Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 4 de 11 · parte 3/5

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Joseph Anton: Memórias

3. Ano zero

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Muitos deles opinaram que aquela era a form a errada de executar um a m issão de proteção. Todos os outros “protegidos” tinham um a “equipe exclusiva” que cuidava apenas daquela pessoa. Ele não podia ter um a equipe exclusiva porque o trabalho secreto era pesado dem ais para que os agentes o exercessem em tem po integral. Por isso, sua equipe era um a colcha de retalhos de m em bros de outras equipes. Isso não estava certo, disseram . Os dem ais protegidos levavam sua vida norm al e profissional, e eles cuidavam de sua proteção pessoal, enquanto policiais fardados protegiam sua casa em turnos. À noite, os agentes da Divisão Especial levavam o protegido para casa, e eles próprios iam dorm ir, enquanto policiais fardados m antinham a guarda. “O que tem os de fazer na Operação Malaquita não é proteção de verdade”, disseram -lhe. “Não fom os treinados para esconder pessoas. Não é esse o nosso trabalho.” Mas um a proteção norm al era m ais cara, porque os turnos de policiais fardados custavam m uito dinheiro. E, se o protegido tivesse m ais de um a casa, o custo se m ultiplicava. Os m andachuvas da Scotland Yard não estava dispostos a gastar tanto dinheiro na Operação Malaquita. Era m ais barato esconder o protegido e pagar horas extras aos agentes para ficarem com ele 24 horas por dia. Havia na alta direção da polícia, ele estava descobrindo, a opinião de que o protegido da Malaquita não “m erecia” os plenos serviços de proteção da polícia britânica.

Ele logo descobriu que havia um abism o entre os agentes que executavam o trabalho de proteção no cam po e o alto-com ando da Scotland Yard. Poucos com andantes haviam conquistado o respeito dos hom ens. Nos anos seguintes, só m uito raram ente ele teve algum problem a com os integrantes das equipes enviadas para protegê-lo, e vários deles tornaram -se seus am igos. Já os oficiais com andantes — era inteiram ente errado, disseram -lhe, cham á-los de “oficiais superiores”, porque “hierarquicam ente eles podem estar acim a de nós, m as não são superiores” — eram outra história. Haveria, no futuro, m ais do que som ente um sr. Greenup.

Eles violavam as norm as para aj udá-lo. Num a época em que foram proibidos de levá-lo a qualquer espaço público, eles o levavam ao cinem a, entrando depois que as luzes se apagavam e tirando-o antes que se acendessem de novo, sem problem as. Num a época em que os com andantes diziam que ele não deveria ser levado a Londres, eles o levavam às casas de seus am igos, para que ele visse o filho. E faziam todo o possível para facilitar sua vida com o pai. Levavam a ele e a Zafar a cam pos de esportes da polícia, e im provisavam tim es de rugby para que pudessem j ogar com eles e se divertir um pouco. Em feriados bancários, às vezes levavam pai e filho a parques de diversão. Um dia, num desses parques, Zafar viu um bicho de pelúcia que estava sendo oferecido com o prêm io num quiosque de tiro ao alvo, e resolveu que queria ganhá-lo. Um dos agentes de proteção, que todos cham avam de Jack “Gordo”, ouviu o que Zafar dissera. “Você gostou daquilo, não foi?”, perguntou, e apertou os lábios. “Hum -hum .” Foi ao quiosque e pôs o dinheiro no balcão. O hom em entregou-lhe a pistola com m ira fora do lugar, e Jack “Gordo” assentiu com toda seriedade. “Hum -hum ”, disse, inspecionando a arm a. “Muito bem .” Com eçou a atirar. Pá, pá, pá, pá, e os alvos foram caindo um a um e o hom em do quiosque assistia ao show de boca aberta, m ostrando os dentes de ouro. “Pronto, acabou”, disse Jack “Gordo”, pondo a arm a em cim a do balcão e apontando para o bicho de pelúcia. “Vam os querer aquele ali, obrigado.” Meses depois, Zafar estava vendo na televisão Nelson Mandela chegando ao estádio de Wem bley para prestigiar o show de rock que estava sendo realizado para com em orar sua libertação. Ao ver Mandela saindo do túnel que levava dos vestiários ao cam po de j ogo, Zafar apontou e disse: “Olhe, papai, aquele ali é Jack ‘Gordo’”. E, realm ente, lá estava ele, bem atrás do om bro esquerdo de Mandela, com prim indo os lábios e provavelm ente em itindo seu hum-hum.

Ele aprendeu m uita coisa com os agentes a respeito de segurança — com o entrar num a sala, por exem plo, para onde olhar, o que procurar ver. “Policiais e bandidos”, disse-lhe Dev Stonehouse, “podem ser identificados na m esm a hora. Eles param na entrada e analisam o am biente antes de entrar, quantas saídas existem , quem está onde, essas coisas.” Ele aprendeu tam bém que a força policial era, no fim das contas, apenas m ais um departam ento do serviço público. Era um a repartição, e tinha suas políticas. Havia m uita cium eira e invej a em relação à Divisão Especial, e algum as pessoas queriam que ela fosse fechada. Houve dias em que os agentes recorreram a ele em busca de aj uda, pedindo-lhe que escrevesse cartas em apoio ao trabalho realizado pelo Esquadrão “A”, e ele se sentiu feliz por poder fazer algo em retribuição a tudo o que faziam por ele. O que o deixava m ais feliz era que nenhum daqueles hom ens, que estavam ali porque se dispunham a levar um tiro por ele, em m om ento algum tinha sido obrigado a isso.

