Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 21 de 21 · parte 1/2

Páginas do PDF

Jacinta Passos, coração militante

Textos escritos para esta edição

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

Novos estudos sobre Jacinta Passos

Os ensaios aqui agrupados foram escritos especialmente para esta edição por intelectuais, escritores, poetas e críticos que, a meu pedido, sem nada receber em troca, generosamente se debruçaram sobre a obra de Jacinta, em especial sobre sua obra poética. Cada um escolheu determinado assunto de seu interesse para analisar, um prisma do qual partir, um conjunto de impressões ou convicções a expressar, e o fizeram com total liberdade. Nenhum teve acesso aos textos dos outros.

Os ensaios heterogêneos aqui reunidos têm algo em comum: todos significam uma contribuição contemporânea, um olhar cheio de frescor sobre a obra de Jacinta Passos. O conjunto crítico traz Jacinta para o mundo de hoje, aproxima-a das nossas maneiras de vivenciar literatura e jornalismo, das sensibilidades atuais.

A colaboração que estes novos textos oferece é inestimável, já que constituem a ponte, a ligação (que pode se apresentar como ruptura) entre o que se vinha pensando e escrevendo a respeito de Jacinta Passos e o que se começa a pensar hoje. Por isso, eles também acendem polêmicas, já que alguns se opõem, explícita ou implicitamente, a idéias ou análises dos ensaios anteriores – reunidos na Fortuna Crítica -, estabelecendo com estes saudável diálogo crítico.

As perspectivas atuais dos textos que se seguem serão enriquecidas, estou certa, pelo surgimento de novos estudos, a partir das sugestões e provocações dos que aqui estão, e também a partir do acesso à obra completa da autora e à sua mais recente biografia. Há numerosos aspectos tanto da obra e como da vida de Jacinta inteiramente abertos à pesquisa e à análise, que jamais foram pensados de forma organizada. Entre eles, e somente a título de exemplo, lembro a relação da poesia de Jacinta Passos com o Modernismo e com a Geração de 1945, o excelente estudo de caso que ela oferece para discutir as ligações entre criação literária e loucura, o conjunto dos cadernos do sanatório, que em parte permanecem inéditos, a sua rica atuação política, as convergências entre essa atuação e a obra que escreveu, o conjunto da sua produção jornalística, o estudo (após complementação) da fortuna crítica, os anos obscuros em que viveu em Petrolina, os vínculos entre sua poesia e a dos artistas baianos da época, as ligações entre sua biografia e sua poesia, além de temas e problemas importantes em seus livros, como o locus do amor, da infância, da espiritualidade, da política, do gênero etc. A lista é numerosa, desdobra-se em muitas.

Ângela Baptista, Gerana Damulakis, Fernando Paixão, Florisvaldo Mattos, Hélio Pólvora, Guido Guerra (que infelizmente já nos deixou), Ildásio Tavares e Simone Lopes Pontes Tavares, os autores dos textos escritos para esta edição, nem imaginam o quanto lhes sou e serei para sempre grata. Por minha culpa, eles em geral produziram textos curtos, pois à época, num desvario de otimismo baseado no meu desejo e não em fatos, pensei poder terminar e publicar este livro muito mais rapidamente do que consegui, e por isso os apressei a entregarem seus textos. Meu consolo por atitude tão inadequada é o brilho de suas contribuições.

As notas redigidas pelos autores estão assinaladas como "Nota do texto original", para diferenciar daquelas que redigi.

 

Presença do humanismo militante na poesia de

Jacinta Passos

Florisvaldo Mattos1

Na introdução à segunda edição de Canção da partida (Salvador: Fundação das Artes, 1990), José Paulo Paes lamentou estivesse a poesia de Jacinta Passos (1914-1973), àquela altura, "ausente das livrarias" desde a publicação de sua última coletânea de versos, Poemas Políticos, 39 anos antes, precisamente em 1951. Atribuía tal ausência a "razões de vária ordem", como "o reconhecido descaso do leitor brasileiro" pelos livros de poesia, o que condenava estes, "com raríssimas exceções, a uma vida editorialmente curta", e a problemas de saúde que afetaram a vida da poeta.

Ponho-me a cavaleiro desse vexame editorial, já que coube justamente a mim, por razões que atribuo à ingerência dos fados, então na presidência da Fundação das Artes (1987-1990), na gestão do governador da Bahia Waldir Pires, o privilégio de apoiar e favorecer as iniciativas que resultaram na segunda edição de Canção da partida, de cuja organização e estudo crítico se incumbira José Paulo Paes.

Atendendo a um gentil convite de Janaína Amado, sua única filha, volto agora a me encontrar com a poesia de Jacinta Passos. E não poderia imaginar quanto me iria oferecer de aprendizagem e deleite espiritual essa auspiciosa homenagem. Primeiro, retirando-me do desconforto de leitor de um único livro da poeta, o já citado Canção da partida, em sua edição baiana; depois, por me permitir a leitura de outros, desde o inaugural, Momen tos de poesia, 1942, a própria Canção da partida, na edição de 1945, com ilustrações a bico-de-pena de Lasar Segall, Poemas políticos, de 1951, e a sua poesia de nítido vinco ideológico de A Coluna, de 1957.

Confesso que saí dessas leituras altamente reconfortado, como que liberto de uma culpa, e enriquecido pelo que me trouxe a ampla gama de significados presentes no corajoso lirismo de Jacinta Passos. E foi percorrendo as latitudes desse estuário que atentei para as singularidades de um norte temático, responsável por rupturas na criação poética, para as quais o ano de 1939 se oferece como ponto de partida, justo com o poema intitulado "Campo Limpo", quando paulatinamente começa a desaparecer de sua poética o que José Paulo Paes chamou, em seu estudo, de "flexão verbal da súplica", elemento condutor de símbolos por meio dos quais anteriormente se expressavam o espírito religioso e o temperamento místico de Jacinta Passos.

"Campo Limpo" parece estabelecer uma divisa. A índole poética como que, gradativamente, se desvia, se exila das invocações místicas, em busca de outras cogitações, outros cenários, onde o nome de "Senhor", conquanto presença ainda não indispensável, vai se ausentando, substituído por outras formas de satisfação espiritual e existencial.

Poemas são janelas, e poetas, faces, prontas para descobertas, há de ter pensado Jacinta, em fins de 1939, provavelmente quando redigiu este poema, que a fez vislumbrar, primeiramente, o ardor da "natureza viva", brotando do ardor da seiva de campos, a ondular ante novo olhar de assombro para as formas da existência real. Vê profundidades de noites e estrelas, num esplendor de beleza, que a faz perceber em si "uma estranha alegria" – a terra, os campos, a paisagem, como pedaços vivos de si própria, vibrações de uma vida amanhecente.

