Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 4 de 11 · parte 2/5

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Joseph Anton: Memórias

3. Ano zero

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Eis o que tinha de acontecer para que ele visse o filho. O “quinto hom em ” da equipe, baseado na Scotland Yard, visitava o “local” com antecedência, para avaliá-lo em term os de segurança, instruindo os donos da casa sobre o que tinham de fazer, fechar essas portas, puxar aquelas cortinas. Depois ele era conduzido ao local, sem pre pela rota m ais sinuosa, em pregando-se um a sucessão de ardis de contravigilância, um processo conhecido com o “lavagem a seco” — para garantir que não estavam sendo seguidos. (Dirigir um carro envolvia, em parte, guiar do j eito m ais estranho possível. Num a via expressa, às vezes o m otorista variava bastante a velocidade, pois, se outra pessoa fizesse o m esm o, isso queria dizer que estavam sendo seguidos. Às vezes, dirigindo bem depressa, Alex entrava num a pista de saída. Um a pessoa que o estivesse seguindo não saberia se ele iria deixar a via expressa ou não, e teria de dirigir em alta velocidade atrás dele, revelando sua presença.) Enquanto isso, outro carro pegava Zafar e o levava ao local de encontro, tam bém de acordo com os m étodos da “lavagem a seco”. Era difícil e cansativo, m as aí ele via alegria nos olhos do m enino, e isso lhe dizia tudo o que ele precisava saber.

Ele esteve com Zafar por um a hora na casa dos Stoke. Passou m ais um a hora com a m ãe e Sam een na casa dos Pinter, na Cam pden Hill Square, e no autocontrole férreo da m ãe ele viu m ais um a vez a m ulher que ela fora antes e depois da m orte de seu pai. Ela escondia o m edo e a preocupação por trás de um sorriso tenso, m as carinhoso, em bora seus punhos m uitas vezes se cerrassem . Depois, com o j á estava tarde dem ais para retornarem ao País de Gales, ele foi levado para a casa de Ian McEwan na vila de Chedworth, em Gloucestershire, e pôde passar um a noite em com panhia de bons e queridos am igos — Alan Yentob e sua com panheira, Philippa Walker, assim com o Ian. Num a entrevista que deu m ais tarde à revista The New Yorker, Ian disse: “Nunca hei de m e esquecer... No dia seguinte, ele acordou cedo. Tinha de ir para casa. Um m om ento difícil para ele. Ficam os no balcão da cozinha, fazendo torradas e café, escutando o noticiário da bbc das oito horas. Ele estava em pé, bem ao m eu lado, e era o grande assunto do noticiário. O Hezbollah tinha apoiado com seus conhecim entos e seu peso político o proj eto de m atá-lo”. A m em ória de Ian o traiu. A am eaça noticiada aquele dia não vinha do grupo libanês Hezbollah, financiado pelo Irã, e sim de Ahm ad Jibril, líder da Frente Popular para a Libertação da Palestina — Com ando Geral.

O com andante John Howley, da Divisão Especial — o am bicioso oficial de polícia encarregado do Esquadrão “A”, que depois se tornou vice-com issário assistente e assum iu a chefia tanto da Divisão Especial quanto das atividades antiterroristas da Scotland Yard —, foi vê-lo no País de Gales, acom panhado de Bill Greenup, o oficial que Marianne, em seu conto galês, rebatizara com o nom e de “sr. Browndown”. A atitude do sr. Greenup em relação a ele foi inam istosa. Ficou óbvio que achava que estavam lidando com um encrenqueiro que tinha colhido o que plantara, obrigando bons oficiais da polícia a arriscar a pele para salvar a dele, para protegê-lo das consequências de seus próprios atos. Além disso, o encrenqueiro era um eleitor dos trabalhistas, e tinha criticado o governo Thatcher, que agora arcava com a obrigação de protegê-lo. Por m ais de um a vez o sr. Greenup insinuou que a Divisão Especial estava pensando em entregar sua proteção à polícia com um uniform izada, e que ele enfrentasse seus riscos. Tinha-se agora a im pressão de que ele correria perigo por um tem po bem considerável, e não era isso que a Divisão Especial tinha previsto ou desej ado. Essa era a m á notícia que o com andante Howley, hom em de poucas palavras, tinha ido até Gales para lhe dar. Não era m ais um a questão de m anter um a atitude de discrição durante alguns dias, enquanto os políticos resolviam o problem a. Não havia perspectiva algum a de que ele tivesse perm issão (permissão?) para retom ar sua vida norm al no futuro próxim o. Ele não podia sim plesm ente decidir voltar para casa e arrostar os riscos. Fazer isso significaria pôr em perigo seus vizinhos e criar um ônus intolerável para os recursos da polícia, porque toda um a rua, ou m ais de um a, teria de ser fechada e protegida. Ele teria de esperar até que ocorresse um a “im portante m udança política”. O que isso significava?, perguntou. Até que Khom eini m orresse? Nunca? Howley não soube o que responder. Não tinha com o estim ar o tem po que seria preciso.

Fazia um m ês que ele vinha vivendo sob am eaça de m orte. Houvera novas m anifestações c ontr a Os versos satânicos em Paris, Nova York, Oslo, Caxem ira, Bangladesh, Turquia, Alem anha, Tailândia, Holanda, Suécia, Austrália e West Yorkshire. O preço em m ortos e feridos continuava a crescer. O rom ance tinha sido proibido tam bém na Síria, Líbano, Quênia, Brunei, Tailândia, Tanzânia, Indonésia e em todo o m undo árabe. Um “líder” m uçulm ano, Abdul Hussain Chowdhury, pedira ao presidente do tribunal m etropolitano de Londres que em itisse um a citação contra Rushdie e sua editora, alegando “difam ação blasfem a e calúnia sediciosa”, m as a inj unção não foi concedida. A Quinta Avenida, em Nova York, teve de ser fechada devido a um alerta de bom ba num a livraria. Nessa época ainda havia livrarias dos dois lados da Quinta Avenida.