Não havia m uitas m ulheres no Esquadrão “A”, apenas seis ou sete, no m áxim o, e em todos os anos que durou a proteção só duas integraram sua equipe: um a m oça alta e bonita, cham ada Rachel Clooney, que acabou transferida para a equipe perm anente de Margaret Thatcher, e um a loira m ignon de ar eficiente, Julie Rem m ick, que acabou saindo do grupo porque sua habilidade no tiro não atingia os níveis exigidos. Todos os m em bros das equipes de proteção subm etiam -se a testes periódicos num estande de tiro da polícia, atirando em situações de desequilíbrio, contra alvos m óveis e com m á visibilidade, e a pontuação exigida passava de noventa por cento. Quem ficava abaixo desse nível tinha de entregar a arm a ali m esm o e era transferido para um a função burocrática. Os agentes lhe disseram que poderiam conseguir que ele recebesse treinam ento de tiro. Teria aulas com os m elhores instrutores, e talvez isso fosse um a coisa que ele devesse aprender. Ele pensou no assunto durante m uito tem po, seriam ente, e por fim agradeceu, m as disse que não. Sabia que, se portasse um a arm a e fosse atacado por bandidos, eles lhe tirariam a pistola e a usariam contra ele. Era m elhor viver sem ela e esperar que os bandidos não chegassem tão perto.

Às vezes os agentes cozinhavam para ele, m as de m aneira geral m antinham as tarefas dom ésticas separadas. Faziam suas com pras de superm ercado quando ele fazia as dele. Usavam a cozinha em horários diferentes, com binados de antem ão. À noite, os policiais usavam um côm odo e viam televisão, atletas obrigados pelas circunstâncias a se com portar com o preguiçosos viciados em tv. Com o devem ter se sentido infelizes!

Eram atléticos e bonitões, e as m oças gostavam deles. Muitos fizeram am izade com m ulheres que conheceram , por interm édio dele, no m undo editorial. Dois em especial, Rob e Ernie, eram tidos com o verdadeiros casanovas. Um outro agente teve um caso com a babá que trabalhava para um a am iga, m as a deixou de coração partido. Muitos tinham casos extraconj ugais, j á que a discrição do trabalho proporcionava a cam uflagem perfeita. Acabou-se sabendo que um deles, um rapaz de cabelos dourados cham ado Sam m y, era bígam o, com duas m ulheres a quem ele cham ava pelo m esm o apelido, e dois conj untos de filhos com nom es idênticos. Foi apanhado porque os custos da bigam ia eram elevados dem ais para o salário de um policial, e ele estava endividado até o pescoço. Era um a gente interessante.

Dev Stonehouse, com o ele veio a saber, tinha realm ente problem as com bebida e acabou sendo afastado do Esquadrão “A”, depois de em bebedar-se e portar-se m al num pub, e foi posto a trabalhar na Sibéria, lugar tam bém conhecido com o aeroporto de Heathrow. Houve uns poucos agentes de proteção que quiseram desem penhar o papel de advogados do diabo e, tom ando partido do lado m uçulm ano, defenderam o “respeito”, m as seus colegas os afastaram com gentileza e serenidade.

Havia um agente autoritário que o tratava m ais com o prisioneiro do que com o protegido, e ele fazia obj eções a isso. E houve Siegfried, um rapaz anglo-alem ão, grande com o um tanque, que um a vez só, quando ele pediu que fosse levado a um parque para um passeio, cresceu para cim a dele e disse que ele estava pondo a equipe em perigo. Ele viu Siegfried cerrar os punhos, m as não se intim idou e o fitou, sério, até ele m udar de postura. Siegfried foi levado dali e nunca m ais voltou. O m edo fazia com que bons rapazes fizessem bobagens.

Esses foram todos os problem as que ele teve com a equipe de segurança. Anos depois, ao ser desligado da polícia por apropriação indébita, um m otorista insatisfeito, Ron Evans, declarou inverdades absurdas a um tabloide, afirm ando, entre outras coisas, que as equipes de proteção detestavam a tal ponto esse protegido que o trancavam num quartinho para sair e ir beber num pub. No dia em que essa m atéria saiu no j ornal, vários m em bros de equipes antigas ligaram para ele. Esses agentes estavam aborrecidos com as m entiras, com o fato de o com ando da Scotland Yard não defender o protegido e, talvez principalm ente, com a transgressão, pelo m otorista dem itido, do código de silêncioquase siciliano da divisão. Eles se orgulhavam de que ninguém na divisão falava do que fazia ou inventava histórias para a im prensa — ao contrário, com o m uitos diziam , daqueles suj eitos linguarudos do outro esquadrão, o de Proteção Real —, e esse orgulho tinha sido abalado por um golpe feio. Muitos deles lhe disseram que estavam dispostos a depor em sua defesa. Quando o m otorista se desculpou em j uízo e adm itiu que m entira, a equipe de proteção com em orou, enviando e-m ails de parabéns ao hom em que o m entiroso dizia que eles abom inavam .

O m otorista não foi o único m entiroso. É possível que a m ais inj usta das calúnias levantadas contra ele tenha sido a que o acusava de “ingratidão” pelo que estava sendo feito por ele. Isso fez parte da im agem de “arrogância” e “antipatia” que grande parte da im prensa m arrom britânica construiu com cuidado a fim de dim inuí-lo perante o público e prej udicar sua credibilidade. A verdade era que evidentemente ele era grato, foi grato todos os dias durante nove anos e repetia isso a cada instante para quem quisesse ouvir. Os hom ens que o protegiam e se tornaram seus am igos, bem com o todos os seus am igos que faziam parte do “círculo”, sabiam bem disso.

