Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 26 de 36

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Inocência

Capitulo XXII: Meyer Parte

Adeus, pois amigos; bella companhia! Aos lares distantes cada qual de nós, por caminhos diversos, deve um dia chegar.

CATULLO.—Epigramma XLVI.

Não haviam descontinuado as visitas feitas a Cyrino por enfermos de muitas leguas em torno. Tão frequentes e teimosos eram os casos de sezões ou maleitas, que a porção de sulfato de quinina que trouxera em suas canastras estava toda esgotada, pelo que se vira levado a substituir esse medicamento sem tanta confiança, porem, por plantas verdes do campo ou hervas seccas, fornecidas por uns bolivianos que encontrara em Minas, vindos de Santa Cruz de la Sierra em peregrinação pelo interior do Brazil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz em punho, nem aquelles resquicios de conhecimentos therapeuticos que ostentava o nosso doutor.

Entre os enfermos que o vinham diariamente procurar, alguns accusavam molestias cujas qualificações eram complicadas e estramboticas: assim declaravam-se salteados de engasgue, espinhela cahida, mal de encalhe, tosse de cachorro, feridas brabas, almorreimas erysipelas, ou até assombração e mau-olhado.

Quem se queixava de engasgues era o capataz de uma fazenda chamada do Váu, distante umas boas cincoenta leguas.

—Sr. doutor, disse o enfermo, a minha vida é um continuo lidar de soffrimentos. Estou com este mal vae fazer cinco annos no S. João, por signal que me veio com uma grande dor na bocca do estómbago. Vezes ha que não posso engulir nada, sem beber muitos gólos de agua, de maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para outro.

—E a dor, perguntou Cyrino, ainda a sente?

—Toda a vida, respondeu o capataz... O que me afflege mais é que ha comidas então que não me passam na guéla... É um fastio dos meus peccados... Boto uns pedacinhos no bucho e parece-me que dentro tenho um bolo que me está a subir e descer pela garganta...

Receitou o medico umas doses de herva de marinheiro como emetico, e fez mais algumas prescripções que o enfermo ouviu com toda a religiosidade.

No estado de perturbação moral em que se achava o joven facultativo, natural é que fosse uma coisa por outra; mais importante, porem, era a fé que suas indicações incutiam, a fé, essa alavanca poderosa da medicina, esse contingente precioso que o espirito ministra aos ingentes esforços da natureza na sua constante lucta contra os principios morbidos.

O doente de espinhela cahida accusava um peso muito forte e perenne no peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas á mesma altura.

Prescreveu-lhe Cyrino amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe certas cautelas firmadas na voz geral, mas com algum fundo de razão; verbi-gratia: engulir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois de comer.

O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que ninguem precisava de quem nelle cuidasse, pelo menos da alma.

Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em vespera de deixal-o a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano em que havia laborado, como tambem a clinica quasi esgotada, aconselhando-lhe a conveniencia de transportar-se para outro ponto e continuar a interrompida jornada.

Tudo isto, e o amor a augmentar, a tirar-lhe todo o socego, a consumil-o a fogo lento...

Meyer, na realidade, desde o achado da sua magnifica borboleta, não pensava senão em partir.

—Oh! dizia elle, eu quizera estar já em Magdeburgo... Quantas leguas, Mein Gott!... Papilio Innocentia ... a minha gloria! Que diz, Snr. Cyrino?...

—É verdade ... mais quem sabe se o senhor não deveria ficar mais tempo aqui?... Talvez achasse outra borboleta nova...

—Não, é impossivel... Era felicidade de mais... Além disso, o dinheiro não me havia de chegar.

—Oh! posso emprestar-lhe...

—Muito obrigado ... mas é de todo impossivel a minha estada aqui... Veja o senhor: tenho ainda que ir a Camapoan, a Miranda, a Cuyabá, para então voltar... E só me restão poucos mezes... A Sociedade Entomologica de Magdeburgo conta commigo na primavera do anno que vem....

Mettida uma vez essa idéa na cabeça, Meyer não deixou mais de falar na sua viagem um só instante e, para que a execução correspondesse ao promettido, mandou na tarde seguinte, José Pinho, o camarada, alçar cargas ás costas do burro, depois de as ter, elle proprio, arranjado e revistado com toda a cautela.

Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um protesto:

—Mochú, disse elle, vae recomeçar com o seu modo de andar por essas estradas á noite... Afinal havemos todos de cahir nalguma buraqueira, eu, o senhor, o burro de carga, e os bichos; e não chegaremos, nem eu ao Rio de Janeiro, nem elles e o senhor á sua terra. Emfim, já estou cansado de o avisar.

No momento da partida, apresentava o naturalista aquelle mesmo aspecto da celebre noite da chegada: eram aquellas mesmas frasqueiras a tiracollo, aquelle mesmo ar tranquillo e bonachão com que viera, fóra de horas, pedir pousada á casa de Pereira.

Este, ao ver o hospede a cavallo e prestes a deixar para sempre a sua morada, sentiu-se possuido de alegria, mesclada, sem saber porque, com surpreza repentina e intima, de tal ou qual commoção. No fundo, achou de si para si desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela sympathia que em todos incutia o caracter naturalmente inoffensivo e meigo do saxonio.

—Chegou, declarou Meyer, a hora da minha despedida.

E, sacudindo com força a mão e o braço do mineiro:

—Sr. Pereira, meu amigo, adeus! ... nunca mais nos havemos de ver ... mas hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na minha patria, daqui a milhares e milhares de leguas ... pelo pensamento recordarei os dias felizes ... que aqui passei.

—Oh! Sr. Meyer, balbuciou Pereira.

—Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentidão, felizes porque correram ... sem eu perceber que O tempo estava caminhando... De todo o Brazil fica em mim a lembrança ... mas desta sua casa ... essa lembrança é mais viva e mais forte.

Acompanhara o allemão o seu pensamento com accentuado gesto, acenando com o punho fechado para mostrar a lealdade daquellas impressões.

Voltando-se para Cyrino, acrescentou:

—Sr. doutor, as suas receitas estão todas marcadas no meu caderno... O senhor póde enganar-se ás vezes ... mas as suas intenções são sempre boas ... e isso basta para desculpal-o... Eu...

Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cyrino e Pereira, que estavam igualmente silenciosos, e uma lagrima comprida deslizou-se-lhe pela face, sem que a physionomia mostrasse a menor alteração.

—Adeus! concluiu elle de repente.

—Boa viagem, Sr. Meyer, boa viagem, disse Pereira ajudando-o a montar a cavallo.

—Adeus! adeus ... repetiu elle.

E interpellando o camarada:

—Júque, vá na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é daqui a meia legua...

Deu Meyer então de redeas e caminhou a passo, logo após de José Pinho, este munido de cabeçudo cacete evidentemente hostil ás costas do cargueiro entregue aos seus cuidados.



Lá vae o homem, exclamou Pereira.


—Lá vae o homem, exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. É um allivio... Elle, coitado, não era mau ... mas não tinha modos... Safa, heide me lembrar para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma campanha... Ué... Olhe, Sr. Cyrino... não está elle de volta?... Teria esquecido alguma bugiganga?

Com effeito reapparecia a trote o allemão em carne e osso, como quem vinha procurar ou dizer coisa de importancia.

—Então que tem? perguntou Pereira adeantando-se e alçando a voz. Deixou algum trem? Daqui a pouco é escurão[106].

Meyer, no emtanto, ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a razão da volta:

—Não deixei cousa alguma, Sr. Pereira. Tão somente faltei a um dever...

—Qual é? indagou o mineiro.

—Não me despedi de sua filha...

—Ah! replicou Pereira com vivacidade ... não era preciso ... tanto mais que ella ... esta dormindo ... meio adoentada... Ha pouco tinha muito peso na cabeça... Eu lhe heide dizer... Não se incommode...

—Pois então, observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem em mim um criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para sempre na sciencia e a estima em que a tenho é grande... É uma moça muito bella ... digna de ser vista na Europa...

—Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem susto.

—Sim, eu me vou, adeus!

—Vá indo ... olhe que o sol dobra de repente aquelle matto e a noite cae logo...

—Sim, sim, adeus, disse elle despedindo-se de uma vez.

E na estrada arêenta, á luz do astro que descambava, foi-se tornando comprida a mais e mais a sombra do bom Meyer, á medida que elle marchava atraz do seu camarada, do cargueiro e da collecção entomologica.


[106]Escurão é o finalisar do crepusculo.