Jacinta Passos, coração militante
Poemas políticos
Canto y cuento es la poesía.
Se canta una viva historia,
cantando su melodía.
Antonio Machado
Para James
esta lembrança do Pontal do Sul
O TERCEIRO livro de Jacinta Passos **** reúne poemas inéditos, além de uma coletânea de poemas do Canção da partida. Os inéditos, subdivididos em "Poemas políticos" e "Canções líricas", foram compostos entre 1946 e 1950, mais provavelmente entre 1948 e 1950, quando Jacinta viveu em uma fazenda no sul da Bahia.
Os poemas políticos acrescentam inovações temáticas e formais à obra da autora. E as canções líricas desenvolvem ao limite experiências poéticas que ela vinha exercitando desde o livro anterior. Primeiro livro de Jacinta editado no Rio, Poemas políticos reforçou o prestígio da autora junto aos círculos de esquerda e tornou seu nome conhecido no meio literário da então capital do país.
Completam Poemas políticos os seguintes poemas, republicados dos livros anteriores: Canção da partida p.85, Três canções de amor p.96, Pânico no planeta Marte (com o título Pânico burguês) p.99, Cantiga de ninar p.111, Diálogo na sombra p.112, Chiquinha p.115, Canção da liberdade p.121, Cantiga das mães p.75, e Canção simples p.66.
Poemas políticos
O latifúndio
Aqui o lugar. Na meia-noite de sombras
e selva, ruminam bois, ele chega sonâmbulo.
- Te esperava, filho.
(Velhos conhecidos, o monstro e a grande jaqueira
verde-negro maternal de cúpula folhuda.)
Quem chega é um homem ah! mas que face terrível,
no olhar que ferida funda
de animal sozinho e a dor,
desabrigo e frio, doenças,
sol de verão, pobre corpo minado, ah! crua
dor de fome, dor de terra sem fruto, animal
com sua dor antiga sozinho no latifúndio.
Aqui o mistério acontece e a grande jaqueira
guarda segredo; mas contam
que esse monstro macilento,
nu, come da terra e fica espojando no chão.
Depois cresce a noite. Depois o segundo
canto do galo: eis o lobisomem
correndo na estrada, seu uivo longo, ouviste?
A coruja e o rio, quando ele passa, já sabem:
a noite se abriu em duas.
Pernas de cão feito lebre correm
como o vento no vale estreito entre serras.
- Mãe, quem pisou na cumeeira?
(o menino corta o sono de choro mal-assombrado)
Rastro de vingança e cinza e sangue nas fazendas
dos crimes oligárquicos. Madrugada
de reses mortas. Águas barrentas, a flor
do café no chão. Oh! quem fez o cacau pecar
e abriu em feridas a folha felpuda do fumo?
Corre-léguas vai no faro das cidades longe.
(Diz o povo que é Mãe-Velha
quem sabe? aquela que mora
só, com seus sapos, na cabeceira do rio.
Teve filhos, mas se foram, oh! faz tanto tempo
que emigraram para o sul.
Quantas luas ela viu?
Ninguém sabe. Mora ali
há cem anos? Muito mais,
do tempo dos donatários
daquela capitania.
Vive a era do cavalo.
Seus olhos não viram nunca
uma rua. Tudo em vão. Trem de ferro
passaste, máquinas, ó flor elétrica
dessa era, velocidade, passaste em vão.
Diz o povo que é Mãe-Velha.
Ó terra de tanto sofrer.)
Corre-léguas vai no faro das cidades longe
na orla do mar, metrópoles maciças, altas
de cimento e luz, corpo de aranha faiscante.
Cidade que dormes envolvida em fluido manto
de ópio, acorda.
Teu sono tem muitos séculos, ó cidade,
não sentes as veias secando? Vais morrer,
virgem louca, o bicho da terra sugando
na noite teu sangue, respiras ainda? Teu crescimento
parou, vais morrer, virgem louca, cidade de ópio.
Corre-léguas vai no faro das cidades longe
carregando seu segredo:
- uma gota de meu sangue
com esta faca terás
sou a tua outra metade
desencanta o meu encanto
ou eu vou te devorar.
