Jacinta Passos, coração militante
Biografia de Jacinta Passos: canção da liberdade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Biografia de Jacinta Passos: canção
da liberdade
Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
(Canção da liberdade)
Mulher, feminista, comunista, separada do marido, empobrecida, louca. Muitos foram os estigmas que Jacinta Passos enfrentou. Sua trajetória de vida absolutamente singular, bem como sua fidelidade às ideias e valores que elegeu, levaram-na a chocar-se diuturnamente contra tudo e todos, na contramão do tempo. Seus embates foram duríssimos. Não fugiu a nenhum. Ao contrário, parece que os buscou. Pagou um preço pessoal muito alto pelas escolhas que fez. Jamais se apresentou como vítima. Caneta e lança na mão, escudo de ferro no peito, foi como guerreira que se apresentou, lutando até o último dia de vida contra muitos, inclusive contra uma parte de si mesma. Venceu, foi derrotada e recomeçou várias vezes, sem nunca ter perdido de todo a ternura, como aconselhava Che Guevara – o Che da Revolução Cubana que ela tanto admirou –, pois foi poeta até morrer.
Nesta para mim emocionante reconstrução da trajetória de vida de minha mãe (com quem não fui criada), reuni tudo o que consegui sobre a existência dela, até agora muito pouco conhecida, apesar
do trabalho pioneiro de Dalila Machado.1 A experiência como historiadora ajudou-me bastante.
Utilizei documentos manuscritos e impressos, livros, jornais, correspondências, imagens e objetos localizados em arquivos públicos e particulares, bibliotecas públicas e privadas, igrejas, cartórios, hospitais e escolas, todos identificados parcialmente (apenas para fins de identificação), em notas, e ao final do texto de forma completa. Entrevistei pessoas que se relacionaram de alguma forma com Jacinta – familiares, amigos, empregados, companheiros de militância, alunos, intelectuais...–, gente que naturalmente compartilhou comigo diferentes perspectivas e sentimentos, por vezes conflitantes entre si, sobre ela; confrontei essas versões, sempre que possível explicitando-lhes as divergências, não as
omitindo. 2 Recolhi também depoimentos escritos a respeito de Jacinta, inclusive os meus, o que me colocou na inusitada posição de narradora e personagem deste texto, historiadora e fonte ao mesmo tempo, experiência curiosa e, para mim, fascinante.
Finalmente, registrei informações sobre minha mãe recolhidas ao longo do tempo, em geral nas numerosas conversas sobre ela com tias, tios, primas, familiares dela – com quem não perdi o contato –, assim como com outras pessoas que foram próximas a ela, como meu pai, meus tios paternos, ou Mazi e Regina, empregadas durante décadas na casa dos Passos. Apesar do caráter pouco ortodoxo da coleta destas últimas informações (são lembranças minhas de conversas heterogêneas mantidas em situações também heterogêneas, sem objetivo de registro, ao longo do tempo), decidi incorporar várias delas ao texto, por duas razões: porque acrescentam dados relevantes, impossíveis de serem obtidos em outras fontes, ajudando assim a compor o complexo quebra-cabeças chamado Jacinta Passos; e porque, caso não fossem transcritas aqui, se perderiam para sempre. A fim de diferenciá-las dos outros tipos de dados coletados, denominei-as "registros", e assim são referidas nas notas.
Recheei meu texto com numerosas notas, para que o leitor, especialmente se pesquisador interessado em aprofundar-se no assunto, saiba exatamente de onde tirei cada informação, podendo inclusive avaliar-lhe veracidade e importância. O leitor interessado em conhecer apenas a existência de Jacinta Passos poderá concentrar-se exclusivamente no texto, que se sustenta sozinho. Apesar do esforço de pesquisa, esta biografia resulta fragmentada e lacunar, como fragmentada e lacunar foi a existência de Jacinta, militante durante décadas de um partido político clandestino, interna durante anos em sanatórios, como esquizofrênica. Este texto representa um ponto de partida, podendo e devendo ser contestado, reafirmado, complementado, enriquecido.
Busquei fidelidade à biografada – colei-me a ela, às suas experiências, à sua trajetória, às opções que teve a cada fase da vida, às decisões que tomou, às que tomaram por ela, aos sentimentos e ideias que expressou. Sempre que possível, acrescentei informações históricas, para que Jacinta pudesse ser compreendida dentro da época em que viveu (e que, afinal, a conformou), época que já vai longe e foi bastante diferente da nossa.
Tentei evitar duas armadilhas, óbvias numa existência como a dela, e num relato como o meu, filial: procurei fugir tanto do maniqueísmo quanto do anacronismo histórico. E evitei transformar Jacinta em ícone, o que decerto a projetaria, mas lhe roubaria toda a humanidade.
Tenho consciência de que meu texto representa um ponto de vista, uma determinada perspectiva sobre a existência de Jacinta Passos. Espero que, a partir das informações aqui reunidas, novos pontos de vista surjam.
A vida vale por si
Que vontade de cantar:
A vida vale por si
(Canção da liberdade)
Sapo-cururu: infância Jacintha Velloso Passos nasceu na fazenda Campo Limpo, município de Cruz das Almas, Recôncavo da Bahia, em 30 de novembro de 1914. Pertencia a família tradicional do lugar. Seu bisavô paterno, Manoel Caetano de Oliveira Passos, conhecido como "o velho", português de aspecto sisudo, no século XIX fora um dos fundadores do arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Cruz das Almas, próximo a São Félix e a Cachoeira, conseguindo obter terras na área.
O avô paterno de Jacinta,3 Themístocles da Rocha Passos, depois de firmar-se na política local, tornou-se figura proeminente na Bahia, durante a monarquia e o início da república. Proprietário de fazendas, consolidou-se como chefe político e interlocutor da sua região (Cruz das Almas e outras localidades do Recôncavo) junto aos governos baiano e nacional. Elegeu-se duas vezes para o Senado da Província da Bahia (a partir de 1889, Estado da Bahia), recebeu o título de comendador e foi membro da prestigiosa Ordem de Cristo.
As trajetórias de Themístocles da Rocha Passos e de Cruz das Almas se mesclaram. À medida que o arraial crescia, com base na cultura do fumo de excelente qualidade e na fabricação de charutos, consolidavam-se a base eleitoral, a riqueza e o prestígio do comendador Themístocles – hoje, nome da principal praça da cidade. O político, por sua vez, garantia benefícios para seu reduto eleitoral. Cruz das Almas tornou-se rapidamente vila (1889) e cidade (1896), sede de município do mesmo nome. Grandes fábricas de charutos, como a Daneman e a Suerdieck, vieram juntar-se às fábricas caseiras ali existentes. As primeiras gerações dos Passos, inclusive a de Jacinta, foram fortemente influenciadas pelos laços com Cruz das Almas, berço da sua gente, da sua projeção política,
proventos, mentalidade e sensibilidade. 4
O pai de Jacinta, Manoel Caetano da Rocha Passos, filho mais velho do comendador Themístocles, nasceu em 1884, portanto ainda durante o império e a vigência da escravidão; tinha o apelido familiar de "Ioiô" (também grafado "Yoyô"), corruptela de "senhor", "sinhô". Passou a infância entre Cruz das Almas e a fazenda Campo Limpo. Esta era uma propriedade familiar, dedicada à pecuária, onde seu pai fizera construir, em 1865, no alto da mais alta colina,
uma bela casa-grande, com fachada de seis janelões. 5 Após estudar as primeiras letras, Manoel Caetano foi enviado para o seminário, mas ali permaneceu apenas dois anos, segundo a tradição familiar por falta de vocação religiosa. Dedicou-se a outra atividade de prestígio entre as famílias brasileiras de elite: a política, exercida profissionalmente por seu pai, com a qual convivia desde criança. Aos vinte e seis anos de idade, em 1910, durante a República Velha, Manoel Caetano foi eleito pela primeira vez deputado estadual. Não chegou, entretanto, a exercer esse mandato, devido a fortes disputas entre correntes políticas do Estado, que desalojaram temporariamente sua família do poder.
