Inocência
Capitulo XXVIII: Em Casa de Cesario
Ah! a perspectiva que pode mais docemente sorrir ao meu coração é a do aniquilamento.
KLOPSTOCK.—A Messiada.
Cyrino logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de lhe captar as sympathias. Medicou um escravo que estava de cama, fez valer o conhecimento e amizade que tinha com Pereira, conversou muito a respeito delle e incidentemente deu noticias de Innocencia.
Atalhou-o Antonio Cesario neste ponto.
—Mecê a viu? perguntou elle.
—Pois não, respondeu o moço, por signal que a curei de sezões.
—Ah! É uma guapa rapariga...
—Parece-me...
—Isso é ... falo assim, porque afinal ... daqui a poucos dias está casada ... não sabe?
—Ouvi contar.
—Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É homem de mão cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar casamentos ás cégas, e ás vezes, se encambulha um mocetão com uma fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo engorovinhado... Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...
Achou Cyrino a occasião propria e redarguiu com vivacidade:
—Então o senhor não é desse parecer?
—Conforme, respondeu logo Cesario com reserva. Aos paes é que convem inziminar essas coisas.
—Boa duvida... Mas ... se ... sua afilhada ... não gostasse de Manecão?
—Não gostasse?
—Sim.
—E que nos importa isso? Uma menina como ella não sabe o que lhe fica bem ou mal... Ninguem a vae consultar. Mulheres, o que querem é casar. Não ouviu já o patricio dizer que ellas não casam com carrapato, porque não sabem qual é o macho?
E Cesario sorriu.
Depois, fechando de repente a cara, perguntou:
—Porque é que estamos a dar de lingua nesse particular? Não sou amigo disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador...
—Eu? protestou Cyrino com vivacidade.
—Boa duvida. Eu cá nem falar nellas quero. Mulher é para viver muito quietinha perto do tear, tratar dos filhos e creal-os no temor de Deus; não é nem para parolar-se com ella, nem a respeito della.
Sempre as mesmas theorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de desprezo ao sexo fraco, a mesma susceptibilidade para desconfiar de qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem soante aos prevenidos ouvidos.
—Minha afilhada, continuou Cesario, deve levantar as mãos para o céu. Achou um marido que a hade fazer feliz e tornal-a mãe de uma boa duzia de filhos.
Estremeceu Cyrino, mas nada disse.
Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia vencer.
Nessa mesma tarde quiz montar a cavallo e voltar para Sant'Anna; entretanto, o pensamento da resistencia com que Innocencia encetara a terrivel lucta com seu pae, actuou em seu espirito e o reteve.
Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.
Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido arriscava ainda ousado lance.
—Sr. Cesario, disse elle na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em particular.
—A mim?
—Sim, senhor.
—Pois, estou aqui ás suas ordens.
—Quizera que sahissemos. O que lhe vou dizer ... ninguem pode ... ninguem deve ouvir.
—Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?
—Tenho...
—Pois vá lá... Mapiaremos fóra... Ao meio-dia esteja na minha roça ... sabe onde é?
—Sei...
—Espere-me num pau de peroba secco que esta derrubado.
—Lá estarei.
Muito antes da hora aprazada, achava-se Cyrino no lugar indicado.
Devorava-o a impaciencia.
Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mal conhecia, que por elle não tinha senão razões de passageira sympathia, e de quem, comtudo, estava dependente sua felicidade, considerava decisivos os momentos.
Quem em taes circumstancias se acha, enxerga em tudo quanto o rodeia symptomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cyrino pouco parecia sorrir a natureza.
Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.
Tinha o ceu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.
Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área, pés de milho já pendoados, dentre os quaes surgiam possantes madeiros de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem; uns, da base á extrema ponta, lugubremente ennegrecidos pelo fogo lançado antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em consequencia da incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da seiva. Esses quedavam vivos, mas de uma vida latente e esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.
Quando o dia é claro, aquelles gigantes da floresta, que pela robustez do cerne haviam desafiado as chammas e os esforços do homem, servem de poleiro a innumeros bandos de papagaios, periquitos araçaris, ou de graúnas que formam concertos capazes de ensurdecer os écos.
Naquella occasião; porém, tudo era silencio.
Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermittentes dos pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das arvores e a explorar-lhes os pontos carunchosos, subindo em zig-zags.
Á hora ajustada, apresentou-se Antonio Cesario.
Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria para derrubar alguma onça, ou animal damninho.
Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada de curiosidade.
—Aqui me tem, doutor, disse elle descançando a arma sobre o páu derrubado e sentando-se ao lado de Cyrino. Estou prompto para ouvil-o quanto tempo queira...
Muito pensara Cyrino nesse momento a que devia chegar e, entretanto, não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações. Parafusara de continuo mil pretextos sem nada assentar.
Foi, pois, a balbuciar que respondeu:
—O Sr ... hade me desculpar ... o incommodo que ... lhe dou...
—Incommodo nenhum.
—E deve estar ... espantado do que lhe pedi ... vir falar commigo ... em lugar ermo ... commigo que sou como qualquer hospede, como tantos que a sua casa tão franca todos os dias recebe...
—Com effeito, confirmou Cesario.
—Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado... Se emquanto eu falar ... o offender, perdoe-me, ouviu?
—Sr. Cesario, continuou Cyrino após breve pausa, se o Sr. visse um homem arrastado numa corredeira[120] e pudesse atirar-lhe uma corda e salval-o ... o faria?
—Boa duvida! replicou o outro com força. Ainda que corra perigo de vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo, rico ou pobre, conhecido ou não, sem o soccorro de meu braço.
—Pois bem, exclamou Cyrino arrebatadamente, sou eu esse homem que vae morrer, que está perdido e a quem o Sr. pode salvar...
E respondendo á tacita suspeita de quem o ouvia:
—Não acredite que esteja doido ... não. Estou tão são de juizo como o Sr. e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo ... eu morro de paixão por uma mulher e essa mulher é ... sua afilhada!... Innocencia!
De um pulo levantou-se Cesario. Seus labios tremiam, os olhos de subito injectados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.
—Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cyrino.
Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.
Erguera-se tambem, cara a cara com Cesario:
—Mate-me, bradou elle, mate-me... É um favor que me faz... Dê cabo desta vida desgraçada.
Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido da sua precipitação, replicou o outro todo sombrio:
—Não tenho razões para matal-o... O Sr. nunca me fez mal...
—Não, proseguiu Cyrino meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o Sr. tem caridade, e é bom, se gosta de seus filhos, se tem pae e mãe no céu ... por tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me ... mate-me!
E deixou-se cahir aos pés de Cesario, occultando a cabeça entre as mãos.
Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpreza.
Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no hombro e quasi com brandura lhe disse:
—Que historia é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me o que ha... Quero saber se a sua bola está gyrando ou não. Sou homem do sertão, mineiro de lei ... mas sei tratar com gente...
A estas palavras, recobrou Cyrino algum alento e pôz-se de pé.
Sentando-se então ao lado de Cesario, narrou-lhe tudo, o desespero que o minava, a certeza que tinha do amor de Innocencia e a implacavel sentença proferida por Pereira.
Ouvia-o Cesario attentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta exclamação:
—Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.
Depois que Cyrino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar severo, perguntou:
—Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com Innocencia? Nunca esteve só com ella?
—Estive, respondeu o outro meio receioso.
As faces de Cesario subiu uma onda de sangue.
—Então, roquejou elle, a desgraça...
—Deus meu, atalhou Cyrino com fogo, caia a alma de minha mãe no inferno, se Innocencia não é pura ... se...
Conteve-o Cesario com um gesto.
—Basta, moço: quem jura assim, não mente... Tambem no meu tempo tive uma paixão infeliz ... e sei o que é soffrer...
—Oh! Sr. Cesario, salve-me!...
—Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ella hoje não pertence nem mesmo ao pae, ao seu proprio pae? Pertence á palavra de honra, e palavra de mineiro não volta atraz... Não sabia o senhor disso, quando deixou que o amor lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam ... mulheres o que querem é ver os homens derretidos por ellas ... sacrificam tudo ... e por um requebro pincham na rua a honra de suas casas...
—Não, protestou Cyrino, ella não é assim...
—Então é melhor que as outras? objectou Cesario com desdem.
—Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima della, só Nossa-Senhora!...
Ligeiramente sorriu o mineiro.
