Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 16 de 21

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Jacinta Passos, coração militante

Análise literária

que mudou a geografia.

Lá no planalto central

do Brasil, não há depois,

democracia burguesa

acabou-se, e Mister pôs

economia sem política,

e aos burocratas dispôs.

Marechal faz continência

- Yes, sir! não somos dois:

- Os consórcios monstruosos

roubam trabalho. Quem sois?

Bobos do imperialismo

comem gorjeta e arroz.

Contra fifty do petróleo

Já Maracaibo indispôs,

O'Bravo, não há conflito,

mais depressa O'Bravo, pois

o alto Pico da Neblina,

teu e meu, é de nós dois!17

 

Análise literária

Análise literária do poema "Duas Américas"18

Análise literária (do poema)

Figuração: (11 metáforas)

Metáfora principal: Ilha maior que um continente etc. (imagem

de Cuba)

Metáforas (de ação)

1) Ponha chiclete na boca etc.

2) Solapando a OEA

Metáforas (de conceito)

1) América central, apêndice e pioneira etc. (conceito)

2) Ataduras de envolvida – relações familiares etc. (uma

Eneida)19

3) 20 Yes, sir , nós somos dois

4) corpo sem esqueleto21

5) Ó quadrilha da possessa (conceito)22

6) América do ócio e roubo (conceito de América)

7) Velocidade eletrônica, mede teu tempo... (conceito de tempo)

Outras figuras

Antítese:

1) Título: Duas Américas

2) As 3 Américas são duas (3 geográficas e 2 históricas)

3) Independência nacional não é nacionalismo ou

Independência nacional é nacionalismo23

Contraste24

1) Independência nacional não é nacionalismo25

2) Propriedade social e roubo do trabalho

3) Matéria expansiva e comprimida (prisão)26

4) Outro sistema, outra Era e eu dentro da prisão

5) Entre ONU e guerrilheiro27

6) Entre democracia burguesa e economia imperialista

7) Apêndice e pioneira (tese de propriedade social)

8) Racial: Haiti francês e mestiço

Enumeração:

1) Onda, som, fonema, guia

2) Haiti, Chile, Bolívia, Peru, Guatemala, Guatemala

3) Quem mata e rouba e muda nome de prisão

Anátema:

1) Contra fifty do petróleo, já Maracaibo indispôs

2) Lá no planalto central do Brasil, não há depois

3) Propriedade social se faz com armas, ó Eça!

4) Mande na ONU e não peça!

5) Mais depressa, "bandolero"; ilhas mestiças, depressa!

Metonímia:

1) Bobos do imperialismo; comem gorjeta e arroz (partes da

corrupção como símbolo da corrupção)

2) Meu relógio é a refeição! (um objeto símbolo da limitação às

necessidades naturais)

3) Fuzil e voto etc. (2 objetos símbolos de luta antagônica)

4) O alto pico da neblina etc. (símbolo da propriedade social)

Sinédoque:

1) Ai! que letras resistentes // Nos muros de Aracaju (as letras

resistem nas memórias e nos muros)

2) Onda, som, fonema, guia (sinédoque é figura de um

discernimento objetivo, é o mesmo objeto, é onda, é som, é

fonema, é guia)

Invocação:

1) Ó Bravo...

2) Louverture, onde estás tu?

3) Guerrilheiros, mais depressa!

Diálogos:

1) S.Domingo, você leu?

2) Quem sois?

3) Yes, sir, não somos dois!

Ritmo (Artifícios regulares)

1) Unidade rítmica (De Havana vem pelos ares onda, som,

fonema, guia. Ilha maior que um continente! que mudou a

geografia.)

2) estrofes irregulares (de versos de 7 sílabas – redondilha

maior)

3) rima alternada (regular)

Recursos irregulares

1) Pontuação: parênteses, dois pontos, exclamação e

interrogação

2) Alguns versos não coincidem com a oração gramatical nem

com a divisão lógica da oração (isso quebra a monotonia e

corresponde à ação poética)

3) As rimas não são raras, mas não são vulgares

4) Guatemala, Guatemala... (repetição da palavra corresponde

à ação poética)

5) Utiliza uma modalidade da unidade rítmica (Ah! Cuba, perdi

amor, mais seis dentes etc.)28

1 O último caderno, de número 56, quase todo preenchido, foi iniciado em 19 de fevereiro de 1973. Contém apenas resumos diários de notícias jornalísticas. A letra deste caderno, irregular, difere da dos outros, indicando que Jacinta já não estava bem de saúde, quando o iniciou. Para mais informações sobre as razões e condições do internamento de Jacinta, cf. biografia, neste volume.