Realmente, amanhece ali outra Jacinta Passos, e logo se produz um encadeamento vibrante de temas. No primeiro poema de 1940, "Alegria", mente a perscrutar, a poeta descobre o "irmão desconhecido e anônimo", cuja "face marcada pelo sofrimento" tem o "traço de semelhança" com a verdadeira "face perfeita de todos os homens".

Tudo doravante tornar-se-á matéria de descoberta. Neste mesmo 1940, já com a guerra de Hitler avançando – "A guerra", "Poema" -, veredas de amor e ternura se abrem pela via mais larga da solidariedade; o olho e o olhar se aproximam de seres humanos carentes de cuidado e afeto.

Simplesmente,

tranquilamente,

eu me abandonarei a ti num gesto de oferenda.

Encontrarás no meu olhar a compreensão das palavras que não

disseres.

("Poema", Momentos de poesia)

A virada se acentua em 1941 com a assunção plena da consciência solidária, a introspecção reflexiva mostrando o sentido da vida em favor de outrem, em poemas como "Compreensão" (Esquecida / de todas as dores do mundo, do mal profundo da vida), "Mensagem aos homens" (Inteira, pura e livre como a luz, a livre luz das alvoradas), "Mistério carnal" (Corpos humanos que a morte tocou. / Por que esperam os corpos abandonados / na branca solidão do vasto cemitério?).

No processo de libertação da transcendência para a progressiva assunção de uma consciência social, antes mesmo de firmar-se uma opção de cunho ideológico sob os ditames de uma agremiação política (sabe-se que ela em 1945 filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro), Jacinta Passos começa a delinear um panorama temático com a sensibilidade voltada para uma gama de preocupações e anseios que futuramente se vão desdobrar e se firmar, a par com as marchas e contramarchas de um processo político, através de movimentos, campanhas, organizações, bandeiras, cuja força de atuação irá se afirmar e crescer, abarcando sucessivos decênios, à medida que o século XX avança, para se transformar em uma quase neurose, ao irromper o XXI.

Esse amálgama ideológico que busca se definir numa contracorrente das mudanças políticas cristaliza-se em torno de um feixe temático que, agindo como doutrina de múltiplas faces, vai concentrar-se em fenômenos sob a forma de lutas em defesa da cidadania, do meio ambiente e da internacionalização de propostas globais de total afirmação das potencialidades do humanismo.

Tenho para mim que esse painel temático se escalona, arbitrariamente, na seguinte ordem:

1 – a mulher, a condição feminina, inserida num processo de

afirmação e ascensão;

2 – a criança, que desperta a confiança no futuro, a merecer

atenção, sendo até objeto de projetos e programas, em escala

mundial, que impeçam venha ela mergulhar no desamparo;

3 – a natureza, expressada como um bem a serviço da

felicidade geral dos homens, refletindo-se em todos os passos

da existência humana, o que pressupõe uma luta permanente

pela sua preservação;

4 – finalmente, a eleição exaltada das manifestações populares

como refúgio dos desassistidos e vencidos pelos desajustes da

própria ordem opressora, na qual se inserem todas as vítimas

das desigualdades sociais.

Configurando o que já era uma tendência no livro anterior, Canção da partida se apresenta como uma síntese do engenho antecipativo desse humanismo militante, que, por vezes, na dimensão das ações práticas, toma a forma de humanitarismo. Ao longo deste livro, a poeta constrói poemas, que vão acumulando, concentrando as potencialidades de uma energia humanista, que não seria demasiado chamá-la de raiz precursora de atitudes, comportamentos, posturas e ações, englobadas sob os rótulos de cidadania, ambientalismo e internacionalização de hábitos e signos culturais.

Instala-se um campo magnético de implementação de vontades, na esfera de criação, de aspirações positivas, de ações em defesa dos mais carentes e mais fracos, símil daquele momento posterior à Segunda Grande Guerra, que fez acender ânimos e crenças – aquele "suelo de creencias", vislumbrado por Ortega y Gasset -, ao tempo que se desmoronavam velhas e caducas formas de afirmação e poder, sob o pálio de novas ideias e padrões de convivência humana e social. Ruem os modelos de dominação do homem pela porta do individualismo, instalando-se uma nova ordem pontuada pelas ideias de liberdade, democracia e socialismo.

Hoje, ao fim de uma trajetória que levou de roldão mitos e crenças, alçam-se bastiões de propagação das criações do espírito, como a se instalar um estado de necessidade regido pela lucidez, cujo universo se manifesta e se codifica por meio de novas palavras, novos signos, novos gestos, propagados como compromisso de teor universal.

Em face disso, numa linha de premonição, a poesia de Jacinta Passos distingue-se como uma luz precursora de etapas e realidades futuras e se afirma, apesar de editorialmente curta, como um farol, a iluminar múltiplas sendas, planaltos e planícies, onde se vão empreender marchas fatigantes, porém essenciais.

Vejamos como se apresenta a poesia de Jacinta Passos nesta sugerida grade temática.

Três poemas de Momentos de poesia – "Mulher", "Mistério carnal" (ambos já anteriormente aludidos) e "Canção simples" – deflagram o processo em que a condição feminina rompe o grilhão da religiosidade, a que a poeta se filiara por doutrinação espiritualista e inclinação mística, para adquirir expressão de independência em "Três canções de amor", "Canção da alegria" e, principalmente, num poema de mais fôlego estrutural, "Chiquinha" – todos de Canção da partida.

No primeiro dos três últimos, valendo-se de reiterações de uma cantiga de roda do folclore infantil, no ato de oferecer o corpo de mulher ao amado, porque assumida a condição com naturalidade, sabe que amar é doce, enquanto o efeito da entrega agora muda o sol, que muda a terra, ela e também o parceiro, para ambos virarem passarinho, símbolo de pureza e liberdade. E logo a série de perguntas emblema:

Cadê a Princesa?

A Princesa fugiu?

A terra tremeu?

A torre caiu?

O amor é grande, porém ainda sobram determinações, regras. Logo a poeta decide mandar, e é uma ordem:

Abra a porta,

queremos entrar!

(...)

Que porta pesada.

Que porta caturra!

Empurra!

(...)

Já cresce o gigante

maior que o mar.

A porta de bronze

vai arrombar!

No segundo poema, "Canção da alegria", elementos do folclore infantil de matriz rural se unem no ato de fazer para sugerir um outro fabrico, além da farinha, quando a urupemba, de tanto peneirar, não resiste, e logo sobrevém o aviso, o grito:

Olhe o rombo

olhe o rombo

olhe o rombo arrombou!

olhe o cisco

olhe o risco

urupemba furou!

(...)

Escorra! Escorra!

Tirai essa borra!

E restará no fim:

Farinha fininha

Peneiradinha!

Ai! vida, que vida

minha! nuinha!

