Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 4 de 11 · parte 4/5

Páginas do PDF

Joseph Anton: Memórias

3. Ano zero

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

Chegou a hora de deixar Porlock Weir. A polícia achara um a casa para alugar em Brecon, num lugar cham ado Taly bont. Maggie Drabble e Michael Holroy d retom aram a posse de sua residência e ali com em oraram os cinquenta anos de Maggie. Marianne não iria para Taly bont; estava de partida para os Estados Unidos. Lara iria se form ar em Dartm outh, e a m ãe naturalm ente queria estar presente. Sua viagem seria um alívio para ela e para ele. Era visível que ela estava no lim ite de sua resistência, com os olhos m ais arregalados do que de costum e e a tensão escorrendo dela com o o suor do corpo de um m aratonista. Ela precisava de um a pausa, provavelm ente de um a saída. Ele entendia isso. Ela não previra aquilo, nem aquela era sua luta. O chavão “fique ao lado de seu m arido” m andava que ela ficasse, m as tudo nela gritava “vá em bora”. Talvez tivesse sido diferente se eles estivessem m ais apaixonados. Mas ela estava ao lado de um hom em com quem não se sentia feliz. E precisava assistir à form atura da filha.

Foi um j antar estranho para os quatro, m eio com em orativo dos cinquenta anos de Maggie, m eio chocado pela história. Michael contou histórias engraçadas de sua infância insólita, com a m ãe a m obilizar seus préstim os para aj udá-la a deixar seus m uitos m aridos, e pelo m enos um desses m aridos a pedir a ele que escrevesse bilhetes que talvez a persuadissem a não deixá-lo. As notícias deixavam todos preocupados. E de repente o aiatolá Khom eini m orreu e foi carregado para a sepultura em Teerã. Num côm odo contíguo, à espera da m udança de turno, os policiais faziam piadas que achavam filosóficas: A vida é um sanduíche de merda. Quanto mais pão você põe, menos merda come. Mas à m esa do j antar os quatro assistiam a cenas que ocorriam m uito longe dali, a m ultidão im ensa se flagelando em torno do ataúde, aquele m onstro m ulticéfalo seguindo pela rua com m ovim entos ondulantes e irregulares, o ataúde virando, a m ortalha se rasgando, e de súbito a perna frágil e branca do m orto exposta à vista de todos. Ele sentia, diante da televisão, que aquilo era um a coisa que não com preendia. Não bastava dizer que aquelas m ultidões eram trazidas de ônibus e cam inhões ou pagas para chorar convulsivam ente, ou que m uito deles estavam num a espécie de delírio, com o num transe, com o o apresentado por alguns xiitas no dia de Ashura, em 10 do m ês m uarrã, que se açoitavam e se escoriavam para lem brar a m orte do neto do Profeta, Hussain ibn-Ali, na batalha de Karbala, no ano 680. Não adiantava tentar im aginar por que um a nação, cuj os filhos tinham m orrido por ordem do im ã num a guerra inútil com o Iraque, sentisse tam anha dor por ocasião da m orte dele. Tam pouco adiantava ver aquelas cenas com o um teatro falso, encenado por um povo oprim ido e receoso cuj o m edo do tirano não dim inuía nem m esm o após sua m orte: não bastava m inim izar aquilo com o terror fantasiado de am or. O im ã tinha sido, para aquela gente, um elo direto com seu Deus. Esse elo se partira. Quem intercederia por eles agora?

Na m anhã seguinte, Marianne viaj ou para os Estados Unidos. Ele foi levado para Taly bont. A casinha era m inúscula, e o tem po, péssim o. Não haveria privacidade ali. Ele e seus protetores — o afável Jack “Gordo” e um suj eito novo, articuladíssim o, obviam ente um oficial com um belo futuro, cham ado Bob Maj or — seriam obrigados a viver lado a lado. Pior ainda, o telefone celular não funcionava. Ali não havia sinal. A cada dia, para falar com as pessoas, ele teria de ser levado de carro a um a cabine telefônica a m uitos quilôm etros dali, num a zona rural rem ota. A claustrofobia o invadiu. “É tudo inútil, inútil”, escreveu em seu diário, e depois ligou para Marianne em Boston, e as coisas pioraram , e m uito.

Ele estava num a cabine telefônica verm elha, debaixo de chuva, num a encosta do País de Gales, com um a sacola de m oedas na m ão e a voz de Marianne no ouvido. Ela j antara com Derek Walcott e Joseph Brodsky, e os dois poetas, laureados com o Nobel, lhe disseram que não teriam m udado de vida com o ele fizera. “Eu ficaria em casa e agiria exatam ente com o sem pre”, afirm ara Brodsky, “e iríam os ver o que poderiam fazer.” “Eu expliquei a eles”, disse ela ao telefone. “Eu disse a eles: ‘Coitado, ele está com m edo de m orrer’.” Muito obrigado, Marianne, ele pensou. Joseph Brodsky fizera um a m assagem nos pés dela, contou Marianne. Ao ouvir isso, ele ficou m ais feliz ainda. Sua m ulher estava com dois m achos alfa da poesia m undial, recebendo m assagens nos pés e dizendo-lhes que o m arido era m edroso dem ais para levar a vida com o eles fariam , às escâncaras, com coragem . Ela disse que vinha usando sáris em toda parte. Ou sej a, nada de discrição. Ele j á ia lhe dizer que talvez os sáris cham assem m uito a atenção, quando ela soltou sua bom ba. Tinha sido procurada no saguão de seu hotel em Boston por um agente da cia que disse cham ar-se Stanley Howard. Ele queria conversar com ela e tom aram um café j untos. “Eles sabem onde nós estávam os”, disse ela, com a voz alterada. “Estiveram dentro da casa. Tiraram papéis de sua m esa e de sua cesta de lixo. Me m ostraram esses papéis com o prova de que tinham estado lá e exam inado tudo. O tipo da m áquina, a disposição da página, o texto, é tudo seu, sem a m enor dúvida. As pessoas que protegem você nem perceberam que eles estiveram lá. Você não pode confiar nessas pessoas. Precisa sair daí j á. Tem de vir para os Estados Unidos. Esse hom em , Howard Stanley, queria saber se nosso casam ento era de verdade ou se você só está casado com igo por conveniência, para poder m orar nos Estados Unidos. Com o eu defendi você, ele disse que então estava certo, você teria autorização de residência. Você vai poder m orar nos Estados Unidos com o um hom em livre.”

