Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 20 de 21 · parte 1/3

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Jacinta Passos, coração militante

Fortuna crítica

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

O que se escreveu sobre Jacinta Passos

Apesar da pequena tiragem dos livros, a poesia de Jacinta Passos desde cedo chamou a atenção de estudiosos, obtendo boa repercussão, primeiro na Bahia, onde mereceu análises de críticos experientes e reconhecidos como Carlos Chiacchio e Lafaiete Spinola. Desde Canção da partida, seus poemas foram elogiados por intelectuais de grandes centros do país, gente de projeção nas Letras cuja opinião realmente influía, entre os quais Aníbal Machado, Antonio Cândido, Mário de Andrade, Paulo Dantas, Roger Bastide e Sérgio Milliet. A poeta chilena Gabriela Mistral, prêmio Nobel de Literatura em 1945, também expressou opinião favorável sobre a poética de Jacinta Passos.

Esse primeiro ciclo de estudos críticos estendeu-se até 1958, ano em que Paulo Dantas escreveu sobre A Coluna, editado no ano anterior. A partir daí, durante mais de três décadas desceu o silêncio sobre a obra da poeta, só quebrado, aqui e ali, não por trabalhos críticos, mas pela inserção de trechos de A Coluna em alguma publicação de esquerda do país. Tal silêncio pode ser explicado por Jacinta não haver mais publicado livros, por ter passado muitos anos internada em sanatórios, pelo forte conteúdo político (de esquerda) de sua poesia, que desagradava aos órgãos oficiais desde o golpe militar de 1964, e, após o falecimento da autora, em 1973, por sua poesia não haver sido reeditada.

José Paulo Paes rompeu o silêncio de três décadas quando escreveu, com vistas à segunda edição de Canção da partida (1990), um longo e minucioso estudo sobre o significado da obra de Jacinta Passos, até agora o mais alentado ensaio crítico sobre ela, mesmo que o leitor possa discordar de alguma interpretação do grande crítico e poeta. A partir de então, sem novas edições, a poesia de Jacinta Passos voltou a cair no esquecimento, deixando de ser lida e, claro, estudada.

Só muito recentemente houve um reavivar de interesse pela sua

obra, quando surgiram novos textos sobre a poeta1. Ao mesmo tempo, seus poemas voltaram a integrar apresentações de poesia falada e antologias literárias, tanto impressas como em formato de

cd e vídeo2. A presente edição, a primeira a reunir a obra completa e a fortuna crítica sobre Jacinta Passos, representa um novo momento de divulgação da autora, capaz de inspirar, espera-se, novos ensaios críticos, assim como edições mais populares de sua

poesia. O site http://jacintapassos.com.br, recentemente inaugurado, oferece a um público amplo informações sobre a trajetória de vida e a poesia da autora, assim como atualizações sobre novos estudos e iniciativas culturais referentes a ela.

Os textos desta Fortuna Crítica, escritos pelos autores ao longo de décadas, à medida que os livros de Jacinta Passos iam sendo publicados, foram pesquisados em jornais, revistas e livros, constituindo o cerne do que se produziu sobre a autora. Ler o conjunto destes textos ajuda-nos a compreender facetas diversas da sua obra, algumas imperceptíveis ao olhar leigo, bem como esclarece aspectos da vida e do tempo de Jacinta, aproximando-nos da autora e nos ajudando a evitar anacronismos. Os críticos aqui reunidos emitem opiniões, algumas polêmicas, outras opostas entre si, sobre as quais vale a pena pensar e posicionar-se.

Este grupo de ensaios está, contudo, sabidamente incompleto, pois existem referências a estudos críticos cujos textos integrais não consegui localizar. É o caso das seguintes críticas, que tiveram pequenos trechos reproduzidos nas orelhas do terceiro livro de Jacinta, Poemas políticos (publicado em 1951), todos assinados por intelectuais de renome:

Esta síntese entre o sabor das formas folclóricas e o sentimento

da miséria dos homens, da solidariedade no sofrimento, a

profecia de um mundo mais justo e mais fraternal, eu a

encontro realizada com sucesso nos poemas de Jacinta

Passos. (Roger Bastide)

Tudo é um canto de poesia que vai da poesia mais íntima ao

canto longo da libertação, voz da maioria das mulheres

conscientes e profundas. (Aníbal Machado)

Arrebata, se comunica, gana el alma. Prolongue la "Canción

Simples", dijamos a las mujeres. (Gabriela Mistral)

Ela tem realidade poética, não me parece haver dúvida. (Mário

de Andrade)

Jacinta Passos envolve a sua poesia em enxoval de criança,

não comprado em Paris ou Nova York, mas enxoval que parece

um ninho quente, gostoso, de folclore nosso. (José Geraldo

Vieira)

É possível que existam ainda estudos e ensaios sobre Jacinta Passos que desconheço e, portanto, não estão integrados a este volume. Minha esperança é a de que esta edição contribua para localizar tais textos, se existirem, bem como os textos integrais das críticas cujos excertos foram aqui transcritos.

Esta Fortuna Crítica está apresentada em ordem cronológica. Cada texto identifica e situa seu autor, bem como o local da publicação original. Onde absolutamente necessário, mudei a pontuação de uma ou outra frase ou corrigi citações defeituosas dos poemas de Jacinta, sem anotar isso a cada vez. Os poucos acréscimos que fiz aos textos dos autores, sempre no sentido de esclarecer alguma frase obscura, em geral devido a problemas de impressão, estão entre colchetes. Nos ensaios de Antonio Cândido e de José Paulo Paes, as notas redigidas pelos autores estão assinaladas como "Nota do texto original", para diferenciar daquelas que escrevi.

 

"Poesias", de Jassy Passos (Bahia)3

Carlos Chiacchio4

"Poesias" é um título arbitrário que adotei para revelar o nome de

Jacy Passos.5 Os versos, ademais, não me foram mandados para nenhuma revelação. Eu é que reputaria um crime se não dissesse deles a surpresa agradabilíssima que me causaram. Pois que? Há, entre nós, uma inteligência harmoniosa de artista do verso, como Jacy Passos, e não trazê-la à admiração justa do público, que ainda tenha em apreço espiritual as espontaneidades do talento? Não é possível o silêncio. Perdoem-me os delicados melindres da jovem poetisa. Os versos é que não carecem de pedir perdão. Defendem-se com toda a força da sua indiscutível pureza. Vamos ler, sem mais comentários, o soneto – "Maria":

Ergue-se a cruz no cimo do Calvário.

Após cumprir sua missão, Jesus,

que por nós nasceu pobre e solitário

por nós, agora, vai morrer na cruz.