Depois vem a barra do dia, sete cores no céu,
a fala da jaqueira e uma faca enterrada no chão.
- Até outra hora, filho.41
O rio
Tantos rios como eu abriram leito de pedras
e pranto. Um dia perguntávamos:
- Dizei-me, curva, aonde vou? casa tronco rocha sois
aqueles que ficam, minha lei é não parar. Sigo
fio de água, água humilde sou, para onde? Ó curva,
falai. Água de revolta, espuma e ódio nos poros
na garganta no útero, pranto de mulher, água
de fel antigo, quem é meu semelhante? Dizei, aonde vou?
Leito de pedras e pranto. Súbito, próximo,
atravessou olhai, ele!
ali na frente, vivo, tão vivo,
ele sim! o rio das águas inúmeras. Correi
doçuras e dores, punhos, Partido, esperança nossa.
nascimento
O ano foi vinte e dois.42 Criatura de desejo
e sonho. Carne e luar na boca das profecias.
Aqui está recém-nascido úmido de lágrimas
e leite, filho das dores, criança concebida
na injustiça.
fala materna
Te contarei muitas coisas,
filho. Te criarei tão forte
e tão sábio que serás um herói novo do século,
filho, proletário, punho meu libertador.
Não tenho dote nem joias
nem tapete de veludo
para amaciar caminho.
Só tenho mesmo é um livro. Um livro para te dar.
Como se eu te desse olhos novos. E exatos, filho.
Aqueles olhos com que Marx viu a História
e saudou teu nascimento.
(Baixinho agora,
vamos conversar baixinho, são dramas de família.
Tenho uma irmã rica, 43 filho, e poderosa, nasceu
muito antes de mim. Quando vi
a luz, ela já era grande dama senhora
minha. Dona da lei
e da alegria no mundo. Por isso nasceste, filho,
fora da lei. Teu avô, o velho rei caduco, 44
não se governa mais. Ficou possesso. Essa dama é velha
bruxa criminosa avara.
Vai morrer. Sabe que vai morrer. Morrerá,
meu filho, por tuas mãos. Está escrito. Por isso
te farei de ternura e aço. Por isso ela te persegue tanto,
quis te matar no meu ventre.
Ela não é gente, filho, não tem veias nem músculos.
Só tem a pele seca, é oca por dentro, a bruxa
sustentada de veneno como cobra na fúria.)
Serás tão forte e tão sábio, filho.
Zumbi dos Palmares.
Tiradentes.
As primeiras greves.
Os dezoito do Forte.
Muitos rios correram antes. Tu, maior que todos.
sumidouro
Vinte e três anos:45 águas fermentaram
na terra.
Cavou chão. Fez leito. Abriu tocas e cavernas
feito bicho teimoso.
Caminhando foi crescendo
águas iguais recebeu
as raízes conheceu
viu semente começar.
Viu a mão do camponês
Por cima das catacumbas
ouviu os pés da Coluna46
e os passos da Aliança.47
Rio de suor e silêncio.
Agora é rio da terra.
Amazonas. São Francisco. Rio da Prata.
Carregado de cobras e piranhas e madeira
boiando. Lutas. Dramas e coisas. Do Brasil.
1935 48
Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.
Fruto peco.
Novembro de sangue e de heróis.
Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.
Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.
na praça
Europa treme até nas águas e no ar.
(Nações em carne viva sangrando machucadas
sob as botas do rei. Nas areias do deserto
rodam tanques de morte. Dakar fica mais perto
do que nunca. Torpedos mancham de sangue as portas
de nossos mares. FEB do povo nasce. Vem
a peleja final. Os aliados vacilam,
Rússia cresce indômita. Só. Perante o mundo
recém-despertado.) 49
A força do terremoto chegou até aqui. Noite densa,
reuniu águas desagregadas, marés de lua cheia
forçaram portas ferrenhas de prisões. Povoou as ruas,
vinde ver as ruas! Que festa de palavras e bandeiras
e flores e desfiles nas grandes capitais.
