Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 4 de 21

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Jacinta Passos, coração militante

Momentos de poesia

Momentos de poesia ESCRITO POR dois autores, este livro compõe-se de duas partes: a primeira, intitulada Momentos de poesia (p. 1 a 98), reúne 38 poemas de Jacinta Passos; a segunda parte (não incluída neste volume), Mundo em Agonia (p. 102 a 144), contém 22 poemas de

seu irmão, Manoel Caetano Filho.*

Esta é a primeira reedição de Momentos de poesia. Em seus livros posteriores (ver indicações em notas desta edição), Jacinta republicou alguns poemas deste seu primeiro livro.

Momentos de poesia recebeu críticas muito favoráveis da imprensa baiana, lançando o nome de Jacinta Passos e de seu irmão no meio literário da Bahia.

Poesia perdida

Ó! a poesia deste momento que passa,

a grande poesia vivida neste instante

por todos os seres da terra,

que palpita nas coisas mais simples

como um rastro luminoso da Beleza

e, sem uma voz humana para eternizá-la,

se perde para sempre, inutilmente...

Por que existo, Senhor, quando não posso cantar?

(1933?) 1

Manhã de sol

Dia azul de Maio. Esplende

um sol de ouro no céu que além se estende.

Prolongam-se vibrações do arrebol

na clara luz desta manhã de sol.

O céu ardente,

dum azul luminoso e transparente,

tem doçura infinita...

Um rumor de asas pelo azul palpita,

palpita pelo ar.

É carícia sonora, a música do mar.

O verde risonho

das árvores é lindo como um sonho.

A brisa leve e fresca em surdina cicia.

Há, em toda parte, uma explosão de alegria.

A natureza canta, radiosa,

um hino aleluial na manhã gloriosa.

E todo esse esplendor se comunica

à alma da gente, que vibrando fica

e, com alta emoção esplêndida e feliz,

bendiz,

numa alegria incontida,

a glória de viver e a beleza da vida.

(1934)

Maria

Ergue-se a cruz no cimo do Calvário.

Após cumprir sua missão, Jesus,

que por nós nasceu pobre e solitário,

por nós, agora, vai morrer na cruz.

Já se fez o divino donatário

de tudo o que era seu. Bênção de luz

que desceu sobre o mundo tumultuário

é doutrina de amor que ao Céu conduz.

Prisão, torturas, sede, fundas dores,

desprezo, ingratidões, açoite, horrores,

tudo sofreu por nós, pobres mortais.

Ainda entrega no instante da agonia,

imaculado, o vulto de Maria,

o bem maior que todos os demais.2

(1934)

Incerteza

Em meu olhar se espelha

a sombra interior de incerteza angustiante.

E em minha alma floriu como rosa vermelha,

de um vermelho gritante

como o clangor de um clarim,

essa angústia que vive a vibrar dentro em mim.

É minha vida um longo, ansioso esperar

num amor que há de vir.

Amor, prazer que é dor e sofrer que é gozar,

amor que tudo dá e sem nada pedir,

e que às vezes, num segundo,

resume a glória toda e toda a ânsia do mundo.

Mas depois desse amor, o que virá? O tédio

insípido e tristonho,

desenganos sem cura e dores sem remédio,

com a posse dum bem, o desfolhar dum sonho.

Não vale mais, muito mais,

desejar sempre um bem sem possuí-lo jamais?

Oh! não. O coração

não se cansa de amar se sabe querer bem,

ter para o erro, o perdão,

renunciar a si mesmo e viver para alguém.

E se um motivo qualquer,

imperioso e fatal, o sonho desfizer,

então eu saberei bendizer, comovida,

o amor que já passou

deixando uma doçura amarga em minha vida.

Quando o sonho murchou,

também a esperança finda,

mas dentro d'alma fica uma saudade ainda.3

(1934)

Crepúsculo

Vai lentamente agonizando o dia...

O poente onde, há pouco, o sol ardia,

se tingiu de cor de ouro, luminosa.

Tons desmaiados de lilás e rosa

listram o puro azul do firmamento

- um poema de luz, neste momento.

A sombra de mansinho vem caindo

e o contorno das coisas, diluindo.

Pesa um grande silêncio, enorme e mudo.

Desce suavemente sobre tudo,

uma bênção dulcíssima de paz.

A treva escura que vem vindo traz

uma saudade vaga, indefinida...

saudade do que já passou na vida,

saudade mansa, boa, imensa e triste,

saudade até dum bem que não existe,

nostalgia sem fim da perfeição

que, nessa hora, invade o coração.

A alma das coisas que vagava a esmo

parece ir recolhendo-se em si mesma,

pondo-se então a meditar consigo.

A silhueta de um convento antigo

ergue-se negra, austera e secular,

banhada em doce luz crepuscular,

no fundo luminoso do poente.

É a longa torre uma oração silente.

Parece uma blasfêmia, o negro véu

de fumaça manchando o ouro do céu.

O silêncio, de súbito, estremece

e pelo ar passa um frêmito de prece.

Vibrou a alma sonora da paisagem

e o canto vem tangido pela aragem.

