á mesa. O anãosinho Tico aquecia-se aos pallidos raios de um sol meio encoberto e, sentado á soleira da porta, brincava com umas palhinhas.

—Estou aqui, papae, disse Innocencia em voz alta e um pouco tremula.

Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado.

Julgou dever dizer alguma coisa.

—Até que afinal a dona sahiu do ninho... É que hoje o dia está de sol, não é?

A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistencia que fel-o abaixar os olhos.

—Ella esteve doente, desculpou Pereira.

E voltando se para a filha:

—Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você em negocios particulares...

—Bem percebe ella, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo para risos.

Innocencia replicou em tom incisivo:

—Não percebo.

—Está se ... fazendo de ... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já ... se esqueceu ... do que tratei com seu pae?... Parece que comeu muito queijo.

Com a mesma entoação, e cortando-lhe a palavra retorquiu ella:

—Não me lembro.

Houve uns minutos de silencio.

Accumulava-se a colera no peito de Pereira: seus olhares irados ião rapidos de Manecão á imprudente filha.

—Pois, se você não se lembra, disse elle de repente, eu cá não sou tão esquecido.

—Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se á beira da mesa para ficar mais chegado á moça, faz-se de enjoada a tôa ... o nosso casamento...

—Seu casamento? perguntou Innocencia fingindo espanto.

—Sim...

—Mas com quem?

—Ué, exclamou Manecão, com quem ha de ser... Com mecê...

Pereira fôra-se tornando livido de raiva.

O anão acompanhava toda essa scena com muita attenção. Scintillavam seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo rachitico estremecia do impaciencia e susto.

Á resposta de Manecão, levantou-se rapida Innocencia e, como que acastellando-se por detraz da sua cadeira, exclamou:

—Eu?... Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero ... não quero... Nunca... Nunca...

Manecão bambaleou.

Pereira quiz pôr-se de pé, mas por instantes não pôde.

—Está doida, balbuciou, está doida.

E, segurando-se á mesa, ergueu-se terrivel.

—Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva.

—Não, disse a moça com desespero, quero antes...

Não pôde terminar.

O pae agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.

Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe de encontro á parede.

Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra, amparando o peito com as mãos. Mortal pallidez cobria-lhe as faces, e de ligeira brecha que se abrira na testa deslisavam gottas de sangue.

Ia Pereira a precipitar-se sobre ella como para esmagal-a debaixo dos pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, occultou as lagrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.

Manecão não fizera o menor gesto. Extatico assistira a toda essa dolorosa scena. A physionomia estava impassivel, mas, por dentro, seu coração era um vulcão.

Lugubre silencio reinou por algum tempo naquella sala.

O anão chegara-se a Innocencia, tomando-lhe uma das mãos: depois, a fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por signaes a necessidade de retirar-se.

A custo pôde ella seguir aquelle conselho. Quasi de rastos e ajudada por Tico é que saiu da presença do pae e de seu perseguidor.

Nenhum movimento fizeram os dois para retel-a. Calados como estavam, deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela grandeza daquella desgraça.

Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.

Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito.

Afinal, exclamou:

—É preciso que eu desembuche o que tenho cá dentro, senão estouro... Quem for homem que seja ... Manecão, Nocencia para nós está perdida ... para nós, porque um homem lhe deitou um mau olhado...

—E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.

—Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo metti o diabo em casa... Estive alerta ... mas o mal já caminhava.

—Mas, quem é elle? tornou a perguntar com impaciencia Manecão.

—Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o socego que Deus me deu...

Contou então ás pressas Pereira todas as tentativas do allemão Meyer, tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos assim suppunha, já haviam produzido os seus damnosos fructos.

—Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquelle cachorro, que tudo era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?... Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.

—Para que? interrompeu Manecão.

—Respondam os urubús...

—Para matal-o?

—Sim...

Houve breve pausa.

—Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe hade dar cabo da pelle.

—Porque?

—É negocio que me pertence. O senhor é pae ... eu porém sou ... noivo. Mangaram com os dois ... mas o allamão fica no chão.

—Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje ... agora, se possivel fôr. Cão damnado deve logo ser morto, para que a baba não dê raiva... Vá depressa e venha contar-me que aquelle homem já não existe... Como velho, como pae ... abençôo a mão que o hade matar. Caia o sangue que correr ... sobre os meus cabellos brancos...