Afinal, Stanley Howard ou Howard Stanley?Bem , as pessoas m uitas vezes não se lem bram direito de nom es e fazem confusões, isso não provava nada. O lapso até poderia ser um a prova de que ela estava dizendo a verdade. “Preste atenção”, disse ele. “Você está m e dizendo que um agente da cia lhe disse que eles haviam se infiltrado num a operação de segurança britânica im portante, invadido a casa protegida, retirado m ateriais de dentro dela e que ninguém percebeu nada?” “Isso m esm o”, ela respondeu e repetiu: “Você não está em segurança, precisa sair daí, não confie m ais nas pessoas que estão a seu redor”. Ele lhe perguntou quais eram seus planos. Ela iria a Dartm outh, para a form atura, e depois viaj aria para o sul, para visitar a irm ã, Johanne, na Virgínia. “Está certo”, disse ele, “eu ligo de novo am anhã.” No dia seguinte, porém , quando ele ligou, ela não atendeu.

Quando ele contou o que ela dissera, Bob Maj or e Jack “Gordo” o escutaram com m uita seriedade. Depois fizeram várias perguntas. Por fim , Bob disse: “Para m im , isso não faz sentido”. Nenhum m otorista relatara ter sido seguido, e eles tinham excelente treinam ento. Nenhum dos sensores instalados na casa de Porlock Weir e do lado de fora tinha sido acionado. Não havia nenhum sinal de que alguém tivesse entrado sem autorização. “Isso não tem lógica”, disse Bob, acrescentando: “O problem a é que quem está dizendo isso é sua m ulher, e portanto tem os de levar essa história a sério. Ela é sua m ulher”. Eles teriam de com unicar o fato a seus superiores, ao com ando da Scotland Yard, que tom aria as decisões cabíveis. E Bob disse tam bém : “Infelizm ente, o senhor não pode ficar aqui. Tem os de partir do princípio de que a operação foi descoberta. Isso quer dizer que o senhor não pode ir para nenhum lugar onde j á esteve ou para onde planej ou ir. Tem os de m udar tudo. O senhor não pode ficar aqui”.

“Tenho de ir a Londres”, disse ele. “Meu filho faz dez anos daqui a alguns dias.”

“O senhor vai precisar achar um lugar”, disse Jack “Gordo”.

Mais tarde, as pessoas às vezes lhe perguntavam : Você perdeu amigos naquele tempo? As pessoas tinham medo de se mostrar próximas a você? E ele respondia que não, que na verdade acontecera o oposto. Seus bons am igos se revelaram am igos de verdade, e pessoas que antes nem eram tão próxim as se aproxim aram m ais dele, aj udando no que era possível e dem onstrando generosidade, desprendim ento e coragem fora do com um . Ele se lem braria para sem pre daquilo — da nobreza de seres hum anos que lhe deram o que tinham de m elhor — m uito m ais vividam ente do que do ódio, em bora o ódio tam bém se m antivesse vívido em sua m em ória, e seria sem pre grato por ter sido alvo de tanta aj uda.

Foi em 1987 que ele se aproxim ou de Jane Wellesley, quando ela produziu um docum entário de am bos, The riddle of midnight [O enigm a da m eia-noite], e desde então a am izade entre eles só aum entara. Na Índia, o sobrenom e dela abrira m uitas portas bem fechadas — “Aquele Wellesley ?”, perguntavam as pessoas, surpresas, e logo se excediam em atenções para aquela parente distante de Arthur Wellesley, que lutara na batalha de Seringapatam e, m ais tarde, j á com o vencedor de Bonaparte, se tornaria o duque de Wellington. E Arthur era irm ão de Richard Wellesley, que fora nom eado governador-geral da Índia, havia 190 anos. Em vez de achar graça nessas dem onstrações de respeito, Jane se sentia constrangida. Era um a m ulher profundam ente fechada, que dividia sua vida com pouquíssim as pessoas, e quem lhe confiasse um segredo podia ter certeza de que ela o levaria para o túm ulo. Era tam bém um a m ulher de sentim entos intensos, ocultos sob a capa da reserva britânica. Quando ele lhe telefonou, na m esm a hora ela se prontificou a deixar sua própria residência, um apartam ento no últim o andar de um prédio em Notting Hill, “pelo tem po que você precisar, se achar que serve”. Era o tipo de lugar que a Divisão Especial detestava, um apartam ento, e não um a casa, com apenas um a porta de entrada e saída e no últim o andar de um prédio sem elevador. Aos olhos da polícia, um a arm adilha. Mas ele tinha de ir para algum lugar e não havia outro. E foi para lá.

