Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 5 de 21

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Jacinta Passos, coração militante

Canção da partida

 

Que vontade de cantar:

a vida vale por si.

A meu pai

e minha mãe

em sinal de muito amor e reconhecimento

A PRIMEIRA edição de ** Canção da partida é belíssima, com apenas 200 exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados com cinco desenhos de Lasar Segall, um deles na capa. Dez exemplares especiais foram acompanhados de uma ponta-seca original de Segall. Quatro dos desenhos originais de Lasar Segall encontram-se atualmente no Museu Lasar Segall, em São Paulo, e o quinto, que corresponde ao desenho da capa, assinado e dedicado, pertence à filha de Jacinta, Janaína Amado. Estes desenhos ilustram a presente edição, acrescentados dos que Segall fez à época, mas não foram usados na primeira edição do livro.

A segunda edição de *** Canção da partida contém alentado ensaio crítico sobre a obra de Jacinta Passos, "Entre lirismo e ideologia", de autoria de José Paulo Paes, composto especialmente para a edição. No presente volume, este ensaio integra a Fortuna Crítica.

Completam Canção da partida os seguintes poemas, republicados do livro anterior, e aqui transcritos nas páginas indicadas: Cantiga das mães p.75, Carnaval p.71 e Canção simples, p.66.

Canção da partida11

(para Manoel Caetano Filho)

Passa

passa

passará

derradeiro ficará.

Não me prenda

bom vaqueiro

bom vaqueiro

eh!

dá licença de passar,

levo a noite e levo o dia

que alegria!

levo tanto o que acabar.

Mandioca tem veneno,

dá farinha e dá beiju.

Campo Limpo, lobisomem,12

menina de calundu,

medo de cobra e trovão,

escuridão!

- Traga logo o meu cavalo.

- Está pronto, meu patrão.

Benedito tem cem anos:

negro duro!

cem anos de escravidão.13

Cadê Princesa Isabel

que a liberdade inventou?

- Vitalina!

manoca o fumo,14 menina,

você hoje vadiou.

É vem o velho Camilo,

barbas brancas,

ar de nobre.

Camilo, você é pobre

e nunca foi senador,

mas por que é igualzinho

ao retrato de vovô?

Não sei, não sei se adivinho,

se Venâncio adivinhou:

- são voltas que o mundo dá.15

Passa

passa

passará

derradeiro ficará.

- Minha madrinha,

nasci em berço de ouro -

(Morreu pedindo branquinha.)

Era grande, era valente,

gostava do bom quitute,

curava o povo doente,

rezava Mês de Maria

mas um dia

vovó Jacinta morreu.16

Na casa grande vazia

uma sombra anda, vigia.

Dade na fonte,

Dade na lenha,

dez filhos deu ao mundo,

está plantando roça,

está na casa da farinha,

criou cinco filhos brancos

e depois morreu sozinha.

Campo Limpo.

Onde é que Dade está?17

Passa

passa

passará

derradeiro ficará.

Zé do Carmo,

é vem o trem!

Cruz das Almas.

Não me prenda

bom vaqueiro

bom vaqueiro

eh!

dá licença de passar.

S. Félix!

olhe o rio Paraguassu,

vou morar junto da ponte,18

Cachoeira

Bananeira

quanta água desceu do monte!

- Hoje tem sabatina?

- Tem, sim senhor!

- Vamos, maninha, vamos

passear no jardim celeste.

- O que foi que vistes lá?

Giroflê, giroflá.

Professor Mário!

Zete!

Dulce!

Paulo!

Zinha! 19

vamos ver a estrelinha

piscando no céu noturno,

dar um nome a cada astro,

como vai, senhor Saturno?

A Terra se move

- quem viu? quem viu?

em torno dum eixo

que nunca existiu.

Vamos, maninha,

passear no mapa-múndi,

é bonito como um chão,

todo feito de mosaicos,

cada cor, uma nação.

Quanto azul!

Tem mais água do que terra,

tem mais peixe do que homem,

tem nação roxa, amarela,

- dê um pulo, pule o mar! -

verde, azul, cor de canela,

de pimenta-malagueta,

cor da cara do Capeta

ou de cor já desbotada

tão pisada!

nação velha, sem idade,

como se pode saber?

nasceu antes do relógio

que fez o tempo nascer.