Nesse mesmo ano de 1910, Manoel Caetano casou-se com uma moça quatro anos mais jovem, Berila Eloy, de apelido familiar Bebé, nascida e crescida na região, também descendente de família antiga do local. Um irmão de Manoel Caetano, Alberto, desposaria uma irmã de Berila, Júlia, selando o hábito de casamentos endogâmicos nas famílias brasileiras isoladas em suas regiões e, no caso das mais abastadas, interessadas em conservar o patrimônio dentro do círculo familiar. Manoel Caetano era um homem alto, bonito, de traços finos e porte altivo; tinha o temperamento metódico, severo, reservado e persistente. Berila era uma jovem de estatura baixa e temperamento afável, que o tempo, aliado às responsabilidades familiares, tornariam também enérgica, e autoritária no âmbito
doméstico.6
Ainda em 1910 morreu o senador Themístocles. Seu filho mais velho, Manoel Caetano, herdou a fazenda Campo Limpo, onde nascera e para onde se mudara com a mulher há poucos meses, logo após o casamento. Ali os dois viveram durante dezesseis anos. No Campo Limpo nasceram os três primeiros filhos de Ioiô e Bebé, três meninas, Maria José (Zete), Dulce e Jacinta – que recebeu o mesmo nome da avó paterna, Jacintha Velloso Passos, ganhando o apelido familiar de Jaci. É possível que o nascimento de Jacinta tenha causado decepção aos pais, pois foi a terceira filha do sexo feminino, numa sociedade patriarcal em que um casal costumava aguardar com ansiedade o nascimento do "herdeiro homem", como se dizia.
* * *
Quando Jacinta nasceu, portanto, sua família morava na fazenda
Campo Limpo, 7 situada a seis quilômetros do pequeno núcleo urbano de Cruz das Almas e, no sentido oposto, a cerca de 43 quilômetros das cidades de São Félix, à margem do rio Paraguaçu, e de Cachoeira, na outra margem do mesmo rio. Os trajetos da fazenda até os núcleos urbanos eram percorridas a cavalo, charrete ou carro de boi, pela antiga Estrada Real, caminho aberto no período colonial para servir à movimentação dos tropeiros, e que ainda existe. De Cachoeira podia-se alcançar Salvador por transporte fluvial e marítimo, a partir do século XIX em barcos movidos a vapor.
Embora toda essa área do Recôncavo fosse de povoação antiga, e Cachoeira, sua maior cidade, tivesse se tornado um centro importante durante o século XVIII, à época do nascimento de Jacinta as populações e os núcleos urbanos da região, principalmente de Cruz das Almas, eram bastante modestos. A pacatez da vida ali, baseada em costumes e moral tradicionais – diligentemente conservados pela Igreja e pelos afetuosos e vigilantes laços familiares –, só era rompida durante as espetaculares disputas políticas. Nessas ocasiões, graças às eleições a bico de pena da República Velha e à truculência, os mesmos grupos revezavam-se no poder, garantindo para si o mando do lugar.
Jacinta viveu na fazenda Campo Limpo até os dez anos de idade. Mesmo após seu pai vender a propriedade ao irmão Alberto, e mudar-se de lá, durante vários anos ela e família passaram no Campo Limpo os períodos de férias escolares, que tinham então a duração anual total de quatro meses, além de fazerem frequentes visitas ao lugar, para temporadas mais curtas. A fazenda situa-se sobre suaves colinas, cortadas pelo rio Capivari. De sua bela sede cercada de árvores frondosas, construída ainda na época do senador Themístocles, os Passos podiam descortinar a paisagem, o gado que se espalhava pelos pastos e as casas dos trabalhadores, domésticos e agrícolas, alguns deles ex-escravos, um ou outro, mais velho, nascido talvez em África.
Locus da primeira infância – que, tudo leva a crer, foi feliz –, das brincadeiras e descobertas iniciais do mundo, essa fazenda teve significado importante na afetividade e na poesia de Jacinta. A ela a poeta dedicou vários versos, além de um poema inteiro, "Campo Limpo", escrito em 1939, cujo final resume seu sentimento em relação ao lugar:
Como a árvore que dá sombra e flor e fruto
esconde as raízes na terra de onde veio,
estão mergulhadas no teu solo
as raízes mais profundas do meu ser.
A vida no Campo Limpo forneceu também a Jacinta duas temáticas fundamentais em sua poesia, a da infância e a do povo. O mundo infantil, relicário íntimo cujas memórias cheias de significados repercutiriam vida afora, pode ser considerado uma espécie de
princípio organizador da obra de Jacinta Passos.8 São muitas as referências diretas dela à sua infância, como estes versos de "Cantiga de Ninar", que relacionam uma velha canção de influência africana – provavelmente ouvida pela primeira vez no Campo Limpo – ao apelido do pai de Jacinta, Ioiô:
Su su su
neném mandu,
quem dorme na lagoa
é sapo-cururu!
su su su, cadê papai Ioiô?
Em "Canção da partida", o longo e belo poema que dá título a seu segundo livro, publicado em 1945, Jacinta reuniu, em versos lúdicos evocativos da cultura popular, inovadores para a época, várias lembranças da sua infância – personagens, histórias, lugares, lendas, animais fantásticos, sensações, medos, cheiros... –, algumas diretamente relacionadas à fazenda Campo Limpo:
Campo Limpo, lobisomem,
menina de calundu,
medo de cobra e trovão,
escuridão!
Já a temática do povo e sua redenção – da população brasileira humilde que precisava ter sua condição socioeconômica e educacional rapidamente melhorada – marcou profundamente tanto a poesia quanto a vida de Jacinta. A menina Jaci começou a conhecer a cultura de seu povo ainda no Campo Limpo, na convivência diária bastante próxima com os trabalhadores da
fazenda, apesar da distância social entre eles.9 Dessa intimidade com as manifestações populares, principalmente negras, aprofundada durante os períodos em que morou em outras localidades baianas – não fosse a Bahia um dos berços da cultura popular brasileira –, Jacinta extrairia o sumo da sua poesia, da sua ideologia e da sua atividade política.
Várias de suas poesias fazem referência às pessoas humildes com quem conviveu. Em "Canção da partida", aparecem moradores da fazenda e arredores, de Cruz das Almas, São Félix, Cachoeira e Salvador: Benedito, o negro com cem anos de idade, cem anos de escravidão, Vitalina, aquela que manoca o fumo para fabricar o charuto, Bernadete, preta que nem tição, o vaqueiro Zé do Carmo, o barqueiro Pé de Anjo, Manuel, Minervina, Estelita, Conceição,
Regina, Tomásia... 10 Gente de carne e osso que Jacinta conheceu e, nos versos, foi congregando numa viagem mágica rumo a uma terra bonita, onde seriam respeitados e felizes. Gente como o velho Camilo, morador do Campo Limpo, a quem a poeta dirige uma pergunta aparentemente cândida, no entanto capaz de desvendar toda uma teia de relações sociais:
Camilo, você é pobre
e nunca foi senador,
mas por que é igualzinho
ao retrato de vovô?
Em 1924, quando Jacinta tinha 10 anos de idade, sua família – pais, duas irmãs mais velhas (Zete e Dulce) e dois irmãos mais novos (Manoel Caetano Filho e Lourdes), além da prima Bernadete, chamada em família "Detinha" – se transferiu para a cidade próxima de São Félix, à beira do rio Paraguaçu. São Félix era uma povoação antiga, fundada ainda no período colonial. Seus habitantes mais abastados moravam em casas construídas junto ao Paraguaçu e perto da ponte D. Pedro II, que liga a cidade a Cachoeira, na outra margem do rio. A família de Jacinta residia em sobrado às margens do rio, porém longe da ponte: possuía tradição e prestígio, mas não integrava o segmento mais rico da cidade. A economia de São Félix baseava-se na indústria de charutos, na agropecuária e no comércio, sendo os produtos transportados até Salvador em navios a vapor.
A mudança da família Passos para São Félix tentava criar condições para que o pai de Jacinta retomasse a carreira política. Embora sem exercer cargo político há quatorze anos, desde que fora impedido de cumprir seu primeiro mandato de deputado estadual, Manoel Caetano jamais abandonara a atividade política, praticando-a nos bastidores, em reuniões com grupos locais. Dessa forma, tentava conservar a herança política deixada por seu pai e por seu avô.
Desde 1921, em conseqüência de uma reviravolta política em Cruz das Almas, da qual fora provavelmente um dos artífices, o pai de Jacinta voltara a vislumbrar a possibilidade de candidatar-se a cargo político. Para isso, necessitava ampliar sua base e rede de relacionamentos, angariando eleitores e costurando alianças não apenas em Cruz das Almas, mas também em São Félix e em Cachoeira, centros econômicos e políticos da região. Como expressão da mudança dos ventos políticos, Manoel Caetano, ao se transferir para São Félix, foi empossado como fiscal de consumo do Ministério do Trabalho. Exerceria esse cargo até aposentar-se, trinta anos depois, já na década de 1950.
Em São Félix, Jacinta, seus irmãos e primos estudaram as primeiras letras. Ela demonstrou, desde essa época, curiosidade intelectual e gosto por aprender. Dedicou-se às brincadeiras comuns às garotas da época – picula, amarelinha, roda – e fez a primeira comunhão. Sua família era muito católica, e Jacinta, descrita pelos contemporâneos como menina séria, calada, introspectiva e extremamente responsável, cumpria à risca todos os deveres de boa filha e boa cristã. À época, esses deveres incluíam, para as crianças, o aprendizado do catecismo e uma convivência próxima com as atividades da Igreja – missas, quermesses, novenas, orações domésticas diárias, tanto solitárias como em família –, o universo católico povoando, formando e conformando corações, mentes, imaginações.
Serei rica ou serei pobre? Adolescência
Em 1926, quando Jacinta tinha doze anos de idade, a família Passos mudou-se novamente, dessa vez para a cidade de Salvador. Manoel Caetano vendera a fazenda Campo Limpo a seu irmão Alberto e, com os recursos provenientes dessa venda, mandou construir espaçoso sobrado no bairro de Nazaré, à rua Frei Henrique, nº 29, uma ladeira que liga o final da Baixa dos
Sapateiros ao Jardim de Nazaré.11 O sobrado – que ainda existe, modificado –, onde Jacinta viveu adolescência e juventude, além de alguns anos na maturidade, era espaçoso, porém não luxuoso. Nazaré à época tornara-se um bairro de classe média ascendente, habitado sobretudo por profissionais liberais.
A mudança da família para Salvador atendeu a dois motivos principais: impulsionar a carreira política de Manoel Caetano, colocando-a em novo patamar, e encaminhar a educação e futura vida profissional dos filhos. A venda da fazenda indica que Manoel Caetano considerava a transferência definitiva, ou, ao menos, não pretendia voltar a residir tão cedo no interior. Aos 42 anos de idade, ele dera um importante passo na vida e apostava na nova fase. A mudança provavelmente integrava uma estratégia de ampliação do capital político da família, planejada com os parentes e correligionários ainda em São Felix: a transferência de um Passos para a capital, para junto do poder estadual, se bem-sucedida garantiria à família um formidável reforço no número e importância das alianças políticas. De fato, em 1927, ano seguinte ao da mudança para Salvador, Manoel Caetano candidatou-se a deputado
estadual, sendo eleito. 12
A eleição a deputado conferiu prestígio e poder a Manoel Caetano, no âmbito familiar e na capital do Estado, mas não garantiu a estabilidade econômica dele e de sua família, ao longo do tempo. Numa época em que os deputados não ganhavam muito; a política não era uma atividade necessariamente lucrativa; e a probidade representava um valor, em diversos círculos políticos (Manoel Caetano foi sempre referido, entre correligionários e adversários, como político honesto), não era fácil, para um deputado de família numerosa como a dele, sem outros bens que a casa onde morava, acumular patrimônio capaz de assegurar a tranquilidade econômica da mulher e dos filhos, ao longo da vida.
Mas um político ou aspirante a político da época devia fazer face a uma série de despesas, ligadas à "apresentação social", ao modo como devia se mostrar à sociedade. Manoel Caetano era um modelo de elegância, com seus ternos de linho bem talhados, colete, relógio de ouro, sapatos ou botas bem engraxados, chapéu, tudo da melhor qualidade. Jacinta, sua mãe e irmãs, especialmente depois de se mudarem para Salvador, mostravam-se muito elegantes, sempre bem trajadas. Era preciso ainda receber bem e frequentar ambientes selecionados. Tudo isso gerava despesas altas.
Na turbulenta política nacional, nenhum político, por mais prestigioso, sentia-se seguro em seu cargo ou mandato por muito tempo. A conturbada carreira política de Manoel Caetano, com sucessivas perdas de mandato, foi exemplo disso. Nas fases em que seu partido não estava no poder, ele vivia do salário de fiscal do imposto de consumo do Ministério do Trabalho, capaz de garantir-lhe situação econômica muito mais confortável do que a da grande maioria da população, porém insuficiente para permitir acumulação de patrimônio. Ao morrer, na década de 1950, Manoel Caetano possuía apenas o sobrado de Nazaré, o mesmo de três décadas antes, construído com o dinheiro proveniente da venda da fazenda Campo Limpo.
A preocupação com a estabilidade financeira da família foi responsável pela decisão de Berila e Manoel Caetano de encaminhar as quatro filhas para a Escola Normal. Tentavam assim garantir-lhes profissão socialmente valorizada – uma das únicas consideradas apropriadas para moças do meio social das jovens Passos –, e, ao mesmo tempo, assegurar-lhes a sobrevivência
econômica, se isso fosse necessário, no futuro.13
Jacinta percebeu o contraste, o desequilíbrio entre a aparência e a essência de sua vida familiar. Devido à posição social da família e à carreira política do seu chefe, os Passos deviam ostentar comportamentos e costumes nem sempre fáceis de custear. Era grande a diferença entre o que se mostrava e o que se vivia, esse jogo de espelhos tão comum à história brasileira. Jacinta tratou do assunto em "Canção da partida":
Serei rica ou serei pobre?
Tomásia de Queiroz,
minha criada!
me diga o que somos nós.
O meu pai é deputado
democrata liberal
- viva a eleição!
terça-feira vou ao baile
no Palácio Aclamação.
- Andar na rua sem chapéu
ficará bem para nós?
- Não fica!
Minha irmã vai se casar
com um doutor.
Sou rica!
- Vamos vender Campo Limpo
para pagar nossa casa
na Ladeira do Hospital.
As meninas logo vão
entrar na Escola Normal,
é mais seguro,
professora é meio de vida,
ninguém sabe do futuro.
Minha mãe, minha mãezinha,
todo dia na cozinha,
faz doce para vender:
- Augusto Braço Cotó,
vá entregar no Triunfo
e cobre!
Não diga nada a ninguém,
meu bem.
Sou pobre!
* * *
Jacinta, Zete, Dulce e Detinha, aprovadas no exame de admissão, ingressaram na Escola Normal em 1927. As "quatro Passos", como se tornaram conhecidas, graduaram-se em 1932, quando Jacinta acabara de completar 18 anos de idade. A antiga, prestigiosa e gratuita Escola Normal da Bahia, fundada em 1836, situava-se no distrito da Sé, no bairro do Caquende, sendo frequentada sobretudo
por meninas e moças de classe média e classe média alta. 14 Seus seis anos de duração correspondiam aos do antigo Ginásio, acrescidos da formação específica para professora, mas não davam direito a ingressar diretamente na universidade. Era uma escola considerada de boa qualidade, cujos docentes, bem preparados, transmitiam aos alunos tanto os conteúdos específicos das disciplinas como valores como respeito a Deus, à família e à pátria, conforme não deixa dúvida a primeira estrofe do hino da escola que Jacinta frequentou:
Nesta Escola, Sagrada Oficina,
Que Áureos Frutos Sem Conta Produz,
Aprendemos, à Luz Peregrina,
Às Carícias do Olhar de Jesus,
A Formar Corações Tão Perfeitos
Que Um Instante, Um Momento Sequer
Não se Furtem de Dar, Satisfeitos,
O Que a Pátria, Exigindo, Quiser!
Enquanto isso, as normalistas da Bahia e do Brasil incendiavam a imaginação, nem sempre casta, dos rapazes do Brasil:
Vestida de azul e branco
Trazendo um sorriso franco
No rostinho encantador
Minha linda normalista
Rapidamente conquista
Meu coração sem amor...15
Estudiosa, aplicada, inteligente, Jacinta destacou-se nos estudos, formando-se com láurea na Escola Normal. Gostava, sobretudo, de matemática – foi escolhida a melhor aluna de matemática da escola, pelo diretor, Sólon Guimarães –, e, quando se graduou, passou a ensinar essa matéria. As colegas sempre pediam ajuda a ela, ela sempre sabia as matérias, ensinava a gente na época dos exames, contou sua prima e colega Detinha. Nessa época, começou a firmar-se entre familiares e amigos a imagem de Jacinta como muito inteligente e culta, imagem que se consolidou, com o passar dos anos e das atividades desenvolvidas por ela: Todos falavam de sua inteligência, de seu preparo, comentou Ana Maria, prima em segundo grau que frequentava semanalmente a casa dos Passos, em Nazaré. De nós todos, ela era de longe a mais inteligente, a mais preparada. Tinha muito boa memória e era muito estudiosa e curiosa. Era muito exigente consigo mesma e com os outros,
recordou-se diversas vezes a irmã Zete. 16 Ainda estudante, Jacinta começou a dar aulas particulares, para crianças e jovens.
À época, Jacinta já escrevia poemas, embora não gostasse de
mostrá-los, nem mesmo às irmãs.17 Era reservada, não tinha muitas amigas, porém algumas, como Suzana Imbassay, eram vistas constantemente a seu lado. Calada e quieta, Jacinta, contudo, acompanhava as atividades sociais e religiosas da família. Há notícias, confusas, sobre desavenças familiares entre ela e os pais: adolescente, teria sofrido castigos, principalmente o de ficar reclusa no próprio quarto, mas não são claros os motivos nem o teor dessas
desavenças. 18
Uma foto de Jacinta em família, datada provavelmente do período em que começou a cursar a Escola Normal, mostra-a ladeada pelas irmãs mais velhas, já bonita, morena, o cabelo preto partido ao meio e preso atrás, olhar e postura acanhados, de menina-moça da época. Outra foto, de alguns anos mais tarde (1932, ano da sua formatura), apresentam-na sozinha, vestindo o uniforme de gala da Escola Normal – o "EN" em forma de broche preso à blusa branca, os detalhes sobre a grande gola pontuda –, exibindo expressão serena, quase sorridente; em destaque, seus grandes olhos negros, que parecem fitar o interlocutor, entre risonha e preocupada. Jacinta já demonstrava uma das características mais marcantes de seu temperamento, que a acompanharia durante toda a vida: a dedicação integral a tudo o que escolhia fazer. Minha irmã Jaci nunca fez nada pela metade. Ela sempre foi inteira, completa, total. Foi assim com a religião, com a política, com o casamento, com
todas as atividades que desenvolveu 19 , contou Zete.
* * *
Jacinta, à época, era extremamente católica. A família Passos inteira o era, tendo seus valores e comportamentos fundados na religião, numa fase em que o catolicismo exercia imensa influência sobre a sociedade brasileira, o padre representava a autoridade central, e as atividades sociais eram reguladas pelo calendário da Igreja. A Igreja Católica de então era bem mais ortodoxa do que a de hoje: condenava as outras religiões, defendia códigos morais rígidos e, em geral, acompanhava politicamente os governos, condenando dissidentes. A partir da revolução russa de 1917, tornou-se um dos grandes bastiões mundiais na oposição e luta contra o socialismo e o comunismo.
Ao que tudo indica, à medida que sua adolescência prosseguia, Jacinta ligava-se cada vez mais à religião. Como em tudo o que fazia, não admitia meias ações, relutâncias, hesitações. Por inclinação natural, ou para diminuir a solidão de moça retraída, entregou-se aos sentimentos religiosos e às atividades ligadas à igreja. Jaci era muito carola, relembrou sua irmã, Dulce. De todas nós, era a mais carola, a que queria fazer tudo mais direitinho na igreja. Tinha que ser a que mais rezava, a que mais pagava penitência, a que ensinava melhor o catecismo. Quem diria que ela
mudaria tanto, depois? 20 , continuou. Nessa época, Jacinta tornou-se Filha de Maria. O marianismo, a partir de então, foi um dos fortes traços da sua fé, como se lê nos versos finais de seu poema "Maria", escrito aos vinte anos de idade:
Prisão, torturas, sede, fundas dores,
desprezo, ingratidões, açoite, horrores,
tudo sofreu por nós, pobres mortais.