Quando, do sino, a voz forte badala,

Todo o rumor em derredor se cala

e escuta a voz que soa, alta e vibrante,

na quietude da tarde agonizante.

(1935)

O mar

Múrmuro e lento,

o mar ao longe se espraia.

Geme e brame, ruge e clama

o seu tormento,

e, soluçando, vem morrer na praia.

O mar imenso...

Quando eu escuto o seu rumor soturno,

fico a cismar.

Penso

no destino do mar

- ser eterno cantor -

cantar a sua dor de eterno insatisfeito,

cantar o seu sonho infinito desfeito,

cantar o mesmo canto que embalou

a infância do mundo.

O mar imenso... encarcerado

dentro dos frios limites dum traçado.

Ouço vozes estranhas... Vem do fundo

do mar ou de dentro de mim,

esse surdo clamor?

São vozes obscuras,

vozes desconhecidas,

vozes que irrompem

da parte ignorada de mim mesma.

Por que esta sede imensa de saber,

desvendar os segredos escondidos,

despir as coisas

de suas transitórias aparências,

penetrar no seu âmago,

ver a essência do ser?

Pobre desejo humano esbarra, mudo,

ante o mistério de tudo.

Por que este desejar que não se cansa,

por que este destino errante de correr

sempre atrás dum bem que não se alcança?

Anseio de sentir-se um instante feliz,

anseio de eternizar esse instante que passa,

perdendo-se no passado, no infinito do tempo,

como se perde um pouco de fumaça

na amplidão dos espaços infinitos...

Por que este desejar que não tem fim,

se o mísero coração

sabe que nenhum bem lhe satisfaz?

Foge o minuto fugaz

e no fundo de toda ventura sorvida

há um gosto de cinza.

Perguntas sem resposta, atiradas à toa,

inutilmente...

Ouço vozes estranhas... Vem do fundo

do mar ou de dentro de mim

esse surdo clamor?

São vozes de sofrimento, de amarguras,

vozes de todas as criaturas

que falam por minha voz.

Todas as criaturas que sofreram

esta ânsia indefinida

- angústia milenária como a vida -

de querer atingir o inatingível.

Vozes de todos que sentiram, vivo,

cruel, o trágico destino humano

de pássaro cativo:

- ter diante de si o vasto céu azul,

luminoso e ardente,

ter asas, asas para bem alto subir,

e sentir

que não pode voar,

impotente... impotente...

(1935)

Solidão

Há em torno de mim muralhas glaciais.

Vivo encerrada dentro de mim mesma,

debruçada

sobre estas profundezas abissais

do meu ser,

sobre esta solidão interior

de um mundo fechado,

áspera solidão inacessível

onde existe

um silêncio gelado,

amargo,

vazio.

(1936)

Cântico de exílio

Estou cansada, Senhor.

Minha alma insaciável,

a minha alma faminta de beleza,

ávida de perfeição,

é perseguida pelo teu amor.

Puseste dentro dela esta ânsia infinita

cujo ardor queima,

como a sede que em pleno deserto escaldante

persegue o viajor.

Esta angústia, que cresce e que vibra e palpita,

nasceu dentro em mim

no mesmo divino instante

em que, morrendo a última ilusão,

só me restava afinal

uma fria certeza,

cortante como o gume dum punhal.

A certeza de que, tendo tudo no mundo,

nada

pode encher o vazio do meu desejo,

do meu desejo profundo.

Na aridez de minha alma desolada,

esta angústia brotou,

como brota no solo sertanejo,

no solo nu, exausto e sofredor,

solo onde a seca vai matando a vida,

a última flor

- a flor sangrenta do cacto -

cuja raiz parece que sugou

todo o sangue da terra dolorida.

Compreendi, Senhor, compreendi

a voz que sobe

do fundo misterioso do meu ser.

Esta angústia que vive dentro em mim

somente há de ter fim

quando nada mais existir entre nós,

quando, num dia sem crepúsculo,

eu me abismar em ti,

no teu esplendor absoluto.

Mas apenas começo a caminhar,

estou cansada, Senhor.

É bem longo o caminho a percorrer

e sinto-me sozinha.

Levanto os braços para o céu distante

como a palmeira – longo anseio de infinito -

que no deserto se ergue, solitária,

em busca do azul.

Suplico humildemente o teu auxílio.

Dos meus lábios, irrompe como um grito

meu cântico de exílio.

Ah! Senhor, quando se há de realizar

a aspiração profunda do meu ser?

(1937)

Agonia no Horto

Na solidão do Horto,

quando sofrias, Senhor,

e todo concentrado em tua grande dor,

o teu corpo curvado para a terra,

sucumbido e exangue,

como um cálice cheio que transborda,

suava gotas de sangue.

Na solidão do Horto,

quando sofrias, Senhor,

abandonado, sem nenhum conforto,

diante do teu espírito, passava

a trágica visão de toda a humanidade.

Como um longo rio,

o tempo em séculos se desenrolava.

Vias o mundo moderno...

pobre mundo sem alma, esquecido de ti,

pobre mundo indiferente,

por quem pregado numa cruz, Senhor,

morreste inutilmente.