O sr. Greenup foi visitá-lo e deu a entender que Marianne tinha inventado aquela história. “O senhor tem ideia do que seria necessário para infiltrar um a operação com o essa?”, perguntou. “Talvez só os am ericanos disponham de recursos para isso, e m esm o para eles seria difícil. Para poder seguir seu carro sem serem notados, eles teriam de m udar o carro de seguim ento m ais ou m enos a cada vinte quilôm etros, e isso exigiria o uso de m ais de dez carros, em rodízio, para enganar seus m otoristas. Além disso, talvez tivessem de em pregar satélites e helicópteros. E invadir a casa sem acionar pelo m enos um dos vários dispositivos de segurança seria sim plesm ente im possível. E, m esm o supondo que eles tivessem feito tudo isso, que tivessem descoberto onde o senhor estava, entrado na casa e saído dela, retirando papéis de sua m esa de trabalho, e se esquivando a todos os sensores... por que iriam procurar sua m ulher para provar a ela que tinham feito isso? Eles sabiam que ela contaria ao senhor, que o senhor contaria a nós, e que no m om ento em que soubéssem os que eles sabiam m udaríam os tudo, de form a que todo o esforço e despesas deles teriam sido inúteis e eles estariam de volta à estaca zero. Eles saberiam tam bém que o fato de a cia se infiltrar num a operação britânica tão delicada com o essa seria considerado um ato hostil, m uito próxim o de um ato de guerra contra um a nação am iga. Por que diriam isso a ela? Isso não faz sentido.”

O sr. Greenup disse tam bém que o celular passara a ser visto com o um risco de segurança, e que pelo m enos por ora não poderia ser utilizado.

Ele foi tirado do edifício para falar com Marianne de um a cabine telefônica em Ham pstead. Ela parecia perturbada. A recusa dele a aceitar que não podia confiar nos agentes de segurança a contrariou. Estava decidindo se voltava à Inglaterra e quando.

Na véspera de seu décim o aniversário, Zafar foi para o apartam ento em que ele estava. Tinha pedido a Clarissa que lhe desse de presente um trenzinho elétrico, m as ela se esqueceu de m andá-lo com o m enino, em bora se lem brasse de m andar a nota de com pra. Mas não tinha im portância. Pela prim eira vez em m eses ele ficaria m ais tem po com o filho, e aquilo era um a felicidade sem igual. Um policial saiu para com prar um bolo, e em 17 de j unho de 1989 com em oraram o aniversário dele da m elhor form a possível. O sorriso no rosto do filho foi a m elhor inj eção de ânim o possível. À noite Zafar foi levado de volta para a casa da m ãe, e na m anhã seguinte Marianne voltou.

Ela foi recebida no aeroporto de Heathrow pela dupla Will Wilson e Will Wilton, hom ens de expressão pétrea que dirigiam a Divisão Especial e o serviço de inform ações britânico, e levada para um interrogatório durante várias horas. Ao chegar, enfim , ao apartam ento de Jane, estava pálida e claram ente assustada. Os dois não se falaram m uito naquela noite. Ele não sabia o que lhe dizer ou em que acreditar.

Ele não teve m ais permissão para ficar na cidade. A polícia arranj ara um lugar: um a pousada, a Dy ke House, na vila de Gladestry, em Powy s. De volta às Marcas Galesas. A Dy ke House era um a antiga casa paroquial eduardiana, um prédio m odesto com frontão, um j ardim encantador e um riachinho rum orej ante, perto do dique de Offa, no sopé do Hergest Ridge. A pousada, dirigida por um policial reform ado, Geoff Tutt, e sua m ulher, Christine, era tida com o segura. Em Londres, a exigência m uçulm ana de que ele fosse processado por blasfêm ia ganhara o direito de revisão j udicial. Houve outra passeata contra ele em Bradford, na qual fizeram -se 44 prisões; o bispo local pediu o fim desses protestos, m as não era provável que fosse ouvido.

Will Wilson e Will Wilton foram visitá-lo em Gladestry e pediram que Marianne não estivesse presente à reunião, o que a enfureceu, e ela saiu, de m aus m odos, para um longo passeio. Os dois Wills inform aram a ele que o relato de Marianne fora levado tão a sério que chegara à m esa da prim eira-m inistra britânica e tam bém à do presidente dos Estados Unidos. Após um inquérito m inucioso, os investigadores se convenceram de que não havia verdade algum a em suas afirm ações. “Entendo que isso sej a difícil para o senhor”, disse Wilson, “porque, com o sua m ulher, ela deveria ser um a pessoa em que o senhor gostaria de acreditar.” Explicaram com o tinha sido o interrogatório. Não fora nada parecido com o tratam ento rigoroso e com coação física que o cinem a adorava. Em vez disso, insistiram m uito nas repetições e em porm enores. Com o ela sabia que Stanley Howard ou Howard Stanley era um agente da cia? Ele lhe m ostrara sua identidade funcional? Com o era esse docum ento? Tinha fotografia ou não? Era assinado? Parecia um cartão de crédito ou era dobrável? “Muitas coisas com o essas”, disse Will Wilton. “São os detalhes que aj udam .” Tinham feito com que ela repetisse a história m uitas vezes, e disseram : “Quando não há variação nenhum a na história, tem os cem por cento de certeza de que é falsa”. Quem fala a verdade nunca conta um a história exatam ente da m esm a form a duas vezes.

“Aquilo não aconteceu”, disse Will Wilton. “Tem os absoluta certeza disso.”

