Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 17 de 21 · parte 1/3

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Jacinta Passos, coração militante

Textos jornalísticos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Sua luta é flâmula, é bandeira desfraldada, bússola e estrela,

sangue e alimento das nossas melhores esperanças

(Separando para unir, O Imparcial, 1946)

 

A jornalista Jacinta Passos

Os textos jornalísticos de Jacinta Passos reunidos neste volume – pela primeira vez editados em livro – pertencem a três períodos distintos. O primeiro corresponde aos anos 1942 e 1943, quando Jacinta publicou com regularidade artigos no jornal O Imparcial, tornando-se uma das mais ativas jornalistas da Bahia. O segundo, aos anos de 1945 e 1946, quando, candidata a deputada federal constituinte, publicou, no jornal comunista O Momento, textos e entrevistas de caráter sobretudo político. E o terceiro, relativo ao ano de 1956, quando, numa fase difícil de sua vida, Jacinta voltou a colaborar em O Momento, de forma intensa e assídua, escrevendo basicamente sobre literatura.

Trata-se de três momentos muito distintos da existência e da

produção de Jacinta Passos.1 No primeiro, a jovem (28 anos) Jacinta desabrochava como intelectual comprometida com os rumos do seu país e do mundo. Acontecia a Segunda Guerra Mundial e, em 1942, a entrada do Brasil na guerra. Muitos brasileiros jovens, como Jacinta, amadureceram em meio às discussões tensas e apaixonadas sobre a luta entre o fascismo e a democracia, sobre a ascensão do socialismo, sobre o papel do Brasil – que então vivia sob a ditadura do Estado Novo – naquela guerra mundial e naquele novo mundo que se desenhava. As posições se radicalizavam. Mesmo sob vigilância e repressão os movimentos sociais se organizavam, e o país repensava seus rumos.

Jacinta participou ativamente desse período. Durante a década de 1940, tornou-se jornalista muito atuante na Bahia, uma figura conhecida, assumindo posições públicas sobre temas como a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, os caminhos para a organização das mulheres, os rumos da política nacional, o papel dos intelectuais nos destinos do país... Já se distanciara do catolicismo da infância e primeira juventude. Embora ainda católica, cada vez mais se ligava e se identificava com as ideias, movimentos e intelectuais de esquerda. Sua amizade com o escritor Jorge Amado, que também colaborava em O Imparcial, data dessa

época.2 É possível que o próprio Jorge tenha sido responsável pelo ingresso de Jacinta e do irmão dela, Manoel Caetano Filho, nesse jornal. De propriedade do coronel Franklin de Albuquerque, O Imparcial – então dirigido pelo filho do proprietário, o jovem e entusiasmado jornalista e escritor Wilson Lins -, assumira posições contundentes contra o fascismo e a favor da entrada do Brasil na guerra, tornando-se veículo importante na Bahia, na luta contra o nazifascismo.

Os textos de Jacinta, claros, combativos, entusiasmados, reforçaram a posição do jornal. Creio também que moldaram para sempre o pensamento e o comportamento da mulher Jacinta e da autora Jacinta: referências a eventos e ideias dessa época, como o nazifascismo, a Segunda Guerra, o socialismo, a URSS, a Entente etc. estão presentes em grande parte dos textos de Jacinta, nos de prosa como nos de poesia, ao longo de toda a sua vida. Parece-me que os temas e discussões dessa época conformaram-lhe a mente, e talvez, quando se viu depois lutando contra o que foi diagnosticado como esquizofrenia, tenha recorrido a eles como espécie de relicários, nichos de um tempo de esperanças, energias e boas realizações a que podia tentar retornar. Suas dificuldades psicológicas podem ter contribuído para isso, mas ela não foi a única – ao contrário, foi uma entre centenas, talvez milhares – das pessoas que nunca mais se afastaram dos ideais dessa época sedutora, que viveram quando jovens.

A atividade de Jacinta Passos em O Imparcial foi intensa. Além dos artigos políticos já referidos, a partir de fevereiro de 1943 ela passou a dirigir a "Página Feminina", uma página inteira semanal do jornal, que preenchia com poemas, seus e de outros, com pequenos textos que procuravam relacionar as mulheres à política – como "As mulheres baianas e a guerra" ou "O trabalho das mulheres na mobilização da retaguarda nacional" -, com charges do conhecido Nássara, e também, o que parece ter sido para Jacinta uma concessão, com artigos de "interesse feminino", como o "Modas femininas – sugestões para o tratamento das unhas", assinado por uma Patricia Linday, que tanto pode ser uma autora de língua inglesa traduzida por Jacinta como um pseudônimo da própria Jacinta.

Os artigos de Jacinta Passos em O Imparcial a tornaram conhecida na cidade, reunindo em torno dela bastante simpatia, já que boa parte da população baiana era contrária aos nazistas. À época Jacinta também publicava suas poesias em outros jornais, e em 1942 lançara, junto com o irmão, seu primeiro livro de poemas. Esse conjunto de atividades deixava sua família orgulhosa e a tornava uma referência na cidade.

Os textos jornalísticos de 1945-46, publicados em O Momento, de Salvador, jornal de propriedade do Partido Comunista Brasileiro, expressam outro momento da vida de Jacinta. Já casada, tendo vivido fora da Bahia (em São Paulo, Porto Alegre e Rio), militante obediente e entusiasmada do PCB, legalizado em 1945 – à época era inclusive candidata a deputada federal constituinte pelo partido -, Jacinta publicou no jornal textos intimamente ligados ao momento político que vivia, como o discurso que proferiu durante o comício para Luiz Carlos Prestes, então candidato a senador, em Salvador, ou a entrevista que, como candidata, deu ao jornal. Foi uma época de legalidade e ascensão do PCB, uma época de esperança para os comunistas, e os artigos jornalísticos de Jacinta expressam essa realidade, da Bahia, do Brasil, e da sua vida. Creio que muitas dessas ideias, dogmas do Partido ao qual Jacinta foi fiel até morrer, cristalizaram-se em sua mente, tornando-se posteriormente verdadeiras obsessões para ela. Aqui, novamente, ela não foi a única. Até hoje, mais de duas décadas após a queda do muro de Berlim e a derrocada do socialismo, ainda há pessoas, no Brasil e no mundo, que pensam como ela pensava.

Já os artigos publicados por Jacinta Passos no mesmo O Momento, ao longo do ano de 1956, correspondem a outra fase de sua existência. Aos 42 anos, separada do marido e da filha, já havia sido diagnosticada como esquizofrênica e internada em sanatórios do Rio de Janeiro e São Paulo. Morava de novo na casa dos pais, em Salvador, militante de um partido clandestino, muito perseguido, pequeno, em crise, fragmentado internamente. E sofria o estigma da loucura. Jacinta apresentou-se a O Momento disposta a exercer ali parte de sua militância, colaborando gratuitamente no que fosse necessário. Sua consciência e seu dever de militante a levaram a agir assim; os constrangimentos que causou e a que foi submetida

constituem parte muito triste de sua história pessoal. 3

Jacinta trabalhou exaustivamente nessa fase. Além de, como consta na biografia, "pentear notícias", escrevia muito, a maioria dos textos dessa última fase versando sobre literatura. Além de oferecer resumos de escolas, gêneros ou tendências literárias, Jacinta também exerceu a crítica, analisando e expressando opinião franca e bem fundamentada sobre escritores da Bahia e de outros Estados, como o teatrólogo paulista Abílio Pereira de Almeida, cuja peça estreara em São Paulo. Num jornal que estava à míngua, publicado em geral com 4 páginas, Jacinta Passos chegou a criar e a se responsabilizar por uma página inteira, "Literatura e Arte", onde noticiava, divulgava e discutia diversos aspectos do mundo das artes, a partir da perspectiva de sua diretora. Apesar da excessiva perspectiva política na análise literária – lembre-se que o realismo socialista era a tendência literária defendida pelo PCB -, Jacinta revela cultura e sensibilidade no trato das questões literárias.

Ao longo de toda a sua vida, Jacinta Passos valorizou os espaços da imprensa como meio de expressar ideias. Pelos jornais, dialogou intensamente com os contemporâneos, apontando-lhes rumos em geral na contramão dos estabelecidos, às vezes à frente do seu tempo. E foi construindo pontes sólidas entre seus ideais e sua poesia, cada vez mais imbuída de temáticas políticas e sociais. Muitos de seus poemas foram originalmente publicados na

imprensa, e só mais tarde reunidos em livros.4 Os textos jornalísticos de autoria de Jacinta lançam luz sobre a trajetória pessoal, pública e artística desta mulher que não separava militância de vida particular nem de poesia.

Os textos jornalísticos aqui apresentados foram pesquisados nos jornais da época, grande parte deles em péssimo estado de conservação. As coleções dos jornais baianos O Imparcial e O Momento, arquivadas na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, embora estejam se desfazendo, até o momento ainda não foram microfilmadas nem digitalizadas. Os textos dessas duas coleções aqui incluídos tiveram de ser fotografados, antes de transcritos. Sua ortografia e acentuação foram atualizadas, visando facilitar a leitura. Acompanham os textos algumas notas explicativas.

É possível que publicações da chamada "imprensa nanica" e da imprensa clandestina em que Jacinta Passos comprovadamente colaborou, mas cujos textos não foram localizados, tenham desaparecido para sempre. É, contudo, provável que, em publicações hoje espalhadas por diversas bibliotecas e arquivos do país, existam textos jornalísticos de Jacinta ainda não identificados. Espero que a presente edição contribua para localizá-los e divulgá-los.

 

Jornal O Imparcial , 1942-1943

O sentido atual da literatura5

Na obra literária, o artista, dentro da sua condição humana, exprime ou representa a realidade. E como, dentro dessa condição humana, a realidade é alguma coisa móvel que se transforma sem cessar, a literatura é também um movimento. A novas formas de vida correspondem sempre novas formas literárias. A Divina comédia supõe a época medieval com seu estilo de vida. Somente um hebreu poderia ter escrito os Salmos. Os interesses vitais que, depois da Idade Média, agruparam os homens em nações europeias, fizeram algumas dessas nações procurarem além, no Oriente e em outras terras, os materiais necessários para a conservação da vida. Uma nação pequenina viveu então grandes momentos de aventuras no mar, descobrindo o mundo. Eis as condições sociais para o aparecimento de Os Lusíadas de Camões. E Camões, David e Dante são grandes artistas porque realizaram na obra de arte uma época histórica. Foram fiéis à realidade do seu tempo. A fidelidade ao real é a marca dos verdadeiros artistas. Quando alguém, dentro da arte, procura falsificar a realidade, procura prolongar épocas históricas que já terminaram, consegue apenas caricaturas e não seres humanos. O ridículo nasce da falta de proporção. A figura de D. Quixote é um símbolo eterno, é o ridículo dos homens que procuram viver uma aventura de cavalaria quando a Cavalaria já não é mais uma realidade dentro das condições sociais.

A guerra atual, modificando as relações humanas, imprime um novo sentido ao movimento literário. Talvez ainda não seja possível definir as novas formas literárias em que o movimento se concretizará. Mas o sentido, a linha essencial do movimento aí está, mais ou menos nítida, através dos fatos, sob os acontecimentos que se desenrolam.

Em nenhum momento histórico houve uma comunicação tão direta e tão ampla entre os homens de todos os cantos do mundo. A guerra atual é o primeiro fato que, num determinado momento, liga todos os homens da Terra. Essa aproximação é muito diferente da aproximação oficial, diplomática, das relações artificiais que os governos, sem a participação do povo, mantêm entre si. Homens das vinte e oito Nações Unidas e das três Nações reacionárias se misturam nos campos de guerra ou mesmo fora deles. Convivem ingleses, franceses, italianos, alemães, africanos, dentro da África. Americanos e australianos, russos, chineses e hindus. Polacos, belgas, romenos, húngaros, os filhos das escravas silenciosas, refugiados em Portugal ou na Espanha. Convivem filhos de nações as mais diversas em graus de crescimento social. Convivem, trocam pensamentos, sentimentos, comem, riem, andam, lutam e sofrem juntos. Quando a guerra terminar e esses homens de novo se encerrarem dentro das fronteiras de suas pátrias, alguma coisa será diferente. Todo contato entre seres humanos é um enriquecimento. Que profundo conteúdo de experiência humana a guerra atual significa! E essa experiência tem uma amplitude total, porque depois dessa guerra não haverá, como aconteceu depois das outras, uma inadaptação dos que lutaram, um abismo entre esses e os que ficaram na retaguarda. As populações das cidades, as mulheres, as crianças estão sofrendo como os que lutam nos campos de batalha.

Nos países como o nosso, apenas na expectativa da guerra, já se faz sensível a diferença de vida. Para verificar isso, basta comparar os nossos jornais de agora com os jornais de tempos atrás. Os livros também fixam a fisionomia de uma época, mas são como esses retratos caros que só de vez em quando tiramos. Os jornais e revistas são instantâneos, fotografias tiradas quotidianamente, e que por isso conseguem dar ideia de movimento da sucessão dos acontecimentos. Como notícias internacionais, apenas alguns telegramas apareciam, perdidos entre as notícias de sensação da política interna. De vez em quando, um artigo fazendo retórica ou fazendo espírito sobre a situação do mundo. É chocante o contraste entre esses artigos e os que aparecem hoje em jornais e revistas, assinados, às vezes, por moços, ainda estudantes. E aparecem em grande número, o que demonstra um espírito comum. O nosso senso da realidade foi despertado. Os nossos jornais estão cheios de notícias e artigos que analisam a situação do mundo e a nossa situação dentro do mundo.

Qualquer assunto, aproximação continental, campanha pela aviação nacional, toma um sentido prático de realização. Qualquer menino que lê, hoje, os jornais, toma consciência de que somos um país semicolonial que depende dos outros porque não tem indústria para utilizar o petróleo, o babaçu, o caroá, o manganês, o ouricuri, a borracha, as nossas riquezas em potência. Mais ainda, toma consciência de que a situação criada pela guerra favorece o desenvolvimento dessa indústria, porque isso se tornou em interesse para os próprios Estados Unidos. O nosso cenário de vida, hoje, é o mundo. O primeiro reflexo, na literatura, dessas transformações, é a purificação do seu sentido, a queda dos falsos conceitos de literatura-ornamento, literatura-instrumento, literatura-divertimento e todos os outros conceitos que deformam a literatura. A regeneração do termo literário terá o valor de um símbolo. Quem, no meio das lutas, do sangue, das lágrimas da hora atual, escreve livros galantes, como o que Leopoldo Stern acaba de publicar e só é lido ainda por alguns brasileiros, porque nós, brasileiros, ainda não estamos realmente dentro do fogo que transforma o mundo.

As crônicas e reportagens artísticas que lemos atualmente em livros, jornais e revistas, crônicas e reportagens feitas, quase sempre, por correspondentes de guerra, encerram um forte conteúdo humano e indicam que a literatura caminha no sentido do universal.

As reportagens e crônicas serão o gênero literário definitivo do momento atual ou surgirá um novo gênero? Há uma correspondência entre as épocas históricas e o gênero literário preferido.

O sentido universal da literatura será uma incorporação de novas correntes humanas. Em quase todos os países a literatura não é uma expressão da vida nacional, mas de alguns grupos sociais dentro da nação. Literatura popular, como expressão de todo um povo, nunca houve. O que é que nós chamamos literatura popular, por exemplo, no Brasil? É alguma coisa inexistente. A literatura brasileira é a expressão de uma minoria nacional. A literatura da maioria, a popular, não se realiza porque faltam condições e meios para ser realizada. Ela vive apenas, em sua forma mais primitiva, na memória do povo, em contos, quadras, modinhas, cantigas. A denominação de popular que dão a certa literatura é uma falsificação. A poesia das "casinhas de sapé", do sertão, os sambas do morro, tudo isso é falsificado, porque é feito por gente que não vive nas casinhas miseráveis que mal abrigam do sol e da chuva, no sertão onde a luta do homem contra a natureza e o meio toma, às vezes, um caráter de resignação trágica, nos morros por onde trepam as criaturas que as grandes cidades excluíram de sua vida. Tudo isso é tomado como motivo exótico e não como material vivo. Catulo da Paixão Cearense, o maior poeta sertanejo, nunca foi ao sertão (ele mesmo é quem o diz, numa entrevista ruidosa). Poesia popular verdadeira será como o "lundu de Pai João", lundu que vivia na boca do povo e que foi recolhido por vários estudiosos do folclore, em vários pontos do Brasil. O lundu diz o verdadeiro sentimento do negro, revolta reagindo pela ironia. Uma quadra: – O branco diz quando morre / Jesus Cristo quem levou / E o pretinho quando morre / Foi cachaça que matou.

Somente os gênios e os santos não estão limitados dentro do seu grupo e de sua nação. Os gênios o conseguem pela intuição. O santo é o homem que conseguiu transferir o centro do seu Eu para um Eu universal. Damião, o frade que resolveu viver numa ilha de leprosos e acabou, ele próprio, leproso, no centro de sua ação identificava o seu interesse vital com os interesses dos outros seres humanos, os leprosos, a quem levou conforto, ajuda e orientação. Mas gênios e santos são raros. Todos nós vivemos mais ou menos limitados dentro do nosso grupo. E a realidade brasileira, dentro da literatura, só será uma realidade integral quando as condições sociais permitirem a incorporação, no plano da literatura, de todas essas correntes humanas, que não vivem e pensam como nós.

