Joseph Anton: Memórias
3. Ano zero
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Ele telefonou para May er, que negou ter qualquer coisa a ver com as insinuações do j ornal e disse não acreditar que alguém da Penguin houvesse falado com o j ornalista. “Se você descobrir quem disse essas coisas”, prom eteu, “conte-m e quem foi e eu o dem itirei.” Ele tinha suas fontes no j ornal, e um a delas confirm ou que o executivo que falara com o j ornalista confidencialm ente fora o diretor executivo da Penguin no Reino Unido, Trevor Glover. Ele passou essa inform ação a Peter May er, que disse não crer naquilo. Trevor Glover não foi dem itido, e May er continuou a se recusar a conversar sobre Haroun e o mar de histórias até que o livro fosse lido e declarado isento de bom bas-relógio. A relação entre autor e editor estava m esm o por um fio. Quando um autor se convencia de que sua editora estava dando m unição aos m eios de com unicação contra ele, havia pouco m ais a ser dito.
Bill Buford fechara o negócio com a casa no condado de Essex. Ficava num a vila cham ada Little Bardfield. Era cara, m as em toda parte tinham sido caras. “Você vai gostar”, ele disse. “É dela que você precisa.” Ele era o “testa de ferro”, alugando a casa em seu nom e, por um período de seis m eses, com a possibilidade de um a prorrogação. O proprietário tinha “viaj ado para o exterior”. Era um a antiga casa paroquial do com eço do século xix, incluída no grau ii do patrim ônio histórico britânico. Em bora construída no estilo Queen Anne, tinha toques m odernos. A polícia gostou bastante dela, por causa de um a entrada isolada, o que sim plificaria as entradas e as saídas, e porque se situava em m eio de terreno e não era devassada. Havia um j ardim com grandes árvores de som bra e um gram ado que descia para um laguinho com um a falsa garça num a perna só. Depois de todas as casinhas exíguas e das pousadas sufocantes, ela parecia realm ente principesca. Bill iria lá sem pre que pudesse, para conferir credibilidade à sua locação. E Essex ficava m uito m ais perto de Londres do que a Escócia, Powy s ou Devon. Seria m ais fácil ver Zafar, em bora a polícia ainda se recusasse a levar o m enino à sua “localização”. Ele tinha dez anos e não confiavam em que não desse com a língua nos dentes na escola. A polícia o subestim ava. Era um m enino com notáveis dons de autocontrole e com preendia que a segurança do pai estava em risco. Em todos os anos que durou a proteção, ele nunca fez um com entário im prudente.
Um a prisão confortável não deixava de ser um a prisão. Na sala havia quadros antigos, um deles representando um a dam a de com panhia da corte de Elizabeth i, e outro m ostrando um a certa srta. Bastard, de quem ele logo gostou. Eram j anelas para outro m undo, m as ele não podia fugir por elas. Ele não levava no bolso a chave da casa cheia de reproduções de m óveis antigos por cuj o aluguel estava pagando um a pequena fortuna, nem podia sair pelo portão da frente para ir à rua da vila. Tinha de se esconder num banheiro trancado a cada vez que vinha a faxineira, ou ser retirado da casa com antecedência. A m aré de vergonha crescia nele a cada vez que essas coisas tinham de ser feitas. Depois a faxineira deixou o em prego, alegando que “hom ens estranhos” estavam ocupando a casa paroquial. Isso foi preocupante, naturalm ente. Outra vez estava sendo m ais difícil explicar a presença da polícia do que ocultar a dele. Depois da saída da faxineira, eles próprios assum iram a tarefa de espanar e passar o aspirador na casa. Os agentes lim pavam seus côm odos, e ele lim pava sua parte da casa. Ele preferia isso à alternativa.
Durante aqueles anos, percebeu que as pessoas im aginavam que ele estivesse vivendo em algum tipo de pavilhão de isolam ento ou no interior de um cofre gigantesco com um buraquinho pelo qual seus protetores o vigiavam , sozinho, sem pre a sós. Nesse confinam ento solitário, pensavam as pessoas, não seria inevitável que o escritor, tão sociável, perdesse o dom ínio da realidade, o talento literário, a sanidade m ental? A verdade era que ele estava m enos sozinho agora do que em qualquer época de sua vida. Com o todos os escritores, ele estava acostum ado com a solidão, habituado a passar várias horas por dia sem ninguém por perto. Mas, agora, estava m orando com quatro hom ens enorm es e arm ados, hom ens não afeitos à inatividade, os antípodas dos tipos livrescos e caseiros. Eles faziam algazarra, riam alto e era difícil ignorar sua presença barulhenta. Ele fechava as portas internas da casa; eles as deixavam abertas. Ele recuava. Eles avançavam . Não era culpa deles. Im aginavam que ele quisesse um pouco de com panhia, e que precisasse disso. Por isso o que ele m ais procurava recriar em torno de si era isolam ento, para poder ouvir seu pensam ento, para poder trabalhar.