E mais do que a dureza dos Herodes,

e a covardia dos Pilatos,

devia te doer

a incompreensão de teus amigos.

Os teus amigos

que vivem perto de ti, mas que não te conhecem.

Encerrados em seu mundo pequenino,

em vez de seguirem teu vulto divino,

te fazem semelhante a eles.

Deformam os traços teus, puríssimos,

e fazem de tua figura,

de tua figura perfeita,

uma caricatura.

Nada disto, Senhor, ainda compreendemos:

o sentido profundo

da mensagem de paz, da mensagem de amor

que, há dois mil anos, Senhor,

vieste trazer ao mundo.

E as verdades eternas

e as belezas escondidas

do teu Evangelho

- livro que é sempre novo apesar de tão velho,

e que ninguém jamais se cansará de ler.

Nada disto, Senhor, ainda compreendemos:

tuas palavras divinas,

de bondade, de paz e de perdão,

e as dádivas infinitas

do teu amor,

o mistério da redenção,

a vida que nos deste

com tua morte, Jesus,

a loucura divina, a loucura da cruz.

(1937)

A missão do poeta

No instante inicial da criação,

quando o mundo acabava de sair

das mãos de Deus

e quando as coisas todas palpitavam

quentes ainda do seu sopro criador,

escutou-se o primeiro cântico na terra,

glorificando o Senhor.

Canta

o poeta porque seu destino é cantar.

Cantar o mesmo canto que irrompeu

dos lábios do primeiro homem criado,

ante a maravilhosa visão da beleza,

da esplêndida harmonia universal.

Cantar ao Senhor

bendizendo a divina perfeição,

bendizendo o amor infinito

que transbordou, criando as criaturas.

Canta o poeta

a glória e o sofrimento do universo.

Canta por todas as criaturas

que não sabem cantar.

Apreende

a realidade íntima das coisas,

o mistério que liga os seres todos

numa unidade essencial

e canta

as belezas dispersas pelo mundo,

fragmentos da beleza total.

Sente

a harmonia quebrada do universo,

a desordem estabelecida

pelo egoísmo do homem

e canta

a angústia da alma humana que procura

o paraíso perdido.

Sofre

as durezas de sua própria resistência

e canta

o fundo e permanente sofrimento

para atingir o estado interior

quando, de dentro d'alma irrompe, límpido,

puro, o canto único

que eleva as coisas todas para o alto,

glorificando o Senhor.

Canta

o poeta porque seu destino é cantar.4

(1937)

Contrição

Perdoa-me, Senhor, por ter acreditado

que todas as franquezas de minha miséria humana,

que as minhas quedas e as minhas incalculáveis possibilidades

de queda,

que minhas fugas para longe de ti – infidelidades à minha

vocação eterna -,

que minhas recusas aos apelos de tua graça,

que as formas todas do meu egoísmo radical,

que a minha incapacidade absoluta de elevar-me para ti,

que tudo isso, Senhor,

fosse mais invencível, mais forte

do que a onipotência do teu amor infinito.

(1938)

Oferenda

Senhor,

eu quis fazer de minha vida

meu mais belo poema em teu louvor.

A minha obra mais pura de beleza,

concebida

num claro instante de emoção

pela minha inteligência

- o dom mais alto que de ti me veio,

a glória de pensar.

Renuncio, Senhor, alegremente,

à alegria de criar,

com minhas próprias mãos, o meu destino.

Quero apenas viver a minha vida.

Quero ser a tua obra,

humildemente,

simplesmente,

como as coisas simples são.

Quero viver em mim teu pensamento,

a ideia que sempre existiu em tua mente eterna

e que quiseste realizar no tempo,

no momento sagrado

em que o amor de meus pais me concebeu.

Eu quero ser nas tuas mãos divinas,

a argila flexível,

que aos toques do trabalho criador

se deixa modelar.

Quero que em mim tu realizes, pura,

integral,

perfeita,

a tua obra, Senhor.

(1938)

Consagração

As minhas mãos, minhas humildes mãos,

têm gestos puríssimos de bênção.

Meus pés descobrem caminhos desconhecidos.

Meus lábios dizem palavras que não são minhas,

palavras divinas de amor.

Minha inteligência concebe pensamentos eternos.

Minha alma sofre o peso de dor infinita.

E das profundezas misteriosas de minha vida

transubstanciada,

sobe para ti um canto de louvor perfeito.

(1938)

Comunhão

Meus irmãos, meus irmãos,

vinde ouvir o meu cântico de amor.

Num grande sopro invisível,

o Espírito do amor desceu sobre mim.

Circulou em ondas de fogo,

penetrou nas fibras mais secretas do meu ser,

comunicou-lhe a plenitude da vida infinita

e transbordou sobre o mundo.

Eu vos ofereço, irmãos, este amor,

eu vos faço o dom integral deste amor,

no meu espírito, no meu corpo, nos meus gestos, no meu

canto.

Homens de todas as regiões da Terra inteira,

vinde ouvir o meu canto de amor universal.

