Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 38 de 54

Páginas do PDF

Lendas dos Vegetais

Platano.

 

O platano era particularmente venerado na Grecia, sendo

consagrado ao genio. Era sob os platanos que se reuniam os sabios gregos para discutirem os mais transcendentes assumptos, e sob elles que especialmente se abrigavam da chuva.

A formosa Europa, dormia sob um platano quando foi roubada por

Jupiter metamorphoseado em touro.

Xerxes atravessando a Lydia, apaixonou-se tanto por um

corpulento platano que o fez ornamentar de custosos collares e braceletes d'ouro.

Na Grecia quando alguns noivos se separam trocam, em signal

de fidelidade, duas metades de uma mesma folha de platano, e quando se tornam a encontrar apresentam-as, devendo as duas partes formar perfeitamente a primitiva folha. Se isto se não dér é porque aquelle cuja metade estiver defeituosa foi infiel durante a ausencia.

 

TREVO.

 

Diz Gubernatis que os druídas tinham o trevo em grande

veneração, e que S. Patricio para explicar o misterio da Trindade aos irlandezes se servia de trevo, mostrando-lhes as tres folhas do vegetal n'uma mesma haste.

Em França, Italia, Hespanha, e mesmo entre nós, o povo estima e

venera particularmente o trevo de quatro folhas e crê que a pessoa que encontrar uma d'estas plantas, sendo mulher, casará dentro de um anno e, sendo homem, terá no mesmo espaço de tempo grandes felicidades.

Aproveitamos do distincto sabio inglez, Brueyre a seguinte e

deliciosa lenda metereologica relativa ao trevo:

«N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde que

o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento, quando ella

terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a unica que faltava para

mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a rapariga deixou-a sem lhe tirar o

leite.

Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de hervas

differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez uma almofada para

levar mais commodamente o cantaro.

Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares de

pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que estava

deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em flores de trevo,

sugando-as depois com delicia. As hervas que estavam junto as têtas de

Daisy cresciam a olhos vistos, cercando por todos os lados a corpulenta

vacca, e os trasgos corriam por entre ellas, levando bem-me-queres,

verdeselhas, flores de digitalis e flores de trevo onde recolhiam o leite que

corria das quatro têtas ao mesmo tempo, como abundante chuva da

primavera. Sob uma das têtas a rapariga viu um trasgo maior que os outros,

que, para se banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando

os pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava

avidamente.

Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram

concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as hervas que

collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na verdade tinha

acontecido».