2 São eles: História do Brasil e outros poemas (poesia), A Coluna (poesia), 3 dramas (teatro), Contos para Janaína (literatura infantil), Estudos, críticas e divulgação (crítica literária), 3 contos (contos), O céu (literatura infantil) e 2 Professores (literatura infantil). Nos cadernos do sanatório, há citações de trechos desses livros, demonstrando que foram efetivamente escritos.

3 Cf. biografia de Jacinta Passos, neste volume.

4 Caderno 18.

5 Caderno 2. Escrito em 1967.

6 Caderno 2. Escrito em 1967.

7 Caderno 2. Escrito em 1967.

8 Caderno 3. Escrito em 1967.

9 Caderno 7. Escrito em 1967 ou 1968.

10 O governo cubano buscou unificar as atividades guerrilheiras na América Latina por meio da OLAS, Organização Latino-Americana de Solidariedade, criada numa conferência em Cuba, em 1967. A OLAS foi uma tentativa de organizar uma Internacional no continente americano, para defender e apoiar movimentos de luta armada e grupos guerrilheiros no Terceiro Mundo. Propôs a revolução socialista como principal objetivo da América Latina, através da reafirmação da luta armada e da guerrilha, apresentando como inimigo comum os Estados Unidos e a luta anti-imperialista.

11 Caderno 16. Escrito em 1968 ou 1969. Na página anterior do manuscrito, está anotado: "Essa canção é uma letra composta por Jacinta Passos para ser musicada, e deverá ser traduzida em língua espanhola, língua inglesa, algumas línguas de ameríndios, para ser cantada."

Ao final da canção está escrito: "N.B. A canção – conforme está indicado – deveria ser cantada ora em trechos de uma língua, e depois o mesmo trecho em outra língua, e assim sucessivamente, ora deveria ser cantada toda, integralmente."

12 Caderno 1, 1967.

Sob o título, Jacinta escreveu: "(poema infantil, para crianças de 3 a 7 anos)". Após o poema, há a seguinte observação da autora: " (contém uma lição – nem vaga nem dogmática – de fisiologia e anatomia)".

13 Caderno 6. Escrito em 1967 ou 1968.

14 Caderno 6. Escrito em 1967 ou 1968.

15 Toussaint-Louverture (1743-1803). Escravo haitiano que, a partir de 1791, já na condição de forro, liderou numerosas revoltas que acabaram levando ao final da escravidão e à independência política do Haiti. Louverture tornou-se símbolo mundial da luta pela liberdade.

16 No original, segue-se a este verso uma estrofe totalmente riscada, ilegível. Provavelmente Jacinta a quis suprimir.

17 Caderno 3. Após o título, está escrito: "(poema de Jacinta Passos)". E, na linha seguinte: "(julho de 1967)".

O poema foi originalmente escrito a lápis, e mais tarde coberto por tinta de caneta.

18 Jacinta Passos fez a análise literária do poema que escreveu. Creio ser raro um poeta analisar o próprio trabalho.

19 Esta palavra está quase ilegível. "Eneida" é uma interpretação possível, entre outras.

20 Antes de "Yes, sir, nós somos dois" há o seguinte trecho riscado: "3) perdi amor, mais seis dentes perderia (metáfora do choque social)". Tive a impressão de que Jacinta substituiu este item 3 ("perdi amor... perderia") pelo item 3, transcrito no corpo desta página.

21 Este trecho, muito rabiscado e com palavras sobrescritas, é de difícil interpretação. À margem do caderno, Jacinta acrescentou, em outra tinta de caneta, mais três itens 4, a saber: "4) corpo sem esqueleto"; "4) Iroqueses, vossas mães não são dessa etc. (conceito de tribo e de América ladrona)"; e "4) Teu e seu é de nós dois ou propriedade".

22 Jacinta acrescentou, em outra tinta, o seguinte item: "5) ilha maior que um continente [seguem palavras de difícil interpretação, aqui transcritas apenas a título indicativo] – essa história de um é maior do que o geográfico ou o continente é maior do que a ilha".

23 Este item foi acrescentado mais tarde, com tinta diferente da original. Todos os acréscimos citados parecem ter sido feitos juntos, pois a tinta com que foram escritos é a mesma.

24 Não tenho certeza se a palavra é esta. Difícil interpretação.

25 Este item está riscado. Creio que a intenção de Jacinta foi passá-lo para o item anterior. Foi mantido aqui por causa da numeração.

26 A palavra "prisão" foi acrescentada mais tarde, já que escrita com outra tinta.

27 Este item, escrito com outro tipo de caneta, foi acrescentado depois.

28 Caderno 3. Escrito em julho de 1967. No caderno, esta análise literária vem logo após o poema "Duas Américas".