Vida igualzinha à da "Nêga Fulô", de Jorge de Lima.

Dedicado a sete mulheres – todas certamente de linha participante, como a poeta -o poema "Chiquinha" tematiza a condição feminina numa perspectiva histórica que enfileira geografias e impérios remotos, séculos, humanidades e conflitos, rumo à libertação do indivíduo mulher em plena sociedade burguesa capitalista, onde a máquina, símbolo de escravização mecânica, se torna o instrumento ideal de, por artes da perseverança e da determinação, alcançar-se a salvação.

A máquina, típico meio de extensão de braços e mãos, depois do inexorável passar de sofrimentos e humilhações, liberta na mulher operária o corpo de serva doméstica e, arrancando-a de casa, derruba paredes / limites, fronteiras / do lar, doce lar / – prisão milenar.

E um corpo liberto constrói o mundo, pela dignidade do trabalho, bom e valoroso – o bastante para a poeta proclamar e concluir, indagando afirmativamente:

Chiquinha

tu sabes que a máquina

que move

o mundo moderno

te vem libertar?

Em "Canção simples", o recurso ao verso em redondilha patenteia vontade de alteração, de mudança, com um dinamismo rítmico que acondiciona o impulso de vencer a adversidade da submissão feminina, refletida comparativamente na imagem da flor caída no rio, que a leva para onde quer, como fatal destino. Mas, encadeando paralelismos, a poeta maneja uma dialética em que subsiste a ideia da "mulher semente", da entrega da virgindade como uma divisão que não deixa resto, das confissões masculinas de amor infinito que contrastam com a finitude da vida, para por fim rotular a submissão chancelada pela relação sexual como expressão da "fraqueza humana".

Não sem razão, José Paulo Paes, em seu estudo crítico, invoca observação de Sérgio Milliet, que ressaltava, em Jacinta Passos, uma sensibilidade "marcadamente feminina", a abrir-se para "uma visão crítica da condição da mulher rara de encontrar-se na poesia brasileira" até ali, basicamente por meio da criação poética projetada na Canção da Partida.

"Cantiga das mães", de Momentos de Poesia, encara o tema da criança numa clave de fatalidade, subjacente na inevitável perda maternal do filho, por efeito de um determinismo existencial, imposto pela ordem natural das coisas.

Fruto quando amanhece

cai das árvores no chão

e filho depois que cresce

não é mais da gente não.

Porém, não é a cadeia do afeto possessivo, supervisionada por um desígnio da natureza, capaz de impedir que filhos cresçam – antes ficassem meninos / os filhos do sangue meu, geme o coração materno -, pois quem leva o filho não é a morte, mas a própria vida, na dialética de uma realidade cíclica.

Amargamente, para a mãe, os filhos partiram – foram viver seus destinos, / isto sempre foi assim, consente a razão conformista -, longe, bem distante de berço, riso / coisas puras, / brigas, estudos, travessuras / tudo isso já passou, rematando com o doloroso refrão:

Foi a vida que roubou.

Depois da "Canção para Jana" (Poemas Políticos), na qual, ferida no mesmo bordão de perda irrecusável – Flor buliçosa / rosa, crescei -, suspira a incerteza da volta, para agasalhar-se na sombra aqui destas asas / até um dia, é na "Canção de brinquedo" que o estado de resignação se impõe, na certeza de que no reino da terra / riso será, riso que (avisa) não é de graça, porque para a flor de sangue invocada (a criança) tempo virou / tempo virá. E mostra a linha de risco, marco de desafio, já que a menina não é flor sozinha, logo novo aviso:

Um olho aceso

entre as mulheres

criatura minha.

E então manda o destino de ser liberto, que segue (a menina) puxando o novelo:

Agora sim.

Flor no cabelo

entra na roda e dança, ó jasmim.

Obra seminal desta antecipação de temáticas que irão proliferar num contexto de humanismo universalizante, Momentos de Poesia apresenta o poema que traduz o sentimento inaugural de devoção e reconhecimento do primado da natureza – "Campo Limpo", justamente o nome da fazenda onde nasceu Jacinta Passos, nas proximidades de Cruz das Almas, no Recôncavo baiano.

É lá que, nos seus campos banhados de sol, literalmente viceja o ardor da seiva rebentando nessa natureza viva, propagado em doçura de céu crepuscular, árvores frondosas que se alongam como fantasmas quando a noite desce, cujo esplendor de beleza provoca uma estranha alegria, por de lá provirem sombra e flor e fruto – paisagens que fazem reviver, interiormente, todos os instantes perdidos para sempre, ocultos, de uma infância já morta, mas conservada no ser profundo.

Nessa poética de descortino virtual do mundo, o amor livre, presumido e desejado em canção, não acontece apenas com o despir da roupa da mulher, mas no instante em que o corpo é fruto ("Canção do amor livre"). Traduzido em escrita despojada:

Peixe e pássaro, cabelos

de fogo e cobre. Madeira

e água deslizante, fuga

ai rija

cintura de potro bravo.

E o corpo masculino aflora como

Relâmpago depois repouso

Sem memória, noturno.

A predisposição de amar, de dar-se ao amor ("Chamado de amor"), não se consuma como exorcismo carnal, mas como forma delineada a partir de potencialidades da natureza que se manifestam:

Tanta laranja madura

ai tanta!

que aroma vem do quintal.

A maré já deu passagem

cresce meu canavial.

(...)

Jasmim da noite floriu.

Jasmim.

Acabou-se o bem e o mal.

Desde o recurso à inserção de formas líricas oriundas do universo infantil, usando refrões de cantigas de roda – Passa / passa / passará / derradeiro ficará ("Canção da Partida"); Eu fui por um caminho. / Eu também. / Encontrei um passarinho . / Eu também ("Três canções de amor"); Su su su / neném mandu / quem dorme na lagoa / é sapo cururu ("Cantiga de ninar") -, de formas folclóricas (samba-de-roda), até toadas de trabalho – Urupemba/ urupemba / mandioca aipim! / peneirar / peneirou / que restou no fim? ("Canção da alegria"), como observa José Paulo Paes, a poesia de Jacinta Passos avança para latitudes criativas em que ressaltam preocupações com as adversidades do ser humano, centradas no sofrimento e em estados de infortúnio que se apossam de almas desamparadas pela sociedade, de que são exemplos, para resumir, os poemas "Navio dos Imigrantes", "Sangue Negro" e "Carnaval".

O primeiro deles, dedicado ao pintor Lasar Segall, que ilustra a primeira edição de Canção da Partida, exalta a triste saga aventurosa de seres humanos impelidos aos quadrantes do mundo por vicissitudes diversas, como corpos largados / desamparados, / límpido tempo / de primavera / mora no fundo / de vossa espera.

