Jacinta Passos, coração militante
Contos
- Ó 5 coolie ! Ó coolie ! ... Por favor, carregue-me mais um pouquinho!
Contos
Uma história de três mães
Maria das Dores foi um mãe vítima. Pé ante pé, na calada da noite, um vulto de mulher, sorrateiro, trêmulo, cabeça e busto envolvidos num manto escuro, ora avançando, ora se escondendo, aproxima-se do Asilo dos Expostos
- Avenida Joana Angélica, é esta... logo deve ser ali a Roda... a Roda da Bahia – murmurou.
Transida pela angústia maternal, a mente de Das Dores não formulava nem sequer um diálogo interior. Suas mãos ansiosas depositaram, no ano de 1925, num degrau giratório da Roda, o corpo envolvido duma criança recém-nascida, sua filha.
Condenada por aquela sociedade que a julgava uma decaída social, Das Dores guardou, sozinha, o seu segredo. Dois anos depois uma meretriz disfarçava-se para poder observar, de longe, através das grades, uma criança que brincava, entre outras, no Parque do Asilo.
- É aquela... Meu coração não me engana... É aquela... – murmurou. Contornou a grade, aproximando-se.
- Psiu!... me diga o nome daquela menina... sim, daquela de rostinho pintadinho de sardas...
- É Liberdade!
Nesta noite, o prostíbulo pareceu a Das Dores mais infernal do que nunca, prostíbulo barato, no Pelourinho, fonte de lucros de uma cafetina que, na escala do meretrício, subira de prostituta a empresária de prostitutas. Prostíbulo barato, pois, apesar de ainda jovem, Das Dores não conseguira se desfazer de sentimentos e hábitos pequeno-burgueses aos quais a cafetina classificava de escrúpulos sentimentais. Os prostíbulos caros – que mudavam até de nome – eram para as treinadas que, no mercado sexual e capitalista, conseguiam vender o prazer sexual a burgueses mais ricos e poderosos.
Das Dores, na sua consciência cristã de arrependida, considerava o prostíbulo infernal, mas um inferno mercado, pois julgava seu primeiro amor fora da lei burguesa, como um pecado. Seus olhos não enxergavam nenhum outro possível meio de vida senão o meretrício, fatal, legal.
* * *
Liberata foi uma mãe revolucionária.
- O jeito é fugir, Perez... sussurrou Liberata através das grades dum recanto escuro do Parque da Pupileira, antigo Asilo dos Expostos.
- Já lhe disse isso, você não teve coragem...
- O Juiz de Menores já veio apresentar os candidatos para as maiores de 15 anos... E me escolheram...
- Safado! Explodiu Perez.
- Disseram que eu posso ter um lar confortável, um esposo digno, honesto...
- Vão te domesticar, animal, vão te domesticar, animal...
- Não vire seu ódio contra mim, Perez, num instante amor vira ?!
- Então vamos fugir, Liberata... Me dê sua mão... depressa...
- E por que é que o outro vai me domesticar e você não?
- Porque eu sou seu igual e o outro é seu senhor... Porque eu sou um trabalhador e você é uma oprimida que estão reformando!- Mesmo assim, hábito é hábito, e hábito de homem é domesticar mulher... Sabe por que você não vai me domesticar? Porque eu vou ser sua igual pelo trabalho... Ui!... não aperte tanto a minha mão... Combine logo, depressa... Os pés da irmã de Caridade não pisam, deslizam...
- Estamos fazendo um mundo onde ninguém precisa de caridade.
Premido pelas circunstâncias, Perez formulou mentalmente a alternativa: Engenho Velho de Brotas ou Pilar? Engenho Velho fica numa ribanceira ao fundo do hospício, só dará saída para a zona norte da cidade pelo Acupe ou Rio Vermelho... Pilar, na cidade-baixa, dará saída por porto de mar ou pela ferrovia da Leste ou pela rodovia...
- Resolveu, Perez? Sei que você é um perseguido pela polícia...
- Sim, já lhe disse que sou comunista...
- Mesmo assim já foi [? sic, palavra pouco legível], mesmo assim fora da lei.
- Eu farei outra lei, Liberata, eu farei outra lei para o nosso amor.
No ano de 1940 esconderam seu amor num velho casarão no Pilar, pardieiro que alugava quartos a casais trabalhadores e a lúmpens sociais. Tempos depois, um jovem tribuno pelos direitos das mães solteiras visitava e percorria os bairros pobres da Bahia em busca de plateia para um concurso de Direito Internacional, aproveitando-se das circunstâncias favoráveis aparecidas com a guerra antifascista que fazia levantar forças democráticas e abalar o Estado Novo reformista
No Largo do Tanque, à saída da rodovia, um grupo de mulheres proletarizadas conversava sobre o tribuno.
