Jacinta Passos, coração militante
A coluna
Coluna, tu és a herança
que os pais transmitem aos filhos
como abc de criança
Dedico este livro a todos aqueles
que possibilitaram escrevê-lo e publicá-lo..
O LIVRO ***** A coluna nunca foi republicado. Na edição original, sob o título, há estes dizeres: "(Poema em 15 Cantos) Escrito em São Paulo – 1953-1954." Na última página, abaixo da palavra "Índice", esta explicação: "(A Coluna, poema composto de 15 Cantos, é uma parte do livro "Histórias do Brasil e outros poemas")".
É provável que a edição do livro tenha sido financiada, parcial ou integralmente, pelo PCB, pois sua temática era de grande interesse para o partido, e Jacinta quase não dispunha de recursos financeiros à época.
O tema do poema épico é a Coluna Prestes, marcha de cerca de 25.000 km empreendida por homens e mulheres que, sob o comando entre outros de Miguel Costa e Luiz Carlos Prestes, percorreu, entre 1924 e 1927, grande parte do interior do Brasil, perseguida por forças governamentais e privadas. Embora nunca tenha sido vencida pelas tropas do governo, a Coluna também não conseguiu o objetivo de comandar uma rebelião popular para depor os governos Arthur Bernardes e Washington Luiz. Sem perspectiva de vitória, acabou se embrenhando na Bolívia.
A Coluna recria, em tom épico e evocações líricas, episódios acontecidos durante a marcha, cantando cenas de batalhas e do cotidiano da gente humilde que aderiu à revolta. O livro estabelece um diálogo poético com O cavaleiro da esperança: a vida de Luiz Carlos Prestes, de Jorge Amado. Lançado em 1942 na Argentina (sob o título Vida de Luiz Carlos Prestes) e em 1945 no Brasil, o livro de Amado também narrou personagens e episódios da Coluna Prestes, como os que Jacinta versejou.
A partida
I
Ó céus e terras, tremei
que a Coluna já partiu
neste ano de Vinte e Quatro
todo o Brasil sacudiu
será Coluna de fogo63
que o viajante já viu?
Coluna de vento e areia
dos desertos desafio?
Ó céus e terras, tremei
que a Coluna já partiu.
II
Partiu das terras do sul,
dos descampados sem fim
o gaúcho indaga atento:
para onde marcham assim?
- Adeus cidades que ficam,
Santo Ângelo de onde vim,64
arredai serras, adeus
a quem fica atrás de mim -
Partiu das terras do sul,
dos descampados sem fim.
III
Através da terra imensa
abrindo caminho no chão,
seus cavalos, cavaleiros
e seu grande Capitão,
Coluna dos revoltosos
Coluna da decisão,
espinha dorsal no corpo
do Brasil, Insurreição.
Através da terra imensa
abrindo caminho no chão.
IV
Quem deixou essas pisadas?
Foi a Coluna que passou.
Quem na mata abriu picadas?
Foi a Coluna e viajou
e no seu rastro, cavalos,
homens e armas levou
atrás um feixe de luz
e de esperanças deixou.
Quem deixou essas pisadas?
Foi a Coluna que passou.
V
Provectas autoridades
dessa cidade tranquila
ó Juiz, ó Escrivão,
ó Intendente da vila,
quem perturbou vosso sono
e o de Dona Domitila?
- Confiai, irmãos, em Deus
e nos jagunços da vila -
diz o Padre, e o Coronel
assanha seus cães de fila.65
Provectas autoridades
dessa cidade tranquila.
VI
João Ferreira diz: bravura!
segue a Coluna que passa
é Cabo da Guarda e leva
mulher, espingarda e cabaça,
roceiro deixa roçado,
vaqueiro, a corda que laça,
adeus mulher, adeus filhos,
a seus vizinhos abraça.
João Ferreira diz: bravura!
segue a Coluna que passa.
O capitão
Cavaleiro que passa a galope
tão veloz no cavalo alazão
o seu nome é Luiz Carlos Prestes66
Comandante sem par, Capitão,
Capitão de oitocentos soldados
que mais logo serão mais de mil,
Comandante da marcha e batalhas,
o seu nome guardai, ó Brasil,
bravo jovem de vinte e seis anos
tão veloz no cavalo alazão
o seu nome é Luiz Carlos Prestes
Comandante sem par, Capitão.
A curva de Maria Preta
I
- Coluna ao Norte! Marchar!67
Atrás de nós, legalistas
são cães de faro na pista,
veio a noite, foi o dia
e esses cães na teimosia.
São pagos para matar.
Viva o exército popular!
II
- Tristes novas, Comandante.
- Que seja breve, soldado.
- Inimigo à vista!
à frente! à direita! legalistas!
- Ferroviários avante!
(Por ordem do Comandante)
- Do traçado siga a sina
suba Santa Catarina68
até um ponto alcançado
Maria Preta chamado,
neste lugar
combater e retirar,
à boca da noite pelo
lado esquerdo em cotovelo
quebrar.
Depois seguir adiante.
Coluna ao Norte! Marchar!
III
Dito e feito. A noite esconde
tropas, tiros. Quem? Aonde?
Dois inimigos. Quem são?
Luta de morte. Escuridão.
Silvos, balas. Não responde?
Matou. Morreu. Quem? Aonde?
Foi-se a noite e de manhã
ó cegueira humana vã!
Quando em Santa Catarina
a luz primeira ilumina
jazem restos e destroços,
carne, sangue, armas, ossos,
de legalistas.
Legalistas se encontraram
e enganados se mataram.
Ó Maria Preta ó sorte
ó curva de engano e morte.
IV
Longe, voz a comandar
- Coluna ao Norte! Marchar!
O encontro
- Soldados, onde acampamos?
- No oeste do Paraná.
- Soldados, e aquela tropa
que vem vindo para cá?
- Patrulha de segurança
que partiu e volta já
mais ligeiro do que o vento
no oeste do Paraná.
- Portadora de notícias?
- De notícias e reforço,
mantimento e montaria.
Portadora que vem lá
mais ligeira do que o vento
no oeste do Paraná.
- Às suas ordens, senhor.
- Eram forças inimigas?
- Eram paulistas rebeldes
contra o governo Bernardes,
eram paulistas que o Cinco
de Julho já revoltara,
paulistas que o General
Miguel Costa comandara.69
- Que é feito dos desertores?
- Os desertores passaram
do Paraguai a fronteira,
foram esconder da vergonha
a face, em terra estrangeira.
- Esses que marcham, soldados
revoltosos de honra e bem
que venham para a Coluna
serão Coluna também.
A marcha
- Soldados, rumo a São Paulo
Levantar acampamento! -
E a Coluna se levanta
é agora movimento
de cavalos nas estradas
mulas, éguas e jumentos
que levam homens e armas
de guerra carregamento.
Burros lerdos, resistentes
que força de marcha fria!
levam no dorso o Segundo
Grupo de Artilharia.