Maio de S. Cristóvão. Palavra inédita
de gume e fogo e rumo e onda se espraiando
nos confins da pátria comovida.
Pacaembu de arena clara. Não mais o grande Capitão
da lenda. Fulgor na bruma.
É Prestes próximo concreto lúcido sofrido,
conosco, crescendo.
Visão de mar nas ruas, ah! comícios de pétalas e palmas
e multidões crescendo ávidas de nordeste a sul.50
Quinze cadeiras.51
Lodo e sangue nas escadarias. Ouro nos portais.
Quinze cadeiras. Voz implacável no Parlamento, acesa.
Veio a curva.
(Fôlego, pulso, rumo. E o livro materno e mágico.
Para trás ficaram águas. Efêmeras.
Paradas outras, nas margens podres, larvas gerando.)
as fúrias e a carta
I
- Estas mal traçadas linhas
Mister,
são carta de puro amor.
Tive notícias do rei.
Será verdade? Lunático?
Ai que vida tão patética
meu pobre pai sorumbático.
Dizei-lhe do meu pesar
pela perda do Império
Alemão, que Deus console,
e dos povos infiéis.
Alteza, que importa a China?
Por detrás desta cortina
faremos te coroar.
Salve rei! O Novo Mundo
é teu novo pedestal.
Recebi os mensageiros
Mister, do rei venerável.
Beijei-lhe a mão no Palácio
Tiradentes. Dei discursos
castiços salamaleques
e banquetes até rosa
eu lhe cedi, respeitosa.
(Ó povo, cala esta boca
de injúria e maldição.
Sou vendida e prostituta?
Tu falas porque não sentes
meu dilema: as portas abro
da casa
ou as graças perderei.
Ó povo, cala esta boca.
Eu sou herdeira do rei.)
Minha casa tem riquezas
de petróleo e manganês
sou a bela anfitriã
Mister, que mais quereis?
Cacau? Cristal? Paulo Afonso?
Prazer de servir o rei.
Generais de traição?
Tenho alguns. Bases? Soldados?
Mais difícil. Explicarei.
Tenho ferro bem barato
prazer em servir o rei.
Agora meus instrumentos
de uso revelarei.
Meu olho policial,
togas sujas, meus partidos,
os inventores da lei
e cabeça sifilítica
do meu curto presidente.
Agora aqui lembrarei
com licença, nosso dólar.
Prazer de servir o rei.
Ora, direis, tudo certo,
e a chave de segurança?
Tenho a chave, caro Mister,
é pedra fundamental,
sobre ela repousando
o país mudará.
Nação em duas metades
o campo suga as cidades,
o país não crescerá.
Pedra de fato e de lei
Deus conserve o latifúndio
yes, Deus salve o rei.
Vou terminar com palavras
de puro devotamento.
Dizei ao rei como sinto
seu crucial sofrimento.
Ai vida tão dilemática!
Paz? é a crise crescendo
povos infiéis crescendo.
Paz? é a Rússia maior.
É o desemprego aqui.
Guerra? mas guerra é a força
da correnteza mais rápida
circulando no planeta.
Guerra? espada de dois gumes
salvai o peito do rei.
Digamos com Mister Truman:
salvai o peito do rei.
Brasil de quarenta e nove.
Assinado, a grande dama.52
II
Lenine, do outro mundo ri com seus olhos oblíquos.
(Até rasgaram o Livro
da Lei para enterrar o rio)
Mas ele agora é a lei viva nova nas ruas, impávido
crescendo. Olho policial presente. Fúrias
e sangue nas praças.
Praça da Sé, Patriarca,
S. Jerônimo das Minas, ferrovias de Bauru.
Fernandópolis, Tupã, canaviais S. Amaro.
Metalúrgicos do Rio, Morro Velho dos mineiros, tecelões de
Sorocaba.
Do Largo da Carioca pela estiva
de Santos vem caindo florescendo o sangue vem
bradando por minas e ferrovias por asfaltos e muros,
cárceres e casas, campos fábricas e metalúrgicas bradando
vem pelos canaviais53
coral
- Forte como um touro, dizem.
- Na passagem de seus pés nascem caminhos.