Ainda entrega no instante da agonia,
imaculado, o vulto de Maria,
o bem maior que todos os demais.21
Jacinta dava aulas de catecismo para crianças, tanto na paróquia de Nazaré, em Salvador, quanto na Fazenda Campo Limpo, onde passava as férias escolares. Ela era uma professora nata, relembrou sua prima Detinha. Gostava de ensinar, sabia ensinar, tinha aquele dom. Mas era exigentíssima com os alunos. No Campo Limpo, Jacinta também deu aulas de alfabetização para os filhos dos empregados da fazenda, que não frequentavam escolas. Ela tinha muito essa preocupação social, essa preocupação com os necessitados, os menos favorecidos. Tinha isso desde pequena. Montou uma espécie de escolinha lá na fazenda. Dava aula nas
férias 22 , lembrou-se Detinha, muitos anos depois.
Atingir o inatingível: juventude
Assim que se formou, Jacinta Passos assumiu integralmente as atividades de professora. Ampliou o número de alunos particulares e o de noites semanais em que lecionava para mulheres pobres, em geral empregadas domésticas, na Escola Paroquial de Nazaré, próxima à sua residência.
Logo foi também contratada como professora de matemática da
prestigiosa Escola Normal onde estudara.23 Era considerada muito segura do conteúdo que ensinava, dedicada e responsável, atenta às estudantes, mas, também, exigente. Uma ex-aluna relembrou:
[Jacinta] me impressionou e marcou pela postura: era uma
professora jovem, mas segura de si, que se dirigia a todos os
alunos, mas sem intimidades. Era delicada com todos, mas, ao
mesmo tempo, sabia guardar distância. [...] Os trajes que usava
eram sem decotes, blusas ou vestidos mais fechados, de
manga, com o penteado preso atrás, como se usava na época.
[...] Eu a achava elegante, no seu passo firme, miúdo, seu
andar compassado. Sua voz era clara, em tom natural, todo
mundo a ouvia sem que precisasse gritar. Dava bastante
atenção aos alunos, mas também conseguia muita disciplina
em sala, só pela sua postura e jeito de ser. Era atenciosa com a
gente, mas não permitia intimidades. Alguns professores
ficavam conversando com os alunos após as aulas, mas ela,
não: retirava-se da sala assim que a aula acabava. Não havia
bagunça em suas aulas. [...] Eu a admirava, e tinha-a por
modelo.24
Outra ex-aluna tinha uma visão mais crítica da professora:
Jacinta era nessa época uma moça muito bonita, alta, mas
muito fechada, não dava conversa para ninguém, não. Era meio
reservada, calada, não dava confiança para ninguém se
aproximar dela. Bom, também a Jacinta já era poetisa e tal,
uma pessoa conhecida, e a gente não era nada. [...] Ela era
muito religiosa, usava um crucifixo no pescoço. Eu, que sou
prima do Edson Carneiro e naquela época já tinha uma certa
simpatia pela esquerda, achava Jacinta religiosa demais.25
Jacinta gostava de dar aulas. Uma foto da época, reproduzida neste volume, a mostra jovem, bonita, bem vestida, sorridente, em frente à Escola Normal. Sua vocação era a de professora, seus familiares repetiram diversas vezes.
No final da adolescência e durante a primeira juventude, Jacinta entregou-se a uma vivência espiritual intensa, a uma relação profunda e direta com Deus, em busca de experiências místicas capazes de responder às suas interrogações angustiadas sobre a natureza da experiência religiosa e os males do mundo. Praticava a religião católica com uma entrega total: Todas nós éramos religiosas, mas Jaci fazia tudo com muita intensidade; ela era a mais religiosa de todas, a que levava a religião mais a sério, disse sua irmã Lourdes. Às vezes a gente dava uma 'matada' nas obrigações
religiosas, mas ela, nunca: cumpria tudo.26
Poemas de Jacinta da década de 30, publicados em seu primeiro livro, Momentos de poesia, oferecem uma ideia dos seus
sentimentos religiosos.27 Destaca-se nos versos a angústia existencial, íntima, ligada à frustração, à impotência por não conseguir alcançar a essência do divino, por não atingir o inatingível, como a própria Jacinta expressou no poema "O mar", escrito aos 21 anos de idade:
Por que esta sede imensa de saber,
desvendar os segredos escondidos,
despir as coisas
de suas transitórias aparências,
penetrar no seu âmago,
ver a essência do ser?
Pobre desejo humano esbarra, mudo,
ante o mistério de tudo.
[...]
Ouço vozes estranhas... Vem do fundo
do mar ou de dentro de mim
esse surdo clamor?
São vozes de sofrimento, de amarguras,
vozes de todas as criaturas
que falam por minha voz.
Todas as criaturas que sofreram
esta ânsia indefinida
- angústia milenária como a vida -
de querer atingir o inatingível.
[...]
impotente... impotente...
A angústia existencial de Jacinta, expressa em vários poemas de Momentos de poesia, só encontraria um fim, ela intuía, quando conseguisse entregar-se totalmente ao Senhor, n'Ele dissolver sua alma (após a morte física?). A solução para a angústia, Jacinta achava então, seria mística, como expressou em "Cântico de exílio", de 1937, poema emblemático dessa época:
Compreendi, Senhor, compreendi
a voz que sobe
do fundo misterioso do meu ser.
Esta angústia que vive dentro de mim,
Somente há de ter fim,
quando nada mais existir entre nós,
quando, num dia sem crepúsculo,
eu me abismar em ti,
no teu esplendor absoluto.
No entanto, a poeta se sente fraca, não consegue realizar essa união profunda que ela exigia com o sagrado, como revela no final do mesmo poema. Por isso sua angústia existencial aumenta a cada dia.
Do conjunto dos poemas desse mesmo livro emerge ainda, em geral expresso em termos místicos, um sentimento de profunda solidão (Há em torno de mim muralhas glaciais. / Vivo encerrada dentro de mim mesma, poema "Solidão", escrito aos 22 anos de idade), que leva a poeta à sensação de estar apartada, exilada do mundo (Dos meus lábios, irrompe como um grito / meu cântico de exílio, em "Cântico de exílio"). Momentos de poesia, que se inicia como um livro quase cândido de adolescente sentimental, vai aos poucos se transformando em um grito de socorro de uma mulher que percebe os mistérios profundos da existência e da espiritualidade, porém se sente sozinha, imperfeita e impotente para enfrentá-los e decifrá-los. Jacinta Passos quer nunca menos que o máximo, não o alcança e sofre, pois tem o coração ardente e a mente perfeccionista:
Por que este desejar que não se cansa,
por que este destino errante do correr
sempre atrás dum bem que não se alcança?
Paralelamente a essa entrega mística – experiência sempre individual –, Jacinta começou a reforçar também a prática do que poderíamos chamar de "religião social", isto é, devotar-se à catequese, ao ensino, à difusão dos princípios do catolicismo, principalmente entre os mais pobres. Nesse período, intensificou as aulas de catecismo para crianças, no Campo Limpo como na paróquia de Nazaré.