Junto com a equipe, ele viu um docum entário na televisão que m ostrava Ronald Reagan sendo baleado por John Hinckley Jr. “Vej a a equipe de segurança”, disse Stan. “Cada um deles está no lugar certo. Ninguém estava fora do lugar. O tem po de reação de cada um foi perfeito. Ninguém ali falhou. Todo m undo fez o que tinha de fazer da m elhor form a possível. Mas ainda assim o presidente foi baleado.” O espaço m ais perigoso, aquele que nunca podia ser totalm ente protegido, ficava entre a porta de saída de um prédio e a porta do carro. “O israelense”, disse Benny, referindo-se ao em baixador, “sabe m uito bem disso. Ele abaixa a cabeça e corre.” Foi nesse espaço que Hinckley baleara o presidente. Entretanto, havia aqui um a verdade m ais genérica. Os m elhores agentes de segurança dos Estados Unidos, todos eles m uito experientes e bem arm ados, tinham se portado de form a perfeita, m as, apesar disso, o pistoleiro lograra seu obj etivo. O presidente dos Estados Unidos fora ferido. Não existia segurança absoluta, m as apenas graus variados de insegurança. Ele teria de aprender a viver com isso.

Ofereceram -lhe coletes de kevlar à prova de balas. Ele os recusou. E, quando cam inhava da porta de um carro até a porta de um prédio, ou vice-versa, ele retardava o passo conscientem ente. Não iria se apressar. Procurava cam inhar de cabeça erguida.

“Se você sucum bir à ideia que os agentes de segurança fazem do m undo”, ele pensou, “aí você estará dependente dela eternam ente, será seu prisioneiro.” A visão que o serviço de proteção tinha do m undo baseava-se na cham ada análise da pior situação. Todavia, no caso da travessia de um a rua, essa análise dizia que havia um a possibilidade de você ser atropelado por um cam inhão, e, portanto, não deveria atravessar a rua. Mas as pessoas atravessavam ruas todos os dias e não eram atropeladas. Isso era um a coisa que ele teria de lem brar. Só havia graus variados de insegurança. Ele teria de continuar a atravessar ruas.

 

* * *

 

“A história é um pesadelo do qual estou tentando acordar”, disse o Dedalus de Joy ce, m as o que sabia o pequeno Stephen Hero sobre pesadelos? A coisa m ais próxim a de um pesadelo que j am ais lhe aconteceu foi em briagar-se em Nighttown e ir para casa com Poldy para construir a Nova Bloom usalém e, quem sabe, ser convencido por Bloom , um cornudo, a transar com a lasciva Molly . aquilo ali, sim ,era um pesadelo — clérigos sedentos de sangue disparando flechas de retaliação e exibindo um a efígie dele próprio num a m anifestação com aquela flecha atravessada na cabeça — e ele estava sem pre acordado. No Paquistão, um de seus tios, casado com a irm ã de sua m ãe, pôs um anúncio no j ornal que, em essência, dizia Não ponham a culpa em nós, nunca gostamos dele, mesmo, enquanto um a tia disse à m ãe dele, que ainda estava em Wem bley com Sam een, que os paquistaneses não a queriam no Paquistão. Isso não era verdade. O m ais provável era que a tia e o tio se sentissem em baraçados com a presença dela e não a quisessem ali. De qualquer form a, ela voltou para o Paquistão e ninguém a incom odou. Às vezes, no m ercado, as pessoas lhe perguntavam se o filho estava bem e lhe prestavam solidariedade, com palavras com o que coisa horrível. Ou sej a, restava algum a civilidade no m eio das gritarias sanguinárias. Enquanto isso, ele estava entregue aos cuidados de agentes da polícia que atendiam por apelidos com o Porquinho, Parrudo, Jack “Gordo” e Cavalo — ele com eçava a se habituar aos apelidos e ao rodízio de agentes — e tentava encontrar um lugar para onde se m udar quando tivesse de deixar Porlock Weir (os Holroy d tinham sido generosos e o deixaram ficar ali m ais seis sem anas, m as o prazo estava prestes a expirar). Estava difícil achar casas adequadas, sobretudo porque ele tinha de procurá-las através de outras pessoas. Ele não existia. Só existia Joseph Anton, que não podia ser visto.

O m undo dos livros continuava a lhe enviar m ensagens. Bharati Mukherj ee e Clark Blaise escreveram dos Estados Unidos para lhe dizer que as pessoas estavam m andando fazer buttons com os dizeres sou salm an rushdie e usando-os com orgulho, com o prova de solidariedade. Ele desej ou ter um desses buttons. Talvez Joseph Anton pudesse usá-lo para m ostrar solidariedade à pessoa que ele ao m esm o tem po era e não era. Um dia, ao telefone, Gita Mehta lhe disse, com certo sarcasm o, que “Os versos satânicos não é seu Lear. Seu Lear é Vergonha”. Já Blake Morrison disse: “Muitos escritores estão se sentindo paralisados por causa dessa história. Escrever é com o tocar um a lira enquanto Rom a pega fogo”. O escritor e ativista paquistanês Tariq Ali falou dele cruelm ente com o “um m orto de férias” e m andou-lhe o texto de um a peça que escrevera com Howard Brenton que seria encenada no Roy al Court Theater, Iranian nights. Ele considerou aquilo um trabalho inferior, feito às pressas e farsesco, que incluía as zom barias a seus livros que estavam se tornando convencionais. “Era um livro que ninguém conseguia ler” virou um a espécie de leitm otiv. Entre as questões que a peça não explorava estavam : a religião com o repressão política e com o terrorism o internacional; a necessidade da blasfêm ia (os escritores do Ilum inism o francês tinham usado deliberadam ente a blasfêm ia com o arm a, recusando-se a aceitar o poder da Igrej a para im por lim ites ao pensam ento); e a religião com o inim iga do intelecto. Essas seriam as questões que ele teria tratado se aquela peça fosse dele, m as não era. Ele era apenas seu tem a, o autor de um livro ilegível.