Os esforços para atingir essa incorporação virá delas mesmas, dessas correntes humanas, como delas virá a sua realização literária. Qualquer esforço, nesse sentido, dos que vivem fora dessas correntes humanas será um esforço mais ou menos falso. Reconhecer isso é talvez a atitude mais honesta, o máximo que podemos atingir, com nossa pobre capacidade de sermos objetivos,

nós outros, os burgueses.6

Sugestões para um programa7

Um povo, para realizar heroicamente o seu destino histórico, não basta que seja apenas sacudido por grandes emoções. A vibração coletiva abala intensamente, mas às vezes passa rápido como os grandes vendavais. A ideia, essa é que fica quando cria raízes e o tempo amadurece. Ela é a base de toda ação inteligente. A nossa ação, ação organizada e perseverante, depende de uma clara compreensão do fenômeno nazista. Cursos de preparação antinazista, como o que a Legião Acadêmica vai realizar, correspondem a uma profunda necessidade nossa, imediata.

A ideia-centro em torno da qual deve girar um plano de preparação antinazista é a situação do fenômeno nazismo no desenvolvimento histórico da humanidade.

Por que e como surgiu o movimento?

A resposta dirá se a "nova ordem" é realmente nova ou se é apenas uma reação, uma última tentativa para conservar a desordem estabelecida. Dirá se essa reação é um fenômeno alemão ou se é universal, com várias formas nacionais (nazismo, fascismo, integralismo). Dirá as condições particulares, condições no tempo e no espaço que favoreceram o nascimento e a organização do movimento reacionário na terra e no povo da Alemanha.

O sentido do nazismo como uma parada e um retrocesso no destino histórico do ser humano – eis a ideia essencial para a compreensão do nazismo. O nazismo é uma organização que obedece a um plano concebido. Mas não é uma "nova ordem" porque o nosso mesmo erro radical continua na base do sistema. E por isso continua a guerra, incluída como elemento no plano de vida. Permanecendo a injustiça sobre qualquer forma, a paz continua impossível na face da Terra. Devem-se podar os ramos de uma árvore cuja raiz está envenenada.

Mas quando, de novo, a árvore florescer e frutificar, os seus frutos serão igualmente venenosos. A experiência nazista é uma lição para o nosso pobre mundo burguês, este mundo absurdo do dinheiro que os homens do futuro acharão ridículo, como nós achamos hoje ridículo o mundo da nobreza, o mundo dos senhores barões, condes e viscondes que a Revolução Francesa derrubou. É uma lição para não repetirmos a tentativa inútil do nazismo. Tão inútil quanto querer impedir que haja noites e dias com o movimento da Terra.

A análise dos vários aspectos, econômico, político, cultural, humano do fenômeno nazista sugere perguntas, à espera de respostas. Algumas delas poderiam ser formuladas assim:

a) Na organização econômica da "nova ordem" há uma

distribuição justa ou menos injusta (critério comparativo) dos

materiais necessários à vida humana?

b) Há condições na "nova ordem" para a cultura humana, a

plena realização do ser humano?

c) Como a "nova ordem" resolve o problema da mulher?

d) Qual a situação da criança e o sentido da palavra educar na

"nova ordem"?

e) A forma política da "nova ordem" aperfeiçoa as experiências

humanas já realizadas?

f) A "nova ordem" política mundial do nazismo corresponde às

condições da realidade social, geográfica, histórica?

g) Por que o nazismo conseguiu se organizar contra o mundo

quase inteiro? Quais as forças que o ajudaram?

h) Quais as diretrizes de uma ação para a vitória total?8

A caricatura do nazismo 9

O "grande ditador", esse filme humaníssimo que Chaplin realizou, vale mais do que apologia contra o nazismo. É um filme que deve ser visto pelas multidões. Ignorantes e cultos, homens, velhos e crianças, qualquer criatura humana o entende e sai de lá com uma compreensão mais lúcida da realidade de nosso mundo. O homem eterno com as suas grandezas e misérias, seu heroísmo, seus ridículos e suas esperanças. Compreensão do nosso mundo atual, o processo de renovação histórica que se opera dentro dele, elementos em decomposição que condicionaram o maior fenômeno reacionário da história, e elementos puros, forças intactas do mundo de amanhã.

A ambição anormal de Hinkel, erguendo-se sobre as ruínas de pós-guerra, as figuras-símbolo dos seus ministros, os dois ditadores discutindo a invasão de Austerlitz como dois adolescentes exibindo valentias. No meio de toda essa humanidade desumanizada, movem-se as figuras dos simples, símbolos do mundo: oprimidos e sofredores, o barbeiro desmemoriado, o bom velho judeu, o vulto de Hannah, tão puro e tão lindo que, de dentro da miséria do gueto, parece esperar contra toda a esperança. Esses são seres humanos; os outros são caricaturas.

Somente a caricatura consegue representar com fidelidade tipos como o grande ditador e as personagens que o cercam, tipos de fim de época histórica, espectros de um mundo desaparecido, incoerentes, absurdos, ridículos como moribundos que tentassem resistir à morte. Recriando situações, exagerando os traços marcantes do grande ditador, revelando-o através de sua mímica poderosa, Chaplin nos faz surpreender em sua própria gênese o fenômeno reacionário. Revela o seu conteúdo irracional, todo esse complexo de contingências biopsicológicas, recalques, instintos reprimidos, taras que a humanidade carrega dentro dela e de que dificilmente consegue se libertar. Em qualquer situação, Hinkel seria um antiprogressista, a sua ambição doentia requer um clima próprio para se transformar em tirania. O ambiente de ditadura é preparado, o aparato exterior, gestos, pessoas, coisas, tudo disposto para impressionar, espantar, estarrecer o povo. No meio de tudo isso, o desprezo pela criatura humana, valendo menos que um paraquedas ou uma armadura de aço.