Homens de todas as raças de todas as nações e de todas as

classes,

homens dos recantos longínquos do universo,

filhos da velha Europa dividida e do místico Oriente,

homens da África, negros filhos da raça sofredora,

povos da jovem América, esperança do mundo,

mestiços que trazeis no sangue o conflito de raças diversas,

homens que viveis nas ilhas distantes, perdidas no mar,

homens que viveis nas frias regiões de geleiras eternas,

homens dos desertos ardentes, de imensos areais sem fim,

povos humilhados e sofredores, povos sem liberdade,

judeus que carregais o peso duma dor milenária,

povos desconhecidos de bárbaras regiões selvagens,

homens todos da terra toda,

vinde ouvir o meu canto de amor universal.

Homens ricos e pobres,

pobres escravizados aos ricos e ricos escravos do dinheiro,

capitalistas importantes e proletários humildes,

gordos burgueses satisfeitos,

operários que ruminais o surdo rancor de injustiças

acumuladas,

reacionários conservadores da desordem estabelecida,

comunistas que tendes sede de comunhão humana,

homens cultos e sábios, homens simples do povo,

criminosos e santos, crianças imaculadas,

velhos que olhais com nostalgia os caminhos percorridos,

prostitutas famintas de ternura humana,

enfermos sofredores, miseráveis desamparados,

massa anônima das ruas, multidão desconhecida,

homens que sofreis dores ignoradas e silenciosas,

e vós todos, poetas, meus irmãos,

homens todos da terra toda,

vinde ouvir o meu canto de amor universal.

Eu vos ofereço, irmãos, este amor

cuja força destrói as resistências mais duras,

as barreiras criadas pelo egoísmo do homem

e que paira acima, muito acima das divisões, dos conflitos e dos

ódios.

Eu vos ofereço este amor que unifica,

numa harmonia total, os contrastes mais ásperos,

este amor que, infinito, transcende o espaço

e que perdura sempre, além do tempo.

Eu vos ofereço este amor que desvenda

a grande realidade invisível,

a comunhão da vida universal.

Amor – integração dos seres no mistério do Ser,

revelação da vida em sua plenitude,

translúcida visão do esplendor absoluto.

Meus irmãos, meus irmãos,

vinde ouvir o meu cântico de amor.5

(1939)

Vida morta

Correm vertiginosamente as minhas horas

para um negro abismo insondável.

Um desencanto total paralisa

todas as energias profundas do meu ser,

toda a minha infinita aspiração de amor,

todo o meu humano desejo de viver.

Um desencanto total imobiliza

os movimentos da vida brotando dentro em mim

e transmuda a minha paisagem interior

em frígidas geleiras glaciais.

Petrificada

num desespero frio, mudo, inerte,

minha vida está morta em suas fontes essenciais.

E as minhas horas, as minhas horas vazias,

inutilmente,

rolam num negro abismo sem fim.

Numa atração invencível,

para o não-ser, para o nada,

arrastadas,

as minhas horas, as minhas horas vazias,

correm vertiginosamente...

(1939)

Súplica

Como um peregrino perdido na grande noite eterna

eu te peço, Senhor, um pouco de luz.

No princípio,

antes de todos os tempos,

antes de rolarem os mundos

na harmonia sideral dos espaços etéreos,

no princípio, quando eu era

entre as possibilidades infinitas da beleza incriada,

marcaste meu ser

com o sinal de fogo dos destinos sagrados.

E na plenitude do teu Ser infinito,

tu precisas de mim, Senhor.

Precisas de mim para que realizes

o teu plano divino,

para que, através de minha voz, as vozes todas da terra

cantem o teu louvor.

Como um peregrino perdido na grande noite eterna

eu te peço, Senhor, um pouco de luz.

Quebra todas as ásperas durezas do meu ser,

identifica-me com todas as coisas,

para que possa captar as mínimas vibrações da vida cósmica

e elevar para ti

o canto de louvor da terra toda.

Crucifica o meu espírito e a minha carne.

Quero experimentar todas as formas do sofrimento humano,

a dor universal,

para que, purificada pelo sofrimento,

a minha voz se erga, clara e simples como a voz das

criancinhas.

Põe na minha boca o canto definitivo,

o canto perfeito, o louvor perene

do absoluto esplendor de tua beleza divina.

Como um peregrino perdido na grande noite eterna,

eu te peço, Senhor, um pouco de luz.

(1939)

Campo Limpo 6

Quando vejo, ondulando ante os meus olhos,

os teus campos banhados pelo sol,

o ardor da seiva rebentando nessa natureza viva,

a doçura do teu céu na hora crepuscular,

a sombra negra das árvores que se alongam como fantasmas

quando a noite desce,

a profundeza insondável das tuas noites estreladas,

quando vejo o esplendor de tua beleza,

sinto, inesperada, uma estranha alegria,

como se encontrasse

um pedaço vivo de mim mesma.

Campo Limpo,

as tuas paisagens se identificaram

com todas as vibrações de minha vida amanhecente.

As tuas paisagens parecem humanas.

