Inocência

Visconde de Taunay · Capítulo 31 de 36

Páginas do PDF

Inocência

Capitulo XXXVII: Scenas Intimas

Santa Maria, advogada nossa, ouvi nossos rogos. Virgem pura, ante Vós se prostra uma infeliz donzella.

WALTER SCOTT.—Os dois desposados.

Descrever o abalo que soffreu Innocencia ao dar, cara a cara, com Manecão fora impossivel. Debuxaram-se-lhe tão vivos na physionomia o espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do proprio pae habitualmente tão despreoccupado, foi repentino.

—Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.

—Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que metto medo á senhora dona...

Batiam de commoção os queixos da pobresinha; nervoso estremecimento balanceava-lhe o corpo todo.

A ella se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.

—Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?

Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:

—Já sei o que é... Ficou toda fóra de si ... vendo o que não contava ver... Vamos, Nocencia, deixe-se de tolices.

—Eu quero, murmurou ella, voltar para o meu quarto.

E encostando-se a parede, com passo vacillante se encaminhou para dentro.

Ficara sombrio o capataz.

De sobrecenho carregado, recostara-se á mesa e fôra, com a vista, seguindo aquella a quem já chamava esposa.

Sentou-se defronte delle Pereira com ar de admiração.

—E que tal? exclamou por fim... Ninguem pode contar com mulheres, iche!

Nada retorquiu o outro.

—Sua filha, indagou elle de repente com voz muito arrastada e parando a cada palavra, viu alguem?

Descorou o mineiro e quasi a balbuciar.

—Não ... isto é viu ... mas todos os dias ... ella vê gente... Porque me perguntas isso?

—Por nada...

—Não:... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um pouco ... anarchizado. Este negocio é muito, muito serio. Dei-lhe palavra de honra que minha filha havéra de ser sua mulher ... a cidade já sabe e ... commigo não quero historias... É o que lhe digo.

—Está bom, replicou elle, nada de precipitações. Toda a vida fui ansim... Já volto: vou ver onde pára o meu cavallo.

E sahiu, deixando Pereira entregue a encontradas supposições

Decorreram dias sem que os dois tocassem mais no assumpto que lhes moia o coração. Ambos, calmos na apparencia, viviam vida commum, visitavam as plantações, comiam juntos, caçavam, e só se separavam a hora de dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos hospedes.

Innocencia não apparecia.

Mal sahia do quarto, pretextando recahida de sezões: entretanto, não era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa soffria morte e paixão; e amargas lagrimas, sobretudo a noite, lhe inundavam o rosto.

—Meu Deus, exclamava ella, que será de mim? Nossa-Senhora da Guia me soccorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta desgraça? Eu vivia tão socegada n'este retiro, amparada por meu pae ... que agora tanto medo me mette... Deus do ceu, piedade, piedade.

E de joelhos, deante de tosco oratorio allumiado por esguias velas de cera, orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar antes de se deitar.

Uma noite, disse ella:

—Quizera uma reza que me enchesse mais o coração ... que mais me alliviasse o peso da agonia de hoje...

E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando:

—Minha Nossa Senhora mãe da Virgem que nunca peccou, ide deante de Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim ... que não me deixe assim nesta dor cá de dentro tão cruel. Estendei a vossa mão sobre mim. Se é crime amar a Cyrino, mandai-me a morte. Que culpa tenho eu do que me succede? Rezei tanto, para não gostar deste homem! Tudo ... tudo ... foi inutil! Porque então este supplicio do todos os momentos? Nem sequer tem allivio no somno? Sempre elle ... elle!

Ás vezes, sentia Innocencia em si impetos de resistencia: era a natureza do pae que acordava, natureza forte, teimosa.

—Hei de ir, dizia então com olhos a chamejar, á igreja, mas de rastos! No rosto do padre; gritarei: Não, não!... Matem-me... mas eu não quero...

Quando a lembrança de Cyrino se lhe apresentava mais viva, estorcia-se de desespero. A paixão punha-lhe o peito em fogo...

—Que é isto, Santo Deus? Aquelle homem me teria botado um mau olhado? Cyrino, Cyrino volta, vem tomar-me ... leva-me! ... eu morro! Sou tua, só tua ... de mais ninguem.

E cahia prostrada no leito, sacudida por arrepios nervosos.

Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a toda lacrymosa.

Vinha sereno, mas com ar decidido.

—Que tem você, menina, perguntou elle, meio terno, de alguns dias para cá?

Innocencia encolheu-se toda como uma pombinha que se sente agarrar.

Puxou-a brandamente o pae e fel-a sentar no seu collo.

—Vamos, que é isto, Nocencia? Porque se socou assim no quarto?... Manecão lá fóra a toda a hora está perguntando por você ... isto não é bonito... É, ou não, o seu noivo?

Redobraram as lagrymas.

—Mulher não deve atirar-se á cara dos homens ... mas também é bom não se canhar assim ... É de enjoada... Um marido quasi, como elle já é...

De repente o pranto de Innocencia cessou.

Desvencilhou-se dos braços do pae e, de pé deante delle, encarou-o com resolução:

—Papae sabe porque tudo isto?

—Sim...

—É porque eu ... não devo...

—Não devo o que?

—Casar.

Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a boca.

—Que? perguntou elle elevando muito a voz. Comprehendeu a pobresinha que a lucta ia travar-se. Era chegado o momento.

Revestiu-se de toda a coragem.

—Sim, meu pae, este casamento não deve fazer-se...

—Você está doida? observou Pereira com fingida tranquilidade.

Prosseguiu então Innocencia com muita rapidez, as faces incendiadas de rubor:

—Conto-lhe tudo papae... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste sonho, ouviu, papae? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada! estava tão branca que mettia pena... Vinha bem limpa, com um vestido todo azul ... leve, leve!

—Sua mãe? balbuciou Pereira tomado de ligeiro assombro.

—Nhôr sim, ella mesma...

—Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita...

—Não faz nada, continuou Innocencia, logo vi que era minha mãe... Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: Cadê seu pae? Respondi com medo. Está na roça; quer mecê, que elle venha?—Não, me disse ella, não é perciso; diga-lhe a elle que eu vim até cá, para não deixar Manecão casar com você, porque hade de ser infeliz ... muito!... muito!...

—E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio, gyrando os olhos.

—Depois ... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande desgraça hade entrar ... nesta casa que foi minha e onde não haverá mais socego. Bote seu pae bem sentido nisso. E sem mais palavra, sumiu-se como uma luz que se apaga.

Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.

Uma suspeita lhe atravessou o espirito.

—Que signal tinha sua mãe no rosto?

Innocencia empallideceu.

Levando ambas as mãos á cabeça e prorompendo em ruidoso pranto, exclamou:

—Não sei ... eu estou mentindo ... Isto tudo é mentira! É mentira! Não vi minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!

E, cahindo de bruços sobre a cama, ficou immovel com os cabellos esparsos pelas espaduas.

Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.

Subito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com muita energia:

—Nocencia, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... Você hade ir para a sala ... se não fizer boa cara, eu a mato.

E erguendo a voz:

—Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vel-a morta, estendida, do que ... a casa de um mineiro deshonrada...

Ás pressas sahiu do quarto, deixando Innocencia na mesma posição.

—Pois bem murmurou ella, já que é preciso ... morra eu!