Lendas dos Vegetais
Algodão.
Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto
com a frescura e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior em belleza a todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo, transformaram-o na flôr que em memoria do facto ainda hoje lhe conserva o nome.
Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde
o seu rosto se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada.
Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que
contempla no espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua.
ALGODÃO.
Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem
profundamente odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra, cóva que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco apenas com a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho que lhe trouxesse o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal agarrou a cauda, ficou com as mãos presas e foi arrastado pelo animal para o fundo do poço, d'onde só pôde sahir á custa de innumeras fadigas. Chegado á terra, correu a contar ao pae que no interior do sólo existiam muitos homens e mulheres que poderiam ir buscar e fazer d'elles escravos que os auxiliassem nos seus trabalhos de cultura. Sacaibu então semeou pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus lhe déra, e com elle teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os primeiros homens que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais formosos e de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até que por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão pelo que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição aos homens brancos.