Vamos, maninha,

o que foi que vistes lá?

Passa

passa

passará

derradeiro ficará.

Me leve ligeiro,

Manuel Canoeiro,

este rio vai dar

nas águas do mar.

Rema

rema

remador,

caranguejo peixe é,

lutar contra a sua sorte

é remar contra a maré.

Pé de Anjo, ganhador,

vou conhecer a Bahia,20

já vou tomar o vapor,

eu não sei como é o mar,

quero ver o Elevador.21

Este rio vai dar

nas águas do mar.

Serei rica ou serei pobre?

Tomásia de Queiroz,22

minha criada!

me diga o que somos nós.

O meu pai é deputado23

democrata liberal

- viva a eleição!

terça-feira vou ao baile

no Palácio Aclamação.

- Andar na rua sem chapéu

ficará bem para nós?

- Não fica!

Minha irmã vai se casar

com um doutor.

Sou rica!

- Vamos vender Campo Limpo

para pagar nossa casa

na Ladeira do Hospital.24

As meninas logo vão

entrar na Escola Normal,

é mais seguro,

professora é meio de vida,

ninguém sabe do futuro.

Minha mãe, minha mãezinha,

todo dia na cozinha,

faz doce para vender:

- Augusto Braço Cotó,

vá entregar no Triunfo25

e cobre!

Não diga nada a ninguém,

meu bem.

Sou pobre!

Não sei se sou rica ou pobre,

vivo lá e vivo cá,

sou como a mãe de S. Pedro,

entre o céu e a terra está.

Passa

passa

passará

derradeiro ficará.

Casa, escola,

profissão,

rua, igreja,

multidão,

vida, vida,

solidão!

Menina, minha menina,

carocinho de araçá,

cante

estude

reze

case

faça esporte e até discurso,

faça tudo o que quiser

menina!

não esqueça que é mulher.

Minha terra tem gaiola

onde canta o sabiá

Menina minha menina,

carocinho de araçá.

Passa

passa

passará

derradeiro ficará.

Bernadete é preta,

é preta que nem tição.

Bernadete é pobre,

é pobre sem um tostão.

Regina, Minervina,

Estelita e Conceição.26

- Pelo sinal da pobreza!

- Pelo sinal de mulher!

- Pelo sinal

da nossa cor!

Nós somos gente marcada

- ferro em brasa em boi zebu -

ninguém precisa dizer:

Bernadete, quem és tu?

Nós somos gente marcada,

nós temos muitos irmãos.

Eu te conheço, José,

José que desde menino

trabalhas nas Sete Portas,

teu patrão: "Seu Catarino".

Eu te conheço, Manuel,27

tu és Manuel de Maria,

meu compadre, estivador.

Pelo sinal

da nossa cor!

Porque estás triste, Maria?

deixa Manuel xingar,

xingar também alivia:

é uma forma de chorar.

Nós somos gente marcada,

nós temos muitos irmãos.

Passa depressa Moisés,

o Mar Vermelho secou!

Para a banda de lá,

eu vou!

Passa

passa

passará

derradeiro ficará.

Bom vaqueiro

bom vaqueiro

eh!

dá licença de passar,

já não vou sozinha agora,

vou com Dade,

Benedito,

Pé de Anjo,

com José,

vou com Camilo,

e com Tomásia,

não vou só,

Bernadete, Minervina,

Augusto Braço Cotó.

Vou de avião

para S. Paulo,

vou até o Orobó,

Território do Alasca,

vou virar um esquimó,

me encontrar com Timochenko,

Ludmila Pavlichencko,

minha irmã, minha irmãzinha,

que irmãzinha tenho eu,

vou ver a estrela d'alva

que no céu se acendeu.

Passa mato,

passa rio,

passa fera, passa frio,

passa até Montes Cárpatos,

a viagem vai custar.

Quando a gente lá chegar,

Venâncio!

não precisas mais de pinga,

Manuel nunca mais xinga,

Lampião deixa o cangaço,

Sinhá Anastácia

não precisa mais rezar.

- Que bicho hoje deu?

que time ganhou?

- O gato comeu

O fogo queimou.

O país para onde vamos,

Estelita!

é uma terra tão bonita,

parece até invenção.

O país para onde vamos,

Vitalina!

fica aqui, fica na China,

fica nas bandas do sul,

fica lá no Polo Norte,

principia onde termina,

muito além daquele monte,

lá na linha do horizonte,

onde a terra encontra o céu.