A partir dos dezoito anos de idade, começou a sentir-se atraída pela doutrina social da Igreja Católica, que desde o final do século XIX procurava, no início timidamente, adaptar seu pensamento e prática à realidade mundial criada pela Revolução Industrial, a um mundo que se transformava rapidamente. Para integrar essa nova realidade, parte da Igreja desenvolvera noções como a de "bem comum"- os bens comuns seriam os de responsabilidade de toda a sociedade –, a de "destinação universal dos bens", isto é, de que os bens deveriam ser divididos com igualdade entre os homens, e a da
importância da solidariedade social.28 Jacinta leu filosofia cristã, inspirando-se em pensadores católicos contemporâneos, talvez em Jacques Maritain.
Ela ligou-se também ao Mosteiro de São Bento, onde encontrou uma rica biblioteca, além de monges dedicados ao estudo e ao ensino da doutrina social católica. Durante suas diversas visitas ao mosteiro – passava muitas tardes lá, as visitas eram do agrado da família – relacionou-se, sobretudo, com D. Beda Keckeisen, monge alemão que, à época, se dedicava à tradução do latim para o português do Missal cotidiano. Jacinta auxiliou D. Beda em etapas pontuais desse trabalho, por exemplo versificando um pequeno trecho do Missal, referente ao Espírito Santo. Em D. Beda e nos outros monges, ela encontrou interlocutores e mentores que, somados à sua própria experiência e busca interior, lhe deram elementos para migrar do catolicismo místico para o catolicismo
social.29
Além disso, as relações com os beneditinos colocaram Jacinta em contato com pensadores e publicações católicas de âmbito nacional. Anos depois, em 1940, dois de seus poemas foram publicados na revista A Ordem, do Rio de Janeiro, capital federal. Essa revista era à época dirigida por Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um
dos baluartes do pensamento católico leigo no país. 30
* * *
Foram anos agitados para os Passos. Manoel Caetano, pai de Jacinta, que fora eleito deputado estadual em 1927, perdeu o mandato três anos depois, em decorrência da Revolução de 1930. Era um político afinado com os grupos locais e regionais, ligados à ideologia e às práticas da chamada República Velha (1889-1930), justamente aquelas que Getúlio Vargas e seus aliados derrotaram em 30. Até 1934, Manoel Caetano exerceu suas atividades políticas nos bastidores, subsistindo com o salário de fiscal do imposto de consumo. Nesse ano, graças a uma reformulação das alianças políticas, foi mais uma vez eleito deputado estadual. Perdeu de novo o mandato três anos depois, em 1937, no início do Estado Novo, o período ditatorial de Getúlio Vargas. Manoel Caetano era partidário fiel de Juraci Magalhães e, quando este renunciou à interventoria da Bahia em 1937, também se recolheu, para só retornar à cena política bem mais tarde. Foram, portanto, anos de turbulência e insegurança política, que Jacinta tão bem registrou no poema "Canção da partida".
Os filhos de Berila e Manoel Caetano cresciam, formavam-se, casavam-se. O único filho homem do casal, Manoel Caetano Filho, o Nelito, ingressara na Faculdade de Medicina em 1933. Inteligente, curioso, interessado nos destinos do mundo, leitor voraz, logo entrou em contato com os movimentos estudantil e literário que se
gestavam muito intensamente na Bahia. 31
Nasceu nessa época a afinidade entre Jacinta e seu irmão. Caetano Filho era o único na família a compartilhar a mesma paixão dela por leitura, poesia, filosofia, a ter a mesma mente inquieta, disposição de luta e coração generoso, a interessar-se por questões sociais. Ele era mais jovem do que Jacinta, porém, sendo homem, gozava de uma liberdade de movimentos negada a ela pela sociedade; além disso, os pais só permitiam que frequentasse certos ambientes na companhia do irmão. Assim, foi Nelito quem a aproximou tanto dos estudantes que faziam política na cidade da Bahia quanto dos intelectuais, católicos e comunistas, que faziam tanto arte como política. Em companhia do irmão, Jacinta compareceu às primeiras reuniões e manifestações públicas, políticas, que tanto marcariam sua vida. No irmão, de temperamento ao mesmo tempo entusiasmado e doce – bem mais doce do que o dela –, Jacinta encontrou fraternidade, amizade, apoio e diálogo; ele a ajudou a ultrapassar os limites estreitos que a sociedade e as famílias impunham às moças do seu segmento social.
Foi também Caetano Filho quem apresentou Jacinta àquele que se tornaria seu primeiro namorado, ao menos o primeiro oficial, assumido, apresentado à família: o estudante de Medicina, depois
escritor e jornalista, Giovanni Guimarães.32 Colega de Caetano Filho na faculdade, Giovanni conheceu Jacinta no sobrado dos Passos, onde acadêmicos do curso de Medicina costumavam reunir-se para estudar. Mãe de quatro filhas solteiras – Zete, Dulce, Jacinta e Lourdes – e tia de diversas sobrinhas casadoiras, D. Bebé Passos, senhora por natureza afável, tratava particularmente bem os colegas do filho, enxergando neles possíveis futuros genros.
Giovanni Guimarães, namorado de Jacinta, era alegre, envolvente, amável, muito inteligente, adorava ler, escrevia bem, e estava
profundamente interessado em política. 33 Frequentava reuniões de grupos esquerdistas e participava das passeatas estudantis que ganhavam força em Salvador, principalmente as acontecidas após 1937, quando o golpe militar chefiado por Getúlio Vargas instalou no país a ditadura do Estado Novo. O Rio de Janeiro, até então o principal polo do movimento estudantil, sofreu enorme repressão política; durante certo tempo, Salvador se tornou o centro aglutinador das esquerdas no Brasil.
Assim, além de encantar o coração de Jacinta – que havia se transformado numa jovem muito bonita, elegante, de traços finos, porte esbelto, sensível e inteligente –, Giovanni ajudou-a a completar sua formação literária e, principalmente, política, aproximando-a da esquerda, pela qual ela já se sentia atraída. Não por acaso o primeiro poema de Jacinta com cunho social, "Comunhão", foi escrito nessa época, em 1939. D. Bebé não devia suspeitar das reais atividades do distinto e educado acadêmico de Medicina, amigo de seu filho e namorado de sua filha...
Não há certeza sobre quando o namoro entre Jacinta e Giovanni começou nem quanto tempo durou. A tradição oral dos Passos não registra os motivos do final desse namoro. Há notícias confusas, de fontes diferentes, sobre desentendimentos entre os dois, tendo como motivo o envolvimento de Giovanni com outra mulher, o que teria aborrecido muito Jacinta, e feito com que ela terminasse o relacionamento. Mas não foi possível apurar essas informações em bases confiáveis. Um fato é que o namoro terminou, talvez com sofrimento para Jacinta. Outro fato é que Giovanni e Jacinta continuariam amigos, pois nessa qualidade os encontramos anos
mais tarde, em fins de 1943, em visita ao escritor Jorge Amado.34
* * *
Jacinta estava interessada em desenvolver sua poesia. Nesta fase, escreveu com constância (seu primeiro livro foi quase todo criado no período), leu bastante, especialmente poesia e filosofia. E se aproximou de escritores e intelectuais locais, a quem mostrou versos, passando a participar de suas discussões literárias. Ela e o irmão, também poeta, começaram a frequentar os círculos literários baianos, e se ligaram à Ala das Letras e das Artes (ALA).