Há cenas inesquecíveis, pelo ridículo e doloroso, o trágico doendo no fundo das situações mais cômicas. O medo que estarrece o barbeiro desmemoriado, ignorante da nova realidade, pobre diabo envolvido nas malhas de ferro da nova organização. Schultz, fugido da prisão, convoca um grupo de judeus para uma reunião. Um deles seria sacrificado: iria dinamitar o palácio do ditador. Com a sua lógica de bom burguês, Schultz se exclui solene, grave: "Eu estaria disposto, mas, como sabem, não poderei ir." Do meio daquela gente, da lógica natural, do bom senso do homem do povo, uma pergunta espontânea, quase ingênua, fere o ar como uma lâmina:

"Por quê?"

O filme não provoca entusiasmos violentos, nem mesmo na cena final (que quebra um pouco do seu ritmo). Quando o barbeiro, substituindo por equivoco o ditador, transmite sua mensagem a todos os que, como ele, vivem oprimidos, a sua ação é mais interior, deixa fortes e fundas ressonâncias.

Purifica, torna mais transparente o olhar com que olhamos os homens e as coisas, nossos próprios ridículos. E os ridículos alheios. Liberta interiormente, comunica essa liberdade interior que torna inútil pelo ridículo não somente o grande ditador, mas todas as

ditaduras do mundo. 10

Fascismo desesperado11

Hitler, depois que experimentou pela primeira vez a derrota em Stalingrado, vem sucessivamente perdendo suas esperanças de vitória. E os acontecimentos dos últimos tempos apagaram sua última esperança. Em todas as frentes de batalha, os nazistas sofreram derrotas fragorosas. As forças aliadas conquistaram Catânia e em quase toda a Sicília tremulam bandeiras das Nações Unidas. Aviões aliados bombardearam a Itália e bombardearam Hamburgo. Na China as forças de Chiang-Kai-Chek anunciam vitórias, e no palácio, Mac Arthur reconquista Munda. Na frente leste, as forças soviéticas irrompem numa ofensiva fulminante, reconquistam Orel, Belgorod e continuam numa arrancada gloriosa contra os invasores de sua pátria. O comunicado do Marechal Stalin, anunciando as últimas vitórias e a ofensiva final para expulsão do inimigo, é, na sua eloquência concisa, um poema heroico de grande força épica.

Essas vitórias das forças aliadas abalam cada vez mais forte e mais profundamente as trincheiras políticas do fascismo na Itália. A revolução popular é hoje uma realidade que o governo de Badóglio tenta, em vão, abafar e deter. Nos países ocupados da Europa, o povo impaciente antecipa, em pequenas amostras de sabotagem antinazista, a grande revolta dos povos. E na Alemanha, o bombardeio de Hamburgo dispersa, em pânico, as populações das principais cidades. Quebrada a frente interna, aparecem os primeiros sinais de revolta popular e operários se recusam a continuar nas indústrias de guerra.

Diante desses fatos, como agem os fascistas para conservar o fascismo agonizante? Notícias oficiais da Alemanha, transmitidas pelo rádio, já falam em "próximas alterações" no governo alemão. É a repetição do que se vem passando na Itália. Os nazistas preparam um golpe muniquista, preparam a substituição de Hitler, para que o poder continue em suas mãos. E para isso, começam a mobilizar os fascistas e seus aliados em todo o mundo. A maior batalha muniquista, o golpe último e desesperado do fascismo, não somente na Alemanha como em todas as pátrias, ainda vai ser lançado, e lançado brevemente.

Mas os acontecimentos desta guerra já esclareceram os povos sobre o fascismo. Os povos sabem que o fascismo é a tirania organizada de um grupo para dominar o povo, que é o germano-fascismo, e uma tirania não somente contra um povo, mas contra os povos do mundo. Os povos sabem que não lutam contra o povo italiano, nem mesmo contra o povo alemão, que esses povos foram dominados e explorados pelo grupo dos fascistas e que, esclarecidos pela marcha da guerra, serão seus maiores aliados no momento oportuno. Os povos sabem que os seus inimigos são os fascistas de todas as partes, aqueles que desejam a posse do poder e, por meio do poder, de todos os bens da vida, para um pequeno grupo contra os direitos da maioria do povo. Sabem que os seus inimigos são os fascistas e seus aliados, as forças reacionárias cujo lema é conservar o que, apavoradas diante de qualquer mudança, tentam parar a marcha da História servindo, desse modo, ao fascismo.

Os povos conhecem bem quais são os seus aliados verdadeiros e quais os seus verdadeiros inimigos. Diante disso, a tática fascista que tenta conservar o fascismo mudando apenas a forma, o nome, o lugar, é uma tática desesperada e inútil.

A quinta-coluna e a Legião Brasileira de Assistência12

Se na França, na Noruega, na Áustria, 13 em cada país da Europa escravizada pelo nazismo, fosse erguido um tribunal onde o povo julgasse livremente aqueles que entregaram suas pátrias, quais seriam os acusados? O povo anônimo e heroico que continua lutando por meio das guerrilhas, da greve, da sabotagem, contra o nazismo, não acusaria somente Laval, Quisling, os que agiram contra a pátria, mas acusaria também os que deixaram de agir pela pátria. O povo gritaria "Acuso" aos traidores, aos venais, aos egoístas, aos medrosos, aos comodistas, aos vaidosos, aos

indecisos e a todos aqueles que,14 apesar de honestos e patriotas, se deixaram arrastar pela tática da quinta-coluna. O povo gritaria: acuso a você que trocou a independência da pátria por dinheiro ou posição. Acuso a você que colocou, acima dos interesses coletivos, os seus próprios interesses. Acuso a você que escondeu sob mil disfarces o seu medo de lutar. Acuso a você que não quis perturbar a comodidade da sua vida. Acuso a você que sabotou com mesquinhas vaidades a união nacional e das Nações Unidas. Acuso a você, que resolveu lutar, mas não viu ou não quis ver a ação da quinta-coluna e por ela foi arrastado. O povo os conhece bem, esses que entregaram sem luta os países da Europa. São os mesmos que entregaram a Inglaterra, a Rússia, a China, os Estados Unidos, o Brasil e cada uma das Nações Unidas.