Já se fez o divino donatário

de tudo o que era seu. Bênção de luz

que desceu sobre o mundo tumultuário

é doutrina de amor que ao Céu conduz.

Prisão, torturas, sede, fundas dores

desprezo, ingratidões, açoite, horrores,

tudo sofreu por nós, pobres mortais.

E ainda nos dá, no instante da agonia,

santificado, o vulto de Maria,

que é o bem maior que todos os demais.6

Dir-se-á que nem o assunto nem a forma são novas. Quem já não escreveu sobre Maria? Antologias se contam. Quem já não fez sonetos? Só os que ainda não nasceram para poesias. O que há, porém, em Jacy Passos, é a concepção nova do sentido estético da fé – que há uma estética, como há uma ética da fé -, naquela chave, verdadeiramente de ouro, se já não fosse tão mal usada a expressão. Repitamo-la:

E ainda nos dá, no instante da agonia,

santificado, o vulto de Maria,

que é o bem maior que todos os demais.

Nunca ninguém disse com mais simplicidade sobre um dos maiores temas do catolicismo, que é esse "bem maior que todos os demais", legado por Jesus.

* * *

Não se pense, todavia, que a arte de Jacy Passos se valha do sentimento místico para vingar louvores, ou captar simpatias. O seu espírito é sincero. Em outras mostras de mérito, acusa uma sensibilidade notável para os aspectos da natureza, como no poema – "Manhã de sol" – cujo fecho demonstra, apesar da homofonia, a emotividade lírica de Jacy Passos:

E todo esse esplendor se comunica

à alma da gente que vibrando fica,

e com alta emoção, esplêndida e feliz

bendiz

numa alegria incontida

a glória de viver e a beleza da vida.7

Já agora, não há como não conhecer, na integra, um dos poemas

inéditos de Jacy Passos,8 a nova poetisa baiana:

Meu sonho

O meu sonho

mais risonho,

é suave e pequenino,

resumindo, entretanto, o meu destino.

É de cor azul- escuro

como o mar que longe chora.

É cor de infinito e de ânsia,

cor de céu, cor de mar, cor de distância.

Tem a leve suavidade

da saudade,

e a cantante doçura

de um regato que murmura.

Macio e encantador,

é carícia de pluma e perfume de flor.

O meu sonho

mais risonho

é para mim, cada momento,

o motivo maior de doce encantamento.9

Sem nenhuma pretensão a gênio, mas com toda a espontaneidade de alma, Jacy Passos é uma das mais legítimas expressões do nosso lirismo feminino.

 

Um livro e dois poetas 10

Lafaiete Spinola11

De dois poetas baianos e publicados na Bahia são os Nossos Poemas, da sra. Jacinta Passos e do sr. Manoel Caetano Filho. Irmãos no sangue e na arte, e fazendo imprimir os seus versos

num12 só volume, dão-nos uma primeira impressão de xifópagos espirituais, cujas existências se completam ao mesmo passo que se atrofiam. Nota-se, evidentemente, uma aliança, vamos dizer uma interdependência, no sentir e no pensar dos jovens estreantes. Percebe-se – tudo pode ser uma simples sugestão – que as duas almas, que um mesmo sonho de beleza e de verdade aproximou, trilharam juntas a mesma senda amarga do ideal. Porque, pensem diversamente, embora, os apologistas da alegria, a arte é a mais perturbadora das angústias humanas. Os dois poetas, à semelhança de tantos outros, são testemunhas expressivas dessa ânsia incontida de realização, que é a própria essência da arte. E nesse objetivo é que se lhes denuncia uma comunhão de espírito, que os torna mais irmãos. Contudo, essa primeira impressão vai desaparecendo, imperceptivelmente, a uma análise menos rápida. É que, embora persista em sua formação um traço comum, que os aproxima, esse impulso remoto muito se transforma na concretização da obra de arte, levada a efeito pelos cantores de Nossos Poemas.

E, a essa altura, podemos afirmar, paradoxalmente, que são muito diversos os espíritos semelhantes da sra. Jacinta Passos e do sr. Manoel Caetano Filho. Ambos profundamente contagiados pela inquietação contemporânea, mergulhados numa introversão, que denunciam claramente através de um universo fictício que idearam e em que vivem, longe de tudo e de todos acreditam que suas fantasias são realidades e mal percebem que suas visões não transpõem os horizontes de seu mundo interior. Emprestando a tudo uma gravidade que a natureza desmente, os poetas de Nossos Poemas criaram, a seu talante, uma estranha vida, a que implantaram as leis de seu capricho e de sua fantasia. Mas, não obstante essa analogia de origem e de princípios, malgrado essa paridade de sentimentos que os identifica, vamos encontrar os predicados mais díspares nos dois poetas, se atentarmos nos quadros fixados e nos efeitos obtidos. Nesse passo, não é possível desconhecer mais sensibilidade, mais senso artístico, maior soma, enfim, de realizações, na poetisa, que soube, ou pôde, atingir melhor a finalidade de um mesmo sonho de arte.

Tentemos uma análise desses jovens sonhadores

Os "Momentos de Poesia", da sra. Jacinta Passos, revelam uma artista, senão de monumentos grandiosos, pelo menos de delicados painéis. Extremamente impressionista e, mais ainda, impressionada, possui, contudo, um defeito raro nas mulheres: pensa. Preocupa-se com os problemas do absoluto, entretém-se com as incógnitas da metafísica, sublima a sua inquietação no culto a uma entidade que reveste as feições de um deus, mas um deus puramente humano, que se diversifica e se transforma a cada momento. O "Senhor" de seus poemas, que se ductiliza ao pensamento plástico da artista, não toma, em parte alguma, os traços religiosos de um criador qualquer, antes é a realização de um símbolo a que se socorre o espírito, agitado pela avidez da verdade e pela neurose da dúvida.

Estou cansada, Senhor.

Minha alma insaciável,

a minha alma faminta de beleza,

ávida de perfeição,

é perseguida pelo teu amor.

Compreende perfeitamente a inutilidade dos sacrifícios humanos e dos puros ideais de redenção, e sabe ver, na lição do Gólgota, a loucura divina, a loucura da cruz. Esse desânimo, que é, ao mesmo tempo, um protesto contra as constantes vitórias do Mal, é comum nos artistas, eternos videntes do Bem. Três passagens me ocorrem no momento, que são três súplicas desesperadas diante do inevitável. Tobias Barreto, em face da sânie moral em que se dissolvem os homens, lançou aquela célebre interrogação: De que foi que Jesus salvar-nos veio? Antero de Quental, no misticismo de seu ateísmo, resmungava: ... de que serviu o sangue com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? E Bilac, sinceramente comovido com a bondade ultrajada do Cavaleiro da Triste Figura, clamava revoltado: ... todo o esforço em prol do Bem é vão! Quem se mete a redentor sacrifica os que quer redimir e sai crucificado...