Já não vou sozinha agora,

vamos, meu povo,

diga adeus, vamos embora.28

(1944)

Três canções de amor

(para James)

I

Eu fui por um caminho.

Eu também.

Encontrei um passarinho.

Eu também.

Passarinho! queres um ninho?

Eu também.

Passarinho virou um homem.

Ai! meu bem.

Agora és tu,

agora eu sou,

amar é doce,

meu corpo eu dou.

Agora muda o sol.

Eu também.

Agora muda a terra.

Eu também.

Agora mudas tu.

Cadê meu bem?

Tão lúcido e tão puro,

inseguro!

Nosso amor é como tudo,

um vaivém.

Podes virar um passarinho.

Eu também.

II

Entrou por uma porta,

saiu pela outra.

Velha Vitória!

conte o fim daquela história.

Era uma vez uma Princesa

no Castelo de El-rei,

na torre, vivia presa.

Pronto! o resto, não sei.

Cadê a Princesa?

A Princesa fugiu?

A terra tremeu?

A torre caiu?

Princesinha real,

a Bruxa levou,

nos ares voou,

que Bruxa infernal!

o mundo mostrou

o bem e o mal.

Cadê El-rei, meu senhor?

El-rei se escondeu

na gruta sombria,

dorme de noite,

dorme de dia,

parece até morto.

Padre-Nosso! Ave-Maria!

Meu amigo, meu amigo,

companheiro!

teu amor, minha alegria,

- uma gruta bem sombria.

Escondido lá no fundo

cuidado! cuidado!

está El-rei meu senhor,

dormindo acordado!

Nunca se fie no seu sono,

sono de El-rei, meu senhor.

Não queiras nunca ser dono,

negro!

Ah! negro do meu amor!

III

Abra a porta,

queremos entrar.

Somos amantes,

queremos amar.

Hurra!

Que porta pesada.

Que porta caturra.

Empurra.

Abra esta porta!

Não somos mãos soltas,

frágeis no ar.

Somos punho e onda

e gigante e andar.

Abra esta porta!

Já cresce o gigante

maior que o mar!

A porta de bronze

vai arrombar.29

(1944)

Pânico no planeta Marte

(A Scliar, Bernardo Zeibel, Clóvis Graciano, Guida Carone, Manuel Martins)

Acabem com isto!

Façam o sol parar!

Prendam Zebedeu!

Esvaziem o mar!

Meu Deus, que aflição!

Fuzilem Maria!

Tapem o vulcão!

- Orai por eles, orai.

Uai!

Que vozes são estas? Parai!

Não podemos dormir.

São eles que vêm! Tapem o vulcão!

Será Lampião? Que vozes soturnas!

Corujas piando nas trevas noturnas?

Não enforcamos Tiradentes! Juro!

Mula-sem-cabeça. Esconjuro!

Fechem a janela. De onde sopra o vento?

São uivos de cão. Agouro. Arrepio.

Trememos de frio.

- Orai por eles, orai.

Por favor, esperai!

Não queremos morrer.

Prendam Zebedeu!

S. Judas Tadeu!

Esperai um instantinho!

Estamos morrendo!

Viver é tão bom, meu S. José do Quartinho!

Quem é que vem lá? Não nos ouves, não?

Assombração!

Uma coluna, uma coluna andando!

Girando esmagando,

vem para cima de nós! Eu morro!

Socorro!

Não queremos morrer!

Vamos criar outro Hitler!

Vamos virar curinga,

cafuringa!

Salazar!

Mistura o preto com o branco,

Franco!

Qual o elixir que vai dar?

Vamos ser neutros.

Acendam a luz. Escuro como breu.

Como vai, irmão Laval?

Que cheiro de sangue!

Cão policial!

Vamos inventar outra Gestapo!

Sopapo!

Olhem uma rosa, uma rosa vermelha!

Limpem as fileiras, façam o expurgo!

Uma rosa, rosa. Rosa sem cabeça.

É Rosa de Luxemburgo!

Quem é que vem lá? Quem bate estas portas?

Almas das criancinhas mortas!

Mortas de fome. Todo dia! Todo dia!

Em Paris, em Santos, Feira de Santana, Oceania!

Vamos rezar!