Criada em 1936, a ALA, movimento artístico que reunia intelectuais e artistas locais, era uma espécie de resposta baiana ao modernismo. Pregava "renovação dentro da tradição", isto é: aceitava algumas inovações modernistas, mas sem romper com os cânones literários anteriores. Já a chamada "Academia dos Rebeldes", outro movimento literário baiano da mesma época, propunha cortes radicais com a tradição artística.
A ALA fora fundada e era dirigida por Carlos Chiacchio, o mais importante crítico literário da Bahia durante a primeira metade do século XX. "Homens e Obras", sua coluna semanal sobre literatura, publicada em A Tarde, o mais lido jornal da capital baiana, tornara-se muito influente, responsável tanto pela consagração como pelo
rebaixamento de qualquer novo escritor baiano.35
Em 1937, Chiacchio publicou em sua coluna um texto muito elogioso sobre "a poeta Jassy Passos", apresentando-a aos intelectuais, analisando sua produção poética, e incluindo na análise dois poemas integrais dela, "Maria" e "Meus Sonho". A crítica de Chiacchio representou para a jovem poeta um rito de passagem: daí em diante, Jacinta Passos foi apontada e reconhecida publicamente na Bahia como poetisa, seus poemas saíram publicados em jornais e revistas, pouco depois também em livro.
Antes mesmo das conexões locais, Jacinta estabeleceu os primeiros vínculos com publicações de fora da Bahia: em 1936, aos 22 anos de idade, publicou dois poemas – "Maria" (de forte influência marianista) e "Incerteza" – em dois números da revista O Malho, do Rio de Janeiro, capital do país. O Malho era muito conhecida, pois fora fundada já em 1902, como publicação literária e de charges; após ser interrompida em 1930, reaparecera em 1935, exclusivamente como revista literária. A jovem poeta tentava
despontar no cenário nacional.36
Solteira, bonita, guerreira
Em 1939, estourou a Segunda Guerra Mundial, que, nos seis anos seguintes, seria o principal acontecimento a comandar os destinos do mundo – comandando, também, o de Jacinta Passos. A jovem professora e escritora mobilizou integralmente sua força, inteligência e espírito de luta para combater, por todos os meios ao seu alcance, o fascismo e o nazismo de Mussolini e Hitler, apoiar a entrada do Brasil na guerra e, a partir do último ano de batalhas, lutar pelo retorno do nosso país à democracia.
Em Salvador como no restante do Brasil, a população demorou a envolver-se com os assuntos da guerra, para isso contribuindo a dificuldade de comunicação com os campos de batalha e a posição de neutralidade do governo brasileiro, que tentava conquistar vantagens dos dois lados em luta. Entretanto, à medida que a guerra avançava e chegavam mais informações, a sociedade baiana se mobilizou. A partir de 1941, passou a organizar-se com entusiasmo contra o fascismo, a exigir que o Brasil ingressasse na guerra para lutar com os aliados – o que aconteceu em agosto de 1942 –, e a cooperar com as tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), enviadas à Itália, e com os aliados.
Jacinta viveu intensamente esses acontecimentos. Informava-se sobre a guerra, lia todos os jornais e livros que encontrava sobre o assunto, aprofundava-se no estudo do surgimento do fascismo, ouvia no rádio as últimas notícias sobre a guerra. Ao lado do irmão, do namorado, dos amigos, participou de comícios, passeatas, atos públicos, manifestações de rua que se organizavam na cidade em torno da guerra, cada vez com mais frequência. Escreveu vigorosamente contra o nazifascismo nos jornais, e trouxe a questão da guerra para a sua poesia. Trabalhou, durante anos, como voluntária na Legião Brasileira de Assistência local, a LBA, que desenvolvia intenso trabalho de esclarecimento e mobilização da sociedade, de arrecadação de fundos, voluntariado em hospitais e apoio às famílias baianas cujos membros haviam sido mandados para a guerra. Com sua dedicação e espírito de liderança, Jacinta chegou a ocupar uma das diretorias da LBA, sempre na qualidade
de voluntária. 37 Continuava com seu emprego de professora na Escola Normal.
As atividades de Jacinta relativas à Segunda Guerra, em princípio, não se chocavam com os valores familiares em que fora criada. Ao contrário: embora em menor grau do que ela, seus familiares também se integraram ao esforço de guerra, uma atividade que mobilizava o país e aproximava classes sociais e setores diversos, em prol do objetivo maior e comum da luta antifascista e do apoio aos combatentes brasileiros. Uma das palavras de ordem mais difundidas na Bahia, para sensibilizar os setores conservadores da sociedade, era: Ser integralista é ser traidor; O fascismo é contra Deus, contra a pátria, contra a família. A LBA era integrada também
por moças e senhoras da mais alta sociedade baiana. 38
Ocorre que, ao lutar contra o fascismo, Jacinta, como era do seu feitio, foi além e mais fundo: envolveu-se também com os setores de esquerda que integravam os movimentos antifascistas, inclusive
com os militantes do Partido Comunista Brasileiro, o PCB. 39 Estes, em grande parte estudantes, abraçavam com entusiasmo a causa dos aliados, procurando influenciar a sociedade brasileira para posicionar-se contra o integralismo e contra a ditadura de Getúlio Vargas. O irmão de Jacinta, Manoel Caetano Filho, era um desses jovens entusiastas das lutas. Ele, como vários de seus amigos,
tornara-se também um militante do PCB.40 Nos comícios e atos públicos a que comparecia, Jacinta passou a ouvir cada vez com mais interesse os discursos e ideias dos esquerdistas; estudou com afinco os preceitos do socialismo e do comunismo, aprofundou-se no estudo da história mundial recente, especialmente no da revolução russa; leu as publicações do PCB que lhe passavam.
Tudo isso mudou a sua cabeça, levando-a a caminhos e objetivos
bem distantes dos da sua formação inicial. 41
Em 1942, Jacinta Passos lançou seu primeiro livro, em conjunto com o irmão, também poeta. Publicado em Salvador pela Editora Bahiana, às expensas dos autores, Nossos poemas reuniu na primeira parte, intitulada "Momentos de poesia", poemas de Jacinta Passos, e na segunda, "Mundo em agonia", poemas de Manoel Caetano Filho. O volume foi muito bem recebido pela crítica baiana, consolidando a presença dos dois poetas no meio intelectual do
Estado. 42
Os poemas publicados de Jacinta haviam sido escritos nos anos anteriores (o primeiro deles datando de 1933, quando a autora tinha 19 anos). Conforme assinalado, são poemas intimistas, sobretudo religiosos, versos místicos que expressam a profunda união da poeta com o sagrado, sua entrega e busca incessante do absoluto, bem como seu sofrimento diante da própria imperfeição e dificuldade para integrar-se ao divino.