Esse é o traço característico da poesia da sra. Jacinta Passos. A dúvida, a revolta, a inquietação, um incurável sonho de altura, tudo com certo desembaraço de forma e aceitável equilíbrio de conclusões, fazem-na digna de reparo. Usando e abusando das abstrações e das ideias gerais, evita, às vezes, os todo o meu desejo (p. 43), todos os tempos, vozes todas da terra (p. 45), todas as durezas, todas as coisas, terra toda, todas as formas (p. 46), todas as vibrações, todos os instantes (p. 47), todos os ventos, todas as misérias, todos os homens (p. 51), toda a terra, experiência total, todos os seres (p. 53), todas as vibrações, todos os lados (p. 55), todos os povos, realidade total, todos os seres (p. 56), todas as dores (p. 61), todas as realidades (p. 63), todas as limitações (p. 67), posse total (p. 69), todos os frutos (p. 74), ser humano total (p. 79), todas as raças, todas as cores, todos os povos, todas as classes (pag.86), todas as criaturas (pag. 89), todas as terras, todos os mares (p. 95), todas as cores (p. 96), todos os seres (p. 97). Essa obsessão por certas palavras culminou em dois poetas patrícios: Ronald de Carvalho, em seus Sonetos e Poemas, com o vocábulo "vão" (mais de duzentas vezes), e o sr. Alphonsus Guimarães Filho, no Lume de Estrelas, com a palavra "vento" (mais de quinhentas vezes). A sra. Jacinta Passos pode concorrer ao campeonato com o seu "todo", mas deve temer o sr. Heitor Alves (Vida em Movimento) e a sra. Adalgisa Néri (A Mulher Ausente), grandes consumidores daquele termo, verdadeiros corifeus do "todismo" no Brasil. Outro reparo que é possível fazer no livro da sra. Jacinta Passos se reporta à imprecisão de linguagem. Por esse caminho, iríamos até à incorreção gramatical, hoje, aliás, permitida até nos professores de línguas e educadores, muitos dos quais deveriam começar onde acabaram: numa academia de letras... Na "Mensagem aos homens", por exemplo, a poetisa escreve: Eu "te" esperei..., quando é certo que não se referia a um homem só. Também na bela e comovedora "Canção simples" rima o substantivo "rio" com o verbo "caiu", o que representa uma ligeira confusão de hiato com ditongo, só censurável porque prejudicou a beleza dos versos. Mas essas nugas já vão ficando antipáticas... Paremos aqui. Mesmo porque todas elas juntas não desmerecem os méritos da jovem poetisa, que já realizou muito, e que mais realizará se a sua inspiração tomar o rumo dos motivos simples e humanos de "Compreensão", "Canção Simples" e "Cantiga das Mães", fugindo ao ultranefelibatismo da poesia contemporânea, que será um divertimento para as consciências claras dos homens de amanhã.

Vejamos agora o poeta. "Mundo em Agonia", do sr. Manoel Caetano Filho, denuncia desde logo um torturado. E ele é, precisamente, isso. Os seus poemas revelam a preocupação dos complexos problemas sociais, da sorte dos homens e do destino da humanidade. A sua "Inquietude" não está em si, está nos homens injustos e no mundo hostil ou indiferente:

Como seguir o meu caminho

se vejo corpos famintos caindo no chão,

se vejo olhares cheios de aflição e desespero?

Ninguém melhor do que Oliveira Martins fez a análise desse estado de alma, quando traçou o perfil de Antero de Quental, a quem o mundo nunca foi adverso, mas que talvez escrevesse os mais angustiosos poemas da língua portuguesa: ... tudo, tudo, quanto no mundo pode haver de doloroso, desde a miséria até a prostituição... tudo isso é menos do que a agonia de um poeta vendo passar, diante de si, em turbilhão medonho, as lúgubres misérias do mundo. E Antônio Nobre, este a sentiu em si mesmo:

Toda a dor pode suportar-se, toda!

......................................................

Mas uma não: é a dor do pensamento!

Felizes, portanto, os que não pensam. E mais felizes ainda os que pensam que pensam, e escrevem, e produzem, e proliferam, e entram até nas academias de letras, onde o pensamento é manga de colete, para usar uma expressão que me ensinou o meu amigo Gilberto Guimarães. O poeta do "Mundo em Agonia", porém, prefere meditar na trajetória dos turbilhões humanos, e sofrer por eles:

Eu olho a vida com tristeza.

Eu ouço o coro de vozes angustiadas

vindas de todos os recantos da Terra.

Sabendo ver e compreender as angústias humanas, o sr. Manoel Caetano Filho é um temperamento reflexivo, e os seus desalentos e revoltas são mais pensados que sentidos, sendo a sua tendência mais para as generalizações filosóficas do que para as realizações artísticas. Vê-se nele, mais do que um poeta, um curioso da sociologia, vamos dizer a gêmula de um sociólogo. E não será como poeta, salvo melhor juízo ou a lógica irrefutável dos fatos, que poderá alcançar as vitórias que a sua inteligência prenuncia. Falta-lhe, para isso, o apuro do sentimento artístico, não obstante o seu poema "A Arte", e a poesia há de ser sempre arte, malgrado as doutrinas, no campo literário, deste século de transição. O ritmo dos versos do sr. Manoel Caetano Filho é um tanto áspero e, sobretudo, instável, não daquela instabilidade que os parnasianos denominavam "insegurança", se se obtinha pela mobilidade das cesuras, para fugir à monotonia. No caso do sr. Manoel Caetano Filho o que se observa é que o verso lhe não é dúctil, é que o seu sentimento não se submete àquele círculo vicioso da arte poética: a emoção cria o ritmo, o ritmo produz a beleza, a beleza desperta a emoção... De tudo se conclui que não há poesia, poesia pura, aquela que é mais sensibilidade que pensamento, mais emoção que raciocínio, nos versos do novel poeta. As exceções nesse particular, como Leopardi, Sully, Prudhomme e Goethe, ainda que em miniatura, por isso mesmo que exceções, não representam regras. Também o poeta possui todos os defeitos de sua irmã e companheira, sem possuir, contudo, muitas de suas virtudes. Assim é o abuso da palavra "todo". Apenas alguns exemplos: todas as caras (p. 109), todas as cousas (p. 111), todas as almas, todas as dores (p. 115), todos os povos, todas as crenças, todas as raças, todos os homens (p. 119), e sempre assim. Uma das imprecisões típicas do livro:

Os homens começaram a andar de um lado para outro

na rua deserta.