Estavam lhe pedindo que acreditasse que sua m ulher inventara um a tram a da cia contra ele. Por que ela teria feito isso? Por acaso queria se libertar daquela vida clandestina na Grã-Bretanha a ponto de considerar necessário abalar a confiança dele nos agentes que lhe davam proteção, para que trocasse a Inglaterra pelos Estados Unidos, o que perm itiria a ela fazer o m esm o? Mas por que ela não teria im aginado que, se ele acreditasse que a cia tivera tanto trabalho para localizá-lo, não consideraria a agência am ericana ainda m enos digna de confiança do que a Divisão Especial? Afinal de contas, por que a cia faria tal coisa? Estaria planej ando trocá-lo por reféns am ericanos detidos no Líbano? E, se fosse esse o caso, ele não correria m ais perigo em solo am ericano do que na Grã-Bretanha? Sua cabeça girava a m il. Aquilo era um a loucura. Um a verdadeira loucura.

“Isso não aconteceu”, repetiu Will Wilton, procurando ser gentil. “Nada disso aconteceu.”

 

Ela falou durante m uito tem po, tentando convencê-lo de que era a polícia que m entia e não ela. Lançou m ão de seus consideráveis encantos físicos para persuadi-lo de que dissera a verdade. Enfureceu-se, chorou, calou-se e fez-se loquaz de novo. Essa atuação, seu notável esforço final, durou quase toda a noite. Ele, porém , estava decidido. Não tinha com o provar ou negar a veracidade daquela história, que m uita coisa indicava ser falsa. Não podia m ais confiar em Marianne. Seria m elhor ficar sozinho do que perm itir que ela perm anecesse. Pediu-lhe que fosse em bora.

Muitos dos pertences dela continuavam em Porlock Weir, e um dos m otoristas levou-a até lá para pegá-los. Ela telefonou para Sam een e para am igos dele, e tudo o que lhes disse era falso. Ele com eçou a sentir m edo de Marianne, do que ela poderia fazer ou dizer assim que estivesse fora da bolha da proteção. Meses depois, quando ela decidiu dar sua versão da separação a um j ornal de dom ingo, declarou que a polícia a levara para um lugar erm o e a deixara num a cabine telefônica para que se virasse sozinha. Isso era pura invencionice. Na verdade, ela estava com o carro dele e com as chaves da casa de Bucknell, e agora, que passara a ser vista com o um risco à segurança, ele não podia m ais usar nenhum a propriedade de que ela tivesse conhecim ento. Portanto, na realidade, ele, e não ela, é que se tornara novam ente um sem -teto por causa da separação.

 

Houve novos atentados a bom ba — na livraria Collett’s de novo, diante da loj a de departam entos Liberty ’s e, depois, em livrarias da Penguin em quatro cidades da Grã-Bretanha —, m ais m anifestações, m ais ações j udiciais, m ais acusações de “iniquidade” por parte de m uçulm anos, m ais ruídos apavorantes vindos do Irã (o presidente Rafsanj ani declarou que a ordem de assassinato era irrevogável e tinha o apoio de “todo o m undo m uçulm ano”) e, na Inglaterra, da boca do peçonhento gnom o de j ardim Siddiqui. Em contrapartida, entretanto, m ais gestos alentadores de solidariedade que vinham de am igos e sim patizantes nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros países da Europa — um a leitura aqui, a m ontagem de um a peça ali, a assinatura, por 12 m il pessoas, da “declaração m undial” Escritores e leitores em apoio a Salman Rushdie. Essa cam panha de defesa era liderada pela respeitada organização de direitos hum anos Artigo 19, cuj o nom e fazia referência ao artigo sobre liberdade de expressão na Declaração Universal de Direitos Hum anos. “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão”, rezava o artigo. “Esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transm itir inform ações e ideias por quaisquer m eios e independentem ente de fronteiras.” Essas palavras eram sim ples e claras. O artigo não acrescentava “a m enos que líderes religiosos determ inem o contrário e ordenem assassinatos”. Ele pensou em Bellow de novo, em suas fam osas palavras no início de As aventuras de Augie March: “Todo m undo sabe que não existe precisão nem apuro na supressão; se você corta um a coisa, acaba am putando o que está ao lado”. John Kennedy, m ais lacônico do que o Augie de Bellow, disse a m esm a coisa com quatro palavras: “A liberdade é indivisível”.

Essas eram ideias que haviam norteado sua vida, quase sem que ele se desse conta disso. A liberdade artística fora o ar que ele respirava, e, com o o ar era abundante, não era preciso proclam ar a im portância do ar. Depois certas pessoas com eçaram a tentar interrom per o suprim ento de ar, e logo se tornou prem ente m ostrar que isso era errado.

Naquele dia, entretanto, ele passou a m aior parte do tem po tentando resolver um problem a m ais básico: onde passaria a próxim a sem ana de sua vida? Mais um a vez, foi Jane Wellesley quem o socorreu. Jane tinha um a casinha em Ay rshire, e ofereceu-a com a m esm a boa vontade de antes. Os dois Jaguares partiram para o norte. No interior da Escócia, apresentou-se o problem a que atorm entava a equipe de proteção em toda parte. Esconder o hom em invisível era fácil. Explicar os dois carrões estacionados no galpão ao lado da casa de Jane j á era m ais difícil. E quem eram aqueles quatro hom enzarrões que iam e vinham pela vila? Um a vez levantadas suspeitas entre os m oradores, não era fácil aplacá-las. Para piorar as coisas, a Divisão Especial escocesa, que tinha j urisdição sobre o condado, não se sentiu à vontade para deixar a proteção entregue a seus colegas ingleses, e por isso m andou sua própria equipe, de form a que agora havia quatro carrões disputando espaço no galpão de Jane, além de oito hom ens, verdadeiros arm ários, gesticulando e discutindo, e vários passavam a noite toda em seus carros. “O problem a”, ele disse a seus protetores, “está em esconder vocês.”

Jane foi lá para ver com o estavam as coisas, e levou Bill Buford. Apaixonado por ela, Buford parecia um anim ado cachorrinho am ericano a saltitar em torno de Jane, que o tratava com um a j ovialidade afetuosa e aristocrática. Buford fazia m om ices e cabriolas, com o o alegre bobo da corte de Jane, só lhe faltando a roupa colorida, o chapéu de pontas e os guizos. Com o sol rom pendo entre as nuvens, Ay rshire foi durante um período um a ilha de felicidade na tem pestade. Bill disse a ele: “Você precisa de um lugar legal, um lugar onde possa ficar por bom tem po e à vontade. Vou cuidar disso”.

Bill era um Personagem , sendo a m aiúscula um a expressão necessária de sua dim ensão. Sem pre agitado, a distribuir abraços, falava com exclam ações e ênfases. Era um chefautodidata, ex-j ogador de futebol am ericano, leitor com petente, com vasto conhecim ento dos elisabetanos, um anim ador de am bientes, em parte intelectual, em parte m estre de cerim ônias de circo. Pegara um a revista estudantil de Cam bridge que deixara de circular, a Granta, e a reinventara com o vitrine de sua talentosa geração. Am is fils, McEwan, Barnes, Chatwin, Ishiguro, Fenton e Angela Carter foram alguns nom es que desabrocharam em suas páginas; George Steiner o autorizou a publicar na revista seu rom ance sobre Hitler, The portage to San Cristobal of A. H. [O transporte de A. H. a San Cristóbal]; Buford cham ou de “realism o suj o” o trabalho dos am ericanos Carver, Ford, Wolff e Joy William s; a prim eira edição da série Travel da Granta de certa form a inaugurou o m odism o da literatura de viagens; e ele fez tudo isso pagando um a m iséria aos colaboradores, enfurecendo m uitos deles por não ler seus textos ou por m antê-los na gaveta durante m eses e irritando vários outros por praticar um estilo de editoração tão ditatorial que ele tinha de se valer de todo o seu charm e para não apanhar; e vendendo assinaturas de um a revista trim estral que nem um a só vez, durante os dezesseis anos em que ele a com andou, conseguiu publicar m ais de três edições por ano. Buford levava vinhos de prim eira a toda parte e dava um a sucessão de j antares opíparos com m olhos pesados e carnes de caça — convites ao infarto —, e a sala em que ele estivesse norm alm ente se enchia de risos. Era tam bém um excelente contador de histórias, um grande fofoqueiro e parecia ser o últim o hom em da terra a quem Joseph Anton se dispusesse a confiar o santuário íntim o de seu m undo secreto. No entanto, guardava todos os segredos. Por trás de toda a gaiatice e extroversão, Bill Buford era um hom em a quem se podia confiar a vida. “Vou tratar logo disso”, prom eteu Bill. “Vou resolver esse negócio.”

 

Duas m ulheres que até então ele não conhecia estavam prestes a se tornar personagens im portantes em sua história: Frances D’Souza e Carm el Bedford. Carm el, um a irlandesa corpulenta e de opiniões firm es, foi indicada pela Artigo 19 com o secretária de sua cam panha de defesa, ou, para dar o nom e com pleto, Com itê Internacional de Defesa de Rushdie, e Frances, a nova diretora da Artigo 19, era a chefe dela. O com itê fora criado à revelia da pessoa a quem defendia, para lutar contra a “censura arm ada”, com o apoio do Arts Council, do pen, da National Union of Journalists, da Society of Authors e da Writers’ Guild, além de várias outras entidades. Ele não tivera nada a ver com suas origens, m as com o passar dos anos veio a trabalhar cada vez m ais perto de Frances e de Carm el, que tinham se tornado suas indispensáveis aliadas políticas.

Elas o viram em m uitos estados de espírito — deprim ido, beligerante, triste, j udicioso, controlado, debilitado, egocêntrico, decidido, m esquinho e determ inado — e o apoiaram em todos eles. Frances, bem proporcionada, chique, m orena, grave quando concentrada e risonha quando alegre, era um a m ulher com o poucas. Tinha trabalhado nas selvas de Bornéu e tam bém nas m ontanhas do Afeganistão, com os mujahedin. Tinha a m ente rápida e penetrante, além de um coração de m ãezona. Era um a sorte para ele contar com essas compañeras. Havia m uito que fazer.

O celular voltou a ser perm itido, e elas ligaram . Marianne tinha aparecido no escritório da Artigo 19, por conta própria, e anunciado sua intenção, com o m ulher dele, de assum ir um papel de liderança na cam panha de sua defesa. Disse que ele precisava de alguém que falasse por ele, e ela seria tal pessoa. “Só queríam os ter certeza”, disse Frances, com seu j eito delicado, “de que isso tem a sua aprovação, que é isso que você quer.” Não, ele quase gritou. Isso era o oposto do que ele queria, e em nenhum a hipótese Marianne deveria ter qualquer coisa a ver com a cam panha ou perm issão de falar em nom e da cam panha ou dele. “Foi o que pensei”, disse Frances.

Marianne vinha deixando para ele m ensagens coléricas, nas quais os detalhes banais da crise conj ugal ganhavam contornos de m elodram a grotesco devido à vida de capa e espada que levavam . Por que você não me liga? Vou falar para os jornais. Ele ligou, e durante algum tem po ela se acalm ou. Mas aí ela disse ao Independent que, em bora “a pessoa estej a em perfeita saúde m ental, leva a vida de um esquizofrênico paranoide”. Não especificou quem era a pessoa.

E Clarissa tam bém telefonou. Queria que ele com prasse para ela um a casa nova. Achava que devia se m udar, e isso era por causa dele, de form a que ele devia pagar o custo adicional da nova residência. Era a obrigação dele para com ela e o filho.

Seguiram -se novos períodos passados em hospedarias adm inistradas por policiais reform ados (parecia haver m uitas): em Easton, no condado de Dorset, e depois em Salcom be, no condado de Devon. A vista em Devon era linda: a ensolarada baía de Salcom be, singrada por veleiros e com gaivotas rodopiando no céu. Bill estava tratando de alugar um a casa em Essex. “Preciso de m ais alguns dias”, disse.

Seu am igo Nuruddin Farah se oferecera para servir com o interm ediário j unto ao intelectual islâm ico Ali Mazrui a fim de tentar quebrar o im passe em relação à fatwa. “Está certo”, ele disse a Nuruddin, “m as não vou pedir desculpas nem m e retratar pelo livro.” Passado algum tem po, Nuruddin adm itiu ter fracassado. “Eles querem m ais do que o que você está disposto a dar.” De vez em quando, naquele tem po, surgia um a proposta desse tipo, por parte de pessoas que alegavam ter “contatos” indiretos ou secretos capazes de solucionar o problem a e se ofereciam para atuar com o m ediadoras. Um a delas foi um paquistanês, Sheikh Matin, que se aproxim ou de Andrew em Nova York; outro foi um em presário anglo-iraniano, sir David Alliance, em Londres; houve diversos outros. Nenhum a dessas iniciativas deu resultado.

Bill telefonou, entre divertido e furioso. “Seu poem a”, disse. “O Conselho de Mesquitas de Bradford quer que sej a proibido.” Em sua edição m ais recente, a Granta quebrara sua tradição antipoética e publicara um poem a que ele escrevera a respeito de com o se sentia, intitulado “6 de m arço de 1989”. Term inava com versos em que ele afirm ava sua disposição de

não me calar. Cantar ainda, mesmo sob ataques,

cantar (enquanto meus sonhos são mortos pelos atos)

louvores a borboletas despedaçadas na tortura.

 

“Você não quer m orar com igo porque eu sou escritora”, dissera Marianne em sua m ensagem m ais recente. “Você não tem o m onopólio do gênio.” Ela queria publicar “o conto sobre a fuga no País de Gales”, “Croeso i Gy m ru”. E escrever sobre a bom ba na livraria Liberty ’s.

O telefone era sua ligação com o m undo, m as tam bém ele trazia notícias pesadas. Em Delhi, Anita Desai estava aborrecida com o fato de as pessoas terem ficado m uito “autocentradas”. Visitando um am igo, o produtor Sham a Habibullah, ela falara com a m ãe de Sham a, Attia Hosain, de 96 anos, a fam osa autora de Sunlight on a broken column [O sol num a coluna quebrada]. Attia, que fora am iga da m ãe de Anita, queixou-se de que respingos de Os versos satânicos haviam lhe causado m uitos problem as. “E, na m inha idade, isso não é j usto.”

Ele m antinha contato constante com Andrew e Gillon. O relacionam ento com a Penguin estava se deteriorando depressa. Fora levantada a questão da publicação de Os versos satânicos em brochura e, aparentem ente, Peter May er estava à procura de um m eio de evitá-la. Andrew e Gillon tinham pedido um a reunião com May er, e este dissera que, a seu pedido, o advogado da Penguin, Martin Garbus, participaria de todas aquelas reuniões. Isso era novidade: que um a reunião entre um autor e seu editor — entre esse autor e esse editor — só pudesse ocorrer na presença de um advogado. Era um sinal do quanto a discórdia crescera.

Ele ligou para Tony Lacey, o diretor editorial da Viking no Reino Unido, e Tony procurou tranquilizá-lo, dizendo que tudo daria certo. Ligou depois para Peter May er, de quem não ouviu palavras tranquilizadoras. Explicou a May er que havia conversado com a Divisão Especial e que, no entender deles, a conduta m ais segura — a mais segura — seria proceder de form a norm al. Qualquer desvio da norm a seria visto pelos adversários do livro com o sinal de fraqueza, estim ulando-os a redobrar o ataque. Se a norm a das editoras era lançar a edição em brochura de um livro entre nove e doze m eses após a publicação em capa dura, era isso que deveria acontecer. “Não foi isso que nossos especialistas em segurança aconselharam ”, disse May er.

Am bos sabiam que, para um livro continuar a vender, era essencial um a edição em brochura. Se esta não fosse feita, chegaria um m om ento em que a edição em capa dura se esgotaria e sum iria das prateleiras. Na ausência de um a brochura, o resultado equivaleria a tirar o rom ance das livrarias. A cam panha contra o livro acabaria vitoriosa. “Você sabe qual é o obj etivo de nossa luta”, ele disse a May er. “Trata-se do longo prazo. Por isso, a pergunta essencial é a seguinte: você vai publicar a brochura ou não vai? Sim ou não?” “Essa é um a colocação prim itiva”, respondeu May er. “Não posso pensar nesses term os.”

Pouco tem po depois dessa conversa, num furo de reportagem , o Observer publicou um relato m uito correto das discussões a respeito da edição em brochura, inclinando-se a apoiar a atitude cautelosa da Penguin. Os executivos da editora negaram que houvessem colaborado com o j ornal. No entanto, Blake Morrison, o editor de literatura do Observer, contou ao autor que eles tinham um a “fonte dentro da Penguin” e que, segundo acreditava, a m atéria tinha por finalidade “detonar a brochura”. Ao que tudo indicava, havia com eçado um a guerra suj a.

 

Peter May er, hom em alto e bonitão, de cabelos desgrenhados, que diziam ser um ím ã para m ulheres, de fala m ansa e olhos de corça, adm iradíssim o por seus colegas editores, e agora às voltas com o cham ado “caso Rushdie”, parecia cada vez m ais petrificado. A história investia contra ele com o um a j am anta, e dois discursos totalm ente contraditórios se digladiavam nele, quase levando-o à paralisia: o discurso do princípio e o discurso do m edo. Seu senso de dever era inquestionável. “O m odo com o reagim os à controvérsia em torno de Os versos satânicos afetaria o futuro da liberdade de opinião, sem a qual não existiria a atividade editorial com o a conhecem os, e tam bém , por extensão, a sociedade civil com o a conhecem os”, declarou a um j ornalista anos depois. E no m om ento em que o perigo foi m ais intenso, o incêndio m ais violento, ele aguentou firm e. May er recebeu am eaças contra ele próprio e contra a filha pequena. Recebeu cartas escritas com sangue. Cães farej adores e aparelhos para inspeção de bom bas na sala do correio e guardas de segurança em toda parte fizeram com que as editoras, em Londres e em Nova York, assum issem um aspecto que nenhum a editora j am ais tivera: pareciam um a zona de guerra. Houve alertas de bom bas, evacuação de escritórios, am eaças e difam ações. No entanto, não houve recuo. O período veio a ser lem brado com o um dos grandes capítulos na história da atividade editorial, um dos grandes episódios de defesa da liberdade, e May er seria recordado com o líder daquela equipe heroica.

Quase.

Meses de pressão cobraram de May er seu preço, m inando sua resolução. Ele com eçou a se persuadir, assim parecia, de que j á fizera o que tinha de fazer. O livro fora publicado e m antido nas livrarias, ele estava até disposto a im prim ir a edição em capa dura indefinidam ente, e a brochura poderia sair em algum a data futura, quando de novo houvesse segurança. Não havia necessidade algum a de fazer m ais no m om ento, redobrando o perigo para si m esm o, para sua fam ília e para seu pessoal. May er com eçava a enfrentar problem as sindicais. Ele se preocupava, disse, com o hom em em pé a seu lado no m ictório do arm azém . O que diria à fam ília daquele hom em se algum a calam idade sobreviesse a seu com panheiro de m ictório? Teve início um a intensa troca de cartas entre Andrew, Gillon, May er e o autor do livro problem ático. Notava-se, nas cartas de May er, um a convolução sintática crescente que refletia um estado m ental aparentem ente confuso. A leitura cerim onial, em voz alta, das cartas de May er — em ligações telefônicas ou, m ais raram ente, quando podiam se encontrar — tornou-se um ritual de hum or negro para Andrew, Gillon e Joseph Anton, tam bém conhecido com o andorinha-do-m ar-ártica. Essa foi um a época em que a com édia tinha de ser encontrada em lugares escuros.

May er estava tentando explicar por que desej ava seu advogado e am igo Martin Garbus na reunião, sem adm itir que o desej ava ali por m otivos j urídicos:

 

É m ais im portante para m im encontrar-m e com você do que insistir em qualquer aspecto

de um a reunião por toda espécie de razão, das quais a m enor não é pessoal. [...] Sei que, às

vezes, as pessoas podem ficar presas em suas próprias posições, e não digo isto de você

num sentido exclusivo; digo isto igualm ente de m im ou de nós. Im aginei que, se surgisse

um atoleiro, com o às vezes acontece (m algrado as m elhores intenções de qualquer

pessoa), às vezes um a terceira pessoa am iga, depois de escutar as duas partes, pode propor

um a saída, sugerir um a ideia útil para todos. As coisas nem sem pre saem assim , eu sei,

m as a últim a coisa que quero fazer é nos negar um a oportunidade dessas, sobretudo

quando tem os acesso a um interm ediário tão capacitado com o esse hom em . [...] Por ora,

pois, vou pedir a Marty que vá a Londres, j á que, se ele não estiver aqui, não haverá m eio

de ele participar.

 

A essa altura dos acontecim entos, as risadas deles tinham se tornado histéricas, e foi difícil com pletar a leitura cerim onial. “Com o você pode facilm ente depreender do exposto”, essa foi a frase-clím ax de May er, “estou ansioso por vê-lo.”

Ele, o autor que Peter May er estava ansioso por ver, pedira que a edição em brochura saísse no fim de 1989, porque até que se com pletasse o ciclo de publicação o tum ulto com relação a ele não perderia força. Parlam entares trabalhistas com o Roy Hattersley e Max Madden tinham se concentrado em im pedir a edição em brochura, a fim de apaziguar seus eleitores m uçulm anos, e isso era um a razão a m ais para que essa edição fosse feita. A paz só com eçaria a voltar quando o ciclo de publicação se com pletasse. Já não havia tam bém razões com erciais para o atraso. A edição em capa dura, tendo vendido bem , j á quase se esgotara e havia saído de todas as listas de best-sellers em inglês, e m uitas livrarias não pediam m ais novos exem plares, devido à falta de procura. De acordo com a prática editorial, aquela era a hora de publicar um a edição barata.

Havia tam bém outros argum entos. Traduções do rom ance estavam sendo publicadas em vários países da Europa, com o França, Suécia, Dinam arca, Finlândia, Holanda, Portugal e Alem anha. Edições em brochura no Reino Unido e nos Estados Unidos pareceriam parte desse processo “natural”, e, com o a polícia aconselhara, de fato essa seria a linha de ação m ais segura. Na Alem anha, depois que a Kiepenheuer und Witsch cancelou seu contrato, form ara-se um consórcio de editoras, livrarias e autores de renom e e figuras públicas para publicar o rom ance, sob o nom e Artikel 19, e isso deveria ser feito depois da Feira do Livro de Frankfurt. Se Peter May er quisesse form ar um consórcio desse tipo a fim de diversificar o risco, por assim dizer, essa seria um a solução possível. O que ele m ais queria dizer a Mey er, e disse, quando a reunião finalm ente teve lugar, era o seguinte: “Você fez a parte difícil, Peter. Com m uita firm eza, você, j unto com todos os dem ais na Viking e na Penguin, conduziu essa publicação ao longo de um percurso cheio de perigos. Por favor, não desanim e diante do últim o obstáculo. Se você o transpuser, seu legado será glorioso. Se não o fizer, ele terá para sem pre um a m ancha”.

A reunião aconteceu. Ele foi levado à casa de Alan Yentob, em Notting Hill, onde j á estavam Andrew, Gillon, Peter May er e Martin Garbus. Não houve acordo. May er disse que se incum biria de “tentar convencer sua gente a fazer a edição em brochura no prim eiro sem estre de 1990”. Não quis adiantar um a data. Garbus, o “capacitado interm ediário”, revelou-se um pé no saco, um hom em de im ensa presunção e im perceptível utilidade. A reunião fora um a perda de tem po.

 

Muito do que May er disse em outras cartas nada tinha de engraçado. Algum as coisas eram insultantes. Andrew e Gillon haviam lhe dito que um novo livro, Haroun e o mar de histórias, escrito para Zafar Rushdie, de dez anos, com o um presente do pai, estava sendo levado adiante sem pre que as circunstâncias instáveis do autor perm itiam . May er respondeu que sua em presa não estava disposta a considerar a publicação de qualquer livro novo de Rushdie antes que um texto acabado fosse exam inado por eles, para que não viesse tam bém a causar polêm ica. Ninguém na com panhia, disse May er, sabia m uita coisa a respeito do Corão quando eles adquiriram os direitos de Os versos satânicos. Não podiam adquirir novas obras do autor daquele rom ance e, depois, quando com eçasse a confusão, adm itir que não tinham lido um original com pleto. O autor daquele rom ance com eçou a com preender que May er tinha passado a considerá-lo um criador de encrenca, um a pessoa que era a causa da encrenca que havia surgido, e que poderia causar problem as de novo.

Essa ideia a respeito dele se tornou pública quando saiu um perfil de May er no Independent. O redator anônim o, que tinha am plo acesso a May er, escreveu:

 

May er, um leitor voraz que certa vez disse que “todo livro possui um a alm a”, não se deu

conta da bom ba-relógio religiosa que tiquetaqueava dentro do rom ance. Foi perguntado a

Rushdie, duas vezes, antes que a Penguin adquirisse o livro e, de novo, depois disso, o que

significava o hoj e fam igerado capítulo sobre Mahound. Ele se m ostrou curiosam ente

relutante em explicar. “Não se preocupem ”, disse em certo m om ento. “Não é

fundam ental para a tram a.” “Deus do céu, isso voltou para nos perseguir”, disse depois um

hom em da Penguin.

 

Caro Redator de Perfis Anônimo,

Se lhe faço o elogio de supor que o senhor compreende o sentido de suas frases, devo então presumir que o senhor pretendeu dizer que a “bomba-relógio religiosa” em meu romance é a “alma” que a Peter Mayer passou despercebida. O restante da passagem dá a entender claramente que eu plantei a bomba-relógio ali de propósito e, depois, intencionalmente enganei a Penguin a seu respeito. Isso não só é uma mentira, caro Anônimo, como é uma mentira difamatória. No entanto, sei o suficiente sobre jornalistas, ou, permita-me dizer, sobre jornalistas da chamada imprensa “séria”, para entender que, embora vocês possam exagerar ou distorcer o que averiguaram, só muito raramente imprimem alguma coisa para a qual não tenham nenhuma comprovação. A ficção pura não é a área de vocês. Por isso, concluo que o senhor está transmitindo, com razoável correção, a informação que lhe foi passada por suas conversas com Peter Mayer e outros “homens da Penguin” (e, talvez, também mulheres). Pareceu-lhe crível, Anônimo, que um escritor, depois de quase cinco anos de trabalho num livro, dissesse, sobre um capítulo de quarenta páginas, que ele não era “fundamental para a trama”? Não lhe ocorreu, a bem da justiça, perguntar a mim, por meio de meus agentes, se realmente eu fora interrogado — duas vezes! — sobre esse capítulo “desimportante” e se eu me mostrara mesmo “curiosamente relutante em explicar”? Seu desleixo leva a crer, só pode levar a crer, que essa é a história que o senhor queria contar,uma história na qual eu sou o vilão desonesto e Peter Mayer, o herói cheio de princípios, defendendo um livro cujo autor o iludiu, levando-o acreditar que não continha uma bomba-relógio. Eu me meti numa encrenca e agora outras pessoas têm de enfrentar as consequências: essa é a narrativa que está sendo construída a meu respeito, uma prisão moral adicionada a minhas restrições mais cotidianas. O senhor haverá de constatar que essa é uma prisão que não estou disposto a acatar.

Continuar: parte 5 de 5