Fuzilem Maria!

Façam o sol parar!

Almas do outro mundo. Fantasmas!

Miasmas!

Olhem ali! Ali!

É a alma do negro Zumbi!

De quem será esta voz?

É Lenine! Mateoti! Estão rindo, rindo de nós!

- Orai por eles, orai.

Trotsky, ressuscitai!

Estamos morrendo!

Ninguém arranja um remédio

nem mesmo alegórico?

Elixir paregórico!

Vacina!

Mandem comprar penicilina,

ligeiro!

Para que serve o dinheiro?

Acuda! Acuda, mamãezinha!

Vamos jogar na Quitandinha!

Vamos falar porcaria!

Meu Deus, que aflição!

Não queremos morrer.

Não!

É vem Rokossovsky!

Nossos cavalos de corrida!

Nossas Colônias de turismo!

Abismo!

Rádio. Avião. Tudo em vão?

Nossos tapetes. Nossa fábrica!

Adeus trustezinho, nunca mais!

Nossa Rede de jornais!

Vamos ser sutis.

O mal está é na raiz!

Vamos defender a Família. Queres?

Vamos ter muitas mulheres.

A mulher do Ministro. A tal.

A intelectual. Todas. Possíveis e impossíveis.

Vamos ser irresistíveis.

Quem avança na noite?

São tropas marchando? Judeus massacrados? Quem avança?

Europa no cárcere rumina vingança!

Vamos fugir? Não adianta.

Vamos distribuir cachaça.

Retórica e futebol.

Vamos fazer Arte pela Arte.

Cadê a Ciência, vamos comprar?

Vamos chorar na cama.

Não adianta. Vamos gritar!

Que gosto de lama!

Vamos ser caridosos.

Anúncios luminosos!

Invadiram a Europa! Berlim!

Nosso fim!

Estamos morrendo!

Brasil! Argentina!

Último refúgio! América do Sul!

- Orai por eles, orai.

A vida se vai!

Guerrilheiros de Tito!

Maldito!

Quem foi que gemeu?

Prendam Zebedeu!

A morte já vem!

Que medo, mãezinha!

Viver é tão bom!

Chegou nosso dia!

Tapem o vulcão!

Fuzilem Maria!

Depressa! Depressa!

Meu Deus, que agonia!

Sai, Demônio! Sai!

- Orai por eles, orai.30

(1944)

Canção da alegria

Urupemba

urupemba

mandioca aipim!

peneirar

peneirou

que restou no fim?

Peneira massa peneira,

peneira peneiradinha,

(Ai! vida tão peneirada)

peneira nossa farinha.

Olhe o rombo

olhe o rombo

olhe o rombo arrombou!

olhe o cisco

olhe o risco

urupemba furou!

Eh! sai espantalho

da ponta do galho!

Escorra! Escorra!

Tirai essa borra!

Urupemba

urupemba

mandioca aipim!

peneirar

peneirou

que restou no fim?

Farinha fininha

peneiradinha!

Ai! vida, que vida

nuinha! nuinha!

(1944)

Louvação do dinheiro

Chave do mundo,

porta do céu,

poder divino,

submarino,

louvado seja

o vosso nome

que mata a fome,

vence a floresta,

afronta a morte,

asa, transporte

ao reino místico,

ar do cativo

contemplativo

da pura essência

da existência

(bola de gude:

beatitude)

eixo da terra,

sol do nascente,

onipotente,

varinha mágica

do rei real,

de todo o mal

livrai-nos senhor

mediador,

venha a nós todos

o vosso reino

de sumo bem

para sempre. Amém.

(1944)

Estrela do Oriente

(para Ben Ami)

I

Levantai-vos, párias de todo o mundo!

Não vedes? Ela vem vindo, a Estrela do Oriente,

alta, bela, imponente, os pés plantados no chão,

traz o fogo no olhar e uma foice na mão.

II

Canta, Jacinta, teu hino,

louva a Estrela do Oriente.

Mariana, Guiomar,

venham, venham me ajudar.

Não sei a cor de seus cabelos,

não posso saber,

não sei as linhas do seu corpo,

não posso saber.

Não posso vê-la à distância

como vejo meu vizinho,

serei o seu sexo ou seu dedo mindinho?

Mariana! Guiomar!

Só na voz da própria Estrela

podemos cantar.