Imagine-se uma rua deserta com homens andando de um lado para outro...

Reconheço, entretanto, que são nonadas tudo isso, e não vacilo em augurar ao jovem poeta um belo futuro, em diversa atividade intelectual. E para justificar a sua presença diante de sua companheira de livro e afastar a conclusão de uma suposta inferioridade de nível mental, bastam as palavras de Eduardo Frieiro, em sua Ilusão Literária:

Quem nos diz que, num futuro próximo, não será deixada

exclusivamente ás mulheres toda atividade literária? Aos

homens incumbiriam tarefas mais sérias, mais árduas, mais

construtivas. Compor versos parecerá então ocupação tão

ridícula e tão pouco varonil como nos parece hoje o bordar

almofadas ou fazer crochê.

Diante disso, que dizer dos poetas que preparam, carinhosamente, suas mensagens para o futuro? Só há um recurso: reconhecer a razão do dr. Isaías Alves quando, num de seus livros, aconselha aos poetas que troquem a lira pela enxada, e, às musas, prefiram as hortas...

 

Nossos poemas13

Castro Alves e a "poesia morreu" do sr. Augusto Frederico Schmidt – são temas a que não se pode fugir falando sobre poesia. Porque Castro Alves está sempre presente e o sr. Schmidt de certa forma tem razão. Depois do poeta dos escravos, a verdade é que temos tido apenas alguns bons poemas, mas nenhum grande poeta. Esses poemas têm surgido ocasionalmente da pena de um ou outro poeta, como aves perdidas do bando: "Hurucungo", de Bopp, "Acalanto de Seringueiro", de Mario de Andrade, "Noite de maio" e "Mineiros asturianos", de Aydano do Couto Ferraz, "Aurora", de Carlos Drummond, além de alguns mais do sr. Camargo Guarnieri.

Sem nenhuma dúvida, liricamente falando, a maior organização poética destes tempos no Brasil é o sr. A. F. Schmidt. Mas não passa de uma organização poética. Esse homem vive muito no mundo dos câmbios para se preocupar com os homens ou mesmo pensar que eles existem. O sr. Schmidt criou uma escola, fez urna verdadeira praga de discípulos que pululam por todos os Estados, como sócios correspondentes de uma imensa cadeia da felicidade. Esses poetas estaduais ficaram muito tristes quando o chefe da escola disse um dia, para meter-lhes susto, que a poesia tinha morrido. Não perceberam que aquilo era uma senha e queria dizer apenas: Os negócios vão mal. O câmbio está baixo. Depois, as taxas melhoraram e o sr. Schmidt ressurgiu como um dos piores poetas de sua própria escola. Para ele a poesia tinha morrido mesmo.

Mas o sr. Schmidt só olhou a poesia, quando, se tivesse procurado abranger um maior espaço com suas lunetas, teria percebido que toda a literatura brasileira estava morta ou quase expirando. Pelo menos inteiramente estagnada desde há vários anos. Estagnou à proporção que os que haviam começado o movimento revolucionário (literariamente falando) de 1930 foram se engajando na vida. É o fenômeno Knut Hansum.

No entanto, ainda há grandes esperanças. É possível que um dia outro movimento renovador – que vá ao fim e não pare em meio do caminho – apareça no Brasil. E é provável que esse movimento já se esboce. Há muitos sinais promissores.

Nossos Poemas, de Jacinta Passos e Manuel Caetano Filho, é um livro de jovens que não se filiam ao sr. Schmidt ou a qualquer outro dos nossos poetas estagnados. São criaturas deste mundo que veem coisas terrenas (embora se note que a poetisa ainda está um tanto perdida pelos céus e só mais recentemente vai se aproximando da terra, vendo que a terra é habitada, que existem motivos para poesia aqui embaixo mesmo: homens, mulheres e crianças, e que esses homens, mulheres e crianças lutam e morrem e sofrem muitíssimo antes de morrer).

A grande qualidade do sr. Manue1 Caetano Filho é ter percebido tudo isto antes mesmo de ter tido tempo de dar forma à sua poesia. Mas é um poeta que está inteiramente integrado na Humanidade, sente os seus sentimentos e percebe claramente tudo quanto ela necessita. Trazem esses poetas alguma coisa de novo. Eles compreendem, como o Goeldi, que os aviões jogam mesmo bombas sobre as nossas cidades, e não flores.

Há enormes diferenças essenciais na poesia dos dois poetas. Mas o que nos interessa é que têm ambos esse traço comum: uma sinceridade sem limites que os leva a expressar tudo quanto sentem e pensam.

Não importa, assim, que o sr. Manuel Caetano Filho seja mais cerebral do que sentimental – o que talvez seja uma qualidade da sua poesia; como não importa igualmente que a sra. Jacinta Passos ainda não tenha encontrado claramente o seu caminho. Mas não tardará a encontrá-lo.

As qualidades de sua poesia são excelentes, nada ficando a dever, em expressão poética propriamente dita, a qualquer dos poetas que fizeram os grandes poemas a que nos referimos.

Nossos poemas é uma contribuição ao pensamento honesto do Brasil.

Felizmente que a grande causa que hoje envolve toda a humanidade já começa a ser uma causa das novas gerações intelectuais do nosso país. Nossos poemas assim o indica.

 

O poeta e a poetisa 14

Antonio Cândido15

Comentando há três anos o livro de estreia do sr. João Cabral de Melo Neto, Pedra do sono, julguei discernir no jovem autor um dos poetas mais promissores da sua geração. O engenheiro, seu segundo livro, recentemente publicado, não deixa mais dúvidas a respeito.

Pedra do sono parecia um livro de experiência. Comparado com a maturidade e a firmeza de O engenheiro, nos dá a impressão de tentativa e de pesquisa técnica, representando na obra do sr. João Cabral a fase preparatória de polimento e ajuste dos instrumentos. Recuando para o segundo plano que lhe compete agora, a sua geometria se movimentou e deu origem à física poética de O engenheiro, cujas leis determinadas com sabedoria se corporificam em fenômenos de movimento, animando uma atmosfera mais densa e mais viva, em que as linhas e os pontos em rotação deram origem a entidades seivosas e ricas. Depois das experiências do primeiro livro o poeta já sabe dispor, na dinâmica da inspiração, as

20 palavras sempre as mesmas

De que conhece o funcionamento

A evaporação, a densidade menor que o ar.