Havia toda esta conversa sido attentamente ouvida por alguem; o anão Tico.

Viera a pouco e pouco approximando-se da mesa com os olhos a fulgir.

De repente, collocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.

—Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.

Começou então o homunculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito expressivos, que de tudo estava sciente, participando de todos os projectos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia os dois offendidos.

Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados, fez ver que Pereira laborava em engano, tão somente quanto á pessoa.

Com muita propriedade de imitação e perfeita mimica, ora levantando o braço para caracterisar as physionomias, tão exactamente representou Meyer e Cyrino, que o mineiro logo os reconheceu.

—Bem sei, bem sei Tico, murmurou elle. Você fala do doutor e daquelle...

Ahi o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de Innocencia, indicou que nada tinha ella com o allemão.

Ficaram pasmos os dois.

—Então, balbuciou Pereira, quem será?... Cy ... rino, meu Deus?!

—Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas vezes a cabeça.

—Qual! protestou Pereira, o doutor?...

Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.

Gesticulou como um possesso; correu para fóra de casa; denunciou as entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cyrino: mostrou o lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua queda; repetiu o grito que dera; lembrou a scena da madrugada, findando com aquelles tiros; exprimiu-se por signaes tão adequados e taes movimentos de cabeça e physionomia, que toda a duvida desappareceu do espirito de Pereira.

Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua colera subiu a um grau de violencia inexprimivel.

Esteve a cahir fulminado.

—Infame murmurou roxo de ira, tu me pagas! Infame... Infame!

Depois voltando-se para Manecão:

—Dê-me esse ... eu o quero...

Abanou o capataz a cabeça.

—Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o senhor ... e fez de mim chacota.

—Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje ... parta já... E quando voltar, diga só: estamos desaggravados... Innocencia será sua...

Parando um pouco concluiu tomado de enleio:

—Se quizer aceital-a.

—Havemos de conversar...

Teve o mineiro uma explosão de desespero.

—Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nós? Um homem entra na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu tecto, bebe da agua que, carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me partam!... Não quero mais saber que esse miseravel respire o ar que respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que trouxe, gente do inferno como elle!... Heide cuspir-lhes na cara... Pinchal-os fóra como cães que são!.. Ladrões!... Eu...

Interrompeu-o Manecão com calma:

—Não faça nada... É preciso que ninguem saiba do que se está passando aqui... Ninguem!... percebe?

—E então?

—Faça de conta[122] que recebeu uma letra[123] de Sant'Anna. O cujo foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no Leal... Ouviu?

Pereira fez signal de tudo comprehender.

—Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.

—Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta cabeça como um cortiço de guaxupés... É um zumbido!... Mostre que já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e mãos atadas a você... Tudo lhe pertence... Emquanto a honra do mineiro não for desaffrontada ... não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha!...

—Coragem, coragem, aconselhou o outro.

—Se este socavão não chegar para esconder minhas miserias ... mudo-me para as bandas do Apa... Parece que vou morrer ... sinto fogo dentro da cabeça...

E vencido pela emoção encostou a testa á mesa, deixando cahir os braços.

Bateu-lhe Manecão no hombro.

—Que é isso, meu pae? animo! De que serve ser homem?... Olhe, cara a cara a sua desgraça ... que tambem é minha. Não o consola a certeza de que aquelle homem brevemente...

—Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se retirara, mas que faremos deste tico de gente, que sabe tudo?

—Não o deixe sair mais de casa.

—Qual!... É que nem mussú. Quando a gente mal pensa, surge no Sucuriú e até no Corredor.

—Pois bem... Ficará elle sabendo que ... um só piscar de olho ... pode sahir-lhe caro ... muito caro.

—Então, implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquella gente ... vá... Se eu pudesse ainda dormir ... esquecia um pouco, mas...

Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.

Incontinenti foi Manecão despachar os camaradas de Cyrino, os quaes, pouco depois sahiam com destino á casa do Leal.

Em seguida, montando o tropeiro a cavallo, partiu em carreira desapoderada para a villa do Sant'Anna do Paranahyba, onde chegou alta noite.


[122]Fingir.

[123]Carta.