Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 9 de 21

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Jacinta Passos, coração militante

Textos inéditos

 

 

O sanatório é Bahia ou Bahia é um sanatório?

(Cadernos do Sanatório 14)

Os manuscritos de Jacinta Passos

Os textos inéditos de Jacinta Passos publicados aqui são ficcionais – poemas, pequenas peças para teatro e rádio, aforismos, minicontos, roteiro para cinema, letra de canção. Todos foram manuscritos em cadernos escolares simples, entre os anos de 1967 e 1973, os últimos de vida da autora, período em que esteve internada em uma clínica para doentes mentais, em Aracaju. Por isso, denominei-os "cadernos do sanatório". Jacinta começou a escrevê-los cerca de dois anos após sua internação, e continuou a

fazê-lo até 27 de fevereiro de 1973, véspera de sua morte. 1 São os únicos originais literários de Jacinta Passos que restam.

Descrição física

Trata-se de 20 cadernos escolares comuns, e de um bloco, todos em bom estado de conservação. Alguns cadernos são da marca "Companheiro", popular à época, com uma grande foto colorida na capa, enquanto outros, os mais baratos, provinham do Ministério da Educação e Cultura. Dois cadernos são presos por espirais, e o bloco não tem capa. Os cadernos foram numerados por Jacinta, na capa. Como o último é o de número 56, mas só existem 20 cadernos, deduz-se que 36 cadernos se perderam. Os existentes foram entregues a James Amado, ex-marido de Jacinta, por ocasião da morte dela. Identifiquei as seguintes datações:

N.º Caderno Data

1 1967

5 Junho de 1967 (final do caderno) 8 1968

10 Maio de 1968 (início do caderno) 14 Setembro de 1968 (início do caderno) 15 Dezembro de1968 (início do caderno) 19 1969

22 Julho de 1970 (final do caderno) 56 Fevereiro de 1973

Todos os cadernos trazem o nome da autora, na capa ou contracapa, escrito em grandes letras verticais muito finas, marca registrada da grafia de Jacinta e de suas irmãs. Há uma série ininterrupta de cadernos, numerados de um a oito. Falta o de número nove, mas o dez existe. Há outra série ininterrupta, numerada de 14 a 22; um pequeno rasgo na capa de um caderno impede a identificação de sua data, mas, pelo conteúdo, parece ser o de número 23; e há o caderno número 56. O bloco, que contém apenas fichamentos de leituras, não é numerado.

O número de páginas varia de acordo com a marca dos cadernos: os mais finos contêm 56 páginas, e os mais grossos, 82. Na média, os cadernos existentes têm 59,8 páginas. O conjunto deles atinge o total de 1.255 páginas, integralmente preenchidas, na frente e no verso, a lápis, à caneta, às vezes à caneta sobre original a lápis. Multiplicando-se a média de páginas dos cadernos preservados pelo número total de cadernos que Jacinta preencheu – 56 -, chegamos à conclusão de que, em seis anos, entre 1967 e 1973, Jacinta Passos escreveu 3.348 páginas, quase 560 páginas por ano! Essa cifra me parece extraordinária, principalmente quando se leva em conta que Jacinta estava internada num hospício, e que grande parte dos escritos é ficcional, ou seja, implicou um processo de criação artística.

Razões e critérios da seleção e publicação dos textos Como se trata de textos não revistos pela autora para publicação, tive cuidado especial em, nas notas de rodapé, informar sobre as alterações realizadas por ela – palavras riscadas ou substituídas, notas à margem etc. -, a fim de esclarecer ao máximo suas intenções, processo criativo e modo de trabalho.

A publicação destes manuscritos envolveu uma decisão difícil. Afinal, trata-se de apontamentos variados, escritos em condições muito adversas, não revistos pela autora antes da publicação. E já se sabe que Jacinta era muito rigorosa com os próprios textos, publicando apenas parcela ínfima do que escrevia. Devido às condições de produção e à falta de revisão, os cadernos constituem material heterogêneo, quanto à temática e à qualidade do texto, trazendo ainda partes inconclusas.

A decisão de apresentar aqui alguns manuscritos deve-se a três ordens de razões. Primeiro, os "cadernos do sanatório" são a maior prova da reserva de saúde mental de Jacinta, à época. Os 20 cadernos escolares, cujas folhas foram integralmente manuscritas por ela, na frente e no verso, de cima a baixo, não contêm uma única frase sem sentido, nem sequer um trecho sem sequência, assim como qualquer demonstração de alheamento da autora em relação à realidade tangível do mundo. Ao contrário, os 20 cadernos e 1 bloco, apesar de reunir material muito variado – teoria da arte, poemas, peças para teatro e radioteatro (para adultos e para crianças), contos, minicontos, roteiros de cinema, máximas, reflexões diversas, resumos de livros e de noticiários de televisão etc. -, seguem uma lógica cartesiana, tanto no interior dos textos como na disposição deles ao longo dos cadernos. Alguns são anunciados, para serem desenvolvidos apenas muitas páginas ou cadernos depois, demonstrando que a autora concebeu e maturou cuidadosamente cada texto, em incessante processo criativo, sobre o qual mantinha controle.