(1944)

Metamorfose

(A Dias, João, Divaldo Miranda, Luiz Rogério, Almir Matos, Osvaldo Peralva)

Fui moleque,

jornaleiro,

nunca tive opinião,

ajudante de pedreiro,

fui chofer de caminhão,

trabalhei na Plataforma,

operário de sabão,

já morei

oi!

já morei no Taboão.

Carneirinho! Carneirão!

Olha pro céu! Olha pro chão!

Céu é Barra, é Avenida,

outra vida!

nunca a gente foi lá não.

Nem eu sei como foi isso,

foi feitiço,

arte do Cão,

mas um dia fiquei rico

que nem o rei Salomão.

Chave do mundo,

tenho na mão.

Desceu o céu!

Subiu o chão!

Minha gente venha ver

coisa que nunca se viu,

um mulato virou branco,

subiu! subiu!

A formiga criou asas,

o pato passou a ganso,

lagarta virou besouro,

de repente virei tudo,

virei até um rei mouro,

virei sábio, virei gentleman,

meu cabelo virou louro,

virei genro, industrial,

tabu, ministro, escritor,

quase viro ditador.

Agora cheguei em cima,

agora vi que eu sou dois.

Quem sois?

Minhas senhoras:

Meus senhores:

O meu drama começou.

Serei moleque e rei mouro,

serei dentro e serei fora,

serei ontem e serei hoje,

serei noite e luz da aurora?

Quem sois?

Serei eu e serei tu,

serei Sancho e D. Quixote,

serei Deus e Belzebu?

Não posso viver assim!

Serei Pierrot e Arlequim,

serei anjo e homem carnal,

serei o ser e o não-ser,

serei o bem e o mal?

Serei foice e serei sigma?

Enigma!

Que serei eu afinal?

Ai de mim!

Serei o princípio e o fim?31

(1944)

Canção do segredo

Tesouro escondido,

quem foi que escondeu

no cume do morro,

quem é dono teu?

Tesouro escondido

no cimo! no fundo!

Foi Adão, foi Adão

no princípio do mundo?

Quem foi, foi Jasão?

Chi! Fale baixinho,

olhe o monstro-dragão!

Que medo! Que medo!

Tesouro escondido

qual é o teu segredo?

Será o segredo

da vida imortal?

Será liberdade

achada afinal?

Não corras Dolores,

também eu não corro.

Quem chega primeiro

ao cume do morro?

Sozinho, ninguém!

Pelos séculos dos séculos.

Amém!

Demos as mãos

- mão na mão

- mão na mão

ligeiro primeiro

matemos Ladrão,

o guarda-tesouro,

monstro-dragão.

Tesouro escondido

segredo perdido

no monte! na serra!

- mão na mão

- mão na mão

Abri-vos montanha

aos homens da terra!

(1944)

Cantiga de ninar

(variação sobre um tema do Recôncavo baiano)

Su su su

neném mandu,

quem dorme na lagoa

é sapo-cururu.

Su su su cadê papai Ioiô?

Dorme meu neném, mamãe já deu leitinho,

boi boizinho não vem, neném dorme na cama.

Su su su

Dorme dorme dorme meu neném mandu.

Boi da cara preta não não meu boizinho,

não pegue neném, não, ele é meu filhinho.

Su su su

Quem dorme na lagoa

é sapo-cururu.

Asa de morcego rabo de tatu.

Menino não dorme menino faz manha,

brinquedo não ganha não ganha vintém,

seu papai é pobre, mãezinha também.

Su su su

Leve este menino para o murundu.

Senhora Onda do Mar

vestida de verde com franjas de luar,

ninai meu filhinho fechai seu olhinho

seu soninho velai

que mamãe precisa fazer com papai,

Senhora Onda do Mar,

um planeta novo de neném morar.

Su su su

Quem dorme na lagoa

é sapo-cururu.

Sapo sapo sapo-cururu-ru-ru.

Su su su32

(1944)

Diálogo na sombra

- Que dissestes, meu bem?

- Esse gosto.

Donde será que ele vem?

Corpo mortal.

Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?

Esses dois que moram no fundo e no fim.

- De quem falas, amor, do mar ou de mim?33

(1944)

Navio de imigrantes

(A Lasar Segall)

Gestos parados

no limiar

do céu e mar.