Corpos humanos

suportam corpos,

seus desenganos.

Corpo, cansaço

longa viagem,

busca um regaço

terra ou miragem.

O segundo, "Sangue Negro", lavrado em vertente nitidamente social, irradia um halo de confiança plena na extinção do flagelo da miséria que se abate sobre seres humanos, através de forças latentes criadoras do progresso material, como no fazer jorrarem as reservas petrolíferas das profundezas do solo baiano – sangue negro cor da noite / da cor do preto africano, em alusão ao braço que muito deu à terra de que foi escravo -, energia libertadora, que impulsiona transformações múltiplas, refletida até mesmo no aboio de indício mutante do vaqueiro nordestino – O homem tira da terra / a chuva que o céu não dá. E até, com a alma transbordante de fé,

O lavrador

largará a enxada que dos pais recebeu

e moverá os arados mecânicos

que os homens de outras terras lhe ensinaram

através da distância e dos ventos oceânicos.

Em "Carnaval", manejando o verso-livre – uma particularidade formal da poética modernista -, a linguagem se solta, variam timbre e ritmos, aflora um estado de ânimo que, penetrando numa expressão da vida popular, acompanha o seu desenrolar, impelido pela imaginação plural, em flagrante manifestação de liberdade ao longo dos espaços urbanos, chancelado pela mistura de raças e classes, cores e ritmos, própria da cultura da Bahia.

É ali que, pelos cantos e batuques, o negro é rei.

Negro é rei

no carnaval,

tem manto, tem cetro,

e o chapéu de sol

é pálio real.

É no carnaval que gritos humanos, interjeições, / lança-perfumes, desejos sem rumo (...) / um cheiro forte de todas as raças, / vibram no ar.

Uma massa humana,

todas as cores,

todas as raças,

todas as classes,

em confusão.

De que subsolo irrompeu, informe, nua,

essa nova realidade sem nome que dança na rua?

E prossegue a poeta, registrando em versos a mistura sem fim – homens, mulheres chiques que têm amantes, vagabundos elegantes, literatos de academia, gente graúda, gente pobre, louro estrangeiro, ondas humanas, cuja voz se perde na multidão e no asfalto.

Um povo surgiu, surgiu não sei donde

dançando, cantando, um povo surgiu.

Universo de símbolos em que se reflete a alma de Jacinta Passos, porque a um só tempo está no seu sangue, em que se concentram sementes de vida popular.

No meu sangue,

as raças,

as classes,

os povos

misturam-se.

Eu sou a Bahia.

Viva o Rei Momo! hoje é seu dia.

A permanência da poesia de Jacinta Passos há de ser analisada pelas virtualidades que antecipa o seu humanismo militante em relação a temas hoje mundialmente disseminados sob rótulos e bandeiras diversas em defesa de princípios como cidadania, meio ambiente e solidariedade internacional na luta contra a ignorância, a violência e a miséria, por efeito das palavras que usa para expressar seus estados de alma, na busca de si mesma.

Desta maneira, poemas, versos, timbres e variados ritmos de sua obra, lastimavelmente curta, fazem-na uma precursora de ideias, movimentos e campanhas hoje agasalhados sob o vasto pálio da ação humanista patrocinada por organizações não governamentais (ONGs), instituições nacionais e internacionais, em vários países, proclamados e consagrados como vias capazes de assegurar ao homem paz e sobrevivência produtiva na terra. Uma poesia que propaga sonhos e metamorfoses, pela força de seu lirismo.

 

Jacinta Passos, a travessia

Hélio Pólvora2

Chega a ser perturbadora, no nosso empenho de bem compreendê-la para justificá-la, a travessia da poeta Jacinta Passos do seu inicial lirismo simples, espontâneo e algo ingênuo, para a poesia de embate ideológico. Viveu um período de agitação política e despertar de consciência social, no Brasil e no mundo inteiro, marcado pelos mais profundos transtornos do ser – e, no entanto, em vez de acomodar-se, ou simplesmente pôr-se à margem, como fez a maioria, ela alistou-se no pelotão dos insatisfeitos e dos combatentes.

Olhamos para trás, para o Brasil do decênio de 1930, marcado pela revolução que acabaria por instituir o Estado Novo, em 1937, impor a ditadura durante largos anos e sacrificar opositores. Um Brasil agrícola e pastoril, resignado exportador de produtos primários, porque não iniciara ainda o seu processo de industrialização. A população menor e a resignação dos ânimos quanto a direitos sociais feridos haviam instaurado um modelo de vida mais calma, mais contemplativa, sem obstar, no entanto, a fermentação das ideias. Logo viria a guerra ao modelo nazifascista, da qual o Brasil da era getuliana participaria por força da opinião pública. As esperanças de um mundo melhor no pós-guerra cederam vez à guerra-fria, com a bipolarização Estados Unidos-União Soviética, ou capitalismo contra socialismo.

No seu penúltimo livro, Poemas Políticos, estampado no Rio de Janeiro em 1951, a poeta interpela Chiquinha, figura do povo, a propósito de uma máquina. E pergunta-lhe, ironicamente:

Tu sabes

Chiquinha

Que a máquina que move

o mundo moderno

te vem libertar?

Mas, retomando o tom sério, de denúncia, adverte logo:

Tu sabes

(isto sim, tu sabes)

a máquina tem dono

e tu tens apenas

teu corpo de carne

que pede comida

e roupa

e abrigo,

teu corpo de carne

agarrado à vida.

A máquina

precisa mover

dinheiro! dinheiro!

e tu

precisas viver.

Esses versos valem para os dias de hoje, de destruição em massa do Afeganistão e do Iraque, de matança de palestinos em suas próprias terras invadidas – atos que fazem recrudescer o terrorismo gerado, à sua vez, pela dominação econômica. Comprovam, tais versos, a atualidade da poeta Jacinta Passos, tocada na sua sensibilidade aguda de mulher solidária e de poeta das causas nobres pela crueldade anticristã.

E note-se que, na breve poética de Jacinta Passos, a sua nascente trouxera apenas águas claras, remansosas, de um lirismo bem comportado, com um toque de religiosidade que beirava o misticismo. É a fase da iniciação, da tentativa de captar instâncias de poesia que ela sente dentro de si, em efervescência, mas não sabe definir direito. Sua primeira coletânea de poemas, Momentos de Poesia (Salvador, 1942, portanto ainda em plena Segunda Guerra Mundial) traz versos ainda com um resíduo da adolescente de Campo Limpo, no interior do município de Cruz das Almas, onde nasceu: vaqueiros, folguedos infantis, amas, as paisagens campestres que se estampam para toda a vida na memória, imagens, em suma, de um berço de moldura senhorial, como costumavam ser, nos primeiros decênios do século passado, os clãs de origem rural. Outras imagens do Vale do rio Paraguaçu, por onde passou a família, e, depois, Salvador – o fórum, enfim, do aprendizado regular, da assimilação progressiva de ideias e da controvérsia que sustentam com os rígidos modelos da educação pequeno-burguesa.