As equipes de proteção continuavam a m udar, e cada agente tinha seu próprio estilo. Houve um suj eito cham ado Phil Pitt, um hom em gigantesco que adorava um a arm a e, m esm o pelos padrões da divisão, era um ás do tiro, um a qualidade que seria valiosa num tiroteio, m as que causava certo desconforto para quem m orava com ele num a casa paroquial. Seu apelido na divisão era “Ram bo”. Houve Dick Billington, o antípoda de Phil, de óculos, com um sorriso am ável e tím ido. O tipo do pároco rural que se esperaria encontrar no presbitério, m as esse portava um a pistola. E havia tam bém os Motoristas Doidões. Ficavam em sua ala da casa de Essex e cozinhavam salsichas, j ogavam baralho e quase enlouqueciam de tédio. “Meus am igos são realm ente as pessoas que m e protegem ”, ele disse certo dia a Dick Billington e Phil Pitt num m om ento de frustração, “m e em prestando suas casas, alugando lugares pra m im e guardando m eus segredos. E eu faço o trabalho suj o de m e esconder em banheiros e coisas assim .” Dick Billington ficava sem graça quando ele dizia essas bobagens, enquanto Phil se enfurecia. Phil não era hom em de falar m uito, e, em vista de seu tam anho e de seu am or à pistola, talvez não fosse inteligente encolerizá-lo. Eles explicaram com calm a que o trabalho que faziam passava a ideia de inatividade, m as isso porque a ocorrência de ação seria prova de que haviam com etido um erro grave. Segurança era a arte de fazer com que nada acontecesse. O agente de segurança experiente aceitava o tédio com o parte de sua atividade. O tédio era bom . Eles não queriam que as coisas ficassem interessantes. Isso era perigoso. O obj etivo deles era m anter a chatice.
Orgulhavam -se m uito do que faziam . Muitos lhe disseram , usando sem pre as m esm as palavras, o que era, evidentem ente, um m antra do Esquadrão “A”: “Nunca perdem os ninguém ”. Era um m antra tranquilizador, e ele m uitas vezes o repetia para si m esm o. O fato era que ninguém que tivesse estado sob a proteção do Esquadrão “A” j am ais sofrera algum ataque, na longa história da Divisão Especial. “Os am ericanos não podem dizer isso.” Eles não gostavam do m odo am ericano de fazer as coisas. “Eles gostam de atirar corpos no problem a”, com entavam , querendo dizer com isso que o destacam ento de segurança am ericano era, em geral, m uito grande, com dezenas de pessoas ou m ais. Toda vez que um dignitário am ericano visitava o Reino Unido, as forças de segurança dos dois países tinham as m esm as discussões sobre m etodologia. “Nós seríam os capazes de transportar a rainha num Ford Cortina sem m arcas pela Oxford Street na hora do rush e ninguém saberia que ela estava ali”, diziam . “No caso dos am ericanos, tudo é feito com m uitas luzes e sirenes. Mas eles perderam um presidente, não foi? E quase perderam outro.” Cada país, ele viria a descobrir, tinha seu j eito peculiar de fazer as coisas, sua própria “cultura de proteção”. Nos anos vindouros, ele experim entaria não só o sistem a am ericano, baseado no grande núm ero de hom ens e equipam entos, com o tam bém o com portam ento assustador da Raid francesa. Raid era a sigla da unidade antiterrorism o “Recherche Assistance Intervention Dissuasion”. Dissuasion, com o descrição de com o os rapazes franceses executavam seu trabalho, parecia um grande eufem ism o. Seus prim os italianos gostavam de dirigir em alta velocidade pelo tráfego urbano, com sirenes tocando alto e arm as m eio para fora das j anelas. Pensando bem , ele estava feliz por contar com Phil e Dick e com o sistem a de baixa visibilidade.
Eles não eram perfeitos. Com etiam erros. Num a noite em que ele esteve na casa de Hanif Kureishi, ao sair para ir em bora, seu am igo correu para a rua, parecendo m uito orgulhoso de sua iniciativa, agitando acim a da cabeça um a pistola enorm e em seu coldre de couro. “Ei”, gritou Hanif. “Espere um m inuto. Alguém esqueceu o trabuco.”
Ele com eçou a escrever. Uma triste cidade, a mais triste das cidades, uma cidade tão arrasadoramente triste que tinha esquecido até o seu próprio nome. Ele tam bém era um hom em que perdera seu nom e. Sabia com o a cidade triste se sentia. “Finalm ente!”, escreveu em seu diário no com eço de outubro e, alguns dias depois, “Com pletei o capítulo 1!”. Depois de ter escrito um as trinta ou quarenta páginas, m ostrou-as a Zafar para ter certeza de que estava no cam inho certo. “Obrigado”, disse Zafar. “Estou gostando, papai.” Mas ele não detectou na voz do filho algo que lem brasse entusiasm o irrestrito. “É m esm o?”, sondou. “Tem certeza?” “Tenho”, respondeu Zafar, acrescentando, após um a pausa: “Algum as pessoas podem achar chato”. “Chato?”A pergunta saiu com o um grito de angústia, e Zafar tentou atenuar seu com entário. “Não, eu li o que você m e m ostrou, é claro, papai. Só estou dizendo que algumas pessoas podem...” “Chato por quê?”, ele perguntou. “O que esse texto tem de chato?” “É que ele não tem m uita pegada”, disse Zafar. Isso foi um a crítica de espantosa precisão. Ele a entendeu no m esm o instante. “Pegada?”, disse. “Eu sei criar pegada. Passe isso para cá.” Ele quase arrancou as laudas datilografadas das m ãos do m enino, agora assustado, e a seguir teve de acalm á-lo, dizendo que não, não estava aborrecido, na verdade o que ele dissera fora m uito útil, talvez fosse m esm o o m elhor conselho editorial que ele j á tinha recebido. Sem anas depois, ele deu a Zafar os capítulos iniciais reescritos, e perguntou: “O que você achou agora?”. O m enino sorriu, feliz. “Agora está ótim o”, respondeu.
O inglês Herbert Read (1893-1968) foi um crítico de arte — um paladino de Henry Moore, Ben Nicholson e Barbara Hepworth — e poeta da Prim eira Guerra Mundial, existencialista e anarquista. Durante m uitos anos, o Institute of Contem porary Arts (ica), no Mall, em Londres, hom enageou-o com um a palestra anual que levava seu nom e. No outono de 1989, o instituto enviou um a carta ao escritório de Gillon, perguntando se Salm an Rushdie estaria disposto a proferir a palestra de 1990.
A correspondência não chegava a ele com facilidade. Os policiais pegavam as cartas na agência e na editora, subm etiam -nas a exam es para garantir que não continham explosivos, e só então elas eram abertas. Em bora lhe assegurassem sem pre que nada deixava de lhe ser entregue, o núm ero relativam ente pequeno de cartas inj uriosas que ele recebia fez com que acreditasse que existia algum processo de filtragem . A Scotland Yard se preocupava com seu estado m ental — ele vinha resistindo à pressão ou estava a ponto de sofrer um colapso nervoso? — e decerto j ulgava m elhor poupá-lo do ataque epistolar dos fiéis. A carta do instituto não foi filtrada, e ele a respondeu, aceitando o convite. Entendeu de im ediato que queria escrever sobre o iconoclasm o, dizer que num a sociedade aberta nenhum a ideia ou crença podia ser circunscrita e ganhar im unidade contra desafios de toda sorte, filosóficos, satíricos, profundos, superficiais, bem -hum orados, irreverentes ou ferinos. Tudo o que a liberdade exigia era que o próprio espaço de discurso fosse protegido. A liberdade estava na própria discussão, não na resolução da discussão, estava na capacidade de refutar as m ais estim adas crenças alheias; um a sociedade livre não era plácida, e sim turbulenta. Era no m ercado das opiniões conflitantes que a liberdade se afirm ava. Isso evoluiria para a palestra-ensaio “Nada é sagrado?”, e essa palestra, um a vez m arcada e anunciada, levaria a seu prim eiro confronto sério com a polícia britânica. O hom em invisível estava tentado tornar-se visível de novo, e a Scotland Yard não gostou disso.
Prezado senhor Shabbir Akhtar,
Não faço ideia do motivo pelo qual o Conselho de Mesquitas de Bradford, do qual o senhor é membro, acredita poder arvorar-se em árbitro cultural, crítico literário e censor. Mas sei que “a inquisição liberal”, a expressão que o senhor cunhou, e da qual sente um orgulho imoderado, é uma expressão sem nenhum significado real. A Inquisição, recordemos, foi um tribunal criado pelo papa Gregório IX, em 1232 ou por volta disso; sua finalidade era reprimir a heresia no Norte da Itália e no Sul da França, e esse tribunal tornou-se tristemente famoso pelo fato de empregar a tortura. É evidente que o mundo literário, no qual abundam aqueles que o senhor e seus pares chamariam de hereges e apóstatas, tem pouco interesse em suprimir a heresia. A heresia, pode-se dizer, é a especialidade de muitos dos membros desse mundo. A Inquisição espanhola, outro bando de torturadores, foi criada dois séculos e meio depois, em 1478, e talvez seja ela o que o senhor tinha em mente, devido à sua reputação de ser anti-islâmica. Na verdade, porém, ela perseguiu com mais vigor ex-muçulmanos convertidos. Ah, sim, e também ex-judeus. A tortura de ex-judeus e ex-muçulmanos é relativamente rara no moderno mundo literário. Meus próprios instrumentos de suplício praticamente não tiveram nenhuma utilização em muito tempo. Todavia, uma considerável percentagem da sua gente — e aqui me refiro ao Conselho de Mesquitas, aos fiéis que esse órgão alega representar e a todos os seus aliados entre o clero no Reino Unido e no exterior — tem se mostrado disposta a levantar a mão quando interrogada se defende a execução de um escritor por causa de sua obra. (Noticiou-se que 300 mil homens muçulmanos na Grã-Bretanha fizeram isso só nasexta-feira passada.) Quatro em cada grupo de cinco muçulmanos britânicos, de acordo com uma recente pesquisa Gallup, opinam que algum tipo de ação deve ser tomado contra esse escritor (eu). A extirpação da heresia, e o uso de violência para esse fim, é uma parte de seu projeto, não do nosso. O senhor louva o “fanatismo em nome de Deus”. Afirma que a tolerância cristã é um motivo de “vergonha” cristã. O senhor é a favor da “ira militante”. No entanto, me chama de “terrorista literário”. Isso seria engraçado, só que o senhor não pretende ser engraçado, e na verdade, pensando bem, isso não tem nada de engraçado. O senhor diz, no The Independent, que obras como Os versos satânicos e A vida de Brian deveriam ser “retiradas do conhecimento público”, porque seus métodos são “errados”. O senhor poderá encontrar pessoas que concordem com sua opinião, segundo a qual meu romance não tem mérito; é quando o senhor ataca o Monty Py thon’s Fly ing Circus que, nas palavras de Bertie Wooster, mete os pés pelas mãos. Muita gente adora aquela palhaçada e suas produções, e qualquer tentativa de retirá-las do conhecimento público terá de enfrentar um exército de oponentes armados com papagaios mortos, caminhando de maneira grotesca e cantando seu hino que fala de sempre buscar o lado alegre da vida. Está ficando evidente para mim, sr. Shabbir Akhtar, que a melhor forma de qualificar a discussão a respeito de Os versos satânicos talvez seja chamá-la de uma discussão entre aqueles que têm senso de humor (como os fãs de A vida de Brian) e aqueles que não o têm (como o senhor, desconfio).