Subindo serras abruptas
de penedo e mataria
lá vai um Grupo de Obuses
lá, outro de Infantaria.
Lá vai num Grupo de treze
um fuzil metralhadora
um fuzileiro e mais dois
com munição matadora.
É um Grupo de combate,
lá, Corpo metralhadora
pesada, em quatro seções
de oito peças, portadora.
Esse vai do Paraguai
através em destacado
até sul de Mato Grosso
e de armas carregado70
é um Grupo de Artilharia
por Tenente comandado
por ser um material
de guerra muito pesado.
Paraguai também guardou
um General alquebrado.
Isidoro Dias Lopes,
votos de saúde e paz!71
Vamos embora, Coluna
Comandante e oficiais
neste ano de Vinte e Cinco
nunca esquecido jamais,
mil e duzentos soldados
vamos embora sem mais
neste ano de Vinte e Cinco
nunca esquecido jamais.
Quatro combates
Batalhão ferroviário72
- Estás preso, Major!
Vinte e Oito de Outubro
foi assim que começou
e o Major prisioneiro
na própria casa ficou.
Donde partiram ordens tais?
Era a revolta.
Eram dois oficiais.
Foram depois ao quartel.
- Oficial de dia?
- Sim.
Entregaram-lhe um papel,
um telegrama, uma ordem
do General Comandante
da Região
(Mandava passar o comando
do Batalhão)
E na ausência do Major
foi o oficial do dia
quem o comando passava
e o Boletim escrevia:
"Em virtude do telegrama
484
passo nesta data
na cidade de Santo Ângelo,
o comando do Batalhão
Ferroviário
ao Sr. Luiz Carlos Prestes,
Capitão". E assinou.
Vinte e Oito de Outubro.
Foi assim que começou.
O cerco
- Comandante, aguardo ordens.
- Demorar no Piauí.
- Até quando demorar?
- Até que seja o Governo
obrigado a retirar
suas forças do Nordeste
e Ceará,
Bahia, caminho de Minas,
livre será.
Era o cerco. Urussuí.
Nas margens do Parnaíba
entrincheirados ali
na margem esquerda defronte
e vilas do Piauí,
lá, Teresina ocupada,
era o cerco.73 Urussuí.
Que batalhão é aquele?
"Vinte e Três de Caçadores"
Polícia do Ceará
Piauí também. Vapores.
Cangaceiros. Munição.
Mil e quinhentos senhores
inimigos.
São Luís e Piauí.
- Não temes Coluna o cerco
fechado em volta de ti?
- Ó senhores, quem já viu,
senhores do Piauí,
Coluna Prestes temer
um cerco
um cerco de Urussuí?
Ah! noite escura de breu.
Cruzeiro do Sul, Cruzeiro,
a quem foi que protegeu?
Foi quando a noite já vinha.
Fim da tarde. De tardinha.
Balas. Tiros, tiroteio.
Onde? De onde veio?
Doutra margem, dum lugar
começaram a disparar.
Fogo. Fogo.
Legalistas concentrados
jogam forças
na luta desatinados.
Nem perguntam: quem atirou?
Foi uma patrulha e léguas
já andou
(Do Destacamento Dutra,
não foi um Destacamento)
Ah! noite escura de breu.
Legalista legalista
só fantasmas combateu.
Quando veio a madrugada
bateram em retirada.
Ó águas do Parnaíba
vê quanto covarde arriba!
Balsas, canoas no rio,
que um esquadrão perseguiu.
Ó sossego doce vila
à beira do rio tranquila
outrora.
Um vapor? Sim, nesta hora
a pé, cavalo, vapor,
tudo é fuga, medo, horror.
Retaguarda legalista
logo alcançada na pista
da covardia.
Ah! xereta de Governo
que outra sorte merecia?
Longe dali, a Coluna
no ataque à Capital,
quatro dias de combate
e Teresina afinal.
Munições, armas, recrutas,
Piauí entregue está,
uma faixa do Maranhão
e o caminho do Ceará.
Ah! noite escura de breu.
Cruzeiro do Sul, Cruzeiro
a quem foi que protegeu?
Piancó
Da ladeira na descida
quando entre nuvens de pó
já se avista na baixada
a vila de Piancó,
das casas e da Cadeia,
da Igreja Matriz da praça,
rebentam tiros e balas
entre estouros e fumaça.
- Avançar Destacamento!
Quem será esse inimigo
mortal?
Um padre e cem cangaceiros
e mais sessenta da Força.
Policial.
Foi da Coluna a vanguarda
foi da vanguarda o seu guia
o primeiro que avançava
e o que primeiro caia,
onze balas recebera
mais três balas recebia,
seu nome, Capitão Pires,
foi da vanguarda o seu guia
defronte à Cadeia Pública
o que primeiro caía.
(Desde as oito da manhã)
Combate duro e cruel!
cinco mortos já caídos,
dois Capitães, dois Tenentes,
mais oito Praças feridos.
Depois... silêncio de tréguas.
- Que será? – Olhai, soldado,
bandeira branca!
em cima! além! no telhado!
Agora a luta cessou
e marcha o Destacamento
mas eis que alguém atirou.
Quem? De onde? Um momento
de confusão se passou.
Uma cilada. Emboscada.
Abrem fogo, começou
da casa do Padre Aristides74
um tiroteio rebentou.
Uma cilada. Emboscada.
João Bahiano, uma lata
de gasolina tomou
com ordem de incendiar
aquela casa, marchou.
Uma cilada. Emboscada.
De repente a porta abriu,
Sargento Lino, o primeiro
que avançou e caiu,
avança o Destacamento
e aquela sala invadiu.
- Quem será essa figura
de batina e carabina
e de faca na cintura?
- Senhor padre, até que enfim!
e o padre nem teve tempo
de respirar, foi o fim!
Foi o fim de seu capanga
celerado
que trinta anos cumpria.
Foi o fim. Naquele dia.
Piancó da Paraíba.
Já quando a noite caía.
O São Francisco
Ó São Francisco, barreira
entre o Oeste e o mar
tu vais servir ao Governo
para a Coluna cercar?!
Eu, nunca! Responde o rio
sou até capaz de secar
como outrora o Mar Vermelho
para a Coluna passar.
Quanto rifle quanta pose
quanto homem de boné
são vinte mil na Bahia,
polícia, jagunço e mé,
até do sul chegou gente
paulista e gaúcho até
tropa do Rio, federal
gente de pose e boné.
- Coluna, eu te pego
Coluna, onde estás?
Coluna, é agora
ou nunca jamais.
- Estou nas catingas
Coluna, onde estás?
Tiririca dos Bodes?
Nas Minas Gerais?
- Achei a batida
Coluna, onde estás,
do sertão para Oeste?
no rastro, eu atrás.
- A Coluna atravessou?
Ó São Francisco, dizei!
vim de Bahia até Minas
e a maldita não achei -
E o São Francisco calado
não deu nenhuma ousadia
suas águas turvas ficaram
e praguejando corria.