A poesia dessa quadra vital de Jacinta Passos é mais um estado de abertura à poesia do que de realização poética propriamente dita. O seu lirismo de inspiração popular, quase que transplantado sem recriação, tem nutriz folclórica, traz ecos de cantiga de roda, persiste na poeta a menina que anseia sem saber exatamente o porquê e o para quê. Ânsias vagas, aspirações indefinidas, sonhos, devaneios – como se a sua consciência se pusesse a moldar em tal instante a sua maneira de ser, e a abrir o seu caminho. A religiosidade é-lhe inata, ela invoca constantemente o Senhor, apostrofa-o em voz humilde, abafada, sem o clamor e a ira de Castro Alves. Longe, porém, de ser aquela religiosidade de comunhão de fé católica e de prosternação perante o altar da divindade, Jacinta Passos arde e suspira no afã da confraternização, do diálogo, da participação que aos poucos dilui o universo cósmico para introduzir a realidade imediata e circunstancial, a ambiência em que vive e procura identificar-se. Um processo, este, que sentimos lento, tumultuado, agônico, à procura de uma referência maior – que será o credo. Se não religioso, então o credo estético ou o crédito político.

É o que se dará aos poucos, na movimentação incessante da consciência da poeta. Porque, conforme já observara o ensaísta José Paulo Paes, os Momentos de Poesia, a par da sua singeleza lírica, já se deixam impregnar por atitudes sociais em que desponta a insatisfação e assoma a revolta. Este trecho de poema é significativo:

- E ele disse o que é pátria?

- Disse que pátria é tudo o que nós temos.

É a nossa terra, e tudo de bom que esse nome encerra.

É o alimento que nos vem do solo,

É o pão,

A água que bebemos,

O fogo que nos aquece,

A casa onde vivemos.

- Pátria é tudo o que nós temos.

Meu filho doente,

Sem remédio,

Sem alimento,

Sem um cobertor para a hora do frio.

Água comprada por três mil-réis a lata.

Fogo no candeeiro de gás que a vizinha emprestou.

O dono da casa exigindo o aluguel.

Será que a gente tem mesmo pátria, Manuel?

Já é um avanço. Nos seus diálogos com o Ser infinito, a poeta admite que ele não pode criar nenhum ser à sua semelhança. Nisso consiste a dor absoluta, e para amenizá-la cumpre à poeta devassar o território onde dormem todas as realidades possíveis. Conforme observou Mário de Andrade a respeito da poesia católica de Murilo Mendes, diríamos que Jacinta, ao abeberar-se do catolicismo, não encontrou paz, porque já esperava luta. Distante vai aquele instante de incerteza, de 1940, em que escreveu: Aceitemos a vida, é inútil lutar.

Embora pratique versos de variada métrica, por vezes aproximando-se do sentimento popular por meio da cantiga e da redondilha, Jacinta Passos exercitou mais comumente o verso largo, livre, tentacular – aquele versículo bíblico que estava então em voga, na época da poesia militante, a propósito da resistência de Stalingrado, acerca da esperança injetada pela nova Rússia socialista, sobre a Guerra Civil Espanhola, quanto à até então utópica união de todos os povos do mundo etc. Tanto a prosa quanto a poesia exportavam da Europa para nós o fermento de um posicionamento estético revolucionário, voltado para a construção do homem novo num mundo menos injusto e desigual. A poesia vazada em forma de versículo bíblico se aprestava a esse tipo de mensagem condoreira, que eventualmente pecava pelo prosaísmo, não obstante o ardor das atitudes. Poucos versos "ideológicos" daquela época permanecem sob o prisma artístico (A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, parece-me um feliz encontro de sentimento e forma), mas tenha-se em vista o feeling da época, a sinceridade, ainda que circunstancial, da mensagem solidária, da manifestação de companheirismo.

Em Jacinta Passos, força é admitir, a poesia em tom de lamento pessoal, circunscrita à sua sombra, cresceu de forma a absorver as dores alheias – e nesse sentido, deixa de ser circunstancial para ressoar como coletiva voz profunda. Esse fato há de ter tocado alguns críticos, entre eles Antonio Cândido, Mário de Andrade, José Paulo Paes. Seu lirismo, que se robustece na Canção da Partida, de 1945, tem acentos pessoais também de afirmação, de reconhecimento da condição feminina em processo de mudança:

A flor caída no rio

Que a leva para onde quer

Sabia disso e caiu,

Seu destino é ser mulher.

Leva tudo e segue em frente,

Amor de homem é tufão,

E de mulher é semente

Que o vento enterrou no chão.

Mulher que tudo já deu,

Homem que tudo tomou,

É mulher que se perdeu,

É homem que conquistou (...)

Mas a mulher que se desenterra e se encontra, companheira na travessia existencial de Jacinta Passos, não se reaproxima do companheiro para, quem sabe, substituí-lo, senão para ir com ele, ombro a ombro, nas invernadas da vida. Essa mulher nova cantada pela poeta de Cruz das Almas marchará em pensamento com a Coluna Prestes, pelos sertões, contra o autoritarismo dos coronéis, e, com ela, se entranhará na Bolívia. Ela, a mulher, sonhou, como a Coluna, com a verdadeira pátria da justiça social e da liberdade. E em quinze cantos de estrofes diferentes, em versos ora curtos ora longos, ora livres ora aproximando-os da literatura de cordel, ela celebra a página gloriosa, porque entende que

Coluna, tu és a herança

Que os pais transmitem aos filhos

Como abc de criança.

Herança. A herança da esperança. A esperança que feneceu. Enquanto se busca, a esperança está viva, mas, muitas vezes, a busca resulta em nada. Aliás, a busca não implica necessariamente o encontro. A busca é um objetivo a cumprir, e felizes dos que têm a capacidade de empreendê-la. Quanto à perda da esperança, estamos todos sujeitos a essa aflição tantas vezes renovada. Faz parte da vida, e viver é buscar. Foi o que fez a corajosa poeta Jacinta Passos, falecida em 1973, em sanatório de Aracaju. A travessia acarretou-lhe provavelmente mais sofrimento do que poderia suportar.

 

A infância como ponto de partida

Fernando Paixão3

1945 foi o ano em que apareceu no cenário da poética brasileira o livro Rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade, reunindo poemas emblemáticos do espírito dominante daquele fim de Guerra e coincidente com a deposição do Estado Novo. Náusea, noite, mulher-mito e até o anúncio da rosa aparecem nas páginas desse poeta declaradamente crítico e engajado numa atitude de mudança social. Logo no primeiro poema, ele mesmo se apresenta com um poeta do finito e da matéria / cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas, / boca tão seca, mas ardor tão casto. / Dar tudo pela

presença dos longínquos, / sentir que há ecos, poucos, mas cristal 4 .