Corpos largados

desamparados,

límpido tempo

de primavera

mora no fundo

de vossa espera.

Navio sombrio, que levas no bojo?

- descobre o teu véu:

navegas em busca da terra ou do céu?

Corpos humanos

suportam corpos,

seus desenganos.

Corpo, cansaço,

longa viagem,

busca um regaço,

terra ou miragem.

Arca ou navio,

nau ou galera,

vens doutra era,

séculos a fio.

Qual o teu rumo?

Levas o sumo

da dor humana

que se supera,

vida ou quimera.

No bojo teu,

levas o sonho

de Prometeu.

Levas em ti

o amanhã,

judeus do Egito

a Canaã.

Levas os negros,

nau ou barcaça,

e mais o drama

de sua raça.

Levas Chiquinha

e sua dor,

a dor que é minha.

Levas Colombo,

levas o povo

e a descoberta

dum mundo novo.

No limiar

do céu e mar.

Qual o teu rumo?

Só tu resistes,

as águas tristes

cobriram tudo,

sozinho, mudo,

sinais profundos

vês no horizonte,

tu és a ponte

entre dois mundos.

Asas alerta,

fim, descoberta,

anunciação,

ramo de paz,

âncora, chão,

beira de cais,

ave, esperança,

nau da aliança.

(1944)

Chiquinha

(Para Matilde, Maria, Regina, Lourdes, Marcelina, Tomásia e

Bernadete) 34

Chiquinha

tão frágil,

magrinha.

Teu corpo miúdo

o tempo secou,

as formas redondas

o tempo gastou.

Pareces criança.

Chiquinha,

magrinha,

que doce esperança

te faz resistir?

Que doce esperança

mais forte que tudo,

mais forte que o tempo,

cansaço,

pobreza,

mais forte que o medo,

doença,

tristeza,

que doce esperança

mais forte que tudo,

à vida traz preso

teu corpo miúdo?

Chiquinha

Chiquinha

não lutas sozinha.

A doce esperança

te vem como herança

e a luta também,

do fundo dos séculos,

Chiquinha, te vem.

Teu corpo cansado

lutou no Egito,

as mãos, mãos escravas,

abanaram leques

e teu corpo nu,

teus seios morenos

e teus pés pequenos

dançaram lascivos,

ligeiros, airosos,

deleitando o tédio

de reis ociosos.

Chiquinha,

teu corpo,

teu corpo cansado,

foi corpo explorado

na Mesopotâmia,

na Pérsia e Turquia

- haréns de sultão -

foi pária na Índia,

na China e Japão.

Teu corpo explorado

foi mercadoria,

espada e cavalo

e vinho, foi orgia

na Arábia lendária,

de ardência e magia.

Já foi, na Judeia,

corpo apedrejado.

Na Grécia, teu corpo

vestido de túnica,

foi Vênus olímpica,

foi deusa na Arte,

foi serva na vida.

No Império Romano,

teu corpo serviu

a César, guerreiros,

fidalgos patrícios,

à flor da nobreza,

miséria e grandeza,

foi senhora-escrava,

matrona impoluta,

dama e prostituta.

Chiquinha

Chiquinha

durante dez séculos,

teu corpo fechado

nas torres feudais

de imensos castelos,

foi corpo arrancado

da terra, da vida,

corpo sem raiz,

feito puro espírito,

mistério e tabu,

teu corpo adorado

foi corpo explorado.

E quando as Nações,

nos tempos modernos,

abriram caminhos

ao mundo futuro,

caminhos no mar

em busca de terras,

riquezas, escravos,

teu corpo apanhado

nas selvas da África

chegou ao mercado

vendido e comprado,

teu corpo de negra,

teus braços de serva,

teu sexo de fêmea,

teu ventre fecundo

produtor de escravos

dos donos do mundo.

Teu corpo apanhado

nas selvas da África,

nas terras indígenas,

nas tribos nativas

das ilhas no mar,

teu corpo ajudou

Europa a crescer

e um mundo a nascer

nas terras da América.

Chiquinha

Chiquinha

não lutas sozinha.

Chiquinha

teu corpo

ainda não é teu.

Não é livre a vida.

Não é livre o amor.

Chiquinha

teu corpo

mudou de senhor.

Tu sabes

Chiquinha

que a máquina que move

o mundo moderno

te vem libertar?

