Lendas dos Vegetais
Tilia.
Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre
os povos orientaes symbolo da geração.
Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das
feiticeiras. Para isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira.
A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada
Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.
O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada
Bakanali em estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no templo de Ceylão.
O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que
amiudadas vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma planta até então desconhecida.
Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella
um oleo tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.
TILIA.
D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no
jornal portuense Diario do Commercio, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda sobre a tilia:
«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que
por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte
das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore
encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros
municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da
nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o
microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente,
n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases,
sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da
Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das
brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha
memoria nas terras peninsulares.
Ah! como são bellas as tilias portuenses!
Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu
gosto das creaturas audaciosas, e—confessem! confessem!—nascer,
rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de
pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilette pompadour, na Praça
de D. Pedro—é o cumulo da audacia e do protesto contra o meio, mesmo em
face do domus municipalis, que é o grande laboratorio das coisas sujas.
Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos
avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á
João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.
Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore
graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca,
em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro
da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que,
como morriam de mais alto, viam até mais longe.
Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a
audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio,
conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.
Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de
muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta
de sangue.