Versos que bem podem ser tomados como uma possível definição para a poesia de fundo político e que raras vezes transmite uma voz original e de ressonância efetivamente poética. Qualidade essa, sem dúvida, que deve ser reconhecida em Jacinta Passos, autora de Canção da partida, livro muito louvado quando de seu aparecimento, mas que logo caiu no esquecimento dos círculos literários. Tem a propriedade de ter sido escrito por uma militante do PC, identificada com a orientação marxista do partido, ao mesmo tempo que reúne poemas marcados por traços de oralidade e singeleza – sob os ecos subliminares da imaginação.

Impresso igualmente no fatídico ano de 1945, em tiragem restrita e ilustrada por belas ilustrações de Lasar Segall, o livro logo teve o elogio da crítica, enfatizando-lhe o vigor da voz feminina e da fatura poética bem acabada. Mas é o diagnóstico de Aníbal Machado, apontando nela um arco de imagens que vai da "ternura mais íntima" ao "grito largo da libertação", que mais chama a atenção. Formula um raciocínio que possibilita um atalho diferente para compreender a arte de Jacinta, para além do grito rebelde do engajamento.

De fato, é expressiva a presença de imagens ternas de que se serve a autora para configurar o seu canto. Ternura essa, por sua vez, associada com frequência ao universo da infância, tomado como fonte geradora de inúmeros "fragmentos" que ressoam em contraste e ampliam o significado do texto. Dito em outros termos: a infância e a poesia política encontram nestes poemas uma convivência fecunda e original.

Chegamos, então, ao ponto que nos interessa desenvolver. Não deixa de ser curioso que uma poeta dedicada à voz coletiva desenvolva tal afinidade com o universo infantil. Mais que uma curiosidade, porém, é um indício importante para se compreender como a autora concebe a função poética e de que modo ela articula o seu pensamento. Linha forte do imaginário, a infância cumpre nesta poesia uma função simbólica de origem, matriz que se impõe desde a partida.

Exemplar, nesse sentido, é o poema "Metamorfose", que sugere um amplo arco de sentidos e principia pela evocação de reminiscências:

Fui moleque,

jornaleiro,

nunca tive opinião

ajudante de pedreiro

fui chofer de caminhão...

Começa, portanto, com uma enumeração simples de atividades do passado, ligadas ao chão pobre da província, e que se renova pelo aspecto rítmico dos versos. Mas logo o sujeito é confrontado com a transformação:

Nem eu sei como foi isso,

foi feitiço,

arte do Cão

mas um dia fiquei rico

que nem o rei Salomão.

Não por acaso, o poema aproxima-se de uma cadência típica da poesia oral e das composições populares de folclore; consegue então soar natural aos ouvidos, e acena igualmente para uma inquietação que transcende as primeiras experiências. Optando pelo voluntário confronto de elementos, sua escrita dramatiza o impasse do indivíduo ante a realidade:

Chave do mundo,

tenho na mão.

Desceu o céu!

Subiu o chão!

Apoiado na singeleza das imagens, os versos seguintes se desdobram em encantamento. Lançado, pois, à metamorfose, o sujeito se divide em múltiplas faces:

virei até um rei mouro,

virei sábio, virei gentleman,

meu cabelo virou louro,

virei genro, industrial...

Mas, resta ainda a marca original que não se corrompe no esquecimento e, ao contrário, permanece como referência:

Agora cheguei em cima,

agora vi que eu sou dois.

Quem sois?

Minhas senhoras:

Meus senhores:

O meu drama começou.

A seguir, o poema chega à ultima parte do ciclo imaginoso. O moleque que tudo começara vê-se levado à vertigem dos papéis, acabando por misturar planos e hierarquias até o ponto em que perde as referências de si mesmo:

Serei eu e serei tu,

serei Sancho e D. Quixote,

serei Deus e Belzebu?

Não posso viver assim!

O drama se expressa, pois, por uma identidade cindida e que não se resolve nem nos derradeiros versos:

Serei foice e serei sigma?

Enigma!

Quem serei eu afinal?

Ai de mim!

Serei o princípio e o fim?

Portanto, resta em aberto o sentido da metamorfose anunciada no título. As cenas da infância e do crescimento desencadeiam não o surgimento de uma pessoa outra, e sim a de um múltiplo desconhecido. Entregue à prova do tempo, a infância desdobra-se em atribuições diversas cujo sentido escapa ao entendimento, mas cujos ecos (de cristal, como lembra Drummond) acabam por delinear uma privilegiada experiência.

Que o leitor não se iluda, porém, com a aparente simplicidade dos versos, reforçada pelos traços de musicalidade presente no texto. Seu jogo de imagens, ora revelando ora ocultando referências, na verdade ambiciona fazer eco aos temas fortes da existência. Aproximando-se da clave ingênua e valorizando o conteúdo simbólico das referências, os poemas permitem visualizar um contraste que diz respeito ao mundo em que vivemos.

Até mesmo o poema que inicia o livro, e que lhe dá título, segue a estratégia de apresentar um rol de evocações e memórias, entrelaçadas, configurando uma bagagem adquirida e formadora de recortes, flagrantes, registro do que passa / passa / passará / derradeiro ficará. São várias as recorrências ao conteúdo infantil que aparecem no texto, reforçadas inclusive pelo uso de vários diminutivos e o recorrente evocativo da maninha.

Simultaneamente, o poema figura o embate de contrastes sociais por meio do encontro poético de alguns ícones da vida social. De um lado, a canção cai em exaltação (o meu pai é deputado / democrata liberal / – viva a eleição!), mas já algumas linhas adiante deparamos com o seu oposto: Minha mãe, minha mãezinha, / todo dia na cozinha, / faz doce para vender. Outras vezes, a infância comparece através de um recurso metonímico: Menina, minha menina / carocinho de araçá.

Forma-se o poema a partir dessa trama de imagens – e que representam um entrelaçar de vozes sociais, vale a pena lembrar -, de modo que a sensação geral se aproxima da vertigem e do atrito de evocações. Colocar a matéria da infância em confronto com o processo histórico parece ser a pedra de toque que anima esse movimento contínuo e caótico da poesia de Jacinta Passos.

Mas não tão caótico assim. Ao fim do poema, nos é dado entender a pergunta que dá sentido aos dizeres anteriores:

O país para onde vamos,

Vitalina!

fica aqui, fica na China,

fica nas bandas do sul,

fica lá no Polo Norte,

principia onde termina,

muito além daquele monte,

lá na linha do horizonte,

onde a terra encontra o céu.