O povo brasileiro conhece bem os quinta-colunistas. Uma das formas mais sutis da ação da quinta-coluna é fazer acreditar que ela não existe, que é apenas um fantasma inventado. E assim continua a quinta-coluna, agindo em todos os setores de atividade nacional, desunindo, desanimando, confundindo, intrigando, sabotando o esforço de guerra para a vitória. A quinta-coluna age em toda parte, mas age sobretudo contra as organizações patrióticas que trabalham contra o nipo-nazi-fascismo.

A quinta-coluna está agindo contra a Legião Brasileira de Assistência porque sabe que a LBA está integrada à união nacional para a luta contra os bárbaros de Hitler. Todas as mulheres brasileiras, as que já trabalharam na LBA e as outras que serão futuras legionárias, precisam conhecer e descobrir as formas de ação da quinta-coluna para lutar contra ela.

A quinta-coluna trabalha para impedir a inscrição de novas legionárias, espalhando boatos a respeito da Legião, alterando o seu verdadeiro sentido. A quinta-coluna age entre as próprias legionárias, intrigando, desunindo, alterando as palavras e os fatos.

São estas, entre outras, as formas mais comuns usadas pela quinta-coluna para agir contra a LBA:

a) espalha que a Legião é uma organização de diletantes e grã-

finas que aproveitam as oportunidades para aparecer e que, até

agora, nada realizaram. Isso não é verdade. A LBA é uma

organização nacional que pede e necessita do apoio e da

colaboração de todas as mulheres brasileiras, sem distinção de

cor, posição social ou convicções religiosas e políticas. A LBA é

uma instituição nova, ainda em organização. Cada campanha

de atividades exige um trabalho minucioso de preparo,

organização e realização. As legionárias encaram

objetivamente os resultados do movimento da LBA. Aparecer e

não aparecer são questões secundárias, nascidas de

considerações individuais.

b) espalha que a LBA é um instrumento de propaganda política

do governo. Isso não é verdade. A LBA é uma organização

nacional independente do governo. A LBA, para realizar o seu

programa, colabora com o governo. Essa colaboração, no

momento atual, é mais do que um artigo do seu estatuto

nacional. É um imperativo nascido do atual estado de guerra,

pois a vitória do Brasil depende, antes de tudo, da união

nacional de todos os brasileiros em torno do governo. A LBA é

uma organização independente, os governantes passam e ela

continua.

c) espalha que a LBA é uma organização antifeminina, que as

suas formas de atividade não são próprias para a mulher. Isso

não é verdade. Todas as formas de atividade das legionárias

são trabalhos para os quais as mulheres brasileiras e

estrangeiras já demonstraram praticamente a sua capacidade.

A quinta-coluna quer explorar, por essa forma, o preconceito

dos pais, maridos, irmãos, filhos e das próprias mulheres sobre

a condição feminina, como se o trabalho público não fosse o

meio lógico de a mulher se realizar plenamente, porque adquire

assim consciência de que é um elemento da comunhão

nacional e universal.

d) espalha que a LBA obrigaria todas as legionárias a partirem

para Dakar ou para a Europa no momento necessário. Só não é

verdade. As legionárias se inscrevem para um determinado

serviço, conforme a sua escolha espontânea e livre. Livre

também será para preferir ou não a luta fora do país,

acompanhando os nossos defensores. As legionárias não

temem a quinta-coluna, nem temem os sacrifícios e os

trabalhos que a salvação da pátria está exigindo de cada

brasileiro.15

Palestra radiofônica de Jacinta Passos na semana de

propaganda da Legião Brasileira de Assistência16

A crença dos alemães no nazismo, a maior mentira da história, foi conseguida em grande parte através da propaganda organizada do Doutor Goebbels, o diretor de propaganda de Hitler. E os italianos, por que acreditaram no fascismo e no gordo Mussolini fanfarrão quando anunciava possuir a esquadra mais veloz do mundo? E por que alguns brasileiros acreditaram que o integralismo viria salvar a religião, a pátria e a família? Porque acreditaram num grupo de homens inteligentes e desonestos e na mística que aureolava a figura miudinha de Plínio Salgado, a ridícula caricatura de Hitler? É tão grande a força da propaganda organizada que, mesmo quando falsa, consegue iludir por algum tempo. Esse uso do termo propaganda para significar reclame de um falso valor, aparência daquilo que realmente não existe, estragou a palavra. As palavras são como seres vivos, nascem, evoluem, ganham prestígio e popularidade, crescem em dignidade ou caem, deturpadas e prostituídas, envelhecem e morrem. O corpo da palavra, o vocábulo "propaganda" não mudou. Mas mudou o espírito que anima e movimenta, mudou o sentido do termo "propaganda". Reabilitem a palavra. Propaganda é ação para comunicar, expandir, propagar alguma coisa. O trabalho de propaganda supõe, portanto, alguma coisa capaz de crescimento e de amplitude.

