Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 34 de 36

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Inocência

Capitulo XXX: Desenlace

Estão contados os grãos de areia que compõem a minha vida. É aqui que devo tombar. É aqui que ella hade acabar.

SHAKESPEARE.—Henrique V, Acto I.

Eis que vi um cavallo amarello, e quem o montava, era a morte.

S. JOÃO.—Apocalypse.

Durante tres dias, foi Cyrino rigorosamente espreitado pelo noivo de Innocencia.

Com a cautela propria dos seus habitos esquivos, soube Manecão acompanhar-lhe todos os passos sem ser presentido.

Assim notou que o rival montava a cavallo e ia até certo ponto da estrada como que esperar por alguem que não chegava. Na ida, mostrava impaciencia e inquietação; na volta vinha melancolico e curvado sobre si mesmo, absorto em fundo meditar.

Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesario; mas este não apparecia.

Estava quasi expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do completo desengano.

Oh! se elle pudera!... Agarraria com forças de Josué esse sol que lhe marcava os dias e o deixaria immovel, até que o seu salvador se resolvesse a estender-lhe a mão.

E já ia findando a semana!...

Completo o circulo de horas, se Cesario não apparecesse, começava a imperar o juramento que dera, irrevogavel, implacavel!

—Matar-me-hei, dizia Cyrino; ficarão sabendo que não menti ás minhas palavras.

Nessa firme resolução sahiu da villa; passou o rio Paranahyba e, como costumava, caminhou pela estrada de S. Francisco de Salles, talvez tres leguas. Contava pousar por aquelles sitios, de modo que alongava o seu passeio.

Claro era o dia; lindo.

Por toda a parte cantavam mil passaros. Gritavam as gralhas nos cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.

Cyrino ia muito agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na frente, buscavam na estrada, anciosos o vulto de um cavalleiro.

Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.

Alguem vinha a galope.

Seu coração pulsou que parecia ter entrado tambem a galopar.

Mas o som partia de detraz.

Sem duvida, algum viajante vindo da villa.

Continuou Cyrino na vagarosa marcha.

O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve comsigo estaria emparelhando, quem extravagantemente em hora tão impropria corria á desfilada.

O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguem a trote largo passara por perto de si, quasi a roçar animal contra animal.

Dalli a pouco, novo galope se fez ouvir.

Parecia que o mesmo cavalleiro havia dado de redeas, cortando o rumo que levava.

Dessa vez, porem, Cyrino accordou do lethargo, esporeou vigorosamente a sua cavalgadura e ... esbarrou com Manecão.

Instinctivamente empallideceu. O outro estava tambem muito descorado.

Estacaram elles os animaes e fitaram-se alguns minutos, de um lado com desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.

—Patricio, interpellou por fim o capataz em tom provocador, que faz mecê por aqui?

—Eu? perguntou Cyrino.

—Nhôr sim, mecê mesmo.

—É boa ... viajo.

—Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?

—Andejo, não, contestou Cyrino com força. Não sou nenhum bruto.

E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola, fazendo menção de a sacar.

—Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é?

—Sou o que sou, não é da sua conta.

Contrahiu-se o rosto de Manecão.

De um tranco chegou o cavallo bem junto a Cyrino e disse-lhe em voz surda:

—É um ladrão ... é um cachorro!

A esse insulto, puxou Cyrino a pistola.

—Mato-o já, bradou com violencia se continua a destratar-me...

Sorriu-se o capataz com desprezo.

—Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E sabe manejar garrucha!...

—Acabemos com isso, gritou Cyrino.

—Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.

—Mas quem é o Sr.? perguntou Cyrino.

—Eu?

—Sim!... sim!...

—Então não me conhece?

—Não, balbuciou Cyrino.

—Conhece Nocencia? uivou Manecão com voz terrivel.

E de sopetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a á queima-roupa em Cyrino.

Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.

Dois gritos estrugiram.

Um de agonia, outro de triumpho.

Ficara Cyrino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorompeu em vociferações contra o inimigo, que o contemplava sardonico.

—Matador! ... vil! ... sim! ... conheço Innocencia... Ela é minha... Infame!... Mataste-me... mas mataste tambem a ela!... Que te fiz eu?... Deus te hade amaldiçoar ... sim, meu Deus, meus Santos ... maldição sobre este assassino... Foge, foge ... minha sombra hade seguir-te sempre...

—Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavallo, isso mesmo é o que eu quero.

—Ah! queres? continuou Cyrino com voz rouquejante, não é?... Pois bem!... De noite e de dia ... minha alma há de estar contigo ... sempre, sempre!...

Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela testa. Lentejava-lhe dos póros o suor frio e visguento da morte.

Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração tornou-se-lhe mais difficil.

—Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer ... assim. Devo sair desta vida ... como christão... Hei de saber perdoar... E reunindo as forças, acrescentou com uncção e energia: Manecão ... eu te perdôo ... por Christo ... que morreu ... na cruz, para nos salvar ... eu te perdôo... Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo, ouviste?

Á medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.

—Não quero o teu perdão, bradou elle a custo.

—Não importa, respondeu-lhe Cyrino com voz suave. Ele é ... dado do fundo d'alma... Cáia sobre tua cabeça...

Quero, quero morrer como christão... Que me importa agora o mundo, a vingança ... tudo?... só Innocencia!... Coitada de Innocencia... Quem sabe ... se ... ela ... não morrerá? Manecão, dá-me agua. Agua pelo amor de Deus!... Desce do cavallo, homem... É um defunto que te pede... Desce!...

E com os braços erguidos acenava para Manecão.

—Agua, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me agua ... eu te dou a salvação...

Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabellos. Queria fugir e não podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo a agonia da sua victima. Aquella scena se lhe afigurava um pesadello, e completo torpor lhe tolhia os membros.

Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela estrada a trote.

Ouvira tambem Cyrino o estrupido e arregalara com anciedade os olhos.

Desabrochou-lhe nos labios um sorriso de acre tristeza.

Alguem vinha chegando.

Esporeou Manecão com vigor o cavallo e, levantando uma nuvem de poeira, desappareceu num abrir e fechar de olhos.

Nisto assomava um cavalleiro numa das voltas do caminho.

Era Antonio Cesario.

Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.

—O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorisado.

—Eu mesmo, respondeu Cyrino com voz fraca.

—Mas, quem lhe fez este damno, santo Deus?

E correndo para o moço, ajoelhou-se junto delle e levantou-lhe o corpo.

—Quem foi o assassino?

—Ninguem, rouquejou o misero, foi ... destino... Morro contente... Dê-me agua ... e fale-me de Innocencia...

—Agua? exclamou Cesario com desespero, aqui no meio do cerrado?... O corrego fica a tres leguas pelo menos...

—Ah! replicou Cyrino meio desvairado, se não ha ... com que estancar a sêde do corpo ... estanque a ... da alma... Innocencia ... onde está? quero vel-a... Diga-lhe que morri ... por causa della...

—Mas, quem o matou? bradou o mineiro.

—Não vale a pena dizel-o respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide agora ... só de mim... Olhe ... nunca fui mau ... não tenho peccados ... grandes... Acha que Deus me ... hade perdoar?

—Acho, respondeu Cesario com força...

—Que fiz eu ... na minha vida? Talvez ... enganasse os outros ... dizendo que era ... medico... Mas ... tambem curei alguns... De nada mais me recordo... Ah! sim ... uma divida de honra... Na minha carteira ... ha uns seis centos mil reis; pague ... trezentos ao Totó Siqueira, da villa; dê ... cincoenta mil reis ... a cada camarada ... meu ... o mais ... distribua ... todo ... pelos pobres, sobretudo ... morpheticos ... depois das ... missas ... que por mim ... mandar ... rezar ... ouviu? ... ouviu?

Fez o mineiro signal que sim.

Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cyrino. Ia-se-lhe empanando o brilho dos olhos; ficara a lingua tropega, afilara-se-lhe o nariz, e sinistro pallor mais realçava a negra cor dos seus cabellos e barbas.

Sentara-se Cesario no chão para segurar com mais geito o corpo do moribundo. Duas lagrimas vinham-lhe sulcando as masculas faces.

Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cyrino.

—Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou ... o meu dia... Mas ... eu lhe peço ... nada diga ... á sua afilhada... Não consinta ... que case com ... Manecão.

—Então, interrompeu Cesario, foi elle quem?...

—Não, não, contestou Cyrino, mas ... ella havia de ser ... infeliz... Ouviu? Promette-me?

—Prometto, respondeu Cesario com firmeza. Juro até...

—Pois bem, suspirou o agonisante, agora ... agradeço a morte... Quero apegar-me ... ás Santas do Paraiso ... e chamo por...

E com esforço, no ultimo alento, murmurou mais e mais baixo:

—Innocencia!

* * * * * * *

Na tarde deste dia, o viajante que passasse por aquelle sitio poderia ver uma cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma cruz tosca feita de dois grossos páus amarrados com cipós.



Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.


Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.