Ele tinha com eçado a trabalhar em outro ensaio longo. Durante a m aior parte do ano fora não só invisível com o, de m odo geral, tam bém m udo, escrevendo m entalm ente cartas que não eram enviadas, publicando apenas algum as resenhas de livros e um poem eto, na Granta, que desagradara não só ao Conselho de Mesquitas de Bradford com o tam bém , de acordo com Peter May er, aos funcionários da Penguin, alguns dos quais, ao que tudo levava a crer, com eçavam a acreditar, com o o sr. Shabbir Akhtar, que ele deveria ser “retirado do conhecim ento público”. Agora ele iria falar. Consultou Andrew e Gillon. Seria inevitavelm ente um ensaio longo, e ele precisava saber qual era a extensão m áxim a aceitável pela im prensa. Eles opinaram que a im prensa publicaria qualquer coisa que ele quisesse escrever. Achavam que a m elhor época para um texto desses seria no prim eiro aniversário da fatwa ou por volta dessa data. Isso seria obviam ente im portante para que o ensaio tivesse um contexto correto, de m odo que a escolha da publicação era fundam ental. Gillon e Andrew com eçaram a fazer consultas. Ele com eçou a pensar no ensaio que se tornaria “De boa-fé”, um a defesa de seu trabalho com 7 m il palavras, e nesse processo com eteu um erro crucial.
Ele caíra na arm adilha de pensar que seu livro tinha sido atacado por ter sido apresentado de form a im própria por pessoas inescrupulosas, que procuravam tirar vantagem política, e que sua própria integridade tivesse sido contestada pela m esm a razão. Se ele fosse um a pessoa de m oralidade reprovável e sua obra não tivesse qualidade, de nada valeria j ustificar o livro com argum entos intelectuais. No entanto, ele convenceu-se de que, se pudesse apenas dem onstrar que o livro fora escrito com seriedade e que podia ser defendido honestam ente, as pessoas — os m uçulm anos — m udariam de opinião sobre o rom ance e sobre ele. Em outras palavras, ele quis ser benquisto. O colegial m alvisto do internato queria poder dizer: “Escute, pessoal, vocês estão enganados com relação a m eu livro e a m im . Não é um livro m al-intencionado, e eu sou um a boa pessoa. Leiam este ensaio e vocês vão ver”. Isso foi um a tolice. Contudo, em seu isolam ento, ele se convenceu de que sua pretensão era exequível. Palavras tinham criado aquele problem a, e palavras o tirariam dele.
Todos os grandes heróis da Antiguidade grega e rom ana, Ulisses, Jasão e Eneias, m ais cedo ou m ais tarde foram obrigados a passar com seus navios entre Cila e Caribde, dois m onstros m arinhos, sabendo que cair nas garras de um ou de outro significaria o aniquilam ento. Ele disse a si m esm o, com firm eza, que em qualquer coisa que escrevesse, ficção ou não ficção, teria de navegar entre seus Cila e Caribde pessoais, os m onstros do m edo e da vingança. Se escrevesse frases tím idas e assustadas ou frases raivosas e vingativas, sua arte estaria arruinada irrem ediavelm ente. Ele se tornaria um a criatura da fatwa e nada m ais. Se quisesse sobreviver, teria de pôr de lado a cólera e o terror, por m ais difícil que fosse essa postura, e continuar a proceder com o o escritor que sem pre tentara ser, procurar seguir a estrada que definira para si m esm o com o a sua. Agir assim o levaria ao êxito; agir de outra form a redundaria em funesto fracasso. Disso tinha certeza.
Esqueceu-se de que havia um a terceira arm adilha: buscar aprovação, querer, em sua fraqueza, ser am ado. Estava cego dem ais para ver que se atirava de ponta-cabeça nesse abism o; e essa foi a arm adilha em que ele caiu e quase o destruiu para sem pre.
Haviam descoberto o Globe Theater, o glorioso teatro circular de m adeira de Shakespeare, sob um a área de estacionam ento em Southwark. A notícia trouxe lágrim as a seus olhos. Ele estava j ogando xadrez com um com putador e chegara ao nível cinco, m as quando acharam o Globe não pôde m ais sequer m over um peão. O passado estendera a m ão e tocara no presente, enriquecendo-o. Ele pensou nas m elhores falas em língua inglesa sendo pronunciadas pela prim eira vez no Anchor Terrace e em Park Street, a Maiden Lane elisabetana. O lugar de origem de Ham let, Otelo e Lear. Um bolo se form ou em sua garganta. O am or à arte literária era algo im possível de explicar a seus adversários, que am avam apenas um livro, cuj o texto era im utável e im une a interpretação, por ser a obra incriada de Deus.