Tu sabes

(isto sim, tu sabes)

a máquina tem dono

e tu tens apenas

teu corpo de carne

que pede comida

e roupa

e abrigo,

teu corpo de carne

agarrado à vida.

A máquina

precisa mover

dinheiro! dinheiro!

e tu

precisas viver.

O dono da máquina,

teu dono e senhor,

Chiquinha,

é teu comprador.

Tu vendes teus braços,

trabalho, energia,

tu vendes teu tempo,

descanso, alegria,

vigor, juventude,

beleza e saúde,

futuro dos filhos,

tu vendes, tu vendes,

Chiquinha, que dor!

tu vendes teu sexo,

desistes do amor.

A máquina

te vem libertar.

Dinheiro! Dinheiro!

A máquina

te vem devorar.

A máquina

é monstro de lenda,

é monstro-dragão,

devora teu corpo,

é bicho-papão,

é monstro danado

de muitas cabeças,

tem corpo-serpente,

rasteja no chão,

seu hálito arrasa

como um furacão,

tem língua de fogo

tem asas e voa,

ligeiro, ligeiro,

cuspindo dinheiro,

devora teu corpo,

devora teu povo,

seu sangue e suor.

A máquina

te vem devorar.

Chiquinha

Chiquinha

tu sabes que a máquina

te vem libertar?

A máquina

conquista

a terra

e o céu

e o mar,

a máquina,

Chiquinha,

te vem libertar.

A máquina

prolonga teus braços,

liberta teu corpo

de serva doméstica,

te arranca de casa,

derruba as paredes

limites, fronteiras

do lar, doce lar

- prisão milenar -

e faz do teu corpo,

cansado

explorado

e multiplicado

na luta, esse mundo

difícil, Chiquinha

teu reino será.

Chiquinha

tu sabes que a máquina

que move

o mundo moderno

te vem libertar?35

(1943)

Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.

Eu sou pobre pobrezinha,

tão pobre como nasci,

não tenho nada do mundo,

tudo que tive, perdi.

Que vontade de cantar:

a vida vale por si.

Nada eu tenho neste mundo,

sozinha!

Eu só tenho a vida minha.

Eu sou planta sem raiz

que o vento arrancou do chão,

já não quero o que já quis,

livre, livre o coração,

vou partir para outras terras,

nada mais eu quero ter,

só o gosto de viver.

Nada eu tenho neste mundo,

sozinha!

Eu só tenho a vida minha.

Sem amor e sem saúde,

sem casa, nenhum limite,

sem tradição, sem dinheiro,

sou livre como a andorinha,

tem por pátria o mundo inteiro,

pelos céus cantando voa,

cantando que a vida é boa.

Nada eu tenho neste mundo,

sozinha!

Eu só tenho a vida minha. 36

(1943)

Sangue negro

(para Jorge Amado) 37

Terras curvas do Recôncavo

onde adormece o oceano,

no teu subsolo circula

sangue negro cor da noite,

da cor do preto africano,

preto cujo sangue escravo

regou o solo baiano.

Terras curvas do Recôncavo

onde adormece o oceano,

de tuas veias abertas

escorre

o petróleo baiano,

sangue negro do Brasil.

Operário mestiço!

tuas ásperas mãos – e tu não sabes disso –

tuas mãos quando movem as máquinas do Poço

movem forças latentes,

movem forças criadoras,

movem o Brasil, tuas mãos libertadoras.

Teu gesto inicial se transmite e propaga,

repercute longe até nas selvas do Oeste

e cresce, desdobrado como cresce uma onda

de mar,

cresce e acelera o ritmo de Volta Redonda,

gerando máquinas sem parar,

e gera usinas

onde o ferro e os metais tirados das minas

do ventre da terra,

se transformam em carros e trens, navios e aviões, em armas

de guerra.

E as máquinas nascidas do teu movimento,

rápidas mensagens humanas levarão,

mensagens de conhecimento,

mensagens de aproximação

entre todos os brasileiros

irmãos que a distância isolou, como estrangeiros,

em plena solidão.

O gaúcho galopando nos pampas do sul,

freará o cavalo

e vai, surpreso, descobrir no vale amazônico

onde dormem forças primordiais,

que irmãos nortistas modelam um mundo novo,

com a borracha,

a borracha que desce dos longos seringais.

