Jacinta Passos, coração militante

Janaína Amado · Capítulo 10 de 21

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Jacinta Passos, coração militante

Minicontos

a discussão e a interrogação entre os interlocutores,

secretamente."4

Para esta edição, conforme já anunciado, selecionei trechos dos cadernos. Essa opção conduziu-me, em nome da clareza e fluidez da leitura, a abandonar as subdivisões adotadas por Jacinta para cada conjunto de textos. Assim, os "Comprimidos" aqui reproduzidos não foram subdivididos em científicos, líricos etc., mas receberam todos o adjetivo "poéticos", uma das classificações criadas por Jacinta, e que me parece defini-los a contento. Os critérios que utilizei para a seleção dos textos foram o da qualidade literária, associado ao da atualidade (alguns textos, muito datados ou específicos, me pareceram de difícil compreensão hoje). Assumo o subjetivismo do julgamento, que, conforme explicado, procurarei compensar com a doação dos manuscritos para uma instituição aberta à consulta pública.

Uma última observação: nas 1.255 páginas dos cadernos que li, há apenas duas únicas observações de caráter pessoal, referentes diretamente à própria autora. Impressionou-me como foi possível Jacinta Passos expressar tanto de si sem quase falar de si.

 

Minicontos

Um escritor popular e a velocidade

Peruano era um escritor popular e escrevia para o seu povo.

Aconteceu uma revolução, e Peruano ficou isolado do seu povo. Tempos depois, Peruano encontrou novamente seu povo e indagou admirado:

- Aquele povo que vai lá à minha frente será aquele mesmo povo que eu deixei lá atrás?

Burrice anarquista Um anarquista resolveu acabar com a oposição entre intelectual e operário. Então apagou todas as luzes da ciência e da arte, e todos ficaram burros.

Uma casta principiando

Nos tempos da Idade escravagista, o arroz e os grandes proprietários de terra já eram constantes na China.

Li e Lu estavam trabalhando para Fu, o grande. Li e Lu eram jovens. Lu era parente de Fu, o grande, e por isso escolheu a melhor parte.

Lu sentou-se no chão com um feixe de varetas.

- Por que não vens carregar os cestos de arroz comigo, Lu?

- Ora, Li, alguém tem de contar os cestos de arroz. Tu carregas e eu conto.

Subjetivismo dos terrestres

Vênus comunicou-se com Mercúrio através dos espaços siderais.

- Por que não sais de tua órbita?

- O deus do Comércio quer ficar perto da deusa da Beleza!

Marte então fez uma intervenção inopinada e abrupta:

- Contaminação. Aqui não há comércio, aqui não há guerra, aqui não há galanteio, aqui não há deus.

Nossos nomes são subjetivismo dos terrestres!

Critério econômico-sentimental

Na República Popular da China, as transformações sucedem-se velozes e planificadas, mas o camponês Chiang continuava doente de sentimentalismo. Não podia votar porque estava em tratamento. Votaram onde localizar um novo combinado agrícola-industrial. Perguntaram a Chiang: Como votarias? Chiang respondeu: Perto da amendoeira do rio Amarelo.

- Por que, Chiang?

- Porque a amendoeira me viu nascer.

Obnubilação dos sentidos

Diante dos meus olhos subnutridos, o objeto cresceu como um abacate, e era um pequi.

Um presidente nacionalista

Um presidente nacionalista mandou reforçar a guarda de todas as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas.

- Para quê?

- Para a revolução não entrar.

Um arcaísmo militar

Dois exércitos inimigos defrontam-se.

Um dispõe os soldados em fila horizontal.

O outro dispõe os soldados em fila horizontal.

Um levanta o estandarte e dá três vivas.

O outro levanta o estandarte e dá três vivas.

Um grita: – Posição de atirar!

O outro grita: – Posição de atirar!

Um grita: – Fogo!

O outro grita: – Fogo!

Depois todos são cadáveres, exceto quatro sobreviventes de um exército.

Estes dizem que ganharam a batalha e recebem condecorações.

Campo ou cidade?

Um prefeito do município resolveu acabar com a oposição entre campo e cidade.

- Que fazer? Então ordenou: plante capim na cidade e ponha os seguintes anúncios luminosos no campo – de especulação capitalista -:

Vende-se ar.

Compra-se força de trabalho.

Aluga-se sogra.

Oposição no singular

Uma esposa sofria a escravidão doméstica. Decidiu acabar com a escravidão doméstica. Então pegou a vassoura, o balde etc. e fez do esposo seu escravo doméstico.

Quer e não quer

Um camponês médio pediu dez anos para fazer uma democracia popular.

Burrice trabalhista

O deputado trabalhista casou-se com sua empregada doméstica e julgou ter acabado com o antagonismo das classes sociais.

Intelectual substantivo O intelectual olhou a estátua "O Pensador", de Rodin, e não compreendeu.

Seu Manoel da folia

- "Seu Manoel da folia" era um guarda dos presos de uma penitenciária, e enriqueceu.

- Enriqueceu? Como?

- Intimidava o preso – em segredo – e cobrava aluguel da cela da prisão.

Ardil psiquiátrico

O doente mental estava agitado e precisava ser internado com urgência, mas agredia. Então o psiquiatra se fez de doente e pediu ao doente que levasse sua mala até o hospício.

- Levo – respondeu o doente.

E foi levado.

Num minuto

Numa cidade da Índia, um coolie carregava um rajá no carro.

Força de tração animal aos 13 anos, o coolie arfava e suava, enquanto o rajá parecia um paquiderme, enorme, obeso.

- Viva a revolução! – foi esse o grito que se ouviu de repente, confundindo a multidão, em burburinho, na rua.

O coolie ouviu e, sem hesitar, começou a pular e a correr:

- Viva a revolução!

O rajá, atônito, continuava sentado.