Sua palavra
não viste descer do céu nos quatro ventos?
Semente no bico dos passarinhos.
- Tão forte e tão sábio, dizem.
- Alta madrugada, sua mão escreve
nos muros: cidade, vigiai comigo,
na casa de minha mãe conheço dor
de fome e de frio. Tanta fartura dorme
cidade,
o progresso dorme, preso onde? na mão
dos poderosos. Em verdade vos digo.
Tempo de crescer.
Cidade, vamos.
Vinte e oito anos: avançai comigo.
- Louvado seja seu poder de frutos.
- Louvado. Que estes campos nunca viram tanta
esperança. Nem depois das chuvas viram.
- Sua voz, ouviste?
"A terra será da mão que planta e colhe".
- Custei de acreditar.
- E eu.
Tanto viveu meu pai e nunca teve espera.
Só cansaços e penas.
- Na terra sem trato até ouvir se pode
alvoroço de grão.
Espigas de milho e laranjais se ouvem.
-Ah! não morrerei sem ver com estes olhos
que a terra há de comer.
(Louvado seja teu nome e tua raça.
Tens um irmão em cada pátria, louvado seja.
O ventre de tua mãe louvado seja.
De pura luz tua coroa será.)54
o salto
Água funda rio maduro
homens do leme eis o mar.
Água funda, rio maduro
e força para saltar.
mar
Cidade e campo.
Branco e negro.
Mar.
Mulher e homem. Mar.
Burguesia e homens. Tudo é mar. Aqui
o rio deságua e a história do homem principia.
A morte do coronel
I
Era figura de proa
sim senhor,
esse varão soberano.
Já foi rei de Madragoa.
Sangue quente,
pele cor de caraíba.
Era figura de proa.
Como o pai herdara título,
reino, chicote e coroa.
- Pobre dele, está nas últimas.
Na sala dos comentários
se reza cochicha lá
no quarto de telha-vã
ele pena no sofá.
Agora já não é mais
que triste carne sumindo,
força de lua minguando.
Dizem até que carregava
algumas mortes, coberto
de ouro e prata.
(A doença entrou no corpo,
feitiço
pela boca dos rendeiros.)
Candeia, cadê teu lume
força do corpo viril?
Patrão cacique de grei,
dez filhos dentro de casa
e sete fora da lei.
Lá se vai.
Ó corpo, cadê teu lume?
Ó candeia, alumiai.
Parentes de sentinela,
exército de salvação:
- Vinde, ó poderes divinos
salvai os pés da nação.
- Este homem é uma coluna
não pode morrer assim,
vinde, estrangeiro do dólar
vosso amigo está no fim,
movei polícia e tirano
com cara de querubim O enforcado
movei ralé da colônia,
mares de whisky e de gin
Ó Santa Igreja Católica
vosso amigo está no fim.
II
Gente, que olho é aquele
espiando na vidraça?
(Será delírio febril
cadeia mortiça e baça?)
Não é um olho sozinho.
Que se passa?
São dois são dez um milhão
na vidraça.
Vinte milhões espiando
o sinal de morte enfim
dessa figura de proa.
(É povo de Madragoa
na vidraça.)
Ó rei chicote e coroa
triste rei de fim de raça.
Ninguém viu a face. Seus longos cabelos
de mártir, alumiando o mar.
Contam que ele desce das montanhas, noite
alta e vigia.
Anda sobre as ondas
e o velho Atlântico vem muitas coisas lhe contar:
- Das montanhas recebo também
amigo, os grandes rios
carregados de drama. Vês o Mississipi?
(Povo, ó povo do país do norte
minhas águas são de espanto sacudidas.)
Vês este perfil de montes e areia
ondulando e a cintura tão fina?
Pois cresce neste corpo bem-amado
um tumor de morte, devorante.
(Ah continente meu
rosa de outubro
espada de dois gumes, América.)
O crime se prepara aqui em casa
o crime maior
indústria de sangue que se chama guerra.
(Aurora dos povos
ó múltipla
que tua unidade amadureça logo.