—Qual! observou elle, bem disse o outro: a paixão é um transtorno. Fica um homem que nem uma miseria! É...
—Então? interrompeu Cyrino.
—Então o que?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada pertença tanto a Manecão, como uma garrucha ou um guampo lavrado[121] que Pereira lhe tivesse dado... Não ha meios e modos de voltar atraz...
Não desanimou o mancebo.
Falou por muito tempo com verdadeira eloquencia, appellando principalmente para a protecção que todo o christão tem obrigação de dispensar ao ente que leva á pia baptismal, a seu segundo filho, ao pagãosinho por quem o padrinho se torna responsavel perante Deus.
Feriu o sentimento religioso do mineiro e commoveu-o.
—Não me falle assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa para o seu lado... E quem me assegura que, Nocencia gosta tanto da sua pessoa?... Quem?
O coração está-lh'o dizendo baixinho, respondeu com calma Cyrino. O senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo isso é falso? ... diga, acredita?
Cesario tartamudeou:
—Sim... Assumpto verdades, mas...
—Ah! exclamou Cyrino, o Sr. sente a consciencia bater-lhe que sua afilhada está desamparada, que vae ser sacrificada ... e agora tapa os ouvidos e diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra! Porque a deu então o Sr ... essa palavra de honra de que tanto fala?... Nossa Senhora que a proteja ... que a tire deste mundo... Isso ha de pesar-lhe no peito ... e, quando um dia tiver noticia que Innocencia morreu de desgostos, ha de dizer lá comsigo que ajudou a cavar-lhe a sepultura.
Estava Cesario abalado: com verdadeira anciedade retorquiu:
Que historias me conta o Sr.? Eu mettido no meu canto ... vivendo tão socegado ... não bulindo com ninguem, e agora anarchisado por estes mexericos!... Quem o mandou vir cá?
—Quem seria, retrucou Cyrino, senão Innocencia? Por ventura eu o conhecia? ... algum dia o vi?... Não; foi aquelle anjo que me disse: busca meu padrinho, é o ultimo recurso. Se elle não nos amparar, então ... estamos perdidos de uma vez.
Estas palavras convenceram de todo Cesario.
Ficou em silencio, recolhido, a meditar; Cyrino o observava offegante.
—Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei-de pensar no que o Sr. me conta...
—Oh! Sr. Cesario!...
—Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não digo duas... No fim desse tempo, monto a cavallo e appareço por casa de Pereira...
—Sim, sim, balbuciou o moço.
—Amanhã mesmo, de madrugada, o Sr. sae daqui e vae esperar-me na Senhora Sant'Anna.
—Irei ... salve-me...
Cesario parou um pouco.
—Agora, quero que o Sr. me faça um juramento ... pelas cinzas de sua mãe.
—Estou prompto.
—Pela salvação da sua alma...
—Pela salvação de minha alma, repetiu Cyrino.
—Pela vida eterna...
Cyrino acenou com a cabeça.
—Jure!
O mancebo cruzou os dedos indices e beijou-os com uncção abaixando os olhos e empallidecendo.
—O Sr., disse Cesario, jurou antes de saber o que era... Deu-me boa idéa do seu caracter... Farei tudo por ajudal-o, mas exijo-lhe uma condição... Se quizer aceital-a, fica valendo o juramento; senão ... o dito por não dito...
—Que será, meu Deus? murmurou Cyrino.
—É ficar o Sr. esperando em Sant'Anna. Se eu apparecer por estes oito dias, iremos juntos á casa do compadre. Se não, é que decidi o contrario. Neste caso, virá o Sr. até cá e aqui esperará as suas cargas que mandarei buscar. Será signal de que, nunca mais ha de procurar botar as vistas em Innocencia ... nem sequer fallar nella. Acceita?
—Aceito, respondeu o moço com exaltação; mas fique certo de uma coisa: se o Sr., no tempo marcado, não estiver na villa, reze por alma de Cyrino, porque elle terá deixado este mundo de afflicções.
Cesario meneou tristemente a cabeça e retirou-se, sem dizer mais palavra.
[120]Trecho de rio encachoeirado.
[121]Guampo é uma vasilha feita de chifre para tirar agua. Chama-se lavrado quando tem desenhos de lavor.