Era im possível persuadir os literalistas corânicos a responder a um a pergunta sim ples: sabiam que depois da m orte do Profeta não existiu, durante um tem po bastante longo, nenhum texto canônico?As inscrições om íadas no Dom o da Rocha diferiam do texto que, norm atizado pela prim eira vez na época do terceiro califa, Osm an, é hoj e tido com o sagrado. As próprias paredes de um dos m ais venerados santuários do islã proclam avam que a falibilidade hum ana se fizera presente no nascim ento do Livro. No m undo, nada que dependesse de seres hum anos era perfeito. O Livro fora transm itido oralm ente pelo m undo islâm ico, e no com eço do século x existiam m ais de sete variantes textuais. O texto preparado e autorizado por al-Azhar, na década de 1920, seguia um a dessas sete variantes. A ideia de que existia um texto prim itivo, original, a palavra perfeita e im utável de Deus, era sim plesm ente incorreta. A história e a arquitetura não erravam , m esm o que rom ancistas pudessem fazê-lo.
Doris Lessing, um a escritora influenciada em alto grau pelo m isticism o sufista, telefonou para dizer que a defesa dele tinha sido “conduzida de m aneira errada”. Khom eini deveria ter sido isolado com o um não islâm ico, um a “figura tipo Pol Pot”. “Além disso”, acrescentou, pois é um a m ulher franca, “devo lhe dizer que não gostei de seu livro.” Todo m undo tinha sua opinião. Todo m undo sabia o que deveria ter sido feito.
O m edo estava se alastrando pelo m eio editorial. O m edo que Peter May er sentia dos futuros livros que ele viesse a escrever se espalhara para outras editoras — ele chegou a se perguntar se os executivos da Penguin não estariam tentando m obilizar apoio à posição deles, de m odo que não parecessem tão pusilânim es —, e agora suas editoras na França e na Alem anha estavam dizendo a m esm a coisa. A revista Publisher’s Weekly pronunciou-se contra a edição em brochura, e com isso m ais um a vez ele ficou com a pulga (ou um pinguim ?) atrás da orelha. O próprio May er continuava se recusando a m arcar qualquer data para a publicação em brochura, alegando a descoberta de bom bas perto de sua casa. Descobriu-se depois que essas bom bas estavam ligadas a nacionalistas galeses e nada tinham a ver com Os versos satânicos. O fato em nada m udou a posição de May er. Tony Lacey disse a Gillon que Peter tinha acabado de receber em casa um a am eaça de m orte. Bill Buford foi a Essex, e eles prepararam um pato para o j antar. “Não se am argure”, disse Bill.
Gillon e Andrew tinham com eçado a conversar com o pessoal da Random House — Anthony Cheetham , Si Newhouse — para saber se estariam interessados em publicar Haroun e o mar de histórias. Responderam que sim , estavam . Mas nem eles nem May er fizeram um a proposta. Tony Lacey adiantou que a Penguin “enviaria um a carta”. Sonny Mehta ligou para dizer que estava “fazendo o que podia” para convencer a Random House a tom ar um a decisão favorável.
No com eço de novem bro chegou a carta da Penguin. Não prom etia um a data de publicação de Os versos satânicos em brochura nem fazia um a proposta para o novo livro. May er queria “m eses” de calm a com pleta antes de cogitar a publicação do rom ance em brochura. Isso parecia incongruente, pois naquela sem ana a bbc exibiu um docum entário sobre a persistente “fúria” m uçulm ana. Porém a Random House declarou que desej ava negociar seriam ente a publicação de obras futuras, e essas negociações com eçaram .
Ele tinha conhecido Isabel Fonseca em 1986, no Congresso do pen em Nova York. Era um a m ulher inteligente e bonita, e tornaram -se am igos. Quando ela se m udou para Londres, às vezes se encontravam , m as convém dizer que nunca houve sinal algum de rom ance. No com eço de novem bro de 1989, ela o convidou para um j antar em seu apartam ento, e a polícia concordou que ele fosse. Depois do corre-corre cinem atográfico de sem pre, ele bateu à porta de Isabel, com um a garrafa de bordeaux, e seguiu-se a ilusão de um agradável j antar com um a am iga, com um bom vinho tinto e escutando as histórias dela sobre a vida literária londrina e John Malkovich. Nessa noite, j á m ais tarde, abateu-se o desastre. Um agente da proteção — o tím ido Dick Billington, aquele que lem brava um pároco — bateu à porta, constrangido, querendo falar com ele. O apartam ento era pequeno, um quarto e sala, de m odo que a equipe teve de entrar. A antiga casa paroquial, disse ele, piscando os olhos rapidam ente por trás dos óculos, talvez tivesse “caído”. Eles não tinham certeza disso, nem sabiam com o acontecera, m as o falatório na vila j á com eçara e o nom e dele estava sendo m encionado. “Até acabarm os de investigar isso”, disse Dick, “infelizm ente o senhor não pode voltar para lá.” Foi com o se ele levasse um m urro na boca do estôm ago, e um a enorm e sensação de im potência o invadiu. “O quê?”, exclam ou. “Quer dizer que não posso voltar para lá esta noite? São dez horas, pelo am or de Deus.” “Eu sei”, replicou Dick. “Mas preferim os que o senhor não volte lá. Para não correrm os riscos.” Ele estava olhando para Isabel. Ela reagiu no m esm o instante. “É claro que você pode ficar aqui”, disse. “Isso é im possível”, ele disse a Dick. “Não podem os voltar para lá e resolver isso de m anhã?” Dick em itiu m uitos sinais corporais de constrangim ento. “Minhas instruções são de que o senhor não volte para lá”, disse.
