Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 37 de 54

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Lendas dos Vegetais

Linho.

A mangerona (Origanum majorana L.) é a amarakos dos gregos.

Os romanos serviam-se da mangerona para tecer corôas aos recem-casados e em Creta esta planta é ainda hoje o simbolo da honra, tendo a virtude de afugentar das mulheres os mal intencionados seductores.

A lenda da mangerona é uma lenda grega. Amaracus era um

favorito do rei de Chypre que este estimava immenso e a quem confiava serviços da maior confiança e da mais alta responsabilidade.

Um dia encarregando-o o rei de lhe trazer um precioso vaso cheio

de perfumes, Amaracus deixou-o cahir no sólo onde se fez em pedaços.

Cheio de pesar e de susto pelo mal causado, cahiu com uma

violenta sincope e então os deuses amerciados da sua grande e irremediavel dôr transformaram-o n'uma planta odorifera que ficou tendo o nome do desastrado Amaracus.

 

LINHO.

 

Gubernatis escreve o seguinte do linho:

«A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia luminosa;

a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o vestido do esposo divino,

o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste luminosa, d'um tecido branco ou

vermelho, de prata ou de oiro. Os padres, na terra, adoptaram o mesmo

costume branco na India, no Egypto, na Asia Menor, em Roma e nos paizes

christãos, chamando-se ainda hoje alva á camisa branca dos padres e dos

meninos de côro.

O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII, na ilha de

Rugen, servia de moeda.

«Apud Ranos, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn (Kulturpflanzen u.

Hausthiere, Berlin, 1874) non habetur maneta, nec est in comparandis rebus

consuetudo nummorum, sed quidquid in foro mercari volueris, panno lineo

comparabis».

Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no

Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou vestidos

tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam ser guardadas

dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio mencionam um linho enviado

da Grecia por o rei Amasis, cujo fio era composto de 360 ou 365 fios, allusão

evidente aos dias do anno.

Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia linho e a

formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a fiar, pois os dois

animaes figuram na mitologia zoologica em estações differentes. Os fios de

linho são tidos como representando os raios do sol, e segundo uma

superstição popular siciliana, attrahem-os tambem.

Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer desapparecer as

dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam, com acompanhamento

de imprecações, estopa de linho n'um copo onde depois se deita agua;

colocam em seguida o vidro n'um prato branco e este sobre a cabeça do

doente; pretendem que, d'este modo, fazem desapparecer da cabeça e

passar para o linho toda a doença causada pelo sol.

No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho

mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno.

O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por isso que

na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou lhe custa a

andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no sólo, semeando-lhe

linho em redor, e logo que o linho principiar a rebentar deve a creança

começar a crescer e a andar».