Libertando-se da experimentação preliminar, o sr. João Cabral pôde realizar em O engenheiro uma aventura lírica muito mais significativa e, dirigindo-se livremente aos valores da inspiração, dar-lhe um conteúdo emocional mais rico que o de Pedra do sono.

O nome não é mal posto. O poeta parece se interessar sobretudo pelo mundo da arte, construído graças à ordenação criadora do artista sobre o material das emoções e das sensações. Por isso, cria uma natureza ao lado da natureza – a natureza da criação estética, se opondo à da criação natural e lhe fazendo concorrência. Temos, portanto, no livro, dois mundos: o mundo natural e o mundo poético. Exercendo a engenharia poética sobre um mundo de formas e valores diversos dos naturais, nem por isso o sr. João Cabral procura anular a este, como adiante veremos. Falando por enquanto do universo forjado, assinalemos que ele se define por uma série de metáforas de instrumentos. É, portanto, intencionalmente, o universo da criação artística, artificial, em que as musas, as árvores, os rios, os pássaros, os lagos são, frequentemente, substituídos por imagens como papel, lápis, bailarina, tinteiro, borracha, tinta. Nesse mundo de vontade e inspiração, nasce a obra de arte, diferente da obra natural. Maravilhado, o poeta, que o suscitou, duvida da sua validade:

Como um ser vivo

Que é um verso

Um organismo O engenheiro-poeta percebe o seu artifício de animal-que-sonha e fica meio preso entre a realidade incriada em que a terra floresce e o impulso interior de criar, ordenar a revelação dos sentidos. Haverá razão para isso? Qual o valor dessa concorrência à natureza? Um dos temas principais do livro é o problema da criação poética, cujos símbolos o sr. João Cabral procura renovar, conforme vimos. Haverá um certo alexandrinismo nessa substituição de metáforas – lápis e caneta em vez de lira; engenharia em vez de inspiração etc. Não se pode negar, todavia, que sejam sugestivas e adequadas a um poeta que se coloca entre a inspiração e a fatura do verso com uma ansiedade que revela a sua consciência artística.

Com sangue e sopro

Pode brotar

De germes mortos?

O verso é fruto de uma técnica, por meio da qual, conscientemente, invoca os mistérios adormecidos:

A tinta e lápis

Escrevem-se todos

Os versos do mundo.

Que monstros existem

Nadando no poço

Negro e fecundo?

Não lhe parece que da sua vontade, dos seus recursos, seja possível brotar uma natureza tão válida quando a natureza natural, que, essa, existe por obra e graça de uma força mágica e extra-humana:

Os homens podem

Sonhar seus jardins

De matéria fantasma

A terra não sonha

Floresce na matéria

Doce aos olhos.

O mundo criado pelo sr. João Cabral tem aparições, habitantes, monstros, cenas que o tornam autônomo e rival do mundo cotidiano. Stefan George criou um mundo subterrâneo em que imperava Heliogábalo e onde os valores se transmutavam para simbolizar a sua concepção da vida. Lendo O Engenheiro, sentimos certos apelos de uma outra vida, em que os tinteiros são reservatórios de monstros, as pessoas se calcificam em monumentos e as bailarinas pertencem a uma fauna original. Não obstante (e nisto reside um dos encantos do livro), o sr. João Cabral se esforça por dotar a natureza do seu livro com a espontaneidade e a beleza sem artifícios que o impressionaram na natureza natural (A terra não sonha...). Daí a sua busca de simplicidade essencial, como o bom engenheiro, que faz beleza com um máximo de poupança:

A luz, o sol, o ar-livre

Envolvem o sonho do engenheiro

O engenheiro sonha coisas claras:

Superfícies, tênis, um copo d'água;

ou:

O jornal dobrado

Sobre a mesa simples

A toalha limpa

A louça branca

E fresca como o pão (...)

E o verso nascido

De tua manhã viva

De teu sonho extinto

Ainda leve, quente,

E fresco como o pão16

Estas citações de um despojamento tão acolhedor, embora extremamente elaborado, mostram o encanto do sr. João Cabral pelo mundo tangível. A outra metade do livro, como indiquei acima, é pois uma aceitação da natureza, posta no mesmo plano que o mundo da arte. O resultado consiste numa síntese em que o poeta, depois de ter criado um mundo à parte, volta ao mundo natural e o interpreta novamente. E não ficamos sabendo quais as leis que predominam, tanta é a fusão de ambos. Ora a natureza nos parece interpretada segundo as leis da engenharia poética, ora o mundo forjado por esta parece regido pelas leis da natureza.

Graças a esta posição humana e compreensiva, o sr. João Cabral dá dignidade à poesia intelectualista, frequentemente construída sobre as ruínas do mundo exterior e provida de um orgulho insuportável hoje em dia. Em O Engenheiro, e apesar do nome, não encontramos mais o preconceito, corrente até pouco, de que a liberdade e a autonomia do artista consistem em substituir a natureza pela mecânica. O sr. João Cabral despreza a invocação às máquinas, às turbinas, compreendendo que essa maneira de afirmar o domínio sobre a natureza pertence ao técnico, e não ao poeta, que tem outros recursos: para ele as criações da técnica são também natureza, opondo-se igualmente ao mundo da ordenação

artística. Desprezando sabiamente esta poesia de mecano17 – idolatrada pelo futurismo e pelo modernismo tout court -, o sr. João Cabral animou os tinteiros, as borrachas e os lápis com um sopro panteísta, em vez me mecanizar as árvores e drenar os ventos. Daí a vibração do seu verso, a riqueza das suas paisagens de sonho e das suas visões da natureza. A jovem poesia brasileira nada produziu de melhor que "Estações", poemas em que a estilização funde os dados da sensibilidade em símbolos e imagens de uma beleza extraordinária.

* * *

Bem diferente é 18 Canção da partida , da sra. Jacinta Passos. A jovem poetisa baiana passa de uma concepção totalmente diversa da de seu colega pernambucano. Os ritmos populares, a melodia elementar e o canto de esperança formam a matéria de seu livro. Em vez de criar um mundo à margem do nosso, a sra. Jacinta Passos mergulha de alma e corpo nos ritmos e nas realidades que a vida oferece. Do ponto de vista plástico o mundo lhe basta tal qual é; a sua sensibilidade esposa ardentemente as formas da vida e

encontra nelas um deleite sem maiores exigências.19 O seu desejo de transformação é menos estético do que social, por isso em vez de se deter no estudo das formas como o sr. João Cabral, procura sempre o conteúdo humano das experiências. Canta recordações, lembra cenas e fatos, dá expansão aos sentimentos, se exalta nas profecias e no desejo de transformar a vida:

Levantai-vos, párias de todo o mundo!