Quando ele conseguia visitar as pessoas, notava que elas se em polgavam m ais com as precauções de segurança — a lavagem a seco, as cortinas puxadas, a exploração da casa por agentes arm ados e bonitões — do que com sua visita. Mais tarde, as lem branças m ais vívidas que seus am igos tinham daqueles tem pos referiam -se à Divisão Especial. Um a am izade inesperada estava surgindo entre o m undo literário londrino e a polícia secreta britânica. Os agentes de segurança gostavam dos am igos dele, que os faziam sentir-se bem -vindos, certificavam -se de que estivessem à vontade e serviam -lhes com ida e bebida. “O senhor não faz ideia”, um deles lhe disse, “de com o som os tratados em outros lugares.” Os figurões políticos e suas m ulheres m uitas vezes tratavam esses bons rapazes com o criados.

Às vezes as pessoas se em polgavam dem ais. Certa vez ele foi convidado a visitar Edward Said, que estava em Londres hospedado na casa de um am igo kuwaitiano, em May fair. Quando chegou, a em pregada indiana arregalou os olhos, reconhecendo-o de im ediato. Alvoroçada, telefonou para a casa do am igo de Said no Kuwait, exclam ando incoerentem ente: “Rushdie! Aqui! Rushdie aqui!”. Ninguém no Kuwait conseguia entender por que o hom em invisível teria se m aterializado na base londrina deles: estaria se refugiando ali? Edward teve de explicar que sim plesm ente convidara o am igo para j antar. Ninguém estava pensando em residência a longo prazo.

Aos poucos ele veio a entender que a proteção tinha seu glam our. Os agentes chegavam à casa antes dele, tudo era preparado, um Jaguar reluzente parava na porta, havia o m om ento de m áxim o risco entre a porta do carro e a da casa, e ele era posto para dentro com rapidez. Aquilo parecia um tratam ento vip. Quem ele pensa que é? Por que merece ser tratado como um rei? Os am igos não faziam essas perguntas, m as talvez um ou dois pensassem : seria tudo aquilo realm ente necessário? Quanto m ais durava aquela história, quanto m ais tem po se passava sem que ele fosse m orto, m ais fácil ficava crer que ninguém estava tentando m atá-lo e que ele desej ava a proteção a seu redor para satisfazer sua vaidade, seu inextinguível enfatuam ento. Era difícil convencer as pessoas que para ele a proteção não era coisa de estrela de cinem a. Era um a prisão.

A boataria fervilhava na im prensa. A organização de Abu Nidal estava treinando pistoleiros que entrariam no Reino Unido “vestidos com o hom ens de negócios, com roupas ocidentais”. Outro esquadrão da m orte estaria sendo preparado na República Centro-Africana. E, ao lado desses m urm úrios letais, o horror estrondeava em todos os rádios, nos televisores e nas prim eiras páginas dos j ornais. O m inistro conservador John Patten debateu com o parlam entar pró-m uçulm ano Keith Vaz na televisão. Logo depois de voltar do Irã, Kalim Siddiqui tam bém foi a um program a de tv, dizendo em tom am eaçador que “ele não vai m orrer na Grã-Bretanha”, dando a entender que estavam planej ando um sequestro. O ex-cantor pop Cat Stevens, recém -reencarnado com o o “líder” m uçulm ano Yusuf Islam , foi outro que apareceu na televisão para dizer que ansiava pela m orte do blasfem o e que cham aria o esquadrão da m orte se tom asse conhecim ento de seu paradeiro.

Ele telefonou para Jatinder Verm a, do grupo teatral Tara Arts, e ficou sabendo da “intensa intim idação [dos m uçulm anos britânicos pelos organizadores da cam panha] que estava acontecendo no país” e da “pressão política por parte do Conselho de Mesquitas”. Tão deprim ente quanto a cam panha islâm ica eram os ataques da esquerda. John Berger o denunciou no j ornal The Guardian. E o em inente intelectual Paul Gilroy, autor de There ain’t no black in the Union Jack [A bandeira inglesa não tem preto], o correspondente m ais próxim o que havia no Reino Unido a um a figura com o Cornel West nos Estados Unidos, acusou-o de ter “j ulgado m al o povo” e, portanto, de ter criado sua própria tragédia. De um j eito surreal, Gilroy o com parou ao pugilista Frank Bruno, que evidentem ente sabia com o não “j ulgar m al o povo” e por isso era am ado. Na cabeça de socialistas com o Berger e Gilroy, não era possível que o povo o houvesse j ulgado m al. O povo não errava.

O problem a da m oradia estava se tornando grave. Foi quando Deborah Rogers veio em seu socorro pela segunda vez e ofereceu um a solução: um a casa espaçosa que ela conhecia na vila de Bucknell, em Shropshire, que estaria disponível durante um ano. A polícia verificou-a. Sim , era um a possibilidade. Ele se anim ou. Um a residência durante um ano era um luxo inim aginável. Ele concordou. Joseph Anton alugaria a casa.

Um dia ele perguntou a seu agente de proteção que cham avam de Porquinho: “O que você faria se o livro Os versos satânicos fosse, digam os, um poem a ou um program a de rádio e não tivesse sido capaz de gerar a renda que m e perm ite alugar essas casas? O que você teria feito se eu não tivesse dinheiro para isso?”. Porquinho deu de om bros. “Felizm ente”, respondeu, “não precisam os responder a essa pergunta, não é?”

 

Michael Foot e sua m ulher, Jill Craigie, tinham convencido o sucessor de Foot com o líder da oposição, Neil Kinnock, e sua m ulher, Gleny s, a recebê-lo na casa deles para j antar, em Pilgrim s Lane, Ham pstead. O escritor e advogado John Mortim er, criador da série de tv Rumpole of the Bailey, e sua m ulher, Penny, tam bém iriam . Ele foi levado a Londres num a sexta-feira e ficou preso num congestionam ento de trânsito bem diante da m esquita de Regent’s Park, enquanto os fiéis saíam do tem plo, depois de ouvir um a prédica em que ele tinha sido insultado. Teve de abrir o Daily Telegraph e enterrar a cabeça nele. Passado algum tem po, disse: “Im agino que as portas estej am travadas, não é?”. Ouviu-se um clique, depois um pigarro, e Parrudo disse: “Agora estão”. Ele não pôde deixar de sentir com o era ruim estar segregado de “sua” gente. Quando com entou isso com Sam een, ela o censurou.

“Essas m ultidões governadas por m ulás nunca foram sua gente”, disse. “Você sem pre foi contra eles, e eles foram contra você, na Índia e tam bém no Paquistão.”

Na casa dos Foot, Neil Kinnock dedicou-lhe enorm e gentileza, além de solidariedade e apoio. Mas estava preocupado com a possibilidade de que a presença dele ali “vazasse” e que isso lhe causasse problem as políticos. Ele não podia ter sido m ais sim pático, m as era um a sim patia que deveria ser secreta. Kinnock se opunha, ele disse em certo m om ento, à concessão de subsídios estatais a escolas m uçulm anas segregadas, m as o que podia fazer?, lam entou, essa era a política do Partido Trabalhista. Não era possível im aginar sua adversária, a poderosa prim eira-m inistra Margaret Thatcher, a erguer os braços, im potente, daquele j eito.

O próprio Michael se tornara um aliado e am igo ardoroso. A única discórdia entre eles dizia respeito a Indira Gandhi, a quem Michael conhecera bem e cuj os anos de quase ditadura durante a “em ergência” de m eados da década de 1970 ele se dispunha a desculpar. Quando Michael adotava alguém com o am igo, passava a crer que essa pessoa j am ais errava.

Estava tam bém no j antar o poeta Tony Harrison, que escrevera um film e-poem a para a bbc intitulado O banquete dos blasfemadores, no qual ele j antava num restaurante, em Bradford, com Voltaire, Molière, Om ar Khay y am e By ron. Um a cadeira estava vazia. “É a cadeira de Salman Rushdie.” Os com ensais conversavam sobre o fato de a blasfêm ia estar na própria raiz da cultura ocidental. Os j ulgam entos de Sócrates, Jesus Cristo e Galileu tinham sido j ulgam entos por blasfêm ia, e no entanto a história da filosofia, do cristianism o e da ciência tinha para com eles um a enorm e dívida. “Estou guardando a cadeira para você”, disse Harrison. “Inform e quando puder ocupá-la.”

Dali ele foi levado de carro noite adentro. Seus dentes do siso pareciam a ponto de explodir.

Haviam escolhido um hospital perto de Bristol e tom ado as providências que se im punham . Internaram -no às escondidas para exam es e radiografias, e ele precisou pernoitar ali antes da extração, que seria feita na m anhã seguinte. Os dois dentes do siso inferiores estavam infeccionados, e ele teria de ser subm etido a anestesia geral. A polícia tem ia que a notícia de sua presença ali vazasse, e um a m ultidão se form asse diante do hospital. Montaram um plano para essa eventualidade. Um carro fúnebre ficaria de sobreaviso, num a vaga do hospital, e eles o levariam para o carro, anestesiado, dentro de um a bolsa para cadáveres. Contudo, o estratagem a não foi necessário.

Quando ele recobrou a consciência, Marianne lhe segurava a m ão. Ele se achava m ergulhado num a agradável névoa de m orfina, e a dor de cabeça, do m axilar e do pescoço não parecia tão ruim . Havia um travesseiro aquecido sob seu pescoço e Marianne estava sendo gentilíssim a com ele. Vinte m il ou 30 m il m uçulm anos estavam reunidos no Hy de Park para exigir o que quer que fosse, m as a m orfina tornava tudo ótim o. Com o haviam am eaçado fazer o m aior com ício j á visto na Grã-Bretanha, com 500 m il pessoas, 20 m il parecia um a ninharia. Morfina era um a coisa m aravilhosa. Seria ótim o se ele pudesse passar o tem po todo assim .

Mais tarde, ele teve um a altercação com Clarissa, por ela ter perm itido que Zafar assistisse à m anifestação na tv. “Com o foi que você fez um a coisa dessas?”, perguntou. “Aconteceu”, ela respondeu, acrescentando que era óbvio que ele estava chateado com a m anifestação e não devia descontar em cim a dela. Zafar veio ao fone e disse que tinha visto um a efígie dele com um a flecha atravessada na cabeça. Tinha visto um a passeata, não em Teerã, m as em sua cidade natal, de 20 m il hom ens e rapazes que exigiam a m orte do pai. Ele disse a Zafar: “As pessoas se exibem para a tv, acham que isso é bonito”. “Mas não é”, disse Zafar. “É um a idiotice.” Às vezes aquele m enino dizia coisas espantosas.

 

Ele conversou com seu am igo geek Gurm ukh Singh, que teve um a ideia brilhante: por que não com prava um “telefone celular”? Agora havia esses “celulares”. A pessoa carregava a bateria do aparelho, levava-o consigo para qualquer lugar e ninguém saberia de onde ela estava ligando. Se ele tivesse um desses novos aparelhos, poderia dar o núm ero para a fam ília, os am igos e colegas de trabalho sem com prom eter sua localização. Que ideia brilhante, disse. Isso era m aravilhoso, quase inacreditável. “Vou cuidar disso”, prom eteu Gurm ukh.

O celular — ridiculam ente volum oso, um tij olo com um a antena — chegou pouco tem po depois, e o alvoroço dele não teve lim ites. Ligou para as pessoas, deu-lhes o núm ero, e elas passaram a ligar para ele — Sam een, Pauline e, várias vezes, seu am igo Michael Herr, autor de Despachos do front, o clássico sobre a Guerra do Vietnã. Herr se m udara para Londres e estava m ais obcecado com a situação dele do que qualquer outra pessoa, e se m ostrava m ais tem eroso e paranoide do que ele próprio. Kazuo Ishiguro, cuj o rom ance Osvestígios do dia vinha fazendo enorm e sucesso, ligou para dizer que em sua opinião Os versos satânicos deveria ser resenhado em toda parte, dessa vez por rom ancistas, para repor o foco na literatura. Clarissa telefonou para fazer as pazes. Um escritor irlandês representado pela ap Watt, onde ela trabalhava, havia lhe falado de construtores irlandeses que ele conhecia em Birm ingham que tinham trabalhado nos alicerces de um a nova e grande m esquita. Quando ninguém estava olhando, tinham lançado um exem plar de Os versos satânicos no cim ento m olhado. “Quer dizer, essa m esquita está sendo construída em cim a de seu livro”, disse Clarissa.

Michael Holroy d telefonou para dizer que, em sua opinião, o efeito da grande m anifestação fora provocar um a enorm e m udança da opinião pública contra os m anifestantes. Pessoas que estavam em cim a do m uro antes tinham pulado dele, revoltadas com o que tinham visto na tv, com os cartazes dizendo m atem o cachorro, m orte ao desgraçado rushdie e preferim os m orrer a vê-lo vivo, e um m enino de doze anos dizendo para a câm era que estava pronto a m atar o desgraçado pessoalm ente. A presença de Kalim Siddiqui e de Cat Stevens na passeata tam bém tinha aj udado. A cobertura desses fatos pela im prensa era m uito favorável a ele. “Odeio ver um único hom em ser hostilizado por m ilhares”, disse um com entarista no The Times.

 

Ele tinha sido visto em toda parte naquele m aio abrasante — em Genebra, na Cornualha, em toda Londres e num j antar em Oxford, num lugar que acabou cercado de m uçulm anos. O escritor sul-africano Christopher Hope contou a um colega de trabalho de Clarissa, Caradoc King, que ele estivera num a recepção em Oxford a que o hom em invisível tam bém com parecera. Tariq Ali asseverou ter j antado com ele num lugar distante. Nenhum a dessas aparições era real, a não ser que se tratasse de um Rushdie fantasm agórico que, à solta, qual som bra fugitiva com o aquela do conto m agnífico e assustador de Hans Christian Andersen, se dedicasse a fazer truques de salão enquanto Joseph Anton ficava em casa. A som bra fugitiva, vista pela prim eira vez no palco do Roy al Court, em Iranian nights, voltou a aparecer no título de um a segunda peça, essa de Brian Clark, autor de Whose life is it anyway? [Afinal, de quem é a vida?]. Esse novo trabalho tinha um título refinado, Who killed Salman Rushdie [Quem m atou Salm an Rushdie]? Ele ligou para Clark a fim de observar que a resposta à pergunta era “Ninguém , ou ao m enos ainda não, e esperem os que isso não aconteça”, e Clark se dispôs a m udar o título para Who killed the writer?, m as a prem issa continuaria a m esm a: um escritor m orto por assassinos iranianos por causa de um livro que escreveu. “Ficção?” Claro. Poderia ser qualquer pessoa. Clark lhe disse que pretendia oferecer a obra para m ontagem . Tanto sua vida quanto sua m orte estavam se tornando propriedade de outras pessoas. Ele era caça legal.

Todo m undo na Inglaterra estava tom ando banho de sol, m as ele perm anecia dentro de casa, pálido e peludo. Ofereceram -lhe um lugar na chapa dos partidos italianos de centro que concorreria ao Parlam ento Europeu — o Partido Republicano, o Partido Liberal e o Partido Radical, de um certo Marco Pannella, pessoa que lhe encam inhara o convite através do gabinete de Paddy Ashdown, líder dos liberais-dem ocratas britânicos. Gillon lhe aconselhou: “Não aceite. Está parecendo um golpe publicitário”. Mas Pannella disse acreditar que a Europa devia fazer em relação a ele um gesto concreto de solidariedade, e que, se ele se tornasse m em bro do Parlam ento Europeu, qualquer ataque a ele seria considerado um ataque ao próprio Parlam ento Europeu, o que talvez dissuadisse possíveis agressores. Já a Scotland Yard, cuj o com ando parecia determ inado a m antê-lo incom unicável, tem ia que a eleição na verdade aum entasse o perigo para ele, pois alguns m uçulm anos poderiam vê-la com o um a provocação. E ela poderia tam bém pôr em perigo outras pessoas. Com o ele se sentiria se alguns “alvos fáceis em Estrasburgo” fossem atacados? Por fim , ele resolveu não aceitar o convite do signor Pannella. Ele não era um político. Era um escritor. Era com o escritor que ele queria ser defendido, era com o escritor que ele queria se defender. Pensou em Hester Pry nne usando sua letra escarlate com orgulho. Tam bém ele fora m arcado com um A escarlate, que significava não Adúltera, m as Apóstata. Tam bém ele, com o a grande heroína de Hawthorne, deveria usar a letra escarlate com o um distintivo de honra, apesar da dor.

Mandaram -lhe um exem plar da revista am ericana NPQ, na qual ele teve o prazer de encontrar o texto de um letrado islâm ico que dizia que Os versos satânicos se inseria num a longa tradição m uçulm ana de pôr em dúvida a arte, a poesia e a filosofia. Um a voz serena de lucidez, esforçando-se por ser ouvida sobre os guinchos estridentes de crianças hom icidas.