O conjunto dos cadernos revela o mundo poético criado por Jacinta Passos nos anos finais do sanatório. Mundo poético onde se refugiou, talvez em sua reserva de sanidade, como única possibilidade de sobreviver física, mental e psicologicamente às duríssimas condições a que estava submetida, resumidas por ela mesma em "Duas Américas":

Matéria expansiva eu sou,

expansiva e comprimida

no fundo desta prisão,

palavra diminuída,

presa a ideia, presos os pés,

palavra diminuída,

os braços arrebentando

ataduras de envolvida (...)

A segunda razão para publicar os manuscritos é que eles oferecem uma ideia da diversidade de gêneros literários a que Jacinta Passos se dedicou, especialmente a partir da década de 1950. Sua obra publicada em vida, toda ela de poesia, não permite perceber isso. Contudo, A Coluna, seu último livro, editado em 1957, lista sete "livros a publicar", entre eles volumes de poesia, teatro, literatura

infantil, crítica literária e contos. 2 Esses originais, entretanto, foram queimados por familiares de Jacinta em 1965, quando ela foi presa

em Aracaju, por subversão. 3 O leitor ficou assim privado de conhecer tanto esses livros como a multiplicidade literária de Jacinta Passos. Terá agora pequena ideia desta, ao ler os inéditos aqui transcritos. A transcrição foi literal, sofrendo apenas atualização ortográfica e de acentuação.

Finalmente, a terceira razão para publicação dos manuscritos é a qualidade literária da maioria dos textos selecionados, que se impõem por si mesmos, apesar da falta de revisão final da autora. Chamo atenção especialmente para os "Comprimidos poéticos" e "Contos e minicontos", pérolas maduras de ironia e humor cortante, que poderiam ter sido escritos hoje, tais a sua atualidade e frescor. Por razões editoriais, os "Comprimidos poéticos", embora façam parte dos textos inéditos, foram deslocados para o início deste volume.

A decisão de publicar apenas em parte os manuscritos deve-se à sua já aludida heterogeneidade. Há trechos que são meros fichamentos de leituras; outros são recolhimentos de informações, com vistas a futuros escritos; outros não passam de esboços; ou ainda apresentam qualidade literária que me parece muito inferior aos outros escritos da autora – provavelmente seriam depois retrabalhados ou descartados por ela. Certos trechos são apenas repetições de palavras de ordem do Partido Comunista Brasileiro, do qual Jacinta era fidelíssima militante desde 1945, e ao qual, à época dos cadernos do sanatório, parecia ainda mais ligada, se é que isso era possível. Talvez ela tenha transformado o PCB na sua referência mais forte e constante do mundo "lá fora". Creio que os trechos não publicados nada acrescentam à obra de Jacinta, e por isso permanecerão, por ora, inéditos.

Contudo, reconheço que o conjunto dos manuscritos, únicos originais literários de Jacinta Passos, constitui material privilegiado para pesquisa sobre diversos aspectos da vida e obra da autora, e sobre temas como, por exemplo, as relações entre literatura e loucura, além de permitir uma avaliação dos critérios de seleção aqui adotados. Por isso, à época do lançamento desta edição, doarei todos os cadernos, junto com fotos, cartas e livros de Jacinta Passos – enfim, todo o material dela que possuo – a uma instituição que possa preservá-los adequadamente e franqueá-los à consulta pública. Lembro que esses manuscritos só poderão ser publicados, total ou parcialmente, após expressa autorização minha ou de meus herdeiros, conforme dispõe a atual legislação sobre direitos autorais.

Conteúdo dos cadernos

O conteúdo dos cadernos é extremamente diversificado. Por isso, e também porque a ordem dos textos é a da época em que foram escritos – não há, por exemplo, agrupamentos de textos por gênero literário -, é muito difícil resumir seu conteúdo. A própria autora, decerto para não se perder no emaranhado de palavras e assuntos, periodicamente fazia resumos do que fora até então escrito: "Lista das composições literárias recentes", "Relação dos contos cômicos" etc. O que se segue fornece apenas uma ideia geral dos cadernos do sanatório.

A maioria dos cadernos é dividida em duas metades, as folhas da direita e as da esquerda. Um texto escrito na folha esquerda do caderno continua na próxima folha esquerda, enquanto o escrito na folha direita segue na próxima folha direita, e assim sucessivamente. Isso dá aos cadernos uma aparência à primeira vista confusa, já que o conteúdo da folha à esquerda nada tem a ver com o da direita. Mas, quando se percebe essa lógica de organização, a leitura prossegue sem problemas. As páginas da direita são em geral ocupadas por textos de ficção, e as da esquerda, por textos não ficcionais, embora essa não seja uma regra absoluta. Às vezes um dos gêneros acaba invadindo todas as páginas: o caderno 21, por exemplo, contém apenas roteiros para cinema. Jacinta devia sentir que, naquele momento, não desejava escrever sobre outro assunto.

