Jacinta Passos, coração militante
Minicontos
a discussão e a interrogação entre os interlocutores,
secretamente."4
Para esta edição, conforme já anunciado, selecionei trechos dos cadernos. Essa opção conduziu-me, em nome da clareza e fluidez da leitura, a abandonar as subdivisões adotadas por Jacinta para cada conjunto de textos. Assim, os "Comprimidos" aqui reproduzidos não foram subdivididos em científicos, líricos etc., mas receberam todos o adjetivo "poéticos", uma das classificações criadas por Jacinta, e que me parece defini-los a contento. Os critérios que utilizei para a seleção dos textos foram o da qualidade literária, associado ao da atualidade (alguns textos, muito datados ou específicos, me pareceram de difícil compreensão hoje). Assumo o subjetivismo do julgamento, que, conforme explicado, procurarei compensar com a doação dos manuscritos para uma instituição aberta à consulta pública.
Uma última observação: nas 1.255 páginas dos cadernos que li, há apenas duas únicas observações de caráter pessoal, referentes diretamente à própria autora. Impressionou-me como foi possível Jacinta Passos expressar tanto de si sem quase falar de si.
Minicontos
Um escritor popular e a velocidade
Peruano era um escritor popular e escrevia para o seu povo.
Aconteceu uma revolução, e Peruano ficou isolado do seu povo. Tempos depois, Peruano encontrou novamente seu povo e indagou admirado:
- Aquele povo que vai lá à minha frente será aquele mesmo povo que eu deixei lá atrás?
Burrice anarquista Um anarquista resolveu acabar com a oposição entre intelectual e operário. Então apagou todas as luzes da ciência e da arte, e todos ficaram burros.
Uma casta principiando
Nos tempos da Idade escravagista, o arroz e os grandes proprietários de terra já eram constantes na China.
Li e Lu estavam trabalhando para Fu, o grande. Li e Lu eram jovens. Lu era parente de Fu, o grande, e por isso escolheu a melhor parte.
Lu sentou-se no chão com um feixe de varetas.
- Por que não vens carregar os cestos de arroz comigo, Lu?
- Ora, Li, alguém tem de contar os cestos de arroz. Tu carregas e eu conto.
Subjetivismo dos terrestres
Vênus comunicou-se com Mercúrio através dos espaços siderais.
- Por que não sais de tua órbita?
- O deus do Comércio quer ficar perto da deusa da Beleza!
Marte então fez uma intervenção inopinada e abrupta:
- Contaminação. Aqui não há comércio, aqui não há guerra, aqui não há galanteio, aqui não há deus.
Nossos nomes são subjetivismo dos terrestres!
Critério econômico-sentimental
Na República Popular da China, as transformações sucedem-se velozes e planificadas, mas o camponês Chiang continuava doente de sentimentalismo. Não podia votar porque estava em tratamento. Votaram onde localizar um novo combinado agrícola-industrial. Perguntaram a Chiang: Como votarias? Chiang respondeu: Perto da amendoeira do rio Amarelo.
- Por que, Chiang?
- Porque a amendoeira me viu nascer.
Obnubilação dos sentidos
Diante dos meus olhos subnutridos, o objeto cresceu como um abacate, e era um pequi.
Um presidente nacionalista
Um presidente nacionalista mandou reforçar a guarda de todas as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas.
- Para quê?
- Para a revolução não entrar.
Um arcaísmo militar
Dois exércitos inimigos defrontam-se.
Um dispõe os soldados em fila horizontal.
O outro dispõe os soldados em fila horizontal.
Um levanta o estandarte e dá três vivas.
O outro levanta o estandarte e dá três vivas.
Um grita: – Posição de atirar!
O outro grita: – Posição de atirar!
Um grita: – Fogo!
O outro grita: – Fogo!
Depois todos são cadáveres, exceto quatro sobreviventes de um exército.
Estes dizem que ganharam a batalha e recebem condecorações.
Campo ou cidade?
Um prefeito do município resolveu acabar com a oposição entre campo e cidade.
- Que fazer? Então ordenou: plante capim na cidade e ponha os seguintes anúncios luminosos no campo – de especulação capitalista -:
Vende-se ar.
Compra-se força de trabalho.
Aluga-se sogra.
Oposição no singular
Uma esposa sofria a escravidão doméstica. Decidiu acabar com a escravidão doméstica. Então pegou a vassoura, o balde etc. e fez do esposo seu escravo doméstico.
Quer e não quer
Um camponês médio pediu dez anos para fazer uma democracia popular.
Burrice trabalhista
O deputado trabalhista casou-se com sua empregada doméstica e julgou ter acabado com o antagonismo das classes sociais.
Intelectual substantivo O intelectual olhou a estátua "O Pensador", de Rodin, e não compreendeu.
Seu Manoel da folia
- "Seu Manoel da folia" era um guarda dos presos de uma penitenciária, e enriqueceu.
- Enriqueceu? Como?
- Intimidava o preso – em segredo – e cobrava aluguel da cela da prisão.
Ardil psiquiátrico
O doente mental estava agitado e precisava ser internado com urgência, mas agredia. Então o psiquiatra se fez de doente e pediu ao doente que levasse sua mala até o hospício.
- Levo – respondeu o doente.
E foi levado.
Num minuto
Numa cidade da Índia, um coolie carregava um rajá no carro.
Força de tração animal aos 13 anos, o coolie arfava e suava, enquanto o rajá parecia um paquiderme, enorme, obeso.
- Viva a revolução! – foi esse o grito que se ouviu de repente, confundindo a multidão, em burburinho, na rua.
O coolie ouviu e, sem hesitar, começou a pular e a correr:
- Viva a revolução!
O rajá, atônito, continuava sentado.