Parece humano o murmúrio do vento nas tuas árvores

seculares

e a branca silhueta da velha casa antiga.

Tuas paisagens revivem a minha vida já morta,

todos os instantes perdidos para sempre

e que eu quisera integrados num momento eterno.

Como a árvore que dá sombra e flor e fruto

esconde as raízes na terra de onde veio,

estão mergulhadas no teu solo

as raízes mais profundas do meu ser.

(1939)

Alegria

Perscrutei ansiosa a tua face.

E na tua face marcada pelo sofrimento,

batida por todos os ventos do mundo,

trabalhada por todas as misérias da terra,

na tua face

onde se cruzam sulcos de fundas dores humanas,

onde ficaram rastros de passos perdidos por obscuros

caminhos,

descobri, ó meu irmão desconhecido e anônimo,

um traço de semelhança com a tua face verdadeira,

a Face perfeita de todos os homens.7

(1940)

Ressuscitados

Por que permaneceis curvados e tristes, homens de toda a

terra,

por que permaneceis debruçados sobre o vosso destino,

trazendo nos olhos a funda saudade de um mundo perdido

e nos membros a estranha

sensação duma queda de altíssima montanha?

Todos os caminhos humanos

já foram percorridos por aquele que viveu a experiência total.

Um homem venceu o sofrimento e a morte.

Luz puríssima,

uma grande luz puríssima transfigura todos os seres,

como se, intactos, acabassem de sair das mãos do Criador.

Por que permaneceis curvados e tristes, homens de toda a

terra,

por que permaneceis debruçados sobre o vosso destino,

trazendo nos olhos a funda saudade de um mundo perdido

e nos membros a estranha

sensação duma queda de altíssima montanha?

(1940)

A guerra

Eu sou a humanidade que sofre.

As minhas raízes profundas mergulham no ventre da terra,

o meu espírito como uma antena prodigiosa domina o espaço

e capta todas as vibrações, as mínimas vibrações

trazidas pelos ventos que sopram de todos os lados.

Eu sou a humanidade que sofre.

Experimento no meu espírito e na minha carne

este instante de dor universal.

Sinto a realidade sangrenta dos campos de guerra,

o lívido pavor diante da morte

que ronda sinistra nas grandes aves metálicas,

nos monstros de ferro, nos peixes fantásticos do mar.

Clarões que se abrem,

gritos alucinados,

balas que silvam,

explosão de bombas,

corpos que tombam.

É a trágica destruição do homem

pela máquina poderosa que a sua inteligência criou.

Caminho pelas cidades transformadas em trincheiras.

Choro com as mulheres a saudade dos lares vazios,

a perda dos filhos – o próprio ser mutilado.

Fujo pelas estradas perdidas

com as crianças que encontram as escolas fechadas

e bebem no olhar, nas palavras, nos gestos dos homens,

uma herança de ódio invencível.

Vivo a tragédia apocalíptica de horrores infernais

em que se transformou a grandiosa sinfonia da Terra,

o fecundo labor humano que devia transformar a Terra

que a mão do Criador deixara inacabada.

Eu sou a humanidade que sofre.

Sofro, nesta fornalha imensa onde se misturam homens de

todos os povos,

a dolorosa experiência dos meus erros milenares,

do meu radical egoísmo

que não aceitou a realidade total,

que fez de si mesmo o centro do universo,

ergueu fronteiras entre os seres humanos,

dividiu o mundo em pedaços minúsculos,

distribuiu injustamente as riquezas da terra,

organizou o reino da injustiça

onde paira, terrível, sobre todos os seres, a grande ausência de

Deus.

Eu sou a humanidade que sofre.

Experimento no meu espírito e na minha carne

este instante de dor universal.

(1940)

Poema

Aceitemos a vida, é inútil lutar.

O mistério desse amor transcende o nosso ser limitado

e tem a força invencível dos destinos marcados nos planos

eternos.

É o mesmo mistério profundo

das forças elementares do cosmo,

da energia insondável

que faz renovar a vida na face da Terra

e faz rolar os mundos nos espaços sem fim.

Meu amor, meu amor, como é longa esta espera.

As minhas mãos, os meus lábios, o meu olhar, os meus gestos

guardam um tesouro intacto de ternura.

Tua cabeça cansada repousará no meu ombro.

Sentirás nos meus carinhos

a frescura das fontes em que nenhum viajante bebeu.

Simplesmente,

tranquilamente,

eu me abandonarei a ti num gesto de oferenda.

Encontrarás no meu olhar a compreensão das palavras que não

disseres.

Uma grande luz brilhará na tua face,

na tua face que as lutas da vida marcaram.

Terás a visão verdadeira dos homens e das coisas

e viverás o teu destino

porque o teu ser, integrado no meu ser,

atingirá a plenitude.

(1940)

Compreensão

As minhas mãos docemente pousaram em tua fronte.

Esquecida

de todas as dores do mundo, do mal profundo da vida,

tua cabeça em meu regaço adormeceu.

Adormeceu como um pássaro cansado,

errante passarinho

que vagou por céus longínquos em meio de tormentas bravias

e encontrou, afinal, a doçura de um ninho.