É possível que ela tenha adotado esse método porque desejava escrever, ao mesmo tempo, ficção e não ficção, e essa era uma forma prática de permitir que um texto pudesse avançar indefinidamente, sem perturbar o desenvolvimento do outro, escrito na página ao lado. Lembre-se ainda de que, internada, Jacinta não possuía dinheiro, portanto não podia comprar cadernos, dependendo de que alguém da clínica ou alguma visita os oferecesse; nessa situação, era mais fácil para ela subdividir os textos em um único caderno, do que possuir dois ou três cadernos, um para cada assunto ou gênero literário.

Entre os textos não ficcionais da autora, avulta uma ambiciosa "Teoria da Arte (em 14 capítulos e oito apêndices)", que Jacinta esboça já na primeira página do primeiro caderno, e segue desenvolvendo a intervalos, mas sempre progressivamente, com extraordinária persistência, até o penúltimo caderno, o de n.º 22. Os 14 capítulos de sua longa teoria da arte agrupam-se, nas palavras dela, nos seguintes temas: reflexões sobre a estética; teorias das seguintes artes: literatura, música, dança, escultura, pintura, arquitetura, cinema; e teorias dos seguintes gêneros: poético, representativo, narrativo, crítico, oratório e informativo. Há também apêndices, sobre filmes de curta-metragem, desenho e gravura, literatura infantil e juvenil, literatura popular, propaganda, imprensa e rádio. Todos os textos sobre teoria da arte têm a mesma estrutura: começam com uma definição geral do tema, ("o que é" literatura, cinema etc.), e continuam com uma exposição sobre aquela arte específica, partindo sempre do argumento mais geral para o mais particular. Essa teoria da arte não integra a presente edição: além de longa, é, em minha opinião, excessivamente influenciada pelas ideias do realismo socialista. Disso resulta que há poucos trechos originais, expressivos de um pensamento ou perspectiva próprios de Jacinta.

Nos outros textos não ficcionais de Jacinta Passos, há um pouco de tudo. Existem extensas anotações (em geral intituladas "Apontamentos" ou "Informações") sobre leituras feitas, que cobrem uma espantosa quantidade de assuntos, como história da América, história do Brasil, diversos períodos e temas da história de outras localidades, principalmente europeias, biologia, política, literatura, economia, filosofia, ecologia... Os cadernos comportam também resumos de notícias, relações sobre diversos assuntos ("Relações de provérbios" etc.), "observações político-sociais", vários "esquemas de cursos" (sobre lógica, ciência política...), "lições científicas", máximas, análises literárias, assim como alguns róis das peças de roupa que Jacinta possuía, guardadas em duas malas. O conjunto desses textos revela uma autora muito culta, além de informada sobre os principais acontecimentos do mundo. À época, Jacinta tinha acesso a poucos livros, além dos noticiários diários de rádio e televisão, o que permite supor que a maioria das informações e conceitos contidos nos cadernos devia ter sido adquirida antes do seu ingresso nesse último sanatório.

Os textos de ficção dos cadernos do sanatório são igualmente muito diversos entre si. A grande maioria é prosa, havendo poucos poemas, todos incluídos nesta edição. Além de peças radiofônicas e peças de teatro (destinadas ao público infantil como ao adulto), há contos, roteiros para cinema e até uma letra de canção.

Há, igualmente, diversos conjuntos de textos curtos, tanto ficcionais quanto não ficcionais, para os quais Jacinta criou títulos e definições próprias. Esses conjuntos de textos, que julgo muito originais e de alta qualidade, estão dispersos ao longo dos cadernos, porém podem ser identificados e agrupados pelos títulos comuns. Os principais conjuntos de textos receberam os seguintes nomes: Anedotas; Cenas radiofônicas; Comprimidos literários – que Jacinta classifica como "novo gênero literário" -, subdivididos em poéticos, líricos, cômicos e científicos; Contos agudos (subdivididos em trágicos e cômicos); Disparates radiofônicos; Improvisos teatrais; Instantâneos (subdivididos em naturais e sociais); Paradoxos; e Verbetes. Às vezes, Jacinta fornece definições minuciosas sobre determinado conjunto de textos, como se lê na seguinte passagem, referente aos improvisos teatrais:

"Diferenças e semelhanças entre os três improvisos teatrais:

1) Todos três improvisam uma ação teatral (histórica)

2) Todos três contêm informação

3) Todos três dispõem indivíduos que precisam daquele diálogo

e dispõem secretamente os interlocutores

a) o diálogo crítico (vulgo "ira de preso") informa criticando,

dispondo a mímica e a fala

b) o diálogo de trânsito (vulgo "passeata") informa e critica

dispondo as falas, as risadas, os aplausos

c) o diálogo informativo (vulgo "papagaio") informa, em

particular para aqueles ouvintes, segundo a precisão, dispondo