Curva dum laço a Coluna
nesse tempo descrevia,
de novo à beira das águas,
Pernambuco e Bahia.
Travessia. Agora sim
neste lugar, oportuna
travessia. "Destacamento
João Alberto" da Coluna.
Quatro paquetes do lado
de Pernambuco – Reúna
a tropa que for preciso
e a tropa deles se muna!
um pelotão nas canoas
e velas que o vento enfuna.
Travessia, os paquetes
vão carregando a Coluna.
São Francisco São Francisco
águas de novo a roncar.
Meia légua de largura,
das três até madrugar.
Adeus, ó Coluna Prestes
na outra margem e a marchar.75
Ó São Francisco, barreira
entre o Oeste e o mar.
Jagunços e coronéis
- Sopra a lenha da fogueira
assa o churrasco, Tadeu!
na carabina e no rifle
ninguém maior do que eu,
minha fama de valente
este cabra mereceu,
sopra a lenha da fogueira
assa o churrasco, Tadeu!
- Você conta é muita prosa
mas diga quem pode mais
jagunço do São Francisco
aqui nas Minas Gerais,
jagunço, de tudo a mando
do Coronel, é capaz
mas diga por que respeita
os revoltosos, rapaz.
Sopra a lenha da fogueira
assa o churrasco, Tadeu,
na carabina e no rifle
ninguém maior do que eu.
- Pois agora eu vou contar
foi que nestas redondezas
chegou antes da Coluna
seu nome e suas proezas,
abaixo de Deus sagrado,
só Coronel tem grandezas
mas se ouço um nome – Coluna -
não sou mais homem, franquezas.
Sopra a lenha da fogueira
assa o churrasco, Tadeu,
na carabina e no rifle
ninguém maior do que eu.
Foi nessa noite, que susto!
já tarde da noite em meio
que o jagunço caiu morto
foi depois dum tiroteio.
"Golpe de mão" da Coluna,
num minuto aconteceu
e, como presas de guerra,
carabinas e Tadeu.
Fazendeiro que já foi
quantas léguas possuía!
senhor da vida e da morte
no sudoeste da Bahia.
Agora presa de guerra
para serviço miúdo
- Quem persegue esta Coluna?
Responda! não fique mudo.
- Coronel manda em jagunço,
cacique de taba e tuba,
aqui, Horácio de Matos,76
Coronel de Condeúba.
Coronel manda em jagunço
o Governo em Coronel
Jequié, Lençóis, Conquista,
são dessas forças, quartel.
Jagunço de carabina
e rifle (pior que o Cão!)
rifle de papo amarelo
dos que usa Lampião.
O inimigo
A Coluna descansou
da marcha, na noite fria.
Ficaram olhos acesos
e a fogueira, de vigia.
Su su su
menino mandu
dorme na lagoa
sapo-cururu 77
Soldados dormem quietos
Debaixo deste telheiro
em cima pia a coruja
com seu piado agoureiro.
Su su su
menino mandu
Soldados dormem quietos
no bivaque de improviso
até as armas descansam
que este descanso é preciso.
Dorme na lagoa
sapo-cururu
Soldados dormem quietos
na barraca e na varanda,
eis de repente o inimigo
- Depressa, levanta e anda!
Depressa, são feras,
depressa ou quiseras
nas mãos do inimigo
cair, que o perigo
de perto ameaça
de morte ou mordaça
cadeia ou degredo.
Galopa sem medo!
Legalista do Inferno!
donde o Governo
tais feras tirou?
Ah! raiva que eu sou.
Depressa e a trote
esporas, chicote,
as crinas revoltas,
de rédeas bem soltas
e bridas também
(Que medo não tem!)
depressa e a trote
mão no cabeçote
o pé na estribeira
encilha e carreira!
esquipa montado
depressa, soldado
que medo não tem.
Legalista do inferno
não vale um vintém!
A Coluna descansou
da marcha na noite fria.
Ficaram olhos acesos.
E de repente partia.
A troca
- Teu nome, camponês?
- Joel, seu irmão.
- Que desejas da Coluna?
- Falar com Seu Capitão.
- É Vosmicê?
- Luiz Carlos Prestes.
- Sou daqui, Seu Capitão,
eu nasci foi mesmo aqui
no Piauí, no sertão,
queria fazer uma troca
se for sua opinião,
são duas coisas que tenho,
mais nada, Seu Capitão,
esta cuia de farinha
e um burrinho de estimação.
- Por qual troco quer trocar?
- Por um lugar na Coluna
mais um fuzil de atirar.
E foi assim que Joel,
o camponês do sertão,
um dia virou soldado
de Prestes, Seu Capitão.
Os heróis e as feras
José Tomaz
Treze anos tão valentes
menino do Piauí,
o teu cavalo tem pés
ou asas de colibri?
Dezoito léguas custosas
andou
entre as tropas inimigas
passou
assim dois Destacamentos
em doze horas ligou.
(Dos soldados era um simples
servidor).
José Tomaz, anspeçada,
menino do Piauí,
o teu cavalo tem pés
ou asas de colibri?
Zé Viúvo
Quem passar pelos caminhos
na moita de mato e espinhos
cerrada, úmida, escura,
nem vê aquela figura
de homem sempre sentado.
Quem será?
Parece quieto dormindo
se não fosse o olhar luzindo
aceso na escuridão.
Zé Viúvo é um ferido
de guerra, no Maranhão
perdeu um pé,
de muleta nos joelhos,
sentado, vigia é.
Parece quieto dormindo
mas se no mato bulindo
alguma folha estalou
que fujas, ó inimigo
daquele tiro certeiro
da carabina o primeiro.
Juventude
Combateu duro combate
em Flores de Pernambuco.
Combateu.
Oliveira, juventude
que o perigo não venceu,
no meio do fogo das balas
combateu
viu seu pai morto cair
no chão
tomou das armas paternas
e esgotou a munição.
Foi só depois da batalha:
- Comandante, eis as armas
do meu pai que faleceu -
Em Flores de Pernambuco
combateu.
Quarenta mulheres
Mulheres guerreiras
quem viu teu valor?
na marcha ligeiras
que a guerra provou.
Passagem difícil!
Mulheres não passam
além deste rio!
Por ordem! O Comando
que tal proibiu.
No rio Uruguai
quem pode passar?
Raiou a manhã
- Soldados marchar!
Quarenta mulheres
nas tropas estão.
Mas como? E agora
o Comando diz, não?
Diante do fato
novo decidir,
outra ordem foi dada
- mulheres seguir!
Mulheres guerreiras
quem viu teu valor?
na marcha ligeiras
que a guerra provou.
"Onça" mulata
de belos quadris
que dança maxixe
carrega fuzis.
"Onça" mulata
quem viu teu valor?
não vales somente
na dança no amor.
Na luta ligando
salvou do inimigo
feroz e maior,
uma tropa menor.