Fitai o norte! o crime cresce
contra nós seus poderes malignos
contra ti, ó povo
do norte, estás conosco.)
Das cabeceiras dos rios descem chamas e cólera.
Que se passa? perguntam. Mas eu, eu conheço estas terras
por dentro.
Aqui é Brasil. A infâmia outra vez. Te lembras, Tiradentes?
o quinto do ouro, a família real, e o vinte e um de abril?
Eu sei do medo e da cobiça. O demônio nascendo
no turvo. O demônio da guerra
nascendo no cérebro dos cavaleiros do lucro: – Não podemos
parar. Não queremos morrer
e a terra sob os pés estrangeiros. Aqui é Brasil:
ódio puro ódio, florestas e cidades acesas, punhos altos se
multiplicando.
Ah! cavaleiros do lucro, como sois pequenos.
Sangue do asfalto de Esplanada aos campos de Tupã.
O operário desperta e comanda. Ágil como um gato
salta até junto das minas. Monta guarda ao petróleo:
- alto lá, traidores. Disto não fareis semente de morte. Rosa
e fartura nascerão daqui.
Sessenta famílias de ganância e crime.
Até a Paulo Afonso, ó servos da infâmia?
São Francisco insultado vem rugindo:
assanhai piranhas! caatingas do serão, espinheiros de jurema,
de tocaia! para engolir os gringos invasores.
(Sabia dessas coisas, Mister Truman?
- aqui quem lhe fala é o velho Atlântico.
Ah! Excelência, quantas surpresas
na casa de José Joaquim, o Enforcado.)
Contam que ele desce das montanhas, noite
alta e vigia.
Longe, além do tempo, o que fica a olhar?
Anda sobre as ondas. Seus longos cabelos
de mártir, alumiando o mar.55
Elegia das quatro mortas
I
Chegas de manhã, tranquila.
(Não estás morta, morta, amiga,
no chão, desfeita, de um país de brumas?)
De manhã, tranquila.
Quando a luz do dia vem
clareando o céu, as coisas e a lembrança.
Olga,56 de manhã.
(Não estás morta, morta, amiga,
não te levaram num navio, sofrendo?)
Tu, aqui, tranquila:
teu vulto claro de alemã, tão nosso,
tão do Brasil teus olhos bem amados,
translúcidos,
e o rosto longo e os cabelos finos.
(Não estás morta, morta, amiga,
crime de feras contra flor tão pura?)
De manhã conosco:
aquela mesma luta antiga
e dura,
tão dura às vezes, bem sabes como exige.
Tranquila, conosco:
muita coisa, Olga, foi mudando
depois daqueles tempos: num campo
de suplícios, tua filha nascendo. Não, não esquecemos
o Estado Novo, os crimes do fascismo
e teu corpo de bravura resistindo:
mas a luta é cada vez mais uma só:
lembras da Alemanha em tua juventude
de sonho e combate? Um lado de sombra ainda,
de luz, outro lado: tudo será luz
una, de alegria
que da barra do Oriente vem raiando,
da Rússia vem como de um sol a pino,
e de nós, os povos duros,
sugados, na sombra,
duros, combatendo.
Prestes. Prestes. Ah!
nunca se viu tanta esperança terrena.
(Não estás morta, morta, amiga,
de tantas dores com que te mataram?)
Chegas de manhã, tranquila.
II
Também tu: de crespa cabeleira
viva,
de onde vens morena de manhã?
- Pelas costas. Me mataram pelas
costas. Covardia. Pois se mata
assim um ser humano?
Ah! Zélia57 O cão policial
teve medo de olhar teus olhos.
Foi no ano de quarenta e nove.
Foi na rua.
No Rio de Janeiro, capital.
- Meu filho ia nascer:
mundo mais humano, o que eu queria.
Tão simples. Assim teu sonho era,
o nosso, de fartura e paz.
Será feito pela mão dos pobres
(pobres não eram tuas mãos
de mulher irmã das mãos do negro,
do camponês e do trabalhador?)
Pela mãos dos pobres
que têm fome e sede de justiça
na terra.
III
Flor de tristeza, vagarosa, Dade,58
Foi assim que te vi no campo, um dia.