Houve um segundo encontro com o com andante Howley, que aconteceu no Thornhill Crescent, em Islington, casa de um a am iga sua, a desbocada australiana Kathy Lette, autora de rom ances côm icos, e de seu m arido, o advogado Geoffrey Robertson. Howley lhe lem brava um quebra-nozes em form a de cabeça e braços de hom em que seu pai usava. Punha-se a am êndoa entre os m axilares do hom em , apertavam -se os dois braços, e a am êndoa rachava com um estalido. O hom em tinha um a queixada que faria invej a a Dick Tracy e, quando o quebra-nozes estava fechado, um a boca fina e cruel. Qualquer am êndoa, ao ver o com andante Howley, se partiria sozinha. Era um hom em severo e sério. Nessa ocasião, porém , ele fora até lá para proporcionar um a tênue esperança. Era um óbvio absurdo, adm itiu, obrigar alguém a um a vida peripatética perm anente, exigindo que essa pessoa vivesse para sem pre em casas alugadas ou em prestadas. Por isso tinha sido decidido — a polícia am ava a voz passiva — que ele tivesse perm issão (lá estava ela de novo, a palavra estranha, permissão) para com eçar a procurar um a casa perm anente para a qual se m udar “em m eados do ano seguinte ou m ais ou m enos nessa época”. Meados do ano seguinte significava daí a um ano, o que era desalentador, m as a ideia de poder ter um a casa de novo, e de contar com proteção nela com o todos os dem ais “protegidos”, era reconfortante e lhe devolvia seu am or-próprio. Isso seria m uito m ais digno do que aquela sua existência atual, cercada de nervosism o e correrias. Ele agradeceu ao com andante Howley, e acrescentou que esperava não ser obrigado a perm anecer enterrado em algum lugar no interior, longe da fam ília e dos am igos. “Não”, disse Howley. Seria m ais fácil para todos se a casa se localizasse dentro da “área gpd”. O gpd era o Grupo de Proteção Diplom ática, que poderia prestar um serviço rápido em caso de necessidade. Haveria na casa um côm odo seguro reforçado e um sistem a de botões de pânico que era presum ivelm ente aceitável. É claro que ele concordou. “Muito bem , então”, disse Howley. “Esse será nosso obj etivo.” Os m axilares do quebra-nozes se fecharam .

Ele não pôde contar as novidades a ninguém , nem m esm o a seus anfitriões daquele dia. Conhecera Kathy Lette, em Sy dney, cinco anos antes, quando cam inhava com Roby n Davidson perto da praia de Bondi. De um apartam ento no quarto andar de um edifício vinham sons de festa, e quando olharam para cim a viram um a m ulher sentada no guarda-corpo de um a sacada, de costas para o m ar. “Eu reconheço essa bunda em qualquer lugar”, disse Roby n. Fora assim que com eçara sua am izade com Kathy : da bunda lá em cim a. Roby n tinha sum ido de sua vida, m as Kathy ficara. Ela se m udara para a Inglaterra depois de se apaixonar por Geoffrey, que rom peu com Nigella Lawson para ficar com ela, um a decisão que m elhorou a vida de todos os envolvidos, inclusive a de Nigella. Na casa do Thornhill Crescent, depois que os policiais saíram , Geoff pôs-se a falar sobre os ataques legais a Os versos satânicos e por que não teriam êxito. Sua convicção era consoladora. Ele era um aliado valioso.

Marianne, que tinha ido ao centro da cidade, voltou. Disse que, no m etrô, dera com Richard Ey re, diretor do National Theater, e que ao vê-la ele caiu no choro.

 

Muitas pessoas estavam dizendo m uitas coisas, m as a polícia lhe pedia que não fizesse m ais declarações provocadoras, partindo do princípio de que toda declaração dele seria provocadora, sim plesm ente por ser dele. Ele deu consigo escrevendo m il cartas na cabeça e disparando-as pelo éter, com o as discussões obsessivas e m eio tresloucadas com o m undo que Herzog, de Bellow, não tinha com o rem eter aos destinatários.

 

Caro Sunday Telegraph,

Seu plano para mim é que eu deveria achar um refúgio seguro e secreto, talvez no Canadá ou numa parte remota da Escócia, onde os moradores do lugar, sempre alerta em relação à presença de estranhos, vissem os assassinos chegando; e, assim que eu achasse meu novo lar, deveria manter a boca fechada durante o resto de meus dias. O fato de eu nada ter feito de errado e de, como inocente, merecer levar a vida como quiser evidentemente foi levado em conta e eliminado do leque de opções. No entanto, estranhamente, é a essa ideia absurda que eu me apego. Sendo um rapaz de cidade grande, nunca gostei do campo (a não ser em passagens rápidas) e o frio é outra aversão antiga, o que exclui tanto a Escócia quanto o Canadá. Também não sou muito bom em ficar calado. Se alguém tenta amordaçar um escritor, os senhores não concordam, como jornalistas que são, que a melhor resposta é não ficar amordaçado? Falar ainda mais alto e mais claro do que antes? Cantar (no caso de quem sabe cantar, o que, confesso, não sei) canções ainda mais bonitas e mais ousadas? Fazer-se, para dizer o mínimo, mais presente? Se os senhores não pensam assim, apresento minhas desculpas de antemão. Pois é isso que pretendo fazer.

 

Caro Brian Clark,

Afinal, de quem é a vida?