Não vedes? Ela vem vindo, a Estrela do Oriente,

alta, bela, imponente, os pés plantados no chão,

traz o fogo no olhar e uma foice na mão.

Este tom solene e meio profético me faz lembrar as poesias da primeira fase da sra. Jacinta Passos, de que ela guardou a austeridade formal e a elevação de tom. Prefiro-a, todavia, nos poemas de metro curto, onde revela uma imaginação mais fresca e um encantamento rítmico cheio de seiva folclórica.

Urupemba

urupemba

mandioca aipim!

peneirar

peneirou

que restou no fim?

Peneira massa peneira,

peneira peneiradinha,

(Ai! vida tão peneirada)

peneira nossa farinha.

Para a sra. Jacinta Passos o mundo do exterior e a vida existem com uma soberania à qual não há fugir. Daí o seu apego às recordações, ao som das palavras, aos ritmos de movimento, à associação das imagens visuais e auditivas. Não se pense, todavia, que a sua poesia seja barulhenta e colorida. Há nela zonas de silêncio e de ternura, a fazerem contraponto com a relativa exuberância da maioria dos poemas. Todavia, o tom normal dos versos é a exaltação e o movimento – imagens que se sucedem em borbotão, visões ampliadas da realidade. Mesmo nos poemas de amor há entusiasmo e ruído:

Somos amantes

queremos amar!

Hurra!

Se o adjetivo não fosse tão vulgar, eu diria que Canção da partida nos revela uma poesia dinâmica. Os seus versos estão sempre se deslocando em planos diversos; vertigem de ritmos, desejo de mudança social, projeção no futuro, volta ao passado. Lendo-os, sentimo-nos envolvidos por uma atmosfera viva e opulenta, criada pela sensibilidade de uma poetisa cujos pés se fincam resolutamente na realidade experimentada. Este senso de apego às coisas e às pessoas talvez seja responsável pelos defeitos do livro, ou seja, uma certa vulgaridade discursiva, um sentimentalismo por vezes fácil demais e, não raro, uma demagogia que a autora não sabe evitar. Mas, por outro lado, é também a ele que devemos a sugestão dos bons poemas, que formam a grande maioria do livro. Poemas como o admirável "Canção da partida", que abre o livro, ou "Canção simples", que o encerra. Penso que a sra. Jacinta Passos se firmou com este livro numa posição de primeira plana na moderna poesia brasileira.

 

Fevereiro 28 20

Sérgio Milliet21

Jacinta Passos estreia com um belo livro de poemas. 22 Canção da partida se caracteriza por uma sensibilidade que, por ser bem feminina, nada tem de piegas. Há em seus versos um tom grave, um certo recato arisco, uma ternura calma e penetrante a um tempo, que me agradam de verdade. Essa voz de acalanto não desdenha os ritmos populares dos quais, como artista, sabe tirar efeitos felizes. A riqueza por assim dizer melódica de nosso folclore está longe de ter sido esgotada. Mas é no Norte, sobretudo, que os poetas a tem sabido explorar. Um Ascenso Ferreira, em Pernambuco, alcança acentos épicos por vezes. Uma Jacinta Passos, na Bahia, atinge uma expressão de comovedora ternura. Alma aberta para o mundo, Jacinta Passos não quer confinar-se ao lirismo simples de seus melhores versos. Tenta penetrar sentimentos mais complexos, e com seu entusiasmo e sua honestidade moral embrenha-se pelas selvas traiçoeiras da poesia social. É certo que consegue vencer o maior dos obstáculos: a demagogia, mas não é menos evidente que ainda não se acha bastante amadurecida para arrancar de tão ingrato tema notas percucientes. Com grande dificuldade evita, então, o convencional. A seu favor sobra, contudo, o ritmo largo encontrado para os versos, como ainda fica a seu crédito a discrição das imagens. Muitas vezes, porém, ambas as coisas se unem e temos os melhores poemas. Ao leitmotiv folclórico agrega-se o pensamento social. Ao lirismo individual se acrescenta a consciência de uma participação mais ampla:

Menina, minha menina,

carocinho de araçá.

cante

estude

reze

case

faça esporte e até discurso

faça tudo o que quiser

menina!

não esqueça que é mulher.

Minha terra tem gaiola

onde canta o sabiá

Jacinta Passos nunca se esquece de que é mulher. Mas a poetisa tem gaiola em sua terra e sente forrar-se subterraneamente um mundo melhor.

O país para onde vamos,

Vitalina!

fica aqui, fica na China,

fica nas bandas do sul,

fica lá no Polo Norte,

principia onde termina,

muito além daquele monte,

lá na linha do horizonte,

onde a terra encontra o céu.

O verso de sete sílabas, não raro rimado, reintegra na música popular a poesia que certas decomposições mais sabidas do ritmo haviam antes requintado. De costume a autora parte do popular e do coletivo para o lírico pessoal. Chega mesmo a abusar do método, o que parecer irritante a muitos, mas a mim não incomoda.

Eu fui por um caminho.

Eu também.

Encontrei um passarinho.

Eu também.

Passarinho! Queres um ninho?

Eu também.

Passarinho virou um homem.

Ai! meu bem.

Agora és tu.

Agora eu sou,

amar é doce,

meu corpo eu dou.

Agora muda o sol.

Eu também.

Agora muda a terra.

Eu também.

Logo adiante, no segundo poema de amor, a solução é repetida. E satisfaz:

Entrou por uma porta,

saiu pela outra.

..................................

Não queiras nunca ser dono,

negro!

Ah! negro, do meu amor!

Menos feliz porque já demasiado usado no início do modernismo, na época gloriosa de Pauliceia Desvairada, do Poema giratório e outros, é a solução das associações de ideias:

Estamos morrendo!

Ninguém arranja um remédio

nem mesmo alegórico?

Elixir paregórico!

Vacina!

Mandem comprar penicilina,

ligeiro.

De quando em quando o popular cai francamente na embolada. Então, embora o ritmo agrade, nem sempre se tem a convicção de sua necessidade no poema.

Olhe o rombo

olhe o rombo

olhe o rombo arrombou!

Olhe o cisco

olhe o risco

Urupemba furou.