Nesse instante, as minhas mãos compreenderam

por que foram feitas tão leves e macias.

(1941)

A dor absoluta

A plenitude do Ser infinito,

Senhor,

tu não podes comunicar.

Desse informe plasma original onde dormem todas as

realidades possíveis,

nenhuma criatura,

nenhuma vida,

o teu ato pode fazer surgir ilimitada e perfeita.

Não podes criar nenhum ser como tu.

(1941)

Mensagem aos homens

- Eu te esperei longo tempo de terrível solidão.

Através dos meus anseios, das minhas lutas,

dos meus cansaços e das minhas esperanças,

através do meu fundo desalento

e da minha ainda mais funda alegria de existir,

através das incessantes mutações da vida,

do céu, da terra, das águas, dos outros e de mim mesma,

eu te esperei.

Inteira, pura e livre como a luz, a livre luz das alvoradas.

- Oh! por que me trazes um coração diminuído

como um seixo levado pelo rio, um seixo que muitas águas

rolaram?

(1941)

O momento eterno

Apagaram-se todas as limitações porque tu e eu

desaparecemos.

Existimos fundidos num ser único

que ignora a sucessão no tempo,

que desconhece as fronteiras onde sua vida termina e a vida

cósmica se inicia,

perdido no êxtase imenso

como um astro sem memória perdido no espaço sem princípio e

sem fim

(1941)

Limitação

Nos teus gestos vibra nesta hora, hora única de amor,

a minha mesma grande ânsia impossível.

Nas tuas carícias sôfregas,

no apelo magnético do teu olhar debruçado sobre o meu,

nos teus ouvidos que parecem esperar uma palavra inefável,

na tua boca ansiosa querendo sorver o sopro substancial de

minha vida,

nas tuas narinas ofegantes,

nas tuas mãos ávidas tateando o meu corpo

como se quisessem guardar nas pontas dos dedos a memória

de minhas formas,

nos teus gestos vibra nesta hora, hora única de amor,

a minha mesma grande ânsia impossível.

Ânsia de posse total.

Atingir, através do teu corpo, tua essência imutável e única.

Revelar-te a ti mesmo.

Tocar, possuir como uma realidade tangível,

minha,

o mistério profundo do teu ser.

(1941)

Mulher

Diante do teu sofrimento,

que vontade, amor, de ninar tuas mágoas,

como embala a mãe seu filho pequenino.

Quisera te amar com uma grande ternura compreensiva,

a ternura das mães, apenas.

Quisera não te querer com este ciúme primitivo e bárbaro

que irrompe do meu ser obscuro

como uma planta selvagem rasgando as entranhas da Terra.

Este ciúme envolvente,

solícito,

tenaz,

que se enrola em ti como a roupa que protege o teu corpo.

Ciúme do espaço onde estás sem que eu possa

simultaneamente estar,

do tempo que te conheceu antes de mim

e onde tua presença continuará,

talvez quando dele já estiver libertada.

Ciúme

cuja nascente se perde em ignotas origens remotíssimas,

grito lúcido do instinto milenário

exigindo o dom integral para integralmente se dar.

(1941)

Mistério carnal

Corpos humanos que a morte tocou.

Por que esperam os corpos abandonados

na branca solidão do vasto cemitério?

Corpos que um dia surgiram como uma realidade

surpreendente

na face da Terra.

E amanheceram numa esplêndida palpitação de beleza

que se ignora,

até o momento da grande revelação

quando o amor lhes deu a consciência de existirem.

Olhos, pés, mãos, boca, sexo, fronte,

que encarnaram os mais fugitivos movimentos do espírito,

que amaram, pensaram, sentiram, viveram,

e a morte, de súbito, petrificou.

Por que esperam os corpos abandonados

na branca solidão do vasto cemitério?

Enigma terrível, tu estás em nosso sangue,

herança atávica recebida através das gerações.

Dormes no fundo do nosso ser como o sal nas grandes águas

marinhas.

Para além de nossas dores e de nossas alegrias,

a vida, a vida é o dom supremo.

Mas tu és a raiz envenenada,

e todos os seus frutos são frutos de sabor amargo.

Ah! como deve ser triste o destino dos espíritos

que abandonaram os corpos.

São fragmentos de seres, são seres incompletos

que não se podem fixar para sempre.

A carne que no fundo da terra se transforma

em verme, em húmus, em flor, em fruto,

a carne que era um ser com o espírito,

como a semente com a árvore escondida dentro dela,

não participa no seu destino final.

Por que esperam os corpos abandonados

na branca solidão do vasto cemitério?

(1941)

Canção simples

A flor caída no rio

que a leva para onde quer,

sabia disso e caiu,

seu destino é ser mulher.

Leva tudo e segue em frente,

amor de homem é tufão,

o de mulher é semente

que o vento enterrou no chão.

Mulher que tudo já deu,

homem que tudo tomou,

é mulher que se perdeu,

é homem que conquistou.

Mulher virgem, condição

para homem dar – nobre gesto -

resto duma divisão

se a divisão deixou resto.