Sem solução, entregue a rumo indefinido, o sujeito poético termina compelido à partida, obrigado a afastar-se das ressonâncias primeiras.

Procedimento semelhante aparece na "Cantiga de ninar", explicitamente inspirada no acalanto popular. O poema incorpora desde as primeiras palavras a singeleza das formas populares (Su su su / neném mandu / quem dorme na lagoa / é sapo cururu.), fazendo depois com que esses versos totalmente rítmicos e instintivos se sobreponham a outros de natureza inversa, buscando elo com um sentido mais amplo:

Menino não dorme menino faz manha,

brinquedo não ganha não ganha vintém,

seu pai é pobre e mãezinha também.

Nos versos finais, a cantiga de ninar incide novamente no questionamento irresoluto, inserindo o poema num horizonte bem mais dramático do que se poderia supor no início:

- Que disseste, meu bem?

Esse gosto, donde será que ele vem?

Corpo mortal.

Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?

Esses dois que moram no fundo e no fim.

- De quem falas amor, do mar ou de mim?

Dúvida essa que amplia o significado do poema, incapaz de produzir o sono típico das canções infantis. Resulta, portanto, uma voz que se destaca pela delicadeza no modo como se aproveita de elementos de raiz sonora e popular para representar uma dramaticidade outra, ligada à terra baiana, tão arcaica e necessitada de sentido: partir para onde? Com que identidade?

Jacinta acerta quando vai beber na fonte da infância os elementos inspiradores desta poética intensa, entregando-se à liberdade de criar canções a partir de sons e imagens carregadas de energia expressiva. Na voz de Drummond, essa mesma inquietude ganhou palavras que sintetizam a opção estética da autora: A rosa do povo despetala-se, / ou ainda conserva o pudor da alva? / É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil, / um pranto infantil no

berço?5 À sua maneira, os poemas deste belo livro de Jacinta giram em torno da mesma questão. Melhor a ternura da pergunta que a crença nas respostas.

 

A coluna de fogo

Ildásio Tavares6

Breve consideração da linguagem

O século passado envidou esforços ingentes, buscando o entendimento da linguagem – alguns linguistas, por um lado, a partir das descobertas pioneiras de Saussure e da Escola de Praga, na Europa; por outro lado, as inovadoras posturas da Escola Americana, a partir das conclusões de Edward Sapir, labutando com línguas indígenas dos Estados Unidos, e da lucidez de Leonard Bloomfield, ambos dedicando largo tempo e páginas substanciais ao campo da linguagem. Basta lembrar que os livros instauradores, tanto de Sapir como de Bloomfield, chamam-se Language.

Filósofos os mais atilados se dedicaram ao campo da Filosofia da Linguagem, ressaltando Wittgenstein e Heidegger, este último colocando postulados básicos, como, por exemplo, o famoso "Sprache ist sein". É desta assertiva que buscaria um ponto de partida para situar a arte da poesia no território específico da linguagem e tentar demonstrar que é com a linguagem e pela linguagem que a poesia se define e se delimita. Assim, evitarei qualquer escolho epistemológico que venha a macular o discurso poético, ou vesti-lo, teleologicamente ou não, de um traje alheio a seu verdadeiro sentido fenomenológico. Segundo Husserl, todo objeto cultural tem um suporte fáctico e um sentido. E o sentido situa-se num lugar muito além do simples significado, literal ou não.

A poesia não é um discurso ideológico. A poesia não é um discurso político, a poesia não é sequer um discurso estético, ético ou moral. A poesia é um discurso poético. Etimologicamente, "discurso" vem de discorrer, que vem do latim discurrere, correr em diversas direções, to and from, diríamos em inglês, de ça, de là, em francês, pra lá e pra cá, ou, mais ainda, daqui pra ali e de lá pra cá. Todo discurso realiza esta façanha dialética de vaivém, e no caso particular do discurso poético, este vaivém constrói o tema, discorre sobre ele, dando-lhe existência poética. Pouco importa se a circunstância temática exista como fato real, ou não. Jamais existiu uma Emma Bovary. Ela só é uma realidade a partir da construção da linguagem. O Capitão Luiz Carlos Prestes foi um ser humano real de carne e osso. Todavia, ao ser objeto da prosa de Jorge Amado ou de um poema de Jacinta Passos, Prestes deixa de ser um indivíduo real para tornar-se um personagem, que, para ser poético, terá de ser tão bem construído como qualquer outra figura literária e, portanto, terá de se desrealizar como pessoa para começar a existir como personagem, não importa usem ambos, cada um, a sua máscara.

A maior falácia será sempre a da avaliação temática da obra que por seu conteúdo moral ou ideológico deveria receber o aval da crítica. O aforismo "Não pode haver uma estética sem uma ética" chancelou a mediocridade no Brasil durante muito tempo, queimando escritores de alto nível por sua ideologia, e endeusando a mediocridade pela sua adesão ao código ideológico epocal, ditado pelo Partido Comunista Brasileiro. Esta mesma postura, depois, serviu para queimar tudo aquilo que cheirasse a comunismo ou a política. Mário de Andrade, como vemos citado em antológico artigo de José Paulo Paes, cunhou a expressão "demagogia, demagógico", para queimar qualquer poema que parecesse de longe pregação doutrinária. O artigo de José Paulo Paes, equivocadamente, e até com uma boa dose de maniqueísmo, acata esta classificação do poeta desvairado. Veremos que não é exatamente assim. Ambos estão situados no âmbito factual do discurso. A verdade poética está na linguagem.

Todas essas considerações virão a ter como corolário que a famosa assertiva de um poeta blasé se esfacela sob o bombardeio da sintaxe, pois meaning situa-se no canal dialético da dupla articulação que Martinet aventou para entender melhor o discurso linguístico. Poesia não se faz com palavras e sim com a escolha, combinação, arrumação ou ordenação das palavras, ou, num nível mais sofisticado, no swing das palavras. Frequentemente, a graça do discurso poético não está no significante nem no significado – não está na quidditas, mas no how ou no know how.

"Saco vazio não se põe de pé". Mas, de uma certa distância, tudo o que vemos é o saco e podemos presumir que está cheio, e até o seu conteúdo, sem precisar abri-lo. Há definições externas que são self-evident, mas o discurso poético ainda está distante da maiêutica aristotélica e mais ainda de qualquer tipo de álgebra.

Chegamos com alguma fluência a estas palavras-chave que variam no tempo e no espaço e que pretendem, em sua dicotomia cartesiana, explicar o inexplicável. O século passado assistiu à instalação do primado da crítica sobre a criação. Nunca se escreveu tanto sobre grandes e pequenos autores. Nunca se leu tantos artigos, ensaios, teses, monografias sobre estes autores, alguns dogmaticamente canonizados pela crítica. Nunca se leu os próprios autores tão pouco e tão superficialmente – estudá-los era enquadrá-los redutivamente em alguma gramática engendrada em algum gueto beletrista, destes o pior a universidade.