A autora parece tomada pelo encanto (no sentido mágico) das palavras, dos sons onomatopaicos. Com volúpia se entrega ao feitiço e acaba caindo no hermetismo. Sua poesia, por isso, age no sentido comunicativo antes por contágio, sugestão ritual, que por expressão essencial. Esta é ainda primária e quase nunca se percebe através de uma síntese aguda (imagem), mas se revela em estados de transe provocados por movimentos vindos de outros epicentros. Isto é, a poesia da autora nasce o mais das vezes na periferia de sua sensibilidade e se propaga em direção do centro. Assim ela é antes uma repercussão de emoções alheias, percebidas por meio de leituras e de intuições, que uma exigência imperiosa, urgente, frenética da própria personalidade.

Ainda padece Jacinta Passos de uma certa carência de malícia na técnica do verso. Precisa sem dúvida alguma superar a sua inocência um pouco primitivista, e portanto saborosa, mas algo primária e monótona. Há simplicidade e simplicidade. Simplicidade inocência e simplicidade decantação. A esta é que se deve chegar.

 

A Coluna23

Paulo Dantas24

A legenda heroica da Coluna Prestes serviu como roteiro e motivo principal para o poema em quinze cantos de Jacinta Passos, poetisa baiana de muita autenticidade e talento. Autora já de três livros de poesia (Momentos de poesia, 1942; Canção da partida, 1945 e Poemas políticos, 1951), Jacinta Passos não é nome desconhecido na moderna poesia nacional. Na feição do poema participante, do poema de luta e de reivindicação social, fez sucesso, destacando-se como uma das vozes mais claras e gritantes da nossa poética militante.

A sua volta em livro reveste-se, pois, de significação neste momento em que a moderna poesia brasileira debate-se à procura de caminhos novos e de saídas populares. O que mais impressiona neste poema de Jacinta Passos é a enorme percepção folclórica de conteúdo heroico-popular que soube imprimir no ritmo dos seus quinze cantos.

Poema que participa das formas do abc e do canto épico, das expressões colhidas no seio do povo, A Coluna de Jacinta Passos, apesar de certas desarticulações líricas ou de pequenos vácuos mentais, é peça literária digna da nossa atenção. Realizou-a uma sincera vocação poética, toda ela impregnada das exatas acentuações da heroicidade popular nativa.

Livro que atesta o poder da "brava gente" brasileira, cantada e enaltecida num dos seus mais positivos movimentos de arrancada social, de redescoberta do Brasil e dos caminhos de sua miséria, A Coluna de Jacinta Passos, além de grito de amor é peça histórica que agora se incorpora ao nosso cancioneiro, colocando-se ao lado de outros poemas no gênero, cuja tradição vem desde "O navio negreiro" de Castro Alves ou dos cânticos guerreiros de Gonçalves Dias.

A poetisa não esconde o ardor do seu entusiasmo pelo feito heroico do Capitão Prestes, comandante sem par, epigrafando assim o seu poema:

Coluna, tu és a herança

que os pais transmitem aos filhos

como abc de criança.

E num baianismo típico, à Castro Alves, rompe as nuvens de fogo do seu poema, exaltando e cantando:

Ó céus e terras, tremeí

que a Coluna já partiu

Neste ano de Vinte e Quatro

todo o Brasil sacudiu

será Coluna de fogo25

que o viajante já viu

Coluna de vento e areia

dos desertos desafio?

Ó céus e terras, tremei

que a Coluna já partiu

Neste ritmo, jamais superado porque participa do fôlego popular da nossa gente, inicia a poetisa a marcha heroica da Coluna cantada, a qual se desdobra em várias peças líricas, que poderão ser lidas independentemente da organicidade geral do poema, já que subdividido em vários episódios A Coluna procura ser sinfonia e participação, história e quadro, visando e atingindo o mural nordestino.

Como na guerra de Canudos, a Coluna Prestes também possui isto de grande e de fundamental: a presença dos humildes nas páginas da História nacional, já que nela lutaram bravos filhos do povo, verdadeiros heróis de espantar.

Canudos foi o protesto da plebe rural contra a incompreensão do litoral, da civilízação que o ignorava, protesto explosivo e meio inconsciente. Já a Coluna Prestes, episódio mais lúcido e orientado em busca de uma saída, foi a marcha da redescoberta do "Brasil brasileiro", do "sertão sertanejo." Embora o oficialismo dos compêndios históricos, com medo e no pavor que as convenções criam, não proclamem nem exaltem episódios tais, dando-lhes o merecido e exato valor, eles se impõem na imaginação popular, que exige o seu reconhecimento, Os heróis anônimos de Canudos e da Coluna Prestes fazem parte daqueles que se tombaram, foi no chão da História.

Daí o nosso regozijo quando aparecem vozes do porte de uma Jacinta Passos para restaurar feitos de tal natureza, arrancando do limbo heróis do porte de um José Tomás, treze anos tão valentes,/ menino do Piauí, de um camponês Joel, do sertão /,(...) soldado de Prestes, Seu Capitão, de um Zé Viúvo, jagunço de pontaria certeira, o olhar luzindo/ aceso na escuridão. Ou então daquelas quarenta mulheres guerreiras, na passagem difícil que a guerra provou, como aquela "Onça" mulata,/ de belos quadris/ que dança maxixe/ carrega fuzis, Hermínia, perita enfermeira, Tia Maria, rezadeira de corpo fechado.

O desfile dos heróis que combateram duro combate prossegue nas entonações líricas do poema de A Coluna, tecido em cantos por Jacinta Passos, sensitiva tecedeira e poetisa de vibrante coração.

Da força que sai de dentro de um telurismo épico, Jacinta Passos soube arrancar o seu poema, revestindo-o de diademas em quinze cânticos que colocou na fronte do povo em marcha, guiado pelo "comandante sem par". Apoiada no coração da massa, poetando com a ajuda poderosa do afluxo heroico de um punhado de bravos, feito a Coluna a rasgar a indolência nacional do Sul ao Norte, Jacinta Passos escreveu um belo poema de ritmo e pulsação brasileira.

A poetisa muitas vezes atinge um estado lírico total, que ficamos a imaginar o quanto de ingenuidade ela não teve de arrancar do seu coração para atingir cristalizações como estas:

Que medida para medir

esse caminho de esperanças

e lutas que abriu tão fundas

sementeiras de lembranças.

 

Entre lirismo e ideologia 26

José Paulo Paes27

Nota editorial:

Quando Janaína Amado Figueiredo me convidou para organizar esta reedição da obra poética de sua mãe, aceitei o convite com alegria. Conheci pessoalmente Jacinta Passos em 1947 e dela guardo até hoje uma enternecida lembrança. Tampouco se me apagou da memória, estes anos todos, a impressão que me causou a leitura da sua Canção da Partida. Eu começava a ensaiar os primeiros passos como poeta e, à semelhança de alguns dos meus companheiros de geração, preocupava-me a questão da arte dita participante. Foi na desafetação do engajamento lírico-folclórico de Jacinta Passos e de Sosígenes Costa, onde não havia lugar para a demagogia nem para o sectarismo, que encontrei a primeira resposta às minhas interrogações. O tempo e as buscas haveriam de me ensinar mais tarde outras respostas, mas aquela foi decisiva no abrir-me os caminhos da poesia.