No sangue, a honra é lavada

de homem que mulher engana,

mulher que vive enganada

coitado! fraqueza humana.

A flor caída no rio

que a leva para onde quer,

sabia disso e caiu,

seu destino é ser mulher.8

(1941)

Ressonância

Nossos espíritos se reconhecem

como se através de milênios se esperassem.

Nossos corpos se procuram

como dois polos magnéticos de atração profunda.

Tão simples deveria ser a fusão de tua vida e minha vida,

nosso destino essencial, tão simples.

Alegrias e dores entre os seres humanos,

entre todos os seres,

por que se ligam inexoravelmente?

Somos dois elos, amor, numa cadeia infinita...

(1941)

O canto de amanhã

Desabem sobre mim os grandes sofrimentos.

As dores elementares,

a fome,

o frio,

o cansaço,

a miséria,

que marcam como fogo o ser humano total,

desabem sobre mim.

Fortes ventos em fúria me arrastem na tormenta.

E como uma planta de estufa

transplantada,

eu viva como vivem as plantas do mato,

plantas sem nome perdidas em imensas florestas bravias

onde sopram terríveis vendavais.

Eu seja apenas uma coisa entre as coisas de que os homens

se servem.

O meu espírito se apague

e a consciência do meu corpo cresça como uma realidade

absorvente,

a única realidade.

Eu seja apenas uma boca faminta

que sabe o valor de um pedaço minúsculo de pão.

Eu seja apenas braços exaustos que não podem parar

e pés cansados e doridos que não encontram o fim do seu

caminho.

Eu seja apenas mãos,

ásperas mãos calejadas pelos rudes contatos cotidianos

e que, trêmulas, trêmulas, tiritam de frio.

Eu seja apenas uma carne nua

que disputa um trapo de pano,

o pão,

a água,

o fogo,

a terra,

o ar,

que disputa cada milésimo de tempo que vive.

Eu seja apenas uma coisa entre as coisas de que os homens

se servem,

entre pedras, ferro, pai, mãe,

ouro, árvores, filhos, irmãos e companheiros,

entre animais, carvão, petróleo, alavancas e máquinas.

Minha cabeça se curve ao peso da fria injustiça organizada e

aceite

e receba a piedade como último insulto.

Eu seja apenas uma coisa entre as coisas de que os homens

se servem,

e, do fundo de meu ser revolvido pelas dores elementares,

nascerá,

simples como desponta à flor da terra um fio das grandes águas

subterrâneas,

o canto dos que têm fome e sede de justiça.

(1941)

Noturno em Palmira

E tu que não vens. A noite é música apenas.

Distâncias, formas e cores apagaram-se na treva.

- A curva ondulante das colinas

e a linha dos longos eucaliptos.

Asas negras de urubus cortando a transparência do azul.

O branco sanatório solitário nas montanhas

e os gestos dos homens sofredores,

gestos simples de homens para quem a tragédia se tornou uma

forma de vida.

Distâncias, formas e cores apagaram-se na treva.

Somente a noite existe, a densa noite informe.

Os seres são puras formas interiores,

são ritmos essenciais.

A presença das árvores é o cântico da seiva elaborando.

Os animais desapareceram dentro da espécie gloriosa.

Mundos em formação latejam nos espaços noturnos

e astros mortos giram a saudade da luz.

Fluidos imponderáveis,

ondas de energia cósmica rolando,

movimentos iniciais de formas obscuras,

sons, misteriosos sons nascendo de ignotas distâncias sem fim.

Música pura,

a vida original vibrando dentro da grande noite mágica e

profunda.

A noite é música apenas. E tu que não vens.

(1941)

Carnaval

Um povo surgiu, surgiu não sei donde,

dançando, cantando, um povo surgiu.

- Você me conhece? – Não conhece não.

E a voz se perde na multidão.

Eu sou a Bahia.

– Viva o Rei Momo! – hoje é seu dia.

Chora a menina,

com medo do mandu.

– Lá vem o cordão!

Bate o batuque

e o batuque bate.

Negro preto,

cor de urubu,

bate o batuque

e o batuque bate.

Negro é rei

no carnaval,

tem manto, tem cetro,

e o chapéu de sol

é pálio real.

Gritos humanos, interjeições,

lança-perfume, desejos sem rumo, acres, com gosto de mar,

um cheiro forte de todas as raças

vibram no ar.

Uma massa humana,

todas as cores,

todas as raças,

todas as classes,

em confusão.

De que subsolo irrompeu, informe, nua,

essa nova realidade sem nome que dança na rua?

A rua Chile,

a rua grã-fina,

cadê os donos da rua-salão?

- Madame ultrachique que tem três amantes.

- O burguês graúdo,

- Os vagabundos elegantes,

- Os literatos de academia,

carro oficial,

rodas de porta de confeitaria

que resolvem o momento internacional.

Cadê a gente de todo dia,

cadê os donos da rua-salão?

Passa uma "dama" de cetim vermelho

que mora dos lados do Pau Miúdo.