 

Caro rabino chefe Immanuel Jakobovits,

Visitei ao menos uma faculdade que ensinava a rapazes judeus, com rigor e correção, os princípios e as práticas do pensamento correto e rigoroso. Encontrei neles alguns dos espíritos jovens mais marcantes e sagazes que já vi, e estou convicto de que eles compreenderiam o perigo e a impropriedade de se fazer falsas equivalências morais. É lamentável que um homem que eles poderiam encarar como um líder tenha passado a menosprezar os processos mentais adequados. “Tanto o sr. Rushdie quanto o aiatolá abusaram da liberdade de expressão”, diz o senhor. Com isso, um romance que, elogiado ou reprovado, é uma obra de arte séria, pelo menos na opinião de alguns críticos e juízes, é equiparado a uma incitação nua e crua ao assassinato. Isso deveria ser denunciado como uma observação evidentemente ridícula. Em vez disso, rabino chefe, seus colegas, o arcebispo de Cantuária e o papa, em Roma, disseram em essência a mesma coisa. Todos ossenhores querem a proibição de ofensas à sensibilidade de todas as religiões. Ora, para uma pessoa de fora, para uma pessoa sem religião, parece que as pretensões de autoridade e autenticidade feitas pelo judaísmo, pelo catolicismo e pela Igreja Anglicana se contradizem mutuamente e estão também em desacordo com as afirmações feitas pelo islã ou em seu nome. Se o catolicismo é a religião “verdadeira”, a Igreja Anglicana tem de ser “falsa”, e, com efeito, já houve guerras porque muitos homens — além de reis e papas — pensavam exatamente assim. O islã nega taxativamente que Jesus Cristo seja o Filho de Deus, e muitos clérigos e políticos muçulmanos manifestam abertamente suas opiniões antissemitas. Por que, então, essa estranha unanimidade entre grupos inconciliáveis? Pense, rabino chefe, na Roma dos césares. Talvez ocorra com as grandes religiões do mundo o mesmo que ocorria com aquele grande clã. Não importa o quanto os senhores se detestem uns aos outros e procurem derrubar-se mutuamente, todos são membros de uma mesma família, são ocupantes de uma só Casa de Deus. Quando sentem que a própria Casa está sendo ameaçada por meros estranhos, pelos exércitos dos descrentes, destinados ao inferno, ou até por um literato autor de romances, os senhores cerram fileiras com notável diligência e entusiasmo. Os romanos que marchavam para o combate formavam um testudo, com os soldados das filas externas formando paredes com os escudos, enquanto os das filas internas erguiam os escudos sobre a cabeça para fazer uma cobertura. Também o senhor e seus colegas formaram um testudo da fé. Não lhes importa parecer idiotas. O importante é que a parede de escudos suporte os ataques.

 

Caro Robinson Crusoé,

Suponhamos que você contasse com quatro Sextas-Feiras para lhe fazer companhia, todos bem armados. Você se sentiria mais seguro? Ou menos?

 

Caro parlamentar Bernie Grant,

Exatamente um dia depois da fatwa, o senhor declarou na Câmara dos Comuns que “queimar livros não é uma questão importante para os negros”. As objeções a tais práticas, o senhor afirmou, provavam que “os brancos queriam impor seus valores ao mundo”. Lembro que muitos líderes negros — o dr. Martin Luther King, por exemplo — foram assassinados por causa de suas ideias. Por conseguinte, a recomendação de que um homem seja assassinado por causa de suas ideias parece, a uma espantada pessoa de fora, algo que um membro negro do Parlamento julgaria horrendo. Mas o senhor não objeta. O senhor representa a face inaceitável do multiculturalismo, convertido, por deformação, numa ideologia de relativismo cultural. O relativismo cultural é a morte do pensamento ético, pois apoia o direito de clérigos tirânicos a tiranizar, de pais déspotas a mutilar suas filhas, de intolerantes a odiar homossexuais e judeus, porque agir assim faz parte da “cultura” deles. A intolerância, o preconceito e a violência ou a ameaça de violência não são “valores” humanos. São a prova da ausência de tais valores. Nãosão as manifestações da “cultura” de uma pessoa. São mostras da incultura de uma pessoa. Em tais questões sociais, senhor, para citar o grande filósofo monocromático Michael Jackson, não importa se a pessoa é preta ou branca.

 

Na praça da Paz Celestial, um hom em com sacolas de com pras postou-se diante de um a coluna de tanques, detendo seu avanço. Meia hora antes, no superm ercado, ele não devia estar pensando em heroísm o. O heroísm o lhe sobreveio de form a espontânea. Isso aconteceu em 5 de j unho de 1989, no terceiro dia do m assacre, de m odo que ele tinha de estar ciente do perigo que corria. No entanto, ficou ali até aparecerem outros civis, que o afastaram . Há quem diga que depois disso ele foi preso e fuzilado. O núm ero de m ortos na praça nunca foi revelado e continua desconhecido. Em Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, a em presa bananeira — com andada por Mr. Brown, nom e típico de um film e de Tarantino — m assacrou 3 m il trabalhadores em greve na praça central de Macondo. Depois do m orticínio, fizeram um a lim peza tão com pleta que o incidente pôde ser desm entido categoricam ente. Ele nunca aconteceu, a não ser na m em ória de José Arcadio Segundo, que a tudo assistiu. Contra a brutalidade, a única defesa era a recordação. A liderança chinesa sabia disso: que a m em ória era o inim igo. Não bastava que os m anifestantes fossem m ortos. Tinham de ser falsam ente lem brados com o dissidentes e patifes, e não com o estudantes coraj osos que deram a vida pela liberdade. As autoridades chinesas trabalharam com afinco nessa falsa versão do passado e por fim ela se firm ou. O ano que tinha se iniciado com o horror m iúdo da fatwa ganhara um horror m aior diante do qual trem er, um horror cuj a dim ensão só cresceria com o passar dos anos, da m esm a form a que a derrota da m em ória por m entiras se som ou às m ortes inúteis dos que protestavam .

Continuar: parte 4 de 5