Em 1977, graças ao empenho do James Amado, que já me ensinara a admirar os versos de Sosígenes Costa, pude, através de "uma tentativa de descrição crítica" aparecida em volume sob o sosigenesiano titulo de Pavão Parlenda paraíso, amortizar a minha dívida para com a memória do poeta. Agora é a filha de James Amado e de Jacinta Passos quem me dá a oportunidade de, no estudo que serve de prefácio a esta reedição, organizar noutra tentativa de descrição crítica as minhas notas de leitura de uma obra poética que, com justiça, Antonio Cândido situou em "posição de primeira plana na moderna poesia brasileira".

Entre lirismo e ideologia

I

Nas abas dos Poemas Políticos, terceira e ultima coletânea de versos de Jacinta Passos, publicada em 1951, estão transcritas opiniões da crítica acerca de seu livro anterior, Canção da Partida, de 1945. Roger Bastide louvava ali a "síntese entre o sabor das formas folclóricas e o sentimento da miséria dos homens, da solidariedade no sofrimento, a profecia de um mundo mais justo e mais fraternal", ao passo que Aníbal Machado sublinhava a sua amplitude de "canto de poesia que vai da ternura mais íntima ao grito largo de libertação, voz da maioria das mulheres conscientes e profundas". Também Sérgio Milliet chamava a atenção, naquele a seu ver "belo livro de poemas", para a afirmação de uma "sensibilidade que, por ser bem feminina, nada tem de piegas". Mário de Andrade, por sua vez, não se furtava a reconhecer-lhe "realidade poética" fora de qualquer dúvida, e Antonio Cândido ia mais longe quando dizia que "Jacinta Passos se firmou com este livro (...) numa posição de primeira plana na moderna poesia brasileira".

Diante de opiniões tão favoráveis, se não é de surpreender, é sempre de lamentar esteja a poesia de Jacinta Passos ausente das livrarias há tantos anos, já que nenhuma de suas obras foi jamais reeditada. Para essa ausência, há razões de vária ordem, desde o reconhecido descaso do leitor brasileiro de hoje pelos livros de poesia, o que os condena, com raríssimas exceções, a uma vida editorial lamentavelmente curta, até as perturbações mentais que, pouco depois da publicação dos Poemas políticos, enfermaram sua autora e que acabariam por levá-la à morte. Com isso truncou-se uma vocação cuja legitimidade se anunciava desde Momentos de poesia. Neste volume de 1942 estavam reunidos os primeiros versos de Jacinta ao lado dos de seu irmão Manoel Caetano Filho. Versos, os dela, de uma forte religiosidade que diria inspirada pelo genius loci do seu nascimento, Cruz das Almas. Não foi porém na sede do município que ela nasceu, a 30 de novembro de 1914, e sim numa fazenda das proximidades, a de Campo Limpo, propriedade de seu pai. Nesta típica fazenda do interior baiano, cujos hábitos patriarcais seriam rapsodicamente evocados no poema-título da Canção da partida, viveu Jacinta uma parte de sua infância; a outra seria passada numa cidade vizinha, São Félix, à beira do rio Paraguaçu, que defrontava Cachoeira, onde seu pai foi fiscal de imposto de consumo, todos esses toponímicos aparecem também no mesmo poema. Nele é referida ainda a mudança da família para Salvador, quando o seu chefe foi eleito deputado estadual na legenda de UDN, investidura que voltaria a conquistar outras vezes e que em duas ocasiões alternaria com a de deputado

federal constituinte. 28 Na capital da Bahia, Jacinta cursou a Escola Normal, diplomando-se em 1932 com distinção. No ano seguinte, passou a ensinar Matemática e depois Literatura Brasileira no instituto Isaías Alves.

Os seus anos de juventude foram marcados por uma religiosidade que, como já se disse, transparece ostensivamente nos 38 poemas que lhe formam o livro de estreia. Pouco tendo a ver com os lugares comuns de catecismo em que, por sua condição de Filha de Maria, ela era então doutrinada, essa religiosidade nascia de um temperamento místico para o qual só a comunhão da alma com seu Criador se podia construir na desejada via de transcendência. Segundo o depoimento de familiares, a Jacinta dessa época "costumava comunicar-se diretamente com Deus, sem intermédio

de orações, através de intensa concentração". 29 O sinal estilístico de tal comunicação é a frequência com que o vocativo "Senhor" e o imperativo na segunda pessoa do singular – a flexão verbal da súplica – aparecem nos versos de Momentos de poesia. Como não podia deixar de ser, estes pagavam tributos aos modelos da poesia religiosa postos em circulação entre nós pelo renouveau católico dos anos 20 e 30. Não me refiro aos modelos mais radicais do surrealismo do Murilo Mendes e Jorge de Lima, mas aos modelos mais conservadores de espiritualismo conceituoso de Tasso da Silveira. Esta filiação ajudaria a explicar a modernice ainda tímida dos poemas de estreia de Jacinta Passos, onde o verso livre, de amplo respiro e tom discursivo, nem sempre dispensa o apoio retórico da rima nem obsta o eventual recurso ao verso metrificado. Ajudaria a explicar, além disso, o gosto por motivos convencionais como a tristeza do fim do dia, em "Crepúsculo", ou a ânsia do inatingível, em "O mar", tanto quanto a adjetivação redundante de frases-feitas como negro abismo insondável de Vida morta, ou fecundo labor humano, do "A guerra", que logo trazem à lembrança os reparos feitos por Péricles Eugênio da Silva Ramos a "certas debilidades" da poesia de Tasso da Silveira, sobretudo à sua

"adjetivação fraca e por demais repetida". 30

Há inclusive algo de condoreiro no destemor juvenil com que os Momentos de Poesia enfrentavam os chamados grandes temas, a exemplo de a glória e a beleza da vida, a desumanidade do mundo moderno, os enigmas do universo, a integração dos seres no mistério do Ser, e outros que tais. Esses grandes temas são versados, as mais das vezes, numa linguagem cujo poder de convencimento parece ser inversamente proporcional aos recursos de ênfase por ela mobilizados. É o que se pode ver em poemas do tipo de "Momento eterno", em que a efusão amorosa assume, hiperbolicamente, dimensões cósmicas:

Continuar: parte 2 de 3