Mulheres guerreiras
quem viu teu valor?
na marcha ligeiras
que a guerra provou.
Hermínia perita
do laço no jogo
Hermínia estrangeira
Hermínia enfermeira
a linha de fogo
passou. Na trincheira
inimiga, doentes
salvou.
Ó valentes.
Mulheres guerreiras
quem viu teu valor?
na marcha ligeiras
que a guerra provou.
Nasceu um menino.
Sua mãe se chamava
Santa-Rosa e logo
depois cavalgava.
E dizem que podes
o corpo fechar
às balas, ó tia
Maria,
depois de rezar?
Mulheres guerreiras
quem viu teu valor?
na marcha ligeiras
que a guerra provou.
O sargento
Sangue na noite a clamar.
Polícia da Paraíba,
quantos crimes a pagar!
- Sargento, então te recusas
a própria cova cavar?
- Alugado dos infernos,
quem te deu a ousadia?
Pobre corpo do Sargento
novos golpes recebia
até que desfalecido
no chão sem forças caía,
depois retalhado à faca
mais um valente morria.
Sangue na noite a clamar.
Polícia da Paraíba,
quantos crimes a pagar!
A fuga
Carreira desabalada
nas catingas sem fim
que triste figura!
de que foges assim?
Foi depois de Imburanas:
aonde vais, Coronel
João Nunes, que triste
que triste papel!
Eram cento e cinquenta
os teus comandados
e mais caminhões
ó abandonados!
Quinze mortos, feridos
eram quinze também,
que triste figura
Coronel sem ninguém!
Polícias de Més
chefe tal merecia,
lábias, bravatas,
e agora fugia.
Pernambuco. Imburanas.
Aonde vais, ó fujão?
as vilas mais próximas
a dois dias estão.
Nas catingas de mato
ralo e rasteiro,
roto e ferido
nos espinhos de espinheiro.
Carreira desabalada
nas catingas sem fim,
que triste figura!
de que foges assim?
Os trinta
Eram trinta. Eram tão fortes.
Desciam do Ceará.
Tão belos dessa beleza
que a juventude é quem dá.
Agora só a lembrança
dos trinta jovens restou.
Duas polícias ou feras?
A disputa começou.
Paraíba ou Pernambuco,
qual das duas afinal
sabe mais tortura e morte
na ponta do seu punhal?
Eram trinta. Eram tão fortes.
Sangrados como animal.
Somente um ficou vivo
pois ao sicário pagou
quinhentos contos. Dos trinta
só a lembrança restou.
O leilão
- Quem dá mais?
- Quem dá mais?
Dona Cassimira, quatro mil réis!
Quatro mil réis por cabeça!
Meus senhores, Dona Cassimira!
Dona Cassimira, a chefe do sertão!
Tia de Horácio de Matos.
Quanto dão?
Quatro mil réis!
Quatro mil réis por um "patriótico"!
Vai nascer um batalhão!
Lá vai uma...
Lá vai duas...
Lá vai três... Pela primeira...
Receberá Mercê...
Seu Franquilim, dez mil réis!
Dez mil réis!
Seu Franquilim, de Pilão Arcado!
Seu Franquilim, das Lavras!
Seu Franquilim, do São Francisco!
Seu Franquilim chefe de jagunços
que mais mortes cometeu, Seca
o que bate no peito e diz:
que jagunço maior que eu?
Quem dá mais?
Receberá Mercê...
O Governo, meus senhores,
do Estado e da Nação!
ante tal poder se cala
o poderoso Janjão
Coronel de Mato Grosso,
Êmulo de Lampião –
Quem dá mais?
O Governo, meus senhores,
já não se fala em tostão,
o preço dum diamante,
proclamai ante a Nação,
por uma cabeça, senhores,
de revoltoso!
Já não se fala em tostão.
Receberá Mercê...
Catete!... Quinhentos contos!
pela boca de Seu Mé
através dos oligarcas
que mandam em Caetité.
Palavra de Artur Bernardes.
Quem atesta? Quem dá fé?
O senhor Geraldo Rocha,
quem, senão ele, outro Mé?
Quem dá mais? Quinhentos contos!
Que esteja o país ciente
da fala do presidente!
Que excelsa virtude e zelo!
Oh! flagelo
Oh! Coluna
Oh! caminho da perdição.
Quinhentos contos de prêmio
a quem livrar a Nação.
Lá vai uma...
Lá vai duas...
Lá vai três... Pela primeira...
Receberá Mercê...
Quem fala agora sou eu
natural deste sertão,
os graúdos já falaram
(defender Pátria e Nação!)
Ó Cassimira!
Ó Janjão!
Será que pátria é Catete?
Governo de Més, Nação?
Diz que não,
toda gente como eu
natural deste sertão,
pátria, uma casa tão grande
onde moram
onde moram
mais de cinqüenta milhões.
Lá vai uma...
Lá vai duas...
- Quem dá mais?
- Quem dá mais?
Receberá Mercê...
Cavalos e cavaleiros
onde pouso de abrigar?
é tudo chapada só
deserto de esturricar.
- Ai quem me dera um balanço
balanço de embalançar
ai quem me dera um balanço
na rede de caroá –
Cavalos e cavaleiros
fazem força de marchar
secaram até as cacimbas
ai! as frutas do ingá.
- Ai quem me dera um balanço
balanço de embalançar
ai quem me dera um balanço
na rede de caroá -
Cavalos e cavaleiros
ai! se pudessem avistar
um pé de mandacaru
para esta sede matar.
- Ai quem me dera um balanço
balanço de embalançar
ai quem me dera um balanço
na rede de caroá -
Fome
Que anjos são esses
que vivem nos seguindo
de noite e de dia?
Padre-Nosso! Ave-Maria!78
- Não são anjos não senhor
são homens do Ceará
são retirantes da seca
que viviam ao deus-dará.
- E por que nos seguem assim?
- Porque desejam comida
que não existe mais lá
não são anjos não senhor
são homens do Ceará.
- E aqueles de corpo nu,
escuro, cabeça longa,
que correm mais do que lebre
e gritam mais que araponga?
- Do Vale do Tocantins
são índios são mais de cem
que, por armas e comida,
nos vêm seguindo também.
Que anjos são esses
que vivem nos seguindo
de noite e de dia?
Padre-Nosso! Ave-Maria!
Potreadas79
Hoje eu vou correr cem léguas
eh!
cem léguas de arrepiar.
No lombo deste cavalo
nem que custe o que custar.
Eh! desertão da Chapada,
Passagem Ruim, Icó,
Lagoa do Mulungu,
Aracuan e Cipó,
Uauá, Várzea da Ema,
Ipueiras, Cocobocó.
Hoje eu vou correr cem léguas
eh!
cem léguas de arrepiar.
Vou vencer o sergipano
sozinha, no potrear.
Nem que não ache o caminho
de volta para contar
nem que me assalte o jagunço
da moita de gravatá
nem que firam os espinhos
de jerema e de joá.