A frente unida do m undo literário cindiu-se, e ele foi tom ado por um a dor real ao ver seu próprio m undo rachando sob a pressão desses fatos. Prim eiro, a Academ ia de Artes de Berlim Ocidental se recusou a perm itir que um com ício de solidariedade “pró-Rushdie” tivesse lugar em suas dependências devido a questões de segurança. Por isso, o m aior escritor da Alem anha, Günter Grass, e o filósofo Günther Anders se desfiliaram da academ ia em protesto. Depois, em Estocolm o, a Academ ia Sueca, que concede o Prêm io Nobel de Literatura, resolveu não em itir um a declaração form al condenando a fatwa. A fam osa rom ancista Kerstin Ekm an renunciou à sua cadeira na m esa de dezoito acadêm icos. Lars Gy llensten tam bém abandonou as deliberações da academ ia.

Ele se sentia m uito m al. “Não façam isso, Günter, Günther, Kerstin, Lars”, tinha vontade de gritar. “Não façam isso por m inha causa.” Ele não queria dividir academ ias, prej udicar o m undo dos livros. Isso era o oposto do que ele queria. Estava tentando defender o livro contra os queim adores de livros. Essas pequenas batalhas dos livrescos lhe pareciam tragédias num a época em que a própria liberdade literária estava sendo violentam ente agredida.

 

Nos idos de m arço, ele foi arrem essado, sem aviso, ao círculo m ais baixo do inferno orwelliano. “Você me perguntou certa vez”, disse O’Brien, “o que havia na Sala 101. Eu lhe disse que você já conhecia a resposta. Todo mundo a conhece. O que existe na Sala 101 é a pior coisa no mundo.” A pior coisa no m undo era diferente para cada pessoa. Para Winston Sm ith, em 1984, de Orwell, eram ratos. Para ele, num a fria casa galesa, era um telefonem a não atendido.

Ele havia criado um a rotina diária com Clarissa. Às sete horas, toda noite, sem falta, ele ligava para dizer olá a Zafar. Ele estava conversando com o filho da form a m ais aberta possível sobre tudo o que estava acontecendo, tentando dar um m atiz otim ista aos fatos, para m anter acuados os m onstros em sua im aginação infantil, m as m antendo-o inform ado. Havia descoberto rapidam ente que, desde que Zafar recebesse as notícias dele próprio prim eiro, era capaz de suportar a situação. Se, por algum m otivo qualquer, eles não se falavam , e Zafar escutava algum a coisa chocante de colegas no pátio da escola, ficava m uito perturbado. Era fundam ental que eles se falassem . Daí o telefonem a diário. Ele tinha com binado com Clarissa que, se por algum a razão ela não pudesse estar em casa com Zafar às sete horas, deixasse um a m ensagem na secretária eletrônica da casa da St. Peter’s Street, dizendo-lhe a que horas estariam de volta. Ele ligou para a casa da Burm a Road. Não houve resposta. Deixou um recado na secretária de Clarissa e, a seguir, verificou a sua própria. Ela não tinha deixado recado algum . Bem , pensou, estão um pouco atrasados. Quinze m inutos depois, ligou de novo. Ninguém atendeu. Ligou de novo para seu próprio aparelho: nada. Dez m inutos depois, fez um a terceira cham ada. Nada ainda. A essa altura, ele j á tinha com eçado a se preocupar. Eram quase 19h45 num dia de aula. Não era norm al que estivessem tão atrasados. Ligou m ais duas vezes nos dez m inutos seguintes. Não houve resposta. Então ele com eçou a entrar em pânico.

Os fatos do dia se desvaneceram . A Organização da Conferência Islâm ica o cham ara de apóstata, m as evitara apoiar a ordem de m orte partida do Irã. Muçulm anos planej avam um a passeata em Cardiff. Marianne estava contrariada porque seu rom ance recém -publicado, John Dollar, vendera exatam ente 24 exem plares na sem ana anterior. Nada disso im portava. Ele passou a ligar para a casa da Burm a Road repetidam ente, discando e rediscando com o um louco, e suas m ãos com eçaram a trem er. Estava sentado no chão, com o telefone no colo, discando, rediscando. A equipe de proteção tinha sido trocada de novo. Stan e Benny estavam de volta, com dois novos m otoristas, um boa-praça sim pático cham ado Keith e apelidado de “Parrudo”, e um galês ruivo cham ado Alan Owen. Stan notou a agitação de seu “protegido” e foi perguntar se estava tudo bem .

Ele respondeu que, aparentem ente, não. Clarissa e Zafar estavam agora um a hora e quinze m inutos atrasados para o telefonem a com binado e não tinham deixado nenhum a explicação. A expressão de Stan ficou séria. “Isso é um a quebra da rotina?”, perguntou. “Qualquer quebra inesperada da rotina é um a das coisas que são m otivo de alarm e.” Sim , ele confirm ou, era um a quebra da rotina. “Deixe com igo”, disse Stan. “Vou procurar saber.” Voltou m inutos depois para dizer que tinha falado com a “Metpol” — a Polícia Metropolitana de Londres — e que m andariam um carro à casa para dar um a “passada”. Depois disso, os m inutos se arrastaram , lentos e frios com o um a geleira, e quando veio a notícia seu coração tam bém gelou. “O carro acabou de passar pela casa”, disse-lhe Stan, “e o relatório, lam ento dizer, é que a porta da frente está aberta e todas as luzes estão acesas.” Ele não conseguiu em itir um som . “Evidentem ente, os policiais não tentaram chegar até a porta da casa ou entrar”, disse Steve. “Em vista da situação, não sabiam o que poderiam encontrar.”

Ele viu corpos estendidos na escada da sala. Viu os cadáveres em papados de sangue de seu filho e de sua prim eira m ulher, fortem ente ilum inados e estraçalhados. A vida acabara. Ele tinha fugido e se escondido com o um coelho assustado, e seus entes queridos pagaram o preço. “Só para lhe inform ar o que estam os fazendo”, disse Stan. “Nós vam os lá, m as o senhor terá de nos dar m ais ou m enos uns quarenta m inutos. Eles precisam organizar um exército.”

Talvez não estivessem os dois m ortos. Talvez seu filho estivesse vivo, tom ado com o refém . “Entenda”, disse ele a Stan, “que, se eles pegaram o m enino para pedir resgate, é porque querem que eu sej a trocado por ele, e eu vou fazer isso, e vocês não vão poder m e im pedir. Eu só quero que isso fique claro.”

Stan fez um a pausa longa e lúgubre, com o um personagem de um a peça de Pinter, e disse: “Essa coisa de troca de reféns só acontece no cinem a. Na vida real, lam ento dizer, se isto for um a intervenção hostil, os dois provavelm ente estão m ortos. O que o senhor deve perguntar a si m esm o é se quer m orrer tam bém ”.

Os policiais na cozinha tinham se calado. Marianne estava sentada de frente para ele, fitando-o apenas, incapaz de oferecer-lhe algum consolo. Ele não tinha m ais nada a dizer. Só fazia discar, com o um dem ente, a cada trinta segundos, e ouvir o toque de cham ada e, em seguida, a voz de Clarissa pedindo-lhe que deixasse um a m ensagem . Aquela m oça bonita, alta, de olhos verdes. A m ãe de seu filho, doce, vivo, carinhoso. Não valia a pena deixar m ensagem algum a. Desculpe, não servia nem de com eço. Ele repôs o fone no gancho, voltou a discar e lá estava voz dela de novo. E m ais um a vez.

Depois de passado m uito tem po, Stan voltou e disse, em voz baixa: “Agora não vai dem orar. Estão quase prontos”. Ele aquiesceu e esperou que a realidade lhe vibrasse o golpe que seria fatal. Não se lem brava de ter chorado, m as seu rosto estava m olhado. Continuou a discar o núm ero de Zafar. Com o se o telefone possuísse poderes ocultos, com o se fosse um tabuleiro Ouij a, capaz de pô-lo em contato com os m ortos.

Foi então que, de repente, houve um clique. Alguém pegara o fone do outro lado. “Alô!”, ele disse, com voz trêm ula. “Papai?” Era a voz de Zafar. “O que está havendo, papai? Tem um policial na porta, e disse que outros quinze estão vindo.” Ondas de alívio cascatearam por ele e calaram sua voz por um instante. “Papai? Você está aí?” “Estou”, ele respondeu. “Estou aqui. Sua m ãe está bem ? Onde vocês estavam ?” Eles tinham ido assistir a um a peça na escola, que term inara m uito tarde. Clarissa veio falar com ele ao telefone e pediu desculpas. “Sinto m uito, eu devia ter deixado um a m ensagem , m as esqueci. Desculpe.”

A habitual descarga de substâncias bioquím icas causadas por um choque corria por suas veias, e ele não saberia dizer se estava feliz ou furioso. “E a porta?”, perguntou. “Por que a porta da frente estava aberta e todas as luzes acesas?” Quem respondeu do outro lado foi Zafar de novo. “Não estava, papai”, disse ele. “Acabam os de chegar, abrim os a porta e acendem os as luzes, e nesse m om ento o policial chegou.”

“Parece que houve um erro lam entável”, disse o detetive-sargento Stan. “O carro que m andam os para dar um a passada olhou para a casa errada.”

A casa errada. Um erro da polícia. Só um erro bobo. Estava tudo bem . Os m onstros tinham voltado para o arm ário das vassouras e para debaixo do assoalho. O m undo não explodira. Seu filho estava vivo. A porta da Sala 101 se abrira. Ao contrário de Winston Sm ith, ele escapara.

Aquele tinha sido o pior dia de sua vida.

 

A m ensagem em sua secretária eletrônica era da rom ancista Margaret Drabble. “Ligue para m im se puder.” E, quando ele ligou, Margaret fez, com aquele j eito dela, brusco, eficiente e prático, um a proposta tão incrivelm ente generosa com o tinha sido a de Deborah Rogers. Ela e o m arido, Michael Holroy d, biógrafo de Ly tton Strachey, Augustus John e George Bernard Shaw, tinham acabado de construir um a casinha em Porlock Weir, na costa de Som erset. “Agora está pronta”, disse ela, “e a gente j á estava para se m udar, m as eu disse a Michael: Quem sabe se Salm an não gostaria de ficar nela? Você pode perfeitam ente ocupar essa casa por um m ês, ou m ais ou m enos isso.” Não havia palavras para agradecer um presente de um m ês, a possibilidade de ficar em um só lugar por tanto tem po. Durante um m ês ele seria um a pessoa de Porlock. “Obrigado”, agradeceu, m as a palavra pareceu m uito insuficiente.

Porlock Weir ficava um pouco a oeste da vila de Porlock propriam ente dita, um lugarej o que se form ara em torno do porto. A casinha, com cobertura de palha, era um a graça, além de m uito bem construída. Um a década depois, entrevistando Margaret Drabble ali, um a j ornalista do The New York Times descreveu-a com o “um a espécie de visão bloom sburiana de refinam ento e cultura, com côm odos pintados de cores diferentes — verde-m enta, cor-de-rosa, lilás e am arelo-ouro — e tapetes desbotados, com livros e quadros por toda parte”. Foi m aravilhoso voltar a um a casa com livros. Ele e Marianne eram ficcionistas que estavam sendo presenteados com a casa de dois outros escritores, e isso era algo extraordinariam ente reconfortante. Havia espaço suficiente para que os dois agentes de segurança tam bém ficassem na casa; os m otoristas alugaram côm odos num a pousada na aldeia e se fizeram passar por am igos que excursionavam a pé pela região. A casa contava com um belo j ardim , e era o retiro perfeito para um hom em invisível. Ele chegou lá na últim a sem ana de m arço e ali se instalou, quase feliz.

“A chama do Iluminismo está se apagando”, afirmou um jornalista a Günter Grass. “Mas”, respondeu ele, “não existe outra fonte de luz.” A polêm ica pública prosseguia intensa. No que dizia respeito a sua vida privada, poucos dias depois de sua chegada a Porlock Weir ele enfrentou um a crise m uito diferente. De certa form a, nela tam bém havia fogo.

Marianne viaj ou a Londres para um a estada de alguns dias (não havia restrições a seus m ovim entos) e esteve com duas am igas de am bos — Dale, um a am ericana que trabalhava na Wy lie, Aitken & Stone, e a velha am iga dele Pauline Melville. Ele ligou para Pauline, a fim de saber com o iam as coisas, e viu que ela estava em estado de choque, horrorizada. “Sabe, Salm an”, ela com eçou, “isso é tão sério que vou lhe contar o que Marianne disse. Ela falou para Dale e para m im , e ficam os as duas tão bestificadas que estam os dispostas a repetir suas palavras na frente dela.” Marianne lhes dissera que ele e ela estavam brigando constantem ente, e que ela, Marianne, tinha, nas palavras de Pauline, “dado um a surra nele”. Disse, depois disso, para estupefação das duas, que ele pedira à Divisão Especial que “trouxesse Isabelle Adj ani de avião”. Ele j am ais vira ou falara com a atriz francesa, que, entretanto, pouco tem po antes lhe dirigira um gesto de apoio, que ele m uito apreciara. Por ocasião da festa dos Prêm ios César, em Paris — os “Oscars da França” —, ela subira ao palco para receber o César de Melhor Atriz por seu desem penho no papel-título de Camille Claudel, e lera um texto curto, revelando por fim que se tratava de um a citação de “Les versets sataniques, de Salm an Rushdie”. Com o o pai dela era um argelino de origem m uçulm ana, isso não era pouca coisa. Ele lhe escrevera um a carta de agradecim ento. O restante — a história de Marianne — era pura fantasia, m as o pior estava por vir. “Ele m e tortura”, disse ela a Pauline, “m e queim a com cigarros acesos.” Ao ouvir isso de Pauline, ele com eçou a rir do absurdo da coisa. “Mas”, exclam ou, “eu não tenho cigarro nenhum ... eu nem fum o!”

Quando Marianne voltou de Londres para Porlock Weir, ele a confrontou na sala tão bonita, com o papel de parede cor-de-rosa e os j anelões que se abriam para as águas reluzentes do canal de Bristol. De início, ela negou categoricam ente que houvesse dito algo parecido. Ele disse que ela estava m entindo. “Vam os ligar para Pauline e Dale e ver o que elas dizem .” Diante disso, ela entregou os pontos e adm itiu que realm ente dissera aquelas coisas. Ele tocou especificam ente na pior acusação, a da tortura com cigarros acesos. “Por que você disse um a coisa dessas”, perguntou, “se sabe que isso não é verdade?” Ela o olhou nos olhos. “Foi um a m etáfora”, respondeu, “para dizer com o eu m e sentia infeliz.” De certa form a, foi um a saída brilhante. Desatinada, m as brilhante. Merecia aplausos. Ele disse: “Marianne, isso não é um a m etáfora; é um a m entira. Se você não percebe a diferença entre um a coisa e outra, está com um sério problem a”. Ela não disse m ais nada. Foi para o quarto em que trabalhava e fechou a porta.

Essa era a escolha que ele tinha de fazer: ficar com Marianne, ainda que ela fosse capaz de tais sandices, ou separar-se e enfrentar sozinho o que tinha de enfrentar.

 

Ele precisava de um nom e, disse-lhe a polícia. Precisava escolher um nom e “bem depressinha” e depois convencer o gerente de seu banco a em itir talões de cheques com esse pseudônim o, ou sem nom e algum , e a aceitar cheques assinados com esse nom e falso, de m odo que ele pudesse pagar coisas sem ser identificado. Mas esse novo nom e se destinava tam bém a facilitar a vida de seus protetores. Eles precisavam se acostum ar com esse nom e, cham á-lo sem pre por esse nom e, m esm o quando não estivesse presente, para não deixarem escapar, sem querer, seu nom e real quando estivessem andando ou correndo na rua, indo à academ ia de ginástica ou ao superm ercado.

A m issão de proteção tinha um nom e: Operação Malaquita. Ele não sabia por que tinham dado à tarefa o nom e de um a pedra verde, e os agentes tam bém não. Eles não eram escritores, e para eles os m otivos dos nom es não tinham im portância. Era apenas um nom e. Agora era sua vez de se renom ear. Seu próprio nom e era pior do que inútil, era um nom e que não podia ser pronunciado, com o o nom e Voldemort nos livros de Harry Potter, que ainda não tinham sido escritos. Com ele, não poderia alugar um a casa nem tirar título de eleitor, porque para votar seria preciso fornecer um endereço residencial e isso, naturalm ente, era im possível. Para proteger seu direito dem ocrático de livre expressão, tinha de renunciar a seu direito dem ocrático de escolher o governo. “Não im porta que nom e sej a”, disse Stan, “m as seria bom que houvesse um , e para ontem .”

Renunciar ao próprio nom e não era pouca coisa. “Acho que é m elhor escolher um nom e que não sej a asiático”, disse Stan. “De vez em quando as pessoas som am dois m ais dois.” Ou sej a, ele teria de renunciar tam bém à sua ascendência. Seria um hom em invisível com um a m áscara sem traços.

Ele tinha num a caderneta um fragm ento de personagem , o sr. Mam ouli, o típico e obscuro hom em com um , que tinha com o parentes literários o sr. Cogito, de Zbigniew Herbert, e o sr. Palom ar, de Italo Calvino. Seu nom e com pleto era Aj eeb Mam ouli — Aj eeb, com o o vereador de Bradford, cuj o nom e significava “estranho”. Mam ouli quer dizer “com um ”. Ele era o sr. Estranho Com um , o sr. Esquisito Norm al, o sr. Peculiar Ordinário: um oxim oro, um a contradição em term os. Ele escrevera um fragm ento em que o sr. Mam ouli era obrigado a carregar na cabeça um a gigantesca pirâm ide invertida, cuj a ponta se apoiava em sua calva e lhe m achucava o couro cabeludo.

O sr. Mam ouli havia surgido quando, pela prim eira vez, ele achou que seu nom e, ou pelo m enos a m etade de seu nom e, lhe tinha sido roubado, quando Rushdie separou-se de Salman e foi parar nas m anchetes, nos j ornais, em ondas eletrom agnéticas, virando um slogan, um a palavra de ordem , um xingam ento ou qualquer coisa que outras pessoas quisessem que fosse. Com isso, ele perdeu o dom ínio sobre seu nom e, de m aneira que j ulgou m elhor assum ir a identidade do sr. Mam ouli. O sr. Aj eeb Mam ouli tam bém era rom ancista, e seu próprio nom e era um a contradição, com o convinha ao nom e de um autor de rom ances. O sr. Mam ouli se considerava um a pessoa com um , m as sua vida era, sem dúvida, esquisita. Quando ele desenhava o rosto do sr. Mam ouli, as garatuj as lhe recordavam o fam oso Hom em Com um criado pelo cartunista R. K. Laxm an no The Times of India: um hom enzinho ingênuo, perplexo, calvo, com tufos de pelos grisalhos que lhe saíam pelas orelhas.

Um dos personagens de Os versos satânicos, Mim i Mam oulian, era um a atriz gorducha obcecada pela aquisição de im óveis. O sr. Mam ouli era seu parente, ou talvez sua antítese, um anti-Mim i cuj o problem a era o oposto do dela: nem tinha sequer um a casa onde m orar. Essa era tam bém , com o ele bem sabia, a sina do caído Lúcifer. Assim , Aj eeb Mam ouli era o nom e do diabo em que os outros o tinham convertido, o ser m etam órfico chifrudo com o seu personagem Saladin Cham cha, a quem sua transform ação dem oníaca é assim explicada: “Eles têm o poder da descrição, e nós sucumbimos”.

Os agentes não gostaram do nom e. Mam ouli, Aj eeb: essas palavras eram com plicadas, difíceis de lem brar e “asiáticas” dem ais. Pediram -lhe que pensasse de novo. O sr. Mam ouli desbotou, a seguir se dissipou e por fim foi parar num a casa de côm odos degradada destinada a ideias não utilizadas, o Hotel Califórnia da im aginação, e se perdeu.

Ele pensou em escritores de quem gostava e experim entou com binações de seus nom es: Vladim ir Joy ce, Marcel Beckett, Franz Sterne. Fez listas dessas com binações e todas elas lhe pareciam ridículas. Mas depois achou um a que lhe agradou. Escreveu, lado a lado, os prenom es de Conrad e Tchekhov, e ali estava o nom e que usaria nos próxim os onze anos.

“Joseph Anton.”

“Perfeito”, disse Stan. “Espero que não se im porte, m as vam os cham ar o senhor de Joe.”

Na realidade, ele se im portava. Logo descobriu que detestava o apelido, por um m otivo que não entendia bem . Afinal, por que Joe era m uito pior do que Joseph? Ele não era nem um nem outro, e am bos os nom es deveriam lhe parecer falsos ou adequados na m esm a m edida. Mas “Joe” lhe provocou arrepios praticam ente desde a prim eira vez. No entanto, era aquele m onossílabo que os agentes de proteção achavam m ais fácil de gravar e lem brar, para não com eter erros em locais públicos. Já que era assim , seria m esm o Joe.

“Joseph Anton.” Ele estava tentando acostum ar-se ao nom e que tinha inventado. Tinha passado a vida criando nom es para personagens de ficção. Agora, ao dar nom e a si próprio, transform ara-se num a espécie de personagem tam bém . “Conrad Tchekhov” não teria dado certo, m as “Joseph Anton” era um a pessoa que poderia existir. Que agora existia.

Conrad, o criador translinguístico de vagam undos, perdidos e não perdidos, de viaj antes que rum avam para o coração das trevas, de agentes secretos num m undo de assassinos e de bom bas, e de ao m enos um covarde im ortal, sem pre a se esconder de sua vergonha; e Tchekhov, o m estre da solidão e da m elancolia, da beleza de um m undo antigo e destruído pela brutalidade do novo, com o as árvores no j ardim das cerej eiras. Tchekhov, de quem As três irmãs acreditavam que a vida real estava em outra parte e ansiavam eternam ente por um a Moscou para a qual não podiam voltar: esses eram agora seus padrinhos. Foi Conrad quem lhe deu a divisa a que ele se agarrou com o que a um a tábua de salvação nos longos anos que se seguiriam . Em The nigger of the Narcissus [O negro do Narciso], um título hoj e politicam ente incorreto, um j ovem m arinheiro perguntava ao protagonista, Jam es Wait, acom etido de tuberculose num a longa viagem m arítim a, por que em barcara naquela viagem , sabendo, com o certam ente devia saber, que não estava bem . “Tenho de viver até m orrer, não é m esm o?”, Wait respondia. Todos nós tem os, ele pensara ao ler o livro, m as em sua situação presente a frase tinha a força de um a ordem .

“Joseph Anton”, ele pensou, “você tem de viver até m orrer.”

 

Nunca lhe ocorrera, até o ataque, parar de escrever, ser outra coisa, deixar de ser escritor. Tornar-se um escritor — descobrir que era capaz de fazer aquilo que m ais queria fazer — fora de um a de suas m aiores alegrias. A recepção de Os versos satânicos lhe roubara, ao m enos por ora, aquela alegria, não por causa do m edo, m as devido a um a profunda decepção. Se um a pessoa passava cinco anos da vida lutando com um proj eto am bicioso e com plexo, tentando im por-se a ele, dom iná-lo e dar-lhe toda a beleza que seu talento perm itia — e se, quando com pletado, era recebido daquela form a distorcida e feia —, talvez o esforço não valera a pena. Se aquela era sua recom pensa por seus m elhores esforços, então ele deveria, quem sabe, procurar fazer outra coisa. Deveria ser m otorista de ônibus, m ensageiro de hotel, dançarino de rua recolhendo m oedas no m etrô durante o inverno. Todas essas ocupações lhe pareciam m ais nobres do que a sua.

Para rechaçar tais pensam entos, ele com eçou a escrever críticas de livros. Antes da fatwa, seu am igo Blake Morrison, do caderno literário do The Observer, lhe pedira um a recensão de The facts, livro de m em órias de Philip Roth. Ele escreveu o texto e o m andou. A carta não podia ser postada em nenhum lugar perto dali, nem ele tinha um aparelho de fax, de m odo que pediu a um dos agentes de proteção que a pusesse no correio em Londres, num dia de folga. Quando o j ornal publicou sua m atéria, deu tam bém um a reprodução de seu texto m anuscrito na primeira página. Ele se tornara tão irreal para tanta gente que essa prova de sua existência era tratada com o notícia de prim eira página.

Ele perguntou a Blake se poderia continuar a fazer resenhas de livros, e depois disso, com intervalos de algum as sem anas, dava um j eito de lhe enviar um texto de m ais ou m enos oitocentas palavras. Essas palavras não saíam com facilidade — era como arrancar dentes, pensou, e a frase feita lhe pareceu adequada, porque seus dentes do siso agora doíam com frequência, e a equipe de proteção estava em busca de um a “solução” —, m as representavam seus prim eiros passos desaj eitados para voltar a ser ele m esm o, para afastar-se de Rushdie e voltar para Salman, para regressar à literatura e fugir à ideia som bria e derrotista de deixar de ser escritor.

Foi Zafar quem , por fim , o levou de volta a si m esm o, Zafar, que ele se esforçava constantem ente para ver — com os policiais dirigindo de um lado para outro, “lavando a seco” pai e filho, possibilitando esses encontros interm itentes —, na casa de Sue e Gurm ukh na Patshull Road, em Kentish Town; na casa dos Pinter, na Cam pden Hill Square; na casa de Liz Calder, em Archway ; e certa vez, durante um fim de sem ana m aravilhoso na Cornualha, na casa de Rosanne, velha am iga de Clarissa, que tinha um a fazenda com cabras, galinhas e gansos no fundo de um vale perto de Liskeard. Passaram o tem po j ogando futebol — Zafar prom etia com o goleiro, saltando com anim ação de um lado para outro — e com j ogos de com putador. Montaram m odelos de autom óveis e de trens. Faziam coisas sim ples, fam iliares, e aquilo parecia um m ilagre. Já a filhinha de Rosanne, Georgie, convencia os policiais a se enfeitarem com coroas de princesa e boás de plum as que ela tirava de um a caixa.

Marianne não tinha ido, de m odo que ele e Zafar dividiram o m esm o quarto. E foi Zafar quem lhe lem brou a prom essa: “Pai, e o m eu livro?”.

Essa foi a única vez na vida em que ele tinha quase toda a tram a na cabeça desde o com eço. A história surgiu em sua cabeça com o um a dádiva. Quando Zafar era pequeno, ele lhe contava histórias enquanto o m enino tom ava seu banho antes de dorm ir — histórias da hora do banho e não da hora de dorm ir. Bichinhos de sândalo e shikaras da Caxem ira flutuavam na banheira, e ali nasceu, ou talvez renasceu, o m ar de histórias. O m ar original estava no título de um velho livro em sânscrito. Na Caxem ira, no século xi, um brâm ane xivaísta cham ado Som adeva com pilara um a gigantesca coletânea de contos, intitulada Kathasaritsagara. Katha era história, sarit, correntes, e sagara, m ar ou oceano. Portanto, Kathasaritsagara queria dizer oceano de correntes de histórias. No livrão de Som adeva, não havia realm ente um m ar. No entanto, supondo que existisse esse m ar, era onde todas as histórias j á inventadas fluíam em correntes entrelaçadas. Enquanto Zafar tom ava banho, seu pai pegava um a caneca, m etia-a na água e fingia bebê-la para encontrar um a história que contar, um a corrente de histórias a fluir pelo banho de histórias.

E agora, no livro de Zafar, ele visitaria o próprio oceano. Haveria na história um contador de histórias que perdera o Dom da Palavra depois que a m ulher o deixara, e seu filho viaj aria à fonte de todas as histórias para descobrir com o reaver o dom do pai. A única parte da concepção original a sofrer alteração com o desenvolvim ento da história foi o final. No com eço ele im aginara que esse livro poderia ser “m oderno”, no qual a fam ília desagregada perm anecesse desagregada, e o m enino se acostum asse a ela, lidasse com ela, com o as crianças tinham de fazer no m undo real, com o seu próprio filho estava fazendo. Entretanto, a form a da história exigia que o que fora quebrado no com eço fosse reintegrado no fim . Foi preciso achar um final feliz, e ele se convenceu de que estava ansioso por isso. Nos últim os tem pos, ele passara a se interessar bastante por finais felizes.

Muitos anos antes, depois de ler as Viagens, de Ibn Battuta, ele escrevera um a história a que cham ou “A princesa Kham osh”. Ibn Battuta foi um letrado m arroquino do século xiv dado a viagens, cuj os relatos das peregrinações que em preendeu durante um quarto de século pelo m undo árabe e m ais além , até a Índia, o Sudeste Asiático e a China, faziam Marco Polo parecer um preguiçoso que não gostava de sair de casa. “A princesa Kham osh” era um fragm ento im aginário das Viagens, um as poucas páginas perdidas do m anuscrito do livro de Battuta. Nele, o viaj ante m arroquino chega a um país dividido pela guerra entre duas tribos: a dos gupis, um povo tagarela, e a dos tchupwalas, que cultuavam o silêncio e um a divindade de pedra cham ada Bezaban, ou sej a, sem língua. Quando os tchupwalas capturam a princesa dos gupis e am eaçam costurar seus lábios com o um a oferenda a seu deus, rebenta a guerra entre os territórios de Gup e Tchup.

Ele não ficara satisfeito com a história ao escrevê-la. A ideia das páginas desaparecidas não tinha saído a contento, e ele a arquivara e esquecera. Agora, porém , ele se deu conta de que poderia dar a essa historinha sobre um a guerra entre a linguagem e o silêncio um significado que não era som ente linguístico; percebeu que a história ocultava em seu interior um a parábola sobre a liberdade e a tirania cuj o potencial ele finalm ente com preendera. A história estivera além dele, por assim dizer, e agora sua vida pessoal a alcançara. Por um m ilagre, lem brou-se em que gaveta pusera a pasta em que estava o conto, e pediu a Pauline que fosse pegá-la na casa da St. Peter’s Street. Nessa altura não havia m ais repórteres vigiando o prédio, de m odo que ela pôde ir lá em paz e pegar as páginas. Quando as releu, ficou em polgado. Reform ulado, expurgado do elem ento redundante referente a Battuta, o conto daria a seu livro o núcleo dram ático.

De início o livro cham ava-se Zafar e o mar de histórias, m as ele logo se deu conta da necessidade de pôr um a certa distância im aginária entre o m enino do livro e o do banho. Haroun era o nom e do m eio de Zafar. A m udança pareceu um a m elhora assim que foi feita. No com eço, Zafar ficou desapontado. Se era o livro dele, disse, devia ser sobre ele. Mas logo m udou de opinião tam bém . Entendeu que Haroun ao m esm o tem po era e não era ele, e que assim era m elhor.

Voltaram para Porlock Weir depois daquele abençoado fim de sem ana com Zafar na Cornualha, e quando chegaram à porta ouviram ruídos dentro da casa. Os agentes prontam ente o protegeram , sacaram as arm as e um deles abriu a porta. Havia sinais claros de que a casa fora rem exida: papéis espalhados, um vaso quebrado. A seguir, outro barulho, com o o som de asas assustadas. “É um a ave”, ele disse, e seu alívio fez com que a voz saísse um pouco alta dem ais. “Há um a ave lá dentro.” A tensão dos agentes tam bém se desfez. O pânico tinha acabado. Um a ave descera pela cham iné e estava agora pousada, assustada, num varão de cortina na sala. Um corvo, ele pensou. Tiri-ri, tiri-lá, ló, ló, ló. Abriram um a j anela e a ave voou para a liberdade. Ele com eçou a arrum ar a casa, e sua cabeça se encheu de m úsicas sobre aves. Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar. E aquela velha canção caribenha sobre a ave “no alto da bananeira”. Você pode voar/ fugir pelo céu/ tem mais sorte que eu.

O livro não com eçou a fluir im ediatam ente, ainda que ele j á tivesse a história. O barulho do tem poral do lado de fora da casa era forte dem ais, seus dentes do siso doíam e acabou sendo difícil achar a linguagem certa do livro. Ele com eteu saídas em falso — infantil dem ais, adulto dem ais — e não conseguia achar o tom de voz de que precisava. Alguns m eses se passariam antes que ele escrevesse as palavras que decifrassem o m istério. “Era um a vez, no país de Alefbey, um a triste cidade, a m ais triste das cidades, um a cidade tão arrasadoram ente triste que tinha esquecido até o seu próprio nom e. Ficava à m argem de um m ar som brio, cheio de peixosos [...].” Certa vez Joseph Heller lhe dissera que os livros que escrevia nasciam de frases. Duas frases, “Sou tom ado de nervosism o quando vej o portas fechadas” e “No escritório em que trabalho há cinco pessoas que m e m etem m edo”, tinham sido a gênese de um grande rom ance dele, Alguma coisa mudou, e tam bém Ardil-22 tinha brotado de suas frases iniciais. Ele sabia o que Heller queria dizer. Havia frases que seu autor, assim que as escrevia, percebia que elas continham ou possibilitavam dezenas ou talvez centenas de outras frases. Os filhos da meia-noite só revelara seus segredos, depois de m uita luta, quando um dia ele se sentou e escreveu Nasci na cidade de Bombaim... há muito tempo. E o m esm o aconteceu com Haroun. No m om ento em que ele criou a triste cidade e os peixosos, entendeu com o o livro teria de avançar. Talvez tenha até ficado de pé e batido palm as. Mas esse m om ento ainda estava no futuro, m eses depois. Por enquanto só havia a luta e o tem poral.

 

Na Grã-Bretanha, um bando de “líderes” e “porta-vozes”, nom eados por eles m esm os, continuava a buscar a fam a m etendo facas em suas costas e depois subindo por essa escada de lâm inas. O m ais falastrão e perigoso deles era um gnom o de j ardim de barba grisalha, cham ado Kalim Siddiqui, que enfaticam ente defendia e j ustificava a fatwa em vários program as de tv e, num a série de reuniões públicas (inclusive algum as a que com pareceram m em bros do Parlam ento), pediu que os presentes erguessem a m ão para dem onstrar o desej o unânim e da com unidade de que o blasfem o e apóstata fosse assassinado. Todas as m ãos se levantaram . Ninguém foi processado. O Instituto Muçulm ano, de Siddiqui, era um a entidade sem nenhum a im portância, m as os aiatolás iranianos vinham lhe dando tratam ento de celebridade, e ele se avistava frequentem ente com figuras influentes, exigindo que m antivessem a pressão. Num program a da tv britânica, Siddiqui explicou com o agiam os m uçulm anos, em sua opinião. “Nós revidam os”, disse. “Mas às vezes nós revidam os prim eiro.”

Outras livrarias foram alvos de atentados a bom ba — a Collet’s e a Dillons, em Londres, a Abbey ’s, em Sy dney, na Austrália. Mais bibliotecas recusaram -se a ter exem plares do livro em seu acervo, m ais redes recusaram -se a vendê-lo, um as dez gráficas na França recusaram -se a im prim ir a edição francesa, e novas am eaças foram feitas a editores, por exem plo, a seu editor norueguês, William Ny gaard, da H. Aschehoug & Co., que teve de ser protegido por policiais. No entanto, a m aior parte das pessoas que trabalhavam nas editoras de Os versos satânicos em todo o m undo não recebeu nenhum a proteção. Era fácil para ele im aginar a tensão que sentiam no trabalho e em casa, tem endo por suas fam ílias e por si m esm os. Não se deu atenção suficiente à coragem com que essas “pessoas com uns”, que a cada dia se m ostravam extraordinárias, continuaram a desem penhar suas funções, a defender os princípios da liberdade, a ocupar a linha de frente.

Com eçaram a surgir casos de m uçulm anos assassinados por outros m uçulm anos por defender opiniões contrárias à fatwa. Na Bélgica, o m ulá que era tido com o o “líder espiritual” dos m uçulm anos daquele país, o saudita Abdullah Ahdal, e seu assistente, o tunisiano Salim Bahri, foram m ortos por afirm ar que, não im portava o que Khom eini declarara para consum o no Irã, na Europa havia liberdade de expressão.

“Estou am ordaçado e encarcerado”, ele escreveu em seu diário. “Não posso nem falar. Quero bater um a bola num cam po de futebol com m eu filho. Um a vida com um , banal: m eu sonho im possível.” Am igos que o viram naqueles dias ficaram chocados com sua decadência física, seu aum ento de peso, a m aneira com o ele deixara a barba se transform ar num a m edonha m assa bulbosa, sua postura abatida. A aparência de um hom em derrotado.

Em m uito pouco tem po ele se afeiçoara extrem am ente a seus protetores, m as para Marianne a invasão de seu espaço era m ais difícil de aceitar, e ela se m antinha distante. Ele apreciava a m aneira com o os agentes tentavam m ostrar-se sem pre otim istas e alegres em sua presença, a fim de anim á-lo, e tam bém os esforços deles para não cham ar a atenção. Os agentes percebiam com o era difícil para os “protegidos” terem policiais na cozinha, deixando suas pegadas na m anteiga. Eles se esforçavam ao m áxim o, e sem nenhum a m á vontade, para dar a ele o m áxim o de espaço que podiam . E ele logo percebeu que para a m aioria dos agentes o confinam ento daquela m issão em particular era m ais penoso, em certos aspectos, do que para ele próprio. Eram hom ens de ação, suas necessidades eram o oposto das de um rom ancista sedentário que tentava agarrar-se ao que restava da vida interior, da vida do espírito. Ele podia ficar sentado num côm odo, im óvel e pensativo, durante horas, sem se aborrecer. Eles exibiam sinais de ânsias de m ovim ento se tinham de perm anecer dentro de casa. Por outro lado, podiam ir para casa depois de duas sem anas e m udar de vida. Vários lhe disseram , com preocupado respeito: “A gente não conseguiria fazer o que o senhor está fazendo”, e essa percepção fazia com que se solidarizassem com ele.

Continuar: parte 3 de 5