Essa condição fundamental para a propaganda existe na Legião Brasileira de Assistência. A Legião, organização de mulheres brasileiras para um serviço social comum, pela sua própria natureza de organismo vivo, tende a crescer e se expandir. O trabalho de propaganda deve consistir apenas em ajudar esse crescimento natural. É um trabalho de alimentar um organismo em crescimento. Para realizar essa tarefa, como deve agir a propaganda? Fazendo participar nas atividades da legião um número cada vez maior de mulheres brasileiras. O meio para conseguir isto é tornar conhecida a Legião. É divulgar pela imprensa, rádio, cartazes, folhetos, conversas, por todos os instrumentos de publicidade, os movimentos dela. É dizer às mulheres, a todas as mulheres, sem distinção de cor e condição social, que precisam lutar pela sua própria dignidade de mulheres, contra o fascismo, e que a Legião Brasileira de Assistência é um meio de luta organizada. A propaganda, para ser eficiente, precisa dizer exatamente o grau de desenvolvimento da Legião. Nem mais, nem menos. A propagandista que acompanha o rumo das atividades da Legião vê que um grande esforço já foi realizado, mas que ainda muito resta a fazer. Para integrar a Legião no esforço da guerra do Brasil, é necessário que, ao lado desse trabalho de propaganda, aumente o número de legionárias militantes, novos setores comecem a funcionar. E comecem imediatamente, porque o tempo não espera e o Brasil está ameaçado.

O trabalho de auxílio às famílias dos convocados é uma obra imensa que vai apresentando problemas urgentes pedindo solução, problemas de conhecimento das condições reais da família do convocado. É a tarefa da vistoriadora social. Problemas de reajustamento econômico para pessoas da família do convocado. Problemas educacionais e morais das crianças filhas dos convocados. Problemas de contribuição de roupas e gêneros de primeira necessidade, carne, leite, sal, farinha, café, açúcar. É uma obra tão vasta, essa, que requer a organização de vários departamentos. Mas não é a tarefa única que a Legião tem a realizar. Seria muito pouco em relação ao que o Brasil necessita e exige dos seus filhos para continuar existindo como um país livre. É necessário, ao mesmo tempo, movimentar os outros setores, alguns deles já com grande número de legionárias inscritas, mas ainda sem funcionamento. As legionárias inscritas para correspondência de guerra, as legionárias que organizaram o Curso de Voluntárias de Alimentação, as legionárias que se inscreveram no setor de comunicações e transportes são soldados prontos esperando a ordem de... [ilegível]. Em todos esses serviços que o esforço de guerra está exigindo, há dois outros de máxima importância: o de defesa passiva e o de monitoras agrícolas. Ouvimos há pouco tempo o Almirante Ingram, americano, dizer que o povo brasileiro deve estar preparado para bombardeios aéreos e canhoneiros em larga escala. Será essa a guerra do desespero de Hitler. Estamos nós preparados com um serviço de defesa passiva, para esse momento de tragédia e de dor?

Outro problema também que impõe uma pergunta: se os homens brasileiros forem convocados em larga escala, haverá mulheres preparadas para substituí-los nos telégrafos, correios, direção de veículos, comunicações e transportes que não podem parar? Os trabalhos de ajuda à grande batalha da produção que a LBA vai iniciar agora, com os cursos para monitoras agrícolas, é uma obra de alto patriotismo, que deve mobilizar grande número de mulheres baianas. Somente assim, trabalhando e lutando, elas defenderão tudo aquilo que possuem, trabalhando e lutando com a mesma energia das mulheres da China, das valentes guerrilheiras da Rússia soviética, das mulheres inglesas que trabalham na Força Aérea, na Marinha, no Exército, além de formar exércitos de voluntárias femininas para todos os serviços e trabalhos nas lavouras e nas fábricas, até em usinas de ferro e de aço.

O trabalho de propaganda organizada requer turmas de propagandistas que se encarreguem dos vários setores de ação. Para o serviço de propaganda, não basta saber escrever. É preciso a propagandista acompanhar os trabalhos, estar presente em tudo o que for realizado, para conhecer, realmente, o que existe, e depois divulgar. O trabalho de propaganda feito em casa, longe do movimento concreto da Legião, será sempre, por mais bem imaginado que seja, um trabalho irreal, morto, sem vida. Todos nós sabemos, falamos e ouvimos falar da batalha de Stalingrado, a cidade heroica da Rússia soviética, cujo povo resistiu contra o invasor com uma bravura que jamais a história do mundo conheceu. Nós sabemos que os 500 mil habitantes de Stalingrado lutaram em plena rua, fizeram de cada edifício uma fortaleza, transformaram os escombros e as ruínas em esconderijos para as armas, lutaram corpo a corpo, sofreram terrivelmente e venceram. Nós sabemos tudo isso. Mas poderemos escrever exatamente o que se passou, como pode alguém que assistiu a essa tragédia gloriosa? Não, nós não vimos as cabeças decepadas, os gritos de horror, o sangue escorrendo, os corpos apodrecendo. Para conhecer e divulgar os serviços da Legião, as propagandistas devem estar presentes, assistindo e participando. Para esse serviço, a LBA convida todas as mulheres conscientes de que necessitam lutar, lutar pela sua terra e seus filhos, pela sua própria dignidade de companheira do homem. Luta nos lares, na rua, na imprensa, no rádio, nos comícios, em toda parte, para que os brasileiros não sejam escravizados pelo nipo-nazi-fascismo-integralismo.

Mensagem aos povos da Europa 17

Povos sofredores da Europa escravizada, já vem perto a hora da libertação. Erguei vossas cabeças curvadas e esperai.

Há longos anos sofreis. Há longos anos que o fascismo iniciou sua marcha contra vós, depois de dominar a Itália e a Alemanha. A Abissínia já fora a primeira vítima. A Espanha ferida já lutara heroicamente e a China continua a lutar, sozinha, contra a tirania nipônica. Em 1938 começou a marcha contra vós. Em 1939. Em 1940. Em 1941. A Tchecoslováquia, Polônia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica, Iugoslávia, Grécia, França, uma a uma caístes sob o poder da tirania. E começou o vosso cativeiro. Começou o império da força bruta, a destruição de todas as conquistas humanas milenares. Prisioneiros da "Nova Ordem", perdestes os mais elementares direitos do ser humano: a liberdade de pensar, querer, trabalhar, amar, andar, dormir e conversar.