- O que ela quer é fundar uma Liga das Mães Solteiras!- É um demagogo, mas ele diz algumas verdades.
- Uma verdade que ele diz é que nós, mulheres trabalhadoras, não podemos mais formar casais com nossos maridos... Só formamos pares... Coabitação está difícil.
- Tem razão! Meu marido só achou trabalho no petróleo do Mataripe e eu achei trabalho numa cooperativa de costureiras aqui no Largo...
- Pior do que isto é um ser empregado no Macapá e outro ser empregado em Pindamonhangaba!
Uma mulher chamou outra à parte.
- Vai sempre mandar Ida com o camarada Perez?
- Grande segredo... A guerra agora facilita a viagem...
- E tu, Liberata?
- Eu só considero que é para o bem deles e da humanidade.
* * *
Enquanto se encaminha para a pista a fim de tomar o avião, aquela jovem aviadora, num país de sistema socialista mundial, não sente necessidade de indagar em conflito:
- Serei mãe ou serei aviadora?
Para ser aviadora, aquela jovem não precisa que outras mulheres a substituam na escravidão doméstica. O progresso de uma já não custa o atraso de muitas. Sua filha está numa creche. Oposição entre maternidade e outras atividades sociais? Num sistema econômico-social baseado na propriedade social dos meios de produção, esta oposição fica reduzida a um mínimo de contingência biológica.
Ida é uma mãe livre.6
Violência
... isso não basta, não basta, Polidoro...
José Marceneiro encarava o negro Polidoro com seu cabelo brilhante de cosmético, com seu terno de tropical cinzento, com seu relógio de correia de ouro reluzente, com seu ar pernóstico, e desconfiava dele como de um inimigo.
- Tuas ideias são de um artesão atrasado... Ignoras a força do sindicalismo no Rio e em São Paulo... Os trabalhadores estão nos Ministérios em Brasília... O presidente João Goulart atende a nossas decisões, as decisões dos trabalhadores...
- Já estive numa base trabalhista! Eles decretam a igualdade – todos comem dois pães! – e usam a base como escada para os mais sabidos e endiabrados se arrumarem como deputados e mercadores e altos funcionários!
- Não mereces atenção!
José Marceneiro insistiu, enquanto o negro reluzente se afastava, sobranceiro:
- Os sindicatos são uma escola de luta de classes, mas não bastam... Isso não basta... Isso é anarcossindicalismo.
* * *
José Marceneiro, até sonhando, precisava de um guia. Despertava, alta noite, com sua necessidade. Até a necessidade de amor ficava adiada, e o desejo de ter a companheira não importunava muito. Amor de dois operários? Raramente se encontram para amar. Cada qual na sua produção – ócio não é amor -, isso destrói a domesticação.
José Marceneiro, até sonhando, precisava de um guia. Na insônia, sua história voltava sem sequência – num diálogo interior aparentemente ilógico -, destacando, insistindo, comparando, irrompendo, exagerando. Sua cabeça sofria. Revolvia-se sobre o colchão de capim.
- Não sou o mesmo... Ela morreu sem remédio, como um bicho... Podia não ter morrido... Quero uma serraria mecânica, mas não tenho... A oficina me mudou até por dentro... Não tenho mais de engolir as respostas contra os desaforos das encomendas... Ou engole ou fica sem trabalho... Não sou um proletário, mas a cooperação me ensinou... Pedro pintor e João pedreiro são como eu... Mas como crescer? Cresce... Não cresce... Nesta sociedade, só cresce se virar empresa capitalista. Capitalismo é roubo de trabalho. Cresce... Não cresce... Eu não faço negócio, mas a oficina vende nossa força de trabalho, faz contratos!... Como acabar com a venda da força de trabalho?
- Não sou o mesmo... Frente-nacionalista no Aracaju? Não quero, não, guia... Pensei que nacionalismo fosse um título. Um grupo burguês tomava aquele título – como outro qualquer – para dominar... É também ideia, é doutrina da classe dominante... Concedem que os operários se organizem... Podem se reunir até no Palácio Olímpio Campos e na praça Fausto Cardoso... Podem se organizar com a condicional se... Se ficarem subordinados ao governo e à lei da nação... Isso é ideia de capitalista-nacional. Eu preciso de outra lei. Eu preciso de um guia.
* * *
José Marceneiro soube e correu ao encontro do dirigente comunista. Sofreu um choque moral. Controlou os nervos e raciocinou, rápido, antes de atacar.
- É nosso documento de orientação...
- Mas este documento é ideia de nacionalismo...
- Uma ditadura militar de monopólios imperialistas nos ameaça. Os democrata-burgueses do PSD e da UDN e do PR são fracos, não resistem aos monopólios...