No Nordeste, o vaqueiro cantará:

O homem tira da terra,

a chuva que o céu não dá.

Rã quando canta não erra,

é chuva que vai chegá,

o homem tira da terra,

a chuva que o céu não dá.

Boi gordo pasta na serra,

tão contente a gente está,

o homem tira da terra,

a chuva que o céu não dá.

Quando venceu nossa guerra

logo peguei a cantá,

o homem tira da terra,

a chuva que o céu não dá.

O lavrador

largará a enxada que dos pais recebeu

e moverá os arados mecânicos

que os homens de outras terras lhe ensinaram

através da distância e dos ventos oceânicos. Mensagem às crianças do mundo

Operário mestiço!

teu gesto inicial que faz brotar os frutos

e nascer as grandes cidades,

teu gesto move as máquinas da indústria,

move o Brasil,

move o povo crescendo, amadurecendo, se tornando viril.

Terras curvas do Recôncavo

onde adormece o oceano,

no teu subsolo circula

sangue negro cor da noite,

da cor preto-africano,

preto cujo sangue escravo

regou o solo baiano.

Terras curvas do Recôncavo

onde adormece o oceano,

de tuas veias abertas

escorre

o petróleo baiano,

sangue negro do Brasil.38

(1943)

Crianças da Ásia, a velha escrava lendária

que embalou o berço dos primeiros homens do mundo,

crianças da Ásia, a velha escrava lendária

de cujo seio escorre a riqueza como um leite precioso

que os outros homens do mundo arrancam da boca dos seus

filhos.

Crianças chinesas, pequeninos heróis de olhos oblíquos,

na célula inicial do vosso ser

ficou impresso o heroísmo cotidiano da resistência

que já se tornou uma forma de vida do vosso povo, crianças da

China.

Crianças da Europa,

da França, Polônia, Itália, Bélgica, Suécia,

vossas pátrias entregaram-se ao invasor

como mulheres que se entregam com medo, sem amor,

vossas pátrias são escravas silenciosas, crianças da Europa.

Crianças alemãs,

fabricadas,

mecanizadas,

exatamente iguais como soldadinhos de chumbo,

que aprendem somente a odiar,

que não conhecem um brinquedo,

crianças sem infância,

vós não sois vós mesmas, crianças da Alemanha.

Crianças judias, vosso povo continua a sofrer,

sobre vós pairam as mesmas mãos assassinas

que degolaram, como há dois mil anos na Judeia,

centenas de cabecinhas infantis e risonhas como as vossas,

crianças judias.

Crianças da Rússia, a pátria misteriosa

cujo roteiro os donos do mundo ocultavam

como os antigos roteiros dos tesouros que os bandeirantes,

ávidos, buscavam,

crianças da Rússia, a pátria misteriosa

que Stalingrado revelou ao mundo.

Crianças nativas das ilhas oceânicas,

vossos olhos descobrem

que para além das praias e dos coqueiros não existe apenas o

mar.

Vossos olhos espiam assustados

as grandes aves metálicas e os monstros marinhos carregados

de homens,

homens dos continentes distantes que vêm matar e morrer nas

vossas ilhas oceânicas.

Crianças da África, dessa África que no deserto e nas selvas

luta há milênios, luta para ser, luta elementar e titânica

contra o sol, o vento, as águas, as feras bravias e o homem

branco.

Crianças da América mestiça, a mulher nova e livre

que concebeu Juarez, Castro Alves, Whitman e Bolívar.

Crianças do mundo, guardai esta mensagem

até o dia em que vossos olhos descubram

que não é apenas um papel rabiscado ou uma lição difícil de

soletrar.

Muito além desta hora terrível,

o pão,

o fogo,

a água,

a terra,

o ar,

alegrias elementares pelas quais os homens lutam,

permanecem.

Muito além das dores e dos ódios milenares,

muito além de todas as coisas,

muito além do bem e muito além do mal,

a vida permanece.

Muito além desta hora terrível,

chegará um tempo no tempo

em que a polícia, a moral, as leis e todas as coisas acidentais

serão inúteis para a comunidade humana

como remédios para um organismo que recuperou a saúde.

Chegará um tempo no tempo

em que na terra conquistada, os homens, todos os homens,

como vós, minhas puras criancinhas

receberão a vida, a vida simplesmente, como o dom supremo.39

e 40

(1942)