Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 46 de 54

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Lendas dos Vegetais

Cipreste.

É antiquissimo o caracter diabolico da figueira, a arvore onde se

acoutavam os demonios e os mais horrendos e maleficos monstros.

Os doutores mahometanos dizem que foi o figo o fructo que Deus

prohibiu que Adão e Eva comessem, por excitar os sentidos, e logo que elles transgrediram a ordem, conheceram a nudez, cobrindo-se com as folhas da mesma arvore que os fizera peccar.

 

CIPRESTE.

 

Adão, vendo-se velhissimo, com 900 annos, mas, cheio de vigor e

saude, gabou-se deante de Deus de ser forte e immortal. Deus para lhe castigar o orgulho paralisou-lhe os membros inferiores, fez-lhe cahir os dentes e tirou-lhe a luz dos olhos, dizendo-lhe que eram os signaes precursores da morte. Adão não quiz acreditar na palavra do Senhor e mandou o filho mais velho ao Paraizo buscar um fructo da arvore da vida, afim de recuperar as forças perdidas. O filho em vez do fructo trouxe a vara com que Adão foi expulso do Paraizo. Adão partiu-a em tres pedaços que plantou no sólo, mas logo que as arvores nasceram Adão morreu.

As arvores nascidas da vara plantada por Adão foram a oliveira, o

cedro e o cipreste. Desta ultima é que depois sahiu a madeira com que fabricaram a cruz em que Christo morreu.

 

ALECRIM.

O alecrim é uma planta funeraria. Os antigos acreditavam que o

aroma do alecrim conservava os cadaveres, e sob esta crença, queimavam nas ceremonias funebres quantidades enormes d'esta planta aromatica.

No norte, os que acompanham os mortos á ultima morada, levam

comsigo um ramo de alecrim por ser em virtude da folhagem sempre verde simbolo da immortalidade.

Os romanos ornamentavam os Lares com alecrim e empregavam-

o como meio de purificação após as festas phallicas, crendo que elle tinha a propriedade de dar uma mocidade eterna.

Em algumas provincias de França é vulgar a crença de que as

flores de alecrim em contacto com o corpo dão a alegria e felicidade a quem as traz. Para os cretenses é simbolo da sinceridade.

Dizem que foi sobre elle que a Virgem Maria estendeu a seccar as

primeiras roupas que vestiu a Jesus.

Na Andaluzia é tambem o alecrim muito estimado, pelo motivo de

ter escondido a Virgem quando com o divino filho fugia á perseguição dos soldados de Herodes.

Na Sicilia corre que é no alecrim que se escondem as fadas

disfarçadas em serpentes.

É tambem originaria d'aquelle pittoresco recanto d'Italia a seguinte

lenda relativa ao alecrim:

—Uma rainha esteril tanto contemplou os numerosos ramos e as

verdes folhas de um copado alecrim que concebeu d'elle, tendo um pequenino alecrim, que plantou em luxuoso vaso regando-o quatro vezes ao dia com leite. Um sobrinho da rainha, intrigado com o caso, roubou o vaso e conservou a planta, regando-a com leite de cabra. Um dia, que estava tocando deliciosamente flauta, viu sahir do centro do alecrim uma formosa princesa, de quem ficou logo apaixonado.