Só havia um a cam a, de casal, em bora grande. Dorm iram o m ais longe um do outro que puderam , e, quando o corpo agitado dele tocava acidentalm ente no dela, ele se apressava a pedir desculpas. Era com o um a com édia de hum or negro: dois am igos forçados pelas circunstâncias a se deitar j untos e tentar fingir que não havia nada dem ais nisso. Num film e, em dado m om ento eles parariam de fingir e transariam , e depois viria a situação de constrangim ento de m anhã seguinte e talvez, depois de m uitas confusões, rom ance. No entanto, aquilo era a vida real, ele tinha acabado de ficar sem m oradia, ela estava lhe oferecendo um teto durante a noite, ele não fazia ideia do que o dia seguinte lhe traria, e nada disso estim ulava ideias sensuais. Ele estava grato, deprim ido e, para ser franco, sentia um certo desej o por ela, im aginando o que aconteceria se realm ente m anifestasse esse interesse, em bora soubesse ou acreditasse que, nas circunstâncias, essa atitude seria um a exploração grosseira da gentileza dela. Virou-se de costas para a am iga, m as não dorm iu m uito. De m anhã, lá estava o sr. Greenup na sala de Isabel, a lhe dizer: “O senhor não pode voltar para lá”.
Dev Stonehouse tinha sido afastado da equipe por algum tem po, m as recentem ente estivera em Little Bardfield e — talvez isso fosse inevitável — bebera um pouco além da conta num pub da vila e (foi quase im possível acreditar nisso quando m ais tarde Bob Maj or lhe contou o ocorrido) tinha m ostrado sua arm a e se exibido para os outros clientes. O dono do lugar, com o se soube, tinha sido gerente do pub londrino Blind Beggar, em Whitechapel, frequentado pelos fam igerados gângsteres gêm eos Kray. Um deles, Ronnie, certa vez m atara um hom em ali. Um ex-gerente de um bar desse naipe, disse Bob Maj or, “era capaz de farej ar a presença de policiais a quilôm etros”. Aquele era um pub a ser evitado, m as Dev tinha ido lá para com em orar seu aniversário, e depois disso as pessoas tinham som ado dois m ais dois, alguém pronunciara o nom e Salman Rushdie e pronto.
“Isso é sim plesm ente intolerável”, ele disse ao sr. Greenup. “Paguei um a fortuna para alugar essa propriedade, e o senhor vem m e dizer que não posso voltar para lá porque um de seus agentes se em bebedou? O que vou fazer? Não posso ficar aqui e não tenho outras soluções.” “O senhor vai ter de achar algum lugar”, disse Greenup. “Com o? Assim ?”, ele perguntou, m eio fora de si, estalando os dedos. “Abracadabra, pronto. Outro lugar onde m orar.” “Muitas pessoas diriam ”, respondeu Greenup, friam ente, “que o senhor sem eou os ventos...”
Um dia de telefonem as incessantes. Sam een tinha um am igo industrial paquistanês que m antinha um apartam ento em Chelsea, perto do rio. Talvez ela conseguisse pegar as chaves. Jane Wellesley pôs à disposição, de novo, seu apartam ento em Notting Hill. E Gillon Aitken ofereceu os serviços de lady Cosim a Som erset, que naquela época estava trabalhando no escritório da agência em Londres. Cosim a era absolutam ente confiável e discreta, disse Gillon, e seria excelente para encontrar lugares e fechar aluguéis. Tudo seria feito através da agência. Ele conversou com Cosim a pelo telefone, e ela lhe disse, com energia: “Certo, vou tratar disso agora m esm o”. Ele percebeu nesse exato m om ento que ela era, realm ente, a interm ediária perfeita, inteligente e afável, e ninguém suspeitaria que aquela m oça glam ourosa e de sangue azul estivesse envolvida com algo tão indigno com o o “caso Rushdie”.
Sam een chegou, m ais tarde, ao apartam ento de Isabel com as chaves de seu am igo, de m odo que, ao m enos por alguns dias, ele teria onde ficar. Os agentes — Benny estava de volta — o levaram , escondido, para o edifício em Chelsea, e disseram que na calada da noite o levariam de novo a Essex para que ele pegasse suas coisas. Com relação ao dinheiro perdido do aluguel, nada podia ser feito. Benny tam bém achava, sem que sua opinião tivesse sido pedida, que ele deveria desistir da edição em brochura de Os versos satânicos. Disse que representantes da polícia vinham visitando livrarias para pedir a seus responsáveis que intercedessem j unto à Penguin para que não a publicassem . Isso contradizia o que autoridades da divisão lhe tinham dito. Nada era estável. Nada era digno de confiança.
Depois que Greenup saiu e Isabel foi trabalhar, ele com eteu um erro. Em seu estado fragilizado, ligou para sua m ulher e foi vê-la. E a isso seguiu-se um erro m aior: transaram .
Ele se instalou no apartam ento de Chelsea da m elhor form a que pôde, com toda a sua vida tum ultuada — sem um a m orada perm anente, sem acordos de publicação e vendo aum entar a cada dia seus problem as com a polícia. E o que aconteceria agora com relação a Marianne? Mas ao ligar a tv, viu um a coisa m aravilhosa, diante da qual o que estava lhe acontecendo não era nada. O Muro de Berlim estava sendo derrubado, e havia j ovens dançando sobre suas ruínas.
Aquele ano, que com eçara com horrores — em pequena escala, a fatwa, em escala m uito m aior, a praça da Paz Celestial —, tam bém apresentava prodígios notáveis. A m aravilha que era a invenção do protocolo de transferência de hipertexto, o http://, que m udaria o m undo, não foi percebida de im ediato. Mas a queda do com unism o foi. Ele tinha ido para a Inglaterra com o um adolescente que crescera depois da sangrenta partição da Índia e do Paquistão, e o prim eiro grande fato político ocorrido na Europa depois de sua chegada fora a construção do Muro de Berlim , em agosto de 1961. Ah, não,ele pensara, será que agora estão dividindo a Europa também? Anos depois, ao visitar Berlim para participar de um debate na tv com Günter Grass, tivera a oportunidade de, usando o S-Bahn, atravessar o fam oso m uro, que lhe parecera colossal, intransponível, eterno. O lado ocidental do m uro estava coberto de pichações, m as sua face oriental era de um a lim peza de m au agouro. Ele não conseguira im aginar que a gigantesca m áquina de repressão de que o m uro era sím bolo pudesse um dia vir abaixo. No entanto, chegou o dia em que se viu que o Estado soviético apodrecera de dentro para fora, e ruiu, quase da noite para o dia, com o areia. Sic semper tyrannis. A alegria dos j ovens que dançavam infundiu nele um ânim o novo.
Havia épocas em que o ím peto dos acontecim entos parecia avassalador. Hanif Kureishi estava debatendo com Shabbir Akhtar no ica, e ligou, depois, para com entar que adversário débil e incom petente fora Akhtar. Seu am igo Anthony Barnett, escritor e um dos criadores da Carta 88, debateu com o parlam entar Max Madden sobre a lei de blasfêm ia. E tam bém Madden m ostrou-se um oponente fraco e m edroso. Anthony Cheetham e Sonny Mehta, da Random House e da Knopf, disseram que gostariam de falar com o sr. Greenup antes de assinar quaisquer contratos para livros futuros. Essa era um a perspectiva desalentadora, m as, surpreendentem ente, Greenup disse que não tinha problem a algum com relação ao futuro e que, ao conversar com Cheetham e Sonny, diria isso a eles. Nesse m eio-tem po, a Penguin dem itiu Tim Binding, j ovem editor que fora o m ais ardoroso defensor de Os versos satânicos. May er continuava sem ligar de volta para Andrew Wy lie. Fred Halliday, o especialista em Irã, telefonou para dizer que se avistara com Abbas Maliki, o vice-m inistro iraniano do Exterior (e, diga-se de passagem , um dos hom ens que haviam invadido a em baixada dos Estados Unidos em Teerã em 1979). Maliki dissera a Fred que ninguém no Irã poderia desautorizar Khom eini, m as que, se os m uçulm anos britânicos encerrassem sua cam panha, isso poderia tirar o Irã de um a situação difícil. “A propósito”, acrescentou Fred, “você sabia que rádios piratas em pársi estão transm itindo repetidam ente leituras de Os versos satânicos, traduzido, para o Irã?”
Marianne ainda estava falando em publicar os contos “Croeso i Gy m ru” e “Aprendendo urdu”, m as de repente chegou à conclusão de que ainda não estavam “prontos”. A fragilidade em ocional dela o assustava. Jane o censurava por ter retom ado contato com Marianne, e o m esm o faziam Pauline Melville e Sam een. O que ele estava pensando? A resposta é que ele não estava pensando direito. Aquilo havia acontecido, só isso.
Os com entários apavorantes m ais recentes de Kalim Siddiqui estavam sendo exam inados pelo Serviço de Prom otoria da Coroa, e o advogado Geoff Robertson disse que era provável que o spc partisse para um processo. Entretanto, o órgão não quis fazer isso, alegando “insuficiência de provas”. Videoteipes de Siddiqui pedindo o assassinato de um hom em eram insuficientes.