Ondas humanas que vão e que vêm,

ritmo de samba até no andar.

Um louro estrangeiro que samba também.

- Olhe a mulata de seu Manoel Português!

Passa no carro, gorda, imponente,

com um chapeuzinho de chinês.

Cordão do Chame-Chame. Bonde cheio. O doutor da Vitória

quer tomar.

- Segue o bonde, não há mais lugar.

- Você me conhece? – Não conhece não.

E a voz se perde na multidão.

Um povo surgiu, surgiu não sei donde

dançando, cantando, um povo surgiu.

Os homens do mundo estão no meu sangue.

No meu sangue,

as raças,

as classes,

os povos

misturam-se.

Eu sou a Bahia.

- Viva o Rei Momo! hoje é seu dia. 9

(1942)

Nós, os cristãos

Senhor,

na realidade eterna de tua vida divina,

contemplas dentro do teu Verbo

todas as criaturas.

Contemplas os cristãos

que não continuam através do tempo

a presença do teu Verbo encarnado.

Não somos a tua imagem.

Somos apenas uma caricatura,

nós, os cristãos

que aceitamos a injustiça na face da Terra.

(1942)

Cantiga das mães

(Para minha mãe)

Fruto quando amadurece

cai das árvores no chão,

e filho depois que cresce

não é mais da gente, não.

Eu tive cinco filhinhos

e hoje sozinha estou.

Não foi a morte, não foi,

oi!

foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,

como cresceram depressa,

antes ficassem meninos

os filhos do sangue meu,

que meu ventre concebeu,

que meu leite alimentou.

Não foi a morte, não foi,

oi!

Foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.

Os cinco filhos que tive

multiplicaram por cinco

minha dor, minha alegria.

Viver de novo eu queria

pois já hoje mãe não sou.

Não foi a morte, não foi,

oi!

foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,

sempre, sempre foi assim.

Filhos juntinho de mim,

berço, riso, coisas puras,

briga, estudos, travessuras,

tudo isso já passou.

Não foi a morte, não foi,

oi!

foi a vida quem roubou.10

(1942)

Diálogo num país qualquer

- Demorei muito, não foi, mulher?

E o menino, como vai o menino?

- Vai assim como Deus quer.

Você arranjou o dinheiro?

- O dinheiro da receita?

- Sim. Coitado de meu filho, ficou sozinho o dia inteiro,

doente como está.

Fui ver se dava um jeito.

Fui na casa do padrinho,

que me deu umas frutas – fruta está tão caro -

para a dieta dele, coitadinho.

E a receita, como é?

- Não arranjei, não.

Ia falar com o gerente

para ver se me adianta algum dinheiro.

Mas estavam todos na reunião.

Sabe que a guerra já esta perto da gente?

- E para que fizeram reunião?

- Foi uma espécie de comício.

O diretor fez um discurso,

disse que a hora é grave, que exige sacrifício.

A pátria está ameaçada.

Cada homem deve dar até a própria vida

para defender o que é nosso,

para defender a pátria estremecida.

- E ele disse o que é pátria?

- Disse que pátria é tudo o que nós temos.

É a nossa terra

e tudo de bom que esse nome encerra.

É o alimento que nos vem do solo,

é o pão,

a água que bebemos,

o fogo que nos aquece,

a casa onde vivemos.

- Pátria é tudo o que nós temos.

Meu filho doente,

sem remédio,

sem alimento,

sem um cobertor para a hora do frio.

Água comprada por três mil réis a lata.

Fogo no candeeiro de gás que a vizinha emprestou.

O dono da casa exigindo o aluguel.

Será que a gente tem mesmo pátria, Manuel?

(1942)

Canto da hora presente

Os ventos que sopram do norte,

os ventos que sopram do sul,

que vêm do Pacífico,

e que vêm do Atlântico,

de todas as terras,

de todos os mares,

se cruzam nos ares.

São ventos que trazem faíscas de fogo,

que trazem sementes de vida e de morte.

No Oriente velhíssimo, no berço do mundo,

na Europa – o que é hoje Europa?

na África humilhada que é humana também,

nas ilhas perdidas

que boiam nos mares,

alguma coisa morre,

alguma coisa nasce.

A vida se renova na face da Terra.

Homens que tendes as raízes mergulhadas

na terra americana.

Homens em cujo sangue se plasma

o homem americano.

Homens de todas as cores,

classes,

condições,

nós somos a América,

somos o Brasil que tem um destino

dentro do mundo,

do mundo que o fogo transforma.

Os ventos que sopram do norte,

os ventos que sopram do sul,

que vêm do Pacífico

e que vêm do Atlântico,

de todas as terras,

de todos os mares,

se cruzam nos ares.

São ventos que trazem faíscas de fogo,

que trazem sementes de vida e de morte.

(1942)

Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.

Quando eu não for mais um indivíduo,

eu serei poesia.

Quando nada mais existir entre mim e todos os seres,

os seres mais humildes do universo,

eu serei poesia.

Meu nome não importa.

Eu não serei eu, eu serei nós,

serei poesia permanente,

poesia sem fronteiras.

(1942)