Povos sofredores da Europa, já vem perto a hora da libertação. Escutai os ventos que sopram de todos os lados e vos trazem o rumor dos passos libertadores. Escutai os ventos que sopram de leste e vos trazem o eco de batalhas terríveis e vos trazem o nome de Sebastopol, Leningrado, Stalingrado, símbolos de heroísmo, flâmulas de liberdade. Escutai os ventos que sopram de leste, do Oriente longínquo, da China milenária, que vos trazem o nome de Chung-King. Escutai os ventos que sopram de leste e vos trazem as lutas do povo da Inglaterra e vos trazem as lutas do povo das Américas. Escutai os ventos que sopram de todos os lados, de todos os continentes e de todos os mares, e vos trazem as vozes amigas de todos os povos que lutam pela sua e vossa liberdade. Escutai os ventos que sopram dos lados do Mediterrâneo e que trazem o calor das terras da África e que trazem os nomes de Túnis e Bizerta. Escutai, escutai os passos dos soldados das Nações Unidas pisando através das ilhas, pisando através de Pantelaria, Lampedusa, Linosa e Sicília, pisando o continente europeu. São soldados ingleses, canadenses, franceses, americanos, gregos, eslovenos, são soldados de todas as pátrias unidas por uma mesma vontade: destruir o fascismo da face da Terra. Escutai os passos dos soldados que nas terras distantes da América se preparam para atravessar o Atlântico e defender, na segunda frente, a independência de suas pátrias. Escutai os passos dos soldados brasileiros, eles também marcharão, marcharão porque amam a liberdade e porque querem um Brasil independente e livre.

Povos sofredores da Europa, já vem perto a hora da libertação. Erguei as vossas cabeças curvadas e esperai. Esperai de armas na mão. A vossa liberdade será uma obra vossa. Homens, mulheres, crianças da Europa escravizada, homens, mulheres, crianças, presos, maltratados, pisados, que vistes morrer milhares e milhares de irmãos vossos sob o chicote fascista, aliado da quinta-coluna traidora de vossas pátrias, homens, mulheres, crianças, esperai de armas na mão a hora da vingança. Recolhei as vossas últimas energias, concentrai as forças que vos restam para a grande batalha libertadora. Na hora da segunda frente, unidos aos outros povos em marcha contra o fascismo, a morte do fascismo será uma obra, sobretudo, vossa. Vós sofrestes mais que todos, vós trazeis na vossa carne e no vosso sangue, na carne e no sangue dos vossos irmãos, filhos e pais, amigos e companheiros, as marcas do fascismo. Vós conheceis por experiência. Pois o seu maior

inimigo... 18

Povos sofredores da Europa, já vem perto a libertação. Nunca na história do homem houve, para todos os povos do mundo, tanta dor e tanta esperança, na face da Terra.

Os estudantes e a Guerra19

O Congresso de Guerra dos Estudantes, que agora se realiza no Rio, vem sendo orientado por um alto sentido patriótico. Vozes autorizadas como a do ministro Capanema, que falou em nome do presidente Vargas, como a do grande general Manuel Rabelo e, recentemente, do comandante Amaral Peixoto, levaram o apoio do Governo e do Exército aos nossos bravos moços estudantes. É o reconhecimento oficial do trabalho patriótico, da coragem e bravura dos estudantes do Brasil, pioneiros da luta contra o fascismo.

Quando se escrever a história do presente momento brasileiro, quando se narrar para as gerações futuras as lutas do povo pela independência da pátria ameaçada pelo fascismo estrangeiro e nacional, haverá, com justiça, um capítulo escrito sobre o papel decisivo desempenhado nessa luta pela mocidade e, principalmente, pela mocidade estudantil. O estudante brasileiro sempre teve uma tradição de grandeza intelectual e moral, mas de uma grandeza boêmia e desorganizada e desorientada... Os estudantes da atual geração desfizeram essa antiga tradição e demonstraram uma capacidade notável para a ação organizada e eficiente, orientados por uma aguda consciência política.

Foram eles, os estudantes, liderados pelos estudantes baianos, os primeiros que deram o grito de alerta pela unidade interna, contra o trabalho divisionista da quinta-coluna e contra o perigo integralista. Foram eles os primeiros que lançaram o grito de revolta do Brasil quando os fascistas, ajudados pela quinta-coluna nacional, afundaram os nossos navios e mataram os nossos irmãos. Foram eles os primeiros que clamaram pela guerra e anteciparam o grito do povo à declaração de guerra do governo, ao lado das Nações Unidas. Foram eles os primeiros que clamaram pela união nacional em torno da política de guerra do presidente Vargas, como o único e verdadeiro caminho para a vitória do Brasil contra o fascismo. Foram eles os primeiros que se reuniram em organizações patrióticas para orientar e esclarecer o povo e ajudar o esforço de guerra. Foram eles os primeiros à frente de todas as campanhas patrióticas. E os estudantes vêm realizando todas essas tarefas dentro de um espírito de serenidade, coragem, firmeza e disciplina, que falam bem alto da seriedade de suas convicções.

Hoje, muitos desses estudantes, veteranos da luta contra o fascismo, estão convocados para o serviço militar e vestem a farda do nosso Exército, e se preparam para a luta nos campos de batalha onde a segunda frente dos povos livres exige a participação do Brasil, com a mesma decisão e firmeza com que lutaram nas campanhas civis.

O Congresso que agora se realiza no Rio é mais um passo, e um passo decisivo, na luta do estudante brasileiro. Desse Congresso resultará uma maior unificação das atividades dos estudantes nos vários Estados, uma maior e melhor organização para a mobilização total da massa do estudante brasileiro e de todo o povo brasileiro contra o fascismo. Desse Congresso sairão os estudantes mais esclarecidos, mais aptos para levantar até o fim a luta pela independência da pátria e liberdade dos povos.

Continuar: parte 2 de 3