Tu vens chegando, tua fala, lenta:
- não sou de natural assim tão triste
mas labutei demais e me acabou.
Treze homens levaram teu caixão
por cinco léguas de caminho ingrato.
Flor de existência malograda, flor
(não conseguiste nem as miudezas
de teu desejo: ah! era de uma volta
de ouro, como gostavas! E um vestido
de seda verdadeira. Ouço teu riso,
risada ruidosa, da garganta)
Treze homens levaram teu caixão.
- Morreu de quê? – perguntam. A doença
já encontrou teu corpo consumido:
onze filhos, pobreza, mais a roça,
mais água e lenha e casa de farinha.
Morreste sem remédio como um bicho:
desconhecias o poder das letras,
da medicina e da luz elétrica.
Nenhum relógio marcou teu passamento.
Treze homens levaram teu caixão.
Flor de tristeza, vagarosa, Dade,
foi de morte matada que morreste
e bem sabias. O crime não tem data:
morte lenta geral antiga fria:
o latifúndio acabou contigo.
- Não sou de natural assim tão triste.
Tu vens chegando, tua fala, lenta
acusa e tua voz se anima agora
("a terra será da mão que planta e colhe")
é de esperança flor recuperada.
IV
Na frente.
Na frente maduros.
Caminhando na frente maduros.
Era o dia Primeiro de Maio.
Na frente.
No Rio Grande, cidade do sul.
De repente.
De repente, atiraram.
(- Onde estamos?
- Foi da sombra. Atiraram.
- A polícia? Da sombra? Covardes!)
De repente.
De metralha e fuzil.
(- Mas quem foi que mandou atirar?
- Foi a sombra. Estrangeiros do dólar.)
Atiraram. Mataram
Operários sem armas, mataram.
(- Ah! governo sem lei nem vergonha!)
Foi assim. Angelina59 mataram.
Quatro mortos. Maduros.
Caminhando na frente maduros.
Levantando e bandeira, Angelina.
Era o dia da classe operária.
Na frente.
Protetora da pátria, Angelina.
Foi no ano feroz de cinquenta.
Foi no ano feroz do fascismo.
Era o dia Primeiro de Maio.
No mundo.
No Rio Grande, cidade do sul.60
Canções líricas
Canção atual
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.
Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.
Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.
Muita cidade madura
e muito livro da lei.
Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.
Coisas de nome trocado
- fome e guerra, amor e medo -
Tanta dor de solidão.
Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.
Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.
Canção para Jana
Riso de abril rompe a neblina,
rosa menina.
Crescei, ó cabelos de chama,
carne de rosa e pudim.
Cor de pitanga
boca miúda
riso, alfazema, patchuli.
(Água do rio
eu te darei
leite com mel
chapéu de rei
limão caixinha
e datacum.
Passearei
com lô-lô-lô
bilu-bilá
nane ninou.)
Flor buliçosa
rosa crescei.
Água dos mares da Bahia.
Na sombra aqui destas asas
até um dia.61
Canção do amor livre
Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.
Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.
Se me quiseres amar.
Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.
Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.
Canção de brinquedo
Reino da terra
riso será.
Menina, esse riso
não é de graça,
tempo virá.
Ó riso custoso
rei e rainha
em teu lugar.
Ó flor de sangue
tempo virou
tempo virá.
Abre, ó roseira
reino da terra
riso será.
Tens medo do risco?
Segura o novelo
Entra na roda e dança, ó menina.
Tens medo do risco?
Não és flor sozinha:
um olho aceso
entre as mulheres
criatura minha.
Um grão de milho
cravo criança camaradinha.
Araçá-mirim.
Segura o novelo.
Agora sim.
Flor no cabelo
entra na roda e dança, ó jasmim.
Chamado de amor
Tanta laranja madura
ai tanta!
que aroma vem do quintal.
A maré já deu passagem
cresce meu canavial
minha vara de condão
cavaleiro, teu punhal.
Jasmim da noite floriu.
Jasmim.
Acabou-se o bem e o mal.
Já tirei os meus sapatos,
Vesti meu manto real.62