Havia um a casa na zona norte de Londres, na Herm itage Lane, 15, que a polícia aprovava por contar com um a “garagem integral” que tornaria m uito m ais fácil ele entrar e sair sem ser visto. John Howley e o sr. Greenup foram visitá-lo no apartam ento de Chelsea. Estavam m ortificados com os “deslizes” em Little Bardfield e garantiram que aquilo não se repetiria e que Dev Stonehouse não participaria da equipe. Talvez por causa da m ortificação que sentiam , com eçaram a fazer concessões. Reconheciam que ele perdera dinheiro na casa em Essex e que teria agora de voltar a investir pesadam ente em m ais um aluguel. Aceitavam que ele usasse a velha casa paroquial com o um refúgio “ocasional” até a expiração do prazo contratual. Estavam tam bém dispostos a “perm itir” que ele saísse um pouco m ais para ver os am igos. Mas o grande avanço era que Zafar poderia visitá-lo e ficar com ele. E, se ele insistisse, Marianne tam bém . Afinal, ela ainda era sua m ulher.
No com eço de dezem bro, ele foi a Little Bardfield para passar o fim de sem ana com Bill Buford e Alicj a, sua nam orada polonesa, Zafar e Marianne. O m enino estava entusiasm ado, e ele tam bém . Marianne, porém , estava num estado de espírito esquisito. Dias antes, chegara a pedir desculpas por “m entir”, m as agora o lam pej o de insanidade estava de volta a seus olhos, e à m eia-noite ela largou m ais um a de suas bom bas. Ela e Bill, disse, tinham se tornado am antes. Ele disse a Bill que queria lhe falar a sós, e foram para a salinha de tv da casa. Bill adm itiu que sim , aquilo tinha acontecido um a vez, e ele de im ediato se sentira um idiota e não soubera com o contar o que havia ocorrido. Conversaram um a hora e m eia, e am bos sabiam que a am izade deles estava por um fio. Disseram o que precisava ser dito, em voz alta e em voz baixa, com raiva e, por fim , com risadas. No final das contas, resolveram pôr um a pedra em cim a daquilo e não voltar ao assunto. Tam bém ele se sentia um idiota, que tinha de tom ar um a decisão sobre seu casam ento m ais um a vez. Era com o decidir parar de fum ar e recom eçar na m esm a hora. E ele tinha feito isso tam bém . Depois de cinco anos sem fum ar, retornara ao vício. Estava furioso consigo m esm o. Tinha de deixar esses dois m aus hábitos, e logo.
A casa na Herm itage Lane era um a construção pequena, que lem brava um forte. Era feia e não tinha quase m obiliário nenhum . Cosim a brigou com os proprietários para que fornecessem m óveis básicos, um a m esa de trabalho e um a cadeira, algum as poltronas e equipam ento de cozinha. Contudo, durante todo o tem po em que ele ali m orou, a casa continuou a parecer um espaço desabitado. Mas foi ali que ele achou um j eito de voltar a trabalhar, e Haroun e o mar de histórias com eçou, enfim , a avançar.
Quatro iranianos foram presos em Manchester, em 15 de dezem bro de 1989, suspeitos de integrar um esquadrão da m orte. Um deles, Mehrdad Kokabi, foi acusado de conspiração para atear incêndios e explodir bom bas em livrarias. Depois disso, tornou-se ainda m ais difícil fazer com que Peter May er fixasse um a data para publicar a edição em brochura e Os versos satânicos. “Talvez em m eados do ano que vem ”, disse a Andrew e Gillon. E aí sobreveio a catástrofe: a Random House de repente perdeu a coragem de contratar a publicação de seus livros futuros. Alberto Vitale, presidente do conselho da Random House, Inc., declarou que tinham “subestim ado o perigo”, e em 8 de dezem bro a Random desistiu do acordo. Agora ele estava sem a edição popular e sem editora. Deveria parar de escrever? A resposta estava em sua m esa de trabalho, onde Haroun insistia em ser escrito. E Bill o procurou, m uito gentil. A revista Granta estava lançando um a editora, a Granta Books. “Nós vam os publicar esse livro”, disse ele. “Vou lhe m ostrar que é m elhor ele ser publicado por nós do que por um a em presa grande.”
O Portão de Brandem burgo foi aberto, e as duas Berlins tornaram -se um a só. Na Rom ênia, Ceausescu caiu. Ele aceitou escrever, para o The New York Times, um a recensão do rom ance Vineland, o prim eiro de Thom as Py nchon depois de m uitos anos. Sam uel Beckett m orreu. Ele passou outro fim de sem ana com Zafar na velha casa paroquial, e o am or do filho o revigorou com o nada poderia fazer. Depois veio o Natal, e o rom ancista Graham Swift insistiu que ele passasse a data com ele e sua com panheira, Candice Rodd, na casa deles na zona sul de Londres. Ele passou tam bém o réveillon com am igos: Michel Herr e a m ulher, Valerie, que haviam adquirido o hábito im pagável de cham ar um ao outro de “Jim ”. Para eles não havia nada de querido, meu bem ou amor. Com o sotaque arrastado e lento dele, à m aneira am ericana, e o vivo chilreado britânico dela, eles se despediram do ano velho. “Ei, Jim !” “O quê, Jim ?” “Feliz Ano-Novo, Jim .” “Feliz Ano-Novo tam bém , Jim .” “Eu te am o, Jim .” “Eu tam bém te am o, Jim .” O ano de 1990 chegou com um sorriso e na com panhia de Jim e Jim .
E Marianne estava lá tam bém . Isso m esm o. Marianne tam bém .
a A pronúncia de Carlos, em inglês, assem elha-se a car loss, “perda de carro”. (N. T.)