Hoje eu vou correr cem léguas
eh!
cem léguas de arrepiar.
Vou tirar o bicho da toca,
Seu Mano, desalojar.
Vou com quinze, senhores,
tirem o facão da bainha,
arrebanhar os cavalos
na redondeza vizinha
eh! potreada relâmpago
tirem o facão da bainha!
Hoje eu vou correr cem léguas
eh!
cem léguas de arrepiar.
Gritar eh! eh! catingueiros
eh! polícia. E debandar.
Vou queimar livros de impostos
daquela Coletoria
dizer ao preso: sois livre,
palmatória foi um dia,
polícia, ninguém te salva,
cadê a Virgem Maria?
No lombo deste cavalo
nem que custe o que custar.
Hoje eu vou correr cem léguas
eh!
cem léguas de arrepiar.
Serras e pântanos
Serra do Sincurá
Dentro da noite, uma vela
de cera de carnaúba
com sua luz amarela
um fio de luzes subindo
que procissão é aquela?
na Serra do Sincurá
soldados caminham nela
subindo a pé vão puxando
os animais vão naquela
marcha lenta, padiolas
da chama à luz amarela
os homens de sete fôlegos
ofegam, que marcha aquela!
dentro da noite, Coluna,
dentro da noite, uma vela.
Estrada cruel
Aqui começa a estrada
que o povo chamou de cruel,
doze léguas de chão seco
só de espinhos e de fel.
Espinheiro abraça a pedra
plantada na terra nua
desse abraço nascem flores
ó vida que força a tua!
Coroas-de-frade e só
cactos, mandacarus,
mais adiante umbuzeiros
sem folhas e sem umbus.
Chapadão entre as bacias
do Verde e do Jacaré,
por aqui marcha a Coluna
desmontada, marcha a pé.
Nem animais, nenhum pássaro
ó água que falta fazes!
Só répteis. Gitiranas
que surpresa! os tons lilases.
Já quando a noite era negra
e impossível o caminhar
ó lua-cheia no céu
ó aguada neste lugar.
Aqui Boca da Picada
três léguas do Jacaré,
Estrada Cruel, adeus
outro caminho aqui é.
Cem homens e um telegrama
- É Mato Grosso deserto
chamado Camapuã
daqui a Coluna em duas
deve partir amanhã.
- São ordens do Comandante?
- Sim, soldados, que a Coluna
deve alcançar a fronteira
da Bolívia. Necessário
é despistar. E Siqueira
Campos vai comandar
essa missão derradeira.80
Enquanto isso, a Coluna
numa defesa ligeira,
deve alcançar a Bolívia
e entrar na terra estrangeira.
* * *
- A Coluna passou por aqui?
- Agorinha.
- O que foi que comeu?
- Carne-seca e farinha.
- A Coluna passou por aqui?
- E seguiu.
- Muito longe?
- Só seis léguas a fio...
- A Coluna passou por aqui?
- Se passou...
- O que foi que levou?
- Mosquetões.
- Mosquetões do Exército?
- Venderam ao patrão.
- A Coluna passou por aqui?
* * *
Cem homens velozes
de nuvem e de vento
que pegues se podes
pegar movimento!
Legalista sujo
sujo e peçonhento!
Cem homens velozes
de nuvem e de vento
que pegues se podes
pegar movimento!
* * *
O trem trafega no trilho
extremo para o oeste.
Estação Pires do Rio
Eis que contra o trem, investe
um Grupo ousado e armado,
3º Destacamento
e é trem tomado de assalto,
cem homens de nuvem e vento.
* * *
- Soldados, marchar!
rumo à Casa da Estação
um telegrama a passar.
(Presidente Washington Luiz
Catete – Rio)
"Antes deixar país
fronteiras atravessar
seus escravos governar
votos Governo feliz.
Casa da Estação
assinado – Comandante
da Missão".
* * *
Um Grupo ousado e armado
3º Destacamento
e o Paraguai alcançado.
Cem homens de nuvem e vento.
Marcha final
Cavalos lentos
lerdos suados
olhos mortiços
quase apagados.
Homens de ferro
curvos cansados.
Os pés afundam
no atoleiro
caminho de visgo,
o derradeiro.
(Como resina
de cajueiro)
Bois também servem
de montaria
os cascos grossos
na lama fria.
Onde acampar
no fim do dia?
Ó Mato Grosso81
rio Araguaia!
copas de árvores
de samambaia.
Que é de o pouso antes
que a noite caia?
Cimo dos montes
fogo e descanso
aqui das tropas
breve remanso.
Que é de as caças,
galos e gansos?
Carne e palmito
raro ou nenhum
nem mais a sopa
de jerimum.
E a rapadura?
Ai jatium!
Ai muriçoca!
que longe estás
ó Carolina,
a de Goiás
do Tocantins,
princesa. E mais
as filarmônicas,
flauta e pistom
bombos, dobrados,
longe teu som.
Adeus palanque
flauta e pistom.
As vestes rotas,
malas e linhos,
que é de os mascates
nos seus burrinhos?
Que é de os ciganos?
Ninguém. Sozinhos.
Neste ano Vinte
e Sete embarca,
Rio Araguaia,
Porto da Barca.
Em Fevereiro
já desembarca
na outra margem
em Capin Blanco,
já é Bolívia,
último arranco.
(Armas depostas
em Capin Blanco
Depois La Gaiba82
exílio teu)
Coluna, quem
quem te venceu?
Ninguém, ó filha
do povo meu.
Canto de despedida
I
Adeus Coluna que pisas
fronteiras de terra estranha
o que vais buscar tão longe
passando rio e montanha?
Coluna de mil guerrilhas83
sempre vence e nunca apanha
manda a defesa buscar
a tal distância tamanha
garantias sem demora.
Boa viagem!
Soldado parte e não chora.
II
Que Bolívia e Paraguai
te sejam pátria também
as sombras de heróis antigos
valem teus passos além
e os braços desses dois povos,
abertos te digam: vem
estreitar lutas e ódios
num mesmo dia que vem
do Continente, ó aurora!
Boa viagem!
Soldado parte e não chora.
III
Que medida para medir
os teus feitos de andarilha
de vinte e seis mil quilômetros
teu roteiro e tua trilha?
Combates, cinquenta e três,
sem cair numa armadilha.
Vencidos foram dezoito
Generais. Só de guerrilhas,
mais de mil Brasil afora.
Boa viagem!
Soldado parte e não chora.
IV
Que medida para medir
esse caminho de esperanças
e lutas que abriu tão fundas
sementeiras de lembranças
e lições para teu povo?
Coluna, tu és a herança
que os pais transmitem aos filhos
como abc de criança.
Cartilha de toda hora.
Boa viagem!
Soldado parte e não chora.
V
Boa viagem, Coluna,
que a planta deitou raízes
no chão, na gente, no tempo,
até quando? também dizes,
cavalos e cavaleiros
voaram como perdizes
cem mil cavalos no lombo
te levaram a outros países,
Coluna. Até outra hora.
Boa viagem!
Soldado parte e não chora.
VI
Teu povo dizia adeus:
até quando? em que dia?
cavaleiro da esperança
que libertar prometia.
Teu povo agora te vê
como outrora não te via
do Partido Comunista
olhos, mão, palavra, guia,
Capitão. Até outra hora.
Boa viagem!
Soldado parte e não chora.
* PASSOS, Jacinta; CAETANO FILHO, Manoel. Nossos poemas. Salvador: Ed. Bahiana, 1942. 144 p.
** Canção da partida. São Paulo: Edições Gaveta, 1945. 1ª ed. 121 p.
*** Canção da partida. Salvador: Fundação das Artes, 1990, 2ª ed. 77 p.
**** POEMAS POLÍTICOS. Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1951. 87 p.
***** Passos, Jacinta. A Coluna. Rio de Janeiro: Ed. A. Coelho Branco F.º, 1957. 47 p.
1 Este poema, ao contrário de todos os outros de Momentos de poesia, não está datado. Teria isso sido um lapso da edição, ou a ausência de data foi deliberada, nesse caso possivelmente para tornar "Poesia perdida" uma espécie de epígrafe de todo o livro? O poema foi escrito provavelmente em 1933.
2 Este soneto foi publicado pela primeira vez na revista O Malho, Rio, ano XXXV, n o 180, 12 nov. 1936, demonstrando que Jacinta já buscava conexões fora do Estado. Foi reproduzido integralmente, como exemplo de poema bem resolvido, na coluna literária "Homens e Obras", de Carlos Chiacchio, no jornal A Tarde, Salvador, 6 de outubro de 1937. O renomado crítico baiano analisou poemas ainda inéditos da jovem poeta Jacinta Passos, que então usava o pseudônimo literário "Jacy Passos". O texto integral da crítica de Chiacchio está nesta edição.
Uma outra Maria, bem diferente desta, foi tema do poema de Jacinta "Canção para Maria", escrito dezoito anos depois deste, e aqui reproduzido em "Poemas esparsos".
3 o Publicado em O malho , Rio, ano XXXV, n185, 17 nov. 1936.
4 Este poema foi publicado pela primeira vez na revista A Ordem, Rio de Janeiro, Ano XX, Vol. XXIV, jan./jul. 1940, p. 83-84. Na revista, estão assinalados local e data da criação do poema: "Baía, 26 de agosto de 1938". Foi o primeiro poema de Jacinta publicado fora da Bahia.
Fundada no Rio de Janeiro pelo intelectual católico Jackson de Figueiredo, a partir da morte deste, em 1928, a revista A Ordem passou a ser dirigida pelo escritor católico Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde). O tema do poema, assim como seu local original de publicação, demonstram a religiosidade de Jacinta à época, bem como suas conexões no meio intelectual católico.
5 "Comunhão" foi o primeiro poema publicado por Jacinta Passos na Bahia. Originalmente, foi editado no jornal O Imparcial, Salvador, em 17 março 1940, assinado por "Jacy Passos", integrando a página semanal da ALA (Ala das Letras e das Artes). No jornal, após o nome de Jacinta, está escrito: "Poetisa bahiana". E, ao final do poema: "Inédito para ALA".
É o primeiro poema de Jacinta Passos que apresenta conteúdo social, seu foco deslocando-se do eu interior da poeta para sua comunhão com todos os outros seres humanos.
6 Campo Limpo: nome da fazenda, em Cruz das Almas, BA, onde Jacinta nasceu e viveu até os 10 anos de idade, e para onde retornou várias vezes, durante a adolescência e a juventude. O Campo Limpo é um espaço simbólico importante na obra de Jacinta.
7 Publicado pela primeira vez na revista católica A Ordem, Rio de Janeiro, jul./dez.1940, Ano XX, Vol. XXIV, p. 82.
8 "Canção simples" foi republicado, em versão ligeiramente modificada, nos dois livros seguintes de Jacinta, Canção da partida e Poemas políticos. Conforme explicado em "Apuração do texto poético de Jacinta Passos", a versão publicada aqui é sempre a última revista pela autora: portanto, a destes últimos livros. O poema expressa, já em 1941, a extrema preocupação de Jacinta com a situação da mulher na sociedade brasileira.
9 "Carnaval" foi republicado no jornal O Imparcial, Salvador, 12 de março de 1943, e em Canção da partida (1945). A versão aqui transcrita é a última.
10 "Cantiga das mães" foi republicado, com pequenas alterações, nos dois livros posteriores de Jacinta, versão aqui reproduzida.
11 Este é o mais autobiográfico dos poemas de Jacinta. É inspirado em suas experiências e em pessoas com quem conviveu durante a infância, vivida na Fazenda Campo Limpo – onde também nasceu -, e nas cidades vizinhas de Cruz das Almas, São Félix e Cachoeira, todas na região do Recôncavo baiano, bem como em algumas experiências da autora durante a adolescência e primeira juventude, vividas na cidade de Salvador. A maioria das referências é a lugares e pessoas que efetivamente existiram. Não por acaso Jacinta dedicou este poema ao irmão, seu companheiro das brincadeiras e da descoberta do mundo.
12 A referência ao lobisomem aparece também no poema "O latifúndio", de Poemas políticos.
13 Jacinta nasceu vinte e seis anos após o término da escravidão. Deve ter convivido com ex-escravos, na fazenda do pai, nas cidades do Recôncavo baiano e em Salvador, todos locais com alta concentração de população escrava, durante o século XIX. Cf. biografia de Jacinta Passos, nesta edição.
14 Manoca o fumo. Constrói uma espécie de boneca com as folhas de fumo, para fabricar o charuto. A economia da região de Cruz das Almas, onde Jacinta nasceu e passou a infância, baseava-se na produção de fumo de alta qualidade, para o fabrico de charutos. Havia fábricas de charutos na cidade, inclusive a famosa Suerdieck.
15 Há outra referência a Venâncio em "Franco", texto jornalístico de autoria de Jacinta, reproduzido nesta edição.
16 A madrinha e avó paterna da autora chamava-se Jacintha Velloso Passos. O nome da neta foi homenagem à avó.
17 Dade, empregada no Campo Limpo, ajudou a criar Jacinta e seus quatro irmãos. Ela aparece também em "Elegia das quatro mortas", do livro Poemas políticos.
18 Referência à mudança da família Passos, em 1926, para a cidade de São Felix, à beira do rio Paraguassu, em frente à cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano.
19 Nomes de irmãs e primo de Jacinta.
20 Bahia. Nome pelo qual a cidade de Salvador era (e ainda é) conhecida entre baianos. Esta estrofe, como as anteriores, remete à mudança de Jacinta e família do interior do estado para Salvador.
21 Elevador. Referência ao Elevador Lacerda, obra imponente inaugurada em 1873, para interligar as cidades baixa e alta de Salvador.
22 Tomásia de Queiroz. Começou a trabalhar na casa da família Passos no final da década de 1910, aos 11 anos de idade, e aí permaneceu até morrer, octogenária, em 1980.
23 Em 1927, Manoel Caetano, pai de Jacinta, foi eleito deputado estadual. Seria novamente eleito em 1934 e em 1946.
24 Ladeira do Hospital. Nome popular da rua Frei Henrique, em Nazaré, onde, com recursos provenientes da venda da Fazenda Campo Limpo, Manoel Caetano mandou construir um sobrado, para abrigar a família. Jacinta viveu muitos anos neste sobrado, durante o final da infância, a adolescência, a juventude e alguns anos da maturidade.
25 Triunfo. Bar elegante, onde eram servidos quitutes e bebidas, ponto de encontro masculino na Praça da Sé, em Salvador. O pai de Jacinta costumava frequentá-lo.
26 Bernadete, Regina, Minervina, Conceição. Nomes de serviçais da família Passos, no interior do Estado e em Salvador.
27 Há outra referência de Jacinta ao mesmo Manuel, no texto jornalístico "O povo não pode mais ser enganado", reproduzido nesta edição.
28 Canção da partida" foi republicado, sem alterações, em Poemas políticos, livro seguinte de Jacinta.
29 A versão aqui adotada de "Três canções de amor" é a do livro Poemas políticos, onde foi republicado, com alterações muito pequenas.
30 Sob o título de "Pânico burguês", somente a primeira estrofe deste poema foi republicada no livro seguinte de Jacinta, Poemas políticos. A dedicatória foi suprimida.
31 Este poema foi republicado, após a morte da autora, na Revista da Bahia, Salvador, nº 15, dez. 1989 / fev. 1990, p. 123.
32 Com algumas alterações este poema foi republicado em Poemas políticos, versão aqui adotada.
33 Republicado em Poemas políticos.
34 Trata-se de empregadas domésticas da família Passos, no Recôncavo e em Salvador.
35 Republicado em Poemas políticos, versão aqui reproduzida. A dedicatória só foi publicada na edição original.
36 Este poema foi republicado no jornal O Momento, Salvador, 11 de Junho de 1945, e no livro Poemas políticos, em versão aqui adotada.
37, à época intelectual comunista, residente em Salvador e já de grande sucesso, era amigo de Jacinta; ambos escreviam para o jornal O Imparcial. A partir de 1945, Jacinta tornou-se cunhada de Jorge, ao se casar com o irmão dele, James Amado. Cf. biografia de Jacinta Passos, nesta edição.
38 Este poema foi publicado pela primeira vez na revista Seiva, Salvador, Ano V, Nº 18, Julho 1943, p. 10 a 13, e republicado no jornal o O Imparcial , Salvador, 1 de Agosto de 1943, Suplemento, p.3. No jornal, a dedicatória não aparece. A versão do poema publicada em O Imparcial e em Seiva é a mesma, e difere desta. Naquela versão, está indicado que o poema foi escrito em Cruz das Almas.
39 Este poema foi publicado primeira vez, com outra versão, na revista cultural Seiva, Salvador, Ano IV, Nº 15, dezembro 1942, p. 12 e 13.
40 Completam o livro Canção da partida os seguintes poemas, republicados do livro anterior: Cantiga das mães, p.75, Carnaval, p.71 e Canção simples, p.66.
41 Este poema foi republicado, em vida da autora, na revista Violão de rua, edição extra, 1963, p.86-88. Não se sabe se Jacinta, então vivendo em Sergipe, tomou conhecimento da edição.
42 Vinte e dois. Referência ao ano de 1922, quando foi fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
43 Tenho uma irmã rica. Referência à burguesia.
44 Teu avô, o velho rei caduco. Referência à aristocracia e à monarquia.
45 Vinte e três anos. 23 anos após sua fundação, em 1945, o PCB foi legalizado.
46 Coluna. A chamada "Coluna Prestes", marcha de um grupo de pessoas, durante dois anos, por 13 Estados brasileiros, contra a República Velha e seus governantes; foi liderada, entre outros, por Luiz Carlos Prestes, que à época ainda não era comunista. Ver A Coluna, quarto livro de poemas de Jacinta, integralmente dedicado ao tema, reproduzido nesta edição.
47 Aliança. Aliança Nacional Libertadora (ALN), frente ampla contra o fascismo e o imperialismo. Fundada em 1935 e neste mesmo ano posta na ilegalidade, foi liderada pelos comunistas, mas dela participavam também socialistas, católicos e democratas, preocupados com o avanço internacional e interno do fascismo.
48 1935. Data da rebelião militar liderada pelos comunistas que, planejada para explodir em todo o Brasil em novembro de 1935 e tomar o poder, eclodiu apenas, e de forma muito tímida, em Natal, Recife e Rio de Janeiro, sendo rapidamente esmagada. Seus líderes, inclusive Prestes, foram presos.
49 Esta estrofe refere-se à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e à participação do Brasil nela, via Força Expedicionária Brasileira (FEB).
50 A estrofe canta o final da Segunda Guerra mundial e, no Brasil, o fim da ditadura do Estado Novo em 1945, assim como a grande popularidade alcançada, neste ano, pelo PCB e por Luiz Carlos Prestes, libertado da prisão.
51 Quinze cadeiras. Referência ao número de cadeiras (14 deputados e um senador) conquistadas pelo PCB na Assembléia Nacional Constituinte de 1946.
52 Todo o Canto I de "As fúrias e a carta" refere-se, de forma crítica, à aliança entre o imperialismo e a burguesia nacional, que é a narradora deste canto. O PCB, a partir do chamado "Manifesto de Agosto", de 1950, radicalizou posições, pregando o final da política de alianças com outros setores e a luta armada contra o latifúndio e o capital estrangeiro.
53 Os dois cantos de "As fúrias e a carta" foram publicados pela primeira vez no jornal O Momento, Salvador, 17 de dezembro de 1949, p. 5 e 6. O segundo canto exalta greves e movimentos populares da época.
54 O coral celebra o trabalho desenvolvido pelo PCB à época, sobretudo na área rural.
55 Este poema, em versão ligeiramente diferente, foi lido por Jacinta na sessão de encerramento do III Congresso Brasileiro de Escritores, em Salvador, 1950. Cf. suplemento Congresso Brasileiro de Escritores, s.d.
56 Olga. Olga Benario (1908-1942), alemã e judia, desde muito cedo ligada aos comunistas. Muito jovem, fugiu com o namorado e líder comunista Otto Braun da Alemanha para a URSS, onde recebeu treinamento militar. Em 1934, foi encarregada de acompanhar Luiz Carlos Prestes, foragido na União Soviética, de volta ao Brasil, e de protegê-lo. Durante a viagem de navio, os dois se apaixonaram. Viveram clandestinamente no país, mas, após a derrota da Revolta de 1935, liderada pelos comunistas, Prestes foi preso, e Olga, grávida, foi deportada por Getúlio Vargas para a Alemanha. Lá, na prisão, deu à luz, em 1936, à filha, Anita Leocádia, entregue à avó paterna. Transferida em 1938 para um campo de concentração nazista, Olga Benário foi executada numa câmara de gás.
57 Zélia. Zélia Magalhães, militante comunista. Durante violenta repressão do governo Dutra a um comício organizado pelos comunistas na Esplanada do Castelo, centro do Rio, em novembro de 1949, Zélia, que estava grávida, foi morta por um tiro da polícia.
58 Dade. Empregada doméstica na residência da família Passos, Dade é citada também no poema "Canção da partida", do livro homônimo: Dade na fonte,/ Dade na lenha,/ dez filhos deu a mundo,/ está plantando roça,/está na casa da farinha,/criou cinco filhos brancos/e depois morreu sozinha./ Neste "Elegia das quatro mortas", Jacinta traz a figura anônima de Dade para junto de três mulheres que, à época, eram heroínas da esquerda brasileira.
59 Angelina. Angelina Gonçalves, tecelã, morta a tiros pela polícia em 1º de maio de 1950, na cidade de Rio Grande, RS, durante comício organizado pelo PCB. Angelina retomara a bandeira do Brasil que a polícia arrancara dos manifestantes. Tinha 30 anos.
60 Fragmento deste poema foi publicado na revista Violão de rua, edição extra, s.d., p. 89-90.
61 Estranhamente, o poema parece prenunciar o afastamento entre Jacinta e sua filha Janaína, a Jana, que efeteivamente aconteceu, a partir do final de 1951. Cf. biografia de Jacinta Passos, neste volume.
62 Completam Poemas políticos os seguintes poemas, republicados dos livros anteriores: Canção da partida p. 85, Três canções de amor p. 96, Pânico no planeta Marte (com o título Pânico burguês) p. 99, Cantiga de ninar p. 111, Diálogo na sombra p. 112, Chiquinha p. 115, Canção da liberdade p. 121, Cantiga das mães p. 75 e Canção simples p. 66.
63 Coluna de fogo. Para explicitação dessa imagem, cf. o ensaio "A coluna de fogo", de Ildásio Tavares, nesta edição.
64 Santo Ângelo de onde vim. Referência à cidade de Santo Ângelo, na região das antigas Missões jesuíticas, oeste do Rio Grande do Sul, onde em 1924 eclodiu o primeiro levante gaúcho contra o governo federal, liderado por Luiz Carlos Prestes, que também era gaúcho.
65 Referências críticas da autora às autoridades que, nos locais por onde passava a Coluna, em geral lhe davam combate: autoridades judiciais (juiz, escrivão), políticas (intendente, ou seja, prefeito, e "coronel", chefe político municipal) e religiosas (padre), além de seus "cães de fila", isto é, homens armados – jagunços – que combatiam sob as ordens dos coronéis e políticos locais.
66 Nascido em 1898 em Porto Alegre, engenheiro militar formado no Rio de Janeiro, o jovem Luiz Carlos Prestes dera apoio ao movimento paulista de 1924, de oposição ao governo federal. Em 1925, liderou rebeliões militares no Rio Grande do Sul contra o governo de Arthur Bernardes e a República Velha, indo depois unir-se no Paraná às forças remanescentes da revolta paulista de 1924, para formar o que ficou conhecido na história como "Coluna Prestes". A participação na Coluna tornou Prestes figura muito conhecida em todo o Brasil. Apenas em 1934, quando já morava na URSS, ele ingressaria no Partido Comunista Brasileiro.
67 Após vencer muitos combates no Rio Grande do Sul, sob o comando geral de Isidoro Dias Lopes e de homens como Juarez Távora, Siqueira Campos, João Alberto e Luiz Carlos Prestes, os rebelados rumaram do Rio Grande do Sul para o Paraná, para ali se unir aos revoltosos paulistas, chefiados por Miguel Costa.
68 Os combates em Santa Catarina foram renhidos. Na localidade de Maria Preta, as forças legalistas se confudiram, atacando-se mutuamente, no chamado "fogo amigo".
69 O militar Miguel Crispim da Costa Rodrigues participara do levante paulista que, em 1924, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes, insurgira-se contra o governo do presidente Arthur Bernardes. Após tomarem S.Paulo por algumas semanas, três mil rebeldes paulistas foram obrigados a se retirar para o Paraná, onde, em 1925, receberam reforço de tropas insurgentes do Rio Grande do Sul. No encontro do Paraná, Prestes foi feito chefe do estado-maior da Coluna; os quatro destacamentos eram chefiados por João Alberto, Siqueira Campos, Djalma Dutra e Cordeiro de Farias.
70 Do Paraná, a Coluna entrou no Paraguai, rumo a Mato Grosso. No total, percorreu 13 estados brasileiros.
71 O general Isidoro Dias Lopes rumou sozinho para a Argentina.
72 O 1º Batalhão Ferroviário, situado em Santo Ângelo, oeste do Rio Grande do Sul, foi o primeiro a insurgir-se no Estado, seu comando passando então ao rebelde Luiz Carlos Prestes. Após vários combates no sul, os destacamentos rebeldes gaúchos seguiram para Foz do Iguaçu, para ali se encontrar com os insurgentes paulistas. Percebe-se que a ordem seguida por Jacinta na disposição dos cantos é a poética, não a cronológica.
73 O combate em Teresina, assim como outros ocorridos no Piauí, foi dos mais difíceis para os rebeldes.
74 Trata-se do padre Aristides Ferreira da Cruz, chefe político tradicional de Piancó, Paraíba, que, auxiliado por forças armadas privadas, opôs forte resistência à Coluna Prestes e acabou sendo morto.
75 Após atravessar o rio São Francisco, em Pernambuco, próximo à cachoeira de Paulo Afonso, a Coluna entrou no sertão da Bahia.
76 Horácio de Matos, poderoso coronel de origem goiana fixado no sertão da Bahia, organizou um batalhão de 600 homens para perseguir os revoltosos da Coluna.
77 No original, esta e as demais estrofes da canção de ninar estão entre aspas.
78 No original, a primeira e a última estrofes estão entre parêntesis, provavelmente por invocarem quadrinha popular.
79 Potreadas. Investidas feitas por alguns membros da Coluna, que se afastavam dos outros para saquear e arrebanhar animais, a fim de alimentar e transportar os rebeldes.
80 Com homens cansados, sedentos e famintos, e já sem perspectiva de vitória contra o governo federal, os chefes da Coluna optaram por ingressar em território estrangeiro e aí dispersar-se; parte entrou na Bolívia, parte no Paraguai.
81 Após atravessar o Mato Grosso pela segunda vez é que a Coluna optou pelo ingresso em território estrangeiro.
82 La Gaiba foi o local boliviano onde Prestes e mais duzentos homens se exilaram.
83 O constante emprego da tática de guerrilhas foi um dos maiores trunfos militares da Coluna.