Os autores do cânone eram eleitos pela crítica e pairavam acima do Bem e do Mal, acima de qualquer julgamento negativo que, aliás, ninguém ousava fazer, para não ser acusado de oligofrênico. Tornavam-se, estes autores, pontos de referência, parâmetros analógicos, para julgar qualquer autor emergente. Se não parece com fulano, não é poeta. O discurso deixava de ser literário e passava a ser metaliterário ou paraliterário, qualquer coisa que não fosse puramente literatura. E o discurso poético passava a ser um jogo, muitas vezes infantil, engendrado para o consumo dos iniciados, banido o deleite das considerações dos engenhosos acrobatas. Pior que isso, qualquer obra que pudesse ser consumida com deleite pelo grosso da população era execrada, tachada de comercial e chula.

A poesia tornou-se uma cerebralização erudita, mecanicista e estéril, um jogo de palavras cruzadas, charadas e logogrifos que só podia ser entendido com as proverbialmente imprescindíveis notas ao pé de página.

Nos limites dessa discussão teórica é que pretendemos situar Jacinta Passos nestas páginas que se seguem, e, por uma catarse / purificação de conceitos mostrar que foi, muito além dos equívocos banais, verdadeiramente poeta.

O poeta, esse desconhecido

Minha experiência como professor de literatura numa universidade federal me fez, cada vez mais, compreender o ostracismo em que a poesia brasileira vive. Enquanto em Portugal (para citar nosso país de origem) existem editoras e livrarias especializadas em poesia, aqui, ela corre o risco de desaparecer do mercado. Não há edições confiáveis dos clássicos brasileiros – Gregório, Gonzaga, Bilac, Vinicius, etc. -, o que mostra claramente a ausência de demanda universitária. Por outro lado, na presença, nas livrarias, de determinados autores canônicos vemos a comprovação do gosto dirigido por um código universitário, calcado sobre os modismos da corrente crítica adotada na faculdade, mormente na pós-graduação. Dominam o mercado editorial os livros, teses ou não, sobre os autores.

Quando eu preparava uma antologia dos poetas baianos do século XVII ao XX, vali-me de Janaína Amado, que me deu vistas a parte de seu corpus, o que foi suficiente para que eu percebesse estar a braços com um genuíno poeta, esquecido pela pátina do tempo e pelo perverso cânone dos sudestinos. Ao ler toda a obra publicada de Jacinta, me dei conta de que era uma das mais significativas poetas de sua geração, e, não pelo seu corpo de obra, mas pelo fino lavor de seus versos, um dos melhores poetas brasileiros, cuja obra sofria, curiosamente, dos preconceitos tanto contra como a favor.

No artigo a que me referi de José Paulo Paes, apesar de uma postura nitidamente favorável, ele elogia Jacinta com motivos equivocados e, propositadamente, ou não, põe-se míope perante alguns dos mais evidentes traços de maestria poética da baiana, tanto no admirável artesanato que preside a criação, como nos recursos dialéticos entre a superfície e os mais profundos rincões do seu discurso, que nunca será uma cova rasa a sepultar o olhar. Logo no início do artigo, este ilustre tradutor e poeta (mais tradutor que poeta), ao listar as opiniões amplamente favoráveis sobre Jacinta, exaradas por algumas das mais importantes figuras da literatura brasileira de então, esboça claramente o perfil de uma crítica ideologicamente impressionista.

Roger Bastide, com sua posição eurocêntrica, não podia deixar de falar em folclore, Aníbal Machado não podia deixar de falar num "grito largo de libertação", todos exaltam-na, até com machismo – Sérgio Milliet a vê feminina, mas não piegas, como se feminino fosse necessariamente piegas. O Mestre Antonio Cândido a põe gratuitamente "na primeira plana na moderna poesia brasileira". Todos paulistocêntricos, menos Bastide, autor de um dos livros mais imprecisos e erráticos sobre o candomblé na Bahia. Nenhum desses elogios diz o porquê. Nenhum desses críticos vai além do mero impressionismo.

É a velha história: é de esquerda, é bom.

Comecemos pelo que o francês rotula de folclore, neste trecho sobre os poemas de Jacinta Passos: "esta síntese entre o sabor das formas folclóricas e o sentimento da miséria dos homens...". As coisas não são tão fáceis assim. O que nós encontramos é Jacinta reapropriando-se das cantigas de ninar e das estruturas populares, como o cordel, para lhes dar um sentido novo, moderno. E o que importa é que o faz com total pertinência e maestria e não simploriamente, como em inúmeros momentos do "Cobra Norato", um poema intragável que não consegue ultrapassar a simples listagem do pitoresco, ou como o falsamente caipira e moderno "Juca Mulato", em que Menotti Del Picchia exibe um verso livre popular que não é livre nem popular, mas parnasiano mal arrumado, afetado, rebuscado e bobo; pior ainda nas contrafações baratas de Mário e de Oswald, edificadas em nome de uma brasileirice ridícula. Mesmo Jorge de Lima, Manuel Bandeira, com sua Irene piegas, Cassiano Cererê e Ascenso com suas piadas nordestinas deixaram-se afetar por esse modernismo de segunda mão.

Jacinta Passos a momentos expõe-se, é verdade, à nudez do panfleto. Mas isso é bem característico de momentos épicos, como em A Coluna, umas das mais admiráveis páginas épicas de nossa literatura, que as tem tão raras. É notável, entretanto, como veste de lirismo alegórico o fato político. E aí encontramos um traço pertinente de toda a obra de Jacinta: o ritmo, a melodia e os requintes retóricos estão plenamente coesos na construção da linguagem final, ofertados à interpretação e não a uma leitura rasa. Os elementos populares entram aí costurando o tecido poético. Em "Canção de Brinquedo", por exemplo, um dos Poemas Políticos, a revolução é alegorizada, transformando a justiça social no riso de uma criança:

reino da terra

riso será.

E no corpo do poema vem todo o doce balanço da cantiga de roda, e a imagem vive:

Ó flor de sangue

tempo virou

tempo virá.

As palavras são submetidas a um coerente processo de metaforização, levando ao alegórico, o que é o melhor da poesia. Adiante, em Canção da Partida, a brincadeira infantil é retomada por Jacinta, que enxergou muito bem o seu sentido antirrepressivo e a manipulou como palavra de ordem pela liberdade, mas após um primoroso jogo metafórico. Aqui cabe observar que interessa à interpretação da linguagem a sua capacidade de reinventar o popular poeticamente, o que Jacinta faz no poema todo, a instantes com um virtuosismo alquímico, transformando o popular em lirismo pelo condão da linguagem:

Continuar: parte 2 de 2