A partir de 1940, entretanto, esse conjunto religioso começa a sofrer brechas, a ser enriquecido por outros temas, por novos interesses que se abriam na vida de Jacinta. O poema "A Guerra" é uma referência direta à Segunda Guerra Mundial, confirmando a preocupação social iniciada desde "Comunhão", do ano anterior, e reafirmada em "Canto do amanhã", do ano seguinte, e "Canto da hora presente", de 1942. Já "Compreensão", "Poema de amor", "Limitação", "Mulher", "Ressonância", "Noturno em Palmira", "Mensagem aos homens", "O momento eterno", todos de 1941, formam um conjunto poderoso de poemas de amor, expressando as vivências, alegres e tristes, da primeira grande paixão de Jacinta, tratada mais à frente neste texto. "Cantiga das mães" aborda de forma original a experiência feminina da maternidade; "Canção Simples", por sua vez, denuncia as diferenças de significados da perda da virgindade, para o homem e para a mulher, uma experiência pessoal que Jacinta transformou em tema social, afirmando sua preocupação com o papel subalterno da mulher na sociedade brasileira.
* * *
Uma publicação que aglutinou os jovens intelectuais da Bahia à época foi a revista Seiva, fundada em 1938 pelo jovem comunista João Falcão, financiada pelo pai dele, João Marinho. Numa época em que a ditadura do Estado Novo cerceava os meios de expressão do país, Seiva, conduzida por um grupo de jovens brilhantes, representou um espaço arejado de circulação artística e de ideias, publicando trabalhos de intelectuais e artistas locais, de outros estados e de outros países das Américas. Serviu, igualmente, como polo de atração e aproximação entre jovens intelectuais e o PCB. Jacinta Passos, leitora entusiasmada de Seiva, logo se tornou também sua colaboradora, publicando na revista poemas e artigos.
Wilson Falcão, que assumiu a direção da revista quando seu irmão João, devido a perseguições políticas, foi obrigado a exilar-se, lembra-se de Jacinta Passos, assim a evocando:
Jacinta foi colaboradora espontânea de "Seiva", não foi nossa
funcionária. Era uma grande poeta, por isso publicávamos os
poemas dela. Lembro-me que Jacin ta publicou lá ao menos
dois belos poemas, um era sobre Stalingrado, e o outro, não
tenho certeza, mas acho que era sobre a situação da
escravidão e dos pretos na Bahia.43 Os poemas foram
publicados ilustrados. [...] Como eu os ilustrava? Eu cortava um
pedaço aqui, outro ali, e enfeitava o poema. A senhora é bonita
como ela?
– Não, eu me pareço com meu pai. Como ela era?
– Jacinta era uma morena bonita, tinha uma boa estatura.
Andava vestida com bom gosto, era elegante, se tratava bem.
Era ativa, participava dos movimentos estudantis ativamente.
Era ativista. Com aquela tranquilidade que lhe era peculiar...
– Ela era tranquila?
- Sim, era calma, aparentava tranquilidade... Mas corajosa,
porque pegou um período de muito movimento social,
movimento estudantil pela entrada no Brasil na guerra etc.44
Jacob Gorender, que mais tarde se tornaria um dos intelectuais e dirigentes do PCB de maior prestígio, traz estas recordações de Jacinta:
Conheci Jacinta Passos quando fui secretário da revista Seiva,
em 1942 ou 43. Eu nasci em 1923, portanto era muito jovem à
época, eu era um rapazola. Mas já trabalhava em jornal em
Salvador, e desde 1942 pertencia ao PCB.
Não me lembro muito de Jacinta porque só a conheci durante
esse período da Seiva, em Salvador, em encontros na redação
da revista. Lembro-me dela como uma poetisa já conhecida,
que esteve várias vezes na redação, pois era colaboradora da
revista. A figura dela era extraordinária porque, na época, ser
poetisa, dedicar-se à poesia era raro; mulheres ativas no
terreno das letras eram raras. Ela era uma mulher culta, uma
escritora que se destacava por esse motivo.
- O sr. se lembra da figura dela, da pessoa dela?
- Eu me lembro, sem pormenores, de uma mulher elegante,
altiva. Ela me parecia uma mulher rica, filha da elite local. Me
dava essa impressão, ao menos.45
Ativista política de esquerda, Jacinta jamais perdeu o ar, a postura, os gestos de mulher "altiva", "elegante", "vestida com bom gosto", de mulher "da elite local", como notaram à época seus colegas da Seiva. Não perdeu esse jeito nem nessa fase nem depois, mesmo havendo militado, durante décadas, no PCB, e havendo enfrentado muitas dificuldades econômicas. Sua beleza e sua altivez foram unanimidade nos depoimentos dos que a conheceram, em diversas épocas de sua vida.
Durante os anos de 1942 e 1943, Jacinta Passos publicou
semanalmente textos no jornal diário 46 O Imparcial , de Salvador.
Fundado em maio de 1918, o jornal fora comprado por Franklin Albuquerque, grande proprietário rural (coronel) do médio São Francisco. Em 1942, era dirigido por Franklin Junior, sendo redator chefe Wilson Lins, também filho de Franklin de Albuquerque.
Embora não fosse uma publicação de esquerda, O Imparcial aliara-se à campanha pela entrada do Brasil na guerra e contra o nazifascismo, dedicando quase todas as suas páginas a esses assuntos. O escritor Jorge Amado, que retornara ao Brasil em 1942 do exílio na América do Sul, fora preso e depois solto – com a condição de que residisse em Salvador e de lá não saísse –, convidado por Wilson Lins, começou a escrever uma coluna sobre a
guerra para 47 O Imparcial , intitulada "A Hora da Guerra".
Em torno de Jorge Amado reuniram-se em Salvador vários intelectuais de esquerda, alguns amigos antigos, alguns novos amigos, entre estes Manoel Caetano Filho, irmão de Jacinta, ligado aos movimentos sociais em Salvador há anos, e que ingressara oficialmente no PCB. Jorge Amado e Caetano Filho logo se tornaram bons amigos. Caetano apresentou sua irmã Jacinta ao escritor, crescendo entre eles uma boa amizade. Por influência de Jorge, Caetano e Jacinta passaram também a escrever em O Imparcial.
A contribuição de Jacinta ao jornal foi muito regular, conforme se comprova nos artigos de sua autoria reunidos nesta edição. Ela escreveu sobretudo sobre a situação política do Brasil e do mundo, os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, a necessidade de combater o nazifascismo, a mobilização das mulheres, as opções que via a cada momento para a sociedade brasileira. Foram artigos inflamados, escritos no calor da hora, alinhados com a posição das esquerdas e, muitas vezes, já com as do PCB, partido ao qual ela
ainda oficialmente não aderira.48 Jacinta também publicou poemas, como a primeira versão de "Sangue negro", aparecido no "Suplemento" do jornal, em 1º de agosto de 1943. A partir de fevereiro de 43, por um período breve, dirigiu ainda uma "Página Feminina", com matérias que iam desde poemas seus até artigos sobre beleza feminina. Intensa atividade, que a tornou uma das mais ativas jornalistas da Bahia à época e a mobilizou completamente, o uso de sua pena a serviço da política.
* * *
Jacinta permaneceu católica com certeza até 1942, ano em que foi madrinha de batismo de sua sobrinha Maria, primeira filha de sua irmã Lourdes. Nessa época, porém, sua religiosidade já era bem diversa das experiências místicas da adolescência e primeira juventude. Tratava-se agora de um catolicismo marcado por ideias sociais, pela necessidade, justamente por ser católica, de ajudar a todos os que sofriam e, mais do que isso, de ajudar a transformar a realidade social que fazia as pessoas sofrerem. Isso se torna claro nos versos finais de seu poema "Nós, os cristãos", também de 1942: