Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 41 de 54

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Lendas dos Vegetais

Lotus.

Porém as silvas ante as lagrimas e o desespero da mãe de Deus,

desviaram-se abrindo caminho á sagrada familia, e logo que todos passaram tornaram a unir-se entretecendo-se mais fortemente, de modo que ao chegarem os soldados junto d'ellas, voltaram para traz e seguiram outro caminho, acreditando que a Virgem não podéra transpor o emmaranhado silvedo que os retinha.

A Virgem passado o perigo abençoou as silvas a quem deu a

faculdade de vegetarem em todos os terrenos, produzirem fructos saborosos, ficarem defendidas por agudos espinhos dos ataques de todos os inimigos, e amaldiçoou os tremoços dando-lhes um travor semelhante ás amarguras que elles com o seu indiscreto barulho lhe tinham causado, e condemnando-os a nunca podêrem saciar pessoa alguma.

 

LOTUS.

 

O lotus é uma planta sagrada para os indianos e para os

egypcios.

No Egypto chamam á flôr do lotus flôr do Nilo, por isso que,

quando o rio trasborda, nas cheias periodicas que são a fertilidade d'aquellas regiões, a superficie das aguas cobre-se completamente de lotus em flôr.

É por isso que os egypcios representam a creação por uma

immensa superficie de agua sobre a qual fluctua um lotus collossal. Creem elles que no principio o mundo esteve todo coberto d'agua, d'onde brotou um lotus que, estendendo-se sobre o liquido, o cobriu completamente; dando a tudo a luz e a vida.

É tambem, portanto, o lotus um simbolo da geração espontanea.

A flôr de lotus é dedicada a Osiris, Wishnou e sobretudo a

Brahma.

Conta uma lenda indiana que Brahma sahiu de um lotus nascido

sobre o umbigo de Wishnou.

A mulher de Wishnou, a formosa das formosas, a maravilhosa

belleza oriental, é sempre representada nos templos, sentada sobre uma flor de lotus.

A poesia oriental está cheia de referencias ao lotus, comparando-

o a todas as partes do corpo humano. Um poeta indiano referindo-se aos olhos da sua amada que lhe realçam a belleza do rosto, diz que sobre uma flôr de lotus brotaram outras duas bellas flores eguaes.

As indianas adoram apaixonadamente a flôr de lotus apesar da

particularidade que lhe attribuem de fazer acalmar o ardor das paixões.

Parece que esta mesma crença era corrente no Egypto antigo, e

que é devido a ella o terem sido encontradas flores de lotus cobrindo as partes sexuaes das mumias.

Outr'ora, nos sacrificios indianos, o sangue do sacrificado era

sempre recolhido sobre petalas de lotus; os primeiros christãos dedicaram tambem o lotus á Virgem ornamentando-lhe os altares exclusivamente com estas flores.

Para os gregos o lotus é o simbolo da belleza e as donzellas de

Athenas, nos dias de festa, enfeitam-se de preferencia com flores de lotus.

Segundo uma antiga lenda grega, uma nimpha apaixonou-se

doidamente por Hercules. Vendo que não podia alcançar ser correspondida pelo grande heroe, atirou-se a um rio, onde morreu afogada.

Jupiter, compadecido das desditas da enamorada nimpha,

transformou-a na brilhante flôr do lotus.

Diz uma lenda buddhica que o rei Pandu, n'uma guerra que

sustentou com vassalos seus adoradores de Buddha, que se tinham revoltado contra a sua soberania, se apoderou do templo principal onde era preciosamente guardado, em luxuoso altar, um dente do grande deus indiano. Pandu, para provar o seu poderio, mandou triturar o dente e lançar os fragmentos a uma grande fogueira, para que ficassem completamente consumidos. Porém, mal os restos do dente cahiram sobre o fogo, este extinguiu-se completamente, brotando logo do centro da fogueira uma enorme flôr de lotus, no interior da qual foi encontrado intacto o dente de Buddha.

Pandu, assombrado por este milagre, converteu-se a buddhismo

sendo depois um dos mais fieis e ardentes sectarios da magestosa divindade indiana.

A mitologia conta-nos tambem que a nimpha Lotis, sendo

perseguida por Priapo, foi transformada em Lotus, escapando assim ao dissoluto deus.

Esta lenda parece ter sido imitada da seguinte antiquissima lenda

indiana, que encontramos publicada no Jornal de Viagens:

Havia em Ellora um sabio brahmane que tinha uma formosa filha, a gentil

Hevah, a dos olhos de esmeralda.

Um dia que ella tinha ido ao templo subterraneo, onde se adora o senhor

dos mundos, o divino Brahma, e que estava em oração com os olhos fitos na

imagem do auctor dos dias, fallou-lhe assim o divino Brahma:

«Ó minha bem amada. As meninas dos teus olhos são como duas flores de

lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».

Do rosto do deus jorrava uma claridade divina; Hevah tocou a terra com a

fronte, e não se atrevia a olhar.

E Brahma repetiu: