Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 4 de 54

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Lendas dos Vegetais

Papoula.

 

N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a

confraternizar com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que pela sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos.

Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares

saber adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento só de descanso.

Em qualquer adoecendo, a familia ia logo têr com o pobre rapaz,

que não podendo resistir ás supplicas lá se installava junto dos doentes, emballando-os com as suaves melodias que chamam o somno e que elle sabia dizer como ninguem.

Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas

e vigilias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu ao caír da tarde, quando o sol morria no extremo horisonte...

Então os deuses para premiarem as boas acções do que morrera

praticando o bem, tornaram-o immortal, transformando-o n'uma planta, na papoula, a quem deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre junto a si, a de fazer esquecer o soffrimento por meio do somno.

 

CHICÓRIA.

Chicória era uma princeza tão formosa, que todos os homens ao

vêl-a ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabellos mais finos que a mais fina sêda, o céo emprestara-lhe aos olhos o seu doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja á purissima alvura da sua cutis.

Era um encanto.

O rei, seu pae, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos

os caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslisava entre affagos e desejos satisfeitos, n'uma completa e intensa felicidade.

Porém um dia o amor tudo transtornou.

Um bello trovador, um d'aquelles gentis bohemios que percorriam

o mundo de lyra no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, chegou ao palacio, onde foi recebido com todo o carinho que então se dispensava ao seguro depositario das antigas tradicções guerreiras e das castas e bellas lendas d'amor.

Berengère se chamava elle, e nunca até então viéra ao palacio

real quem melhor soubesse dedilhar a lyra, soltar ao vento os magoados queixumes d'uma alma amorosa ou attingir o apice do enthusiasmo na narrativa dos feitos audazes dos valentes guerreiros immortalisados em campanhas féramente medonhas.

Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os

caprichos, pediu ao pae que a casasse com o trovaor. O rei, que nada recusava á filha, accedeu constrangido, mas o bello trovador, que não queria perder a estremecida liberdade que tantas varias aventuras galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe dava, ao saber dos desejos da formosa princeza fugiu do palacio para nunca mais voltar.

A alegria de Chicória desappareceu desde então para sempre.

Passava os dias sentada no varandim do palacio olhando pela estrada além a vêr se o trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, trazendo-lhe a ventura perdida.