Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 29 de 54

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Lendas dos Vegetais

Tilia.

Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre

os povos orientaes symbolo da geração.

Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das

feiticeiras. Para isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira.

A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada

Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.

O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada

Bakanali em estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no templo de Ceylão.

O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que

amiudadas vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma planta até então desconhecida.

Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella

um oleo tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.

 

TILIA.

D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no

jornal portuense Diario do Commercio, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda sobre a tilia:

«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que

por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte

das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore

encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros

municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da

nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o

microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente,

n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases,

sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da

Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das

brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha

memoria nas terras peninsulares.

Ah! como são bellas as tilias portuenses!

Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu

gosto das creaturas audaciosas, e—confessem! confessem!—nascer,

rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de

pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilette pompadour, na Praça

de D. Pedro—é o cumulo da audacia e do protesto contra o meio, mesmo em

face do domus municipalis, que é o grande laboratorio das coisas sujas.

Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos

avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á

João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.

Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore

graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca,

em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro

da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que,

como morriam de mais alto, viam até mais longe.

Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a

audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio,

conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.

Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de

muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta

de sangue.