Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 7 de 54

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Lendas dos Vegetais

Rosas.

Poucos dias depois—caso estranho!—o local onde jasia o corpo

da gentil princeza assignalava-se por uma profusão de flores estranhas, desconhecidas de todos, que espontaneamente brotaram do sólo, com as petalas graciosamente encaracoladas como o fôra o cabello da morta gentil, e de mil coloridos diversos desde o negro como os seus olhos negros, vermelho tão vivo como o que em vida lhe tingia os labios, e amarello intenso como o oiro dos seus cabellos até ao branco impeccavel da sua alma purissima.

De toda a parte, desde os mais remotos confins do imperio, o

povo, celebrando o milagre, corria a visitar o tumulo milagroso para colher hastes das plantas sagradas que se tornaram logo as predilectas de todos, espalhando-se rapidamente por todo o paiz.

 

ROSAS.

 

As rosas attrahiram desde a mais alta antiguidade a attenção de

todos os povos e por isso não é de estranhar o grande numero de lendas que correm a seu respeito.

Os Egypcios tinham-as em grande valor, ornando-se com ellas,

uso que passou aos romanos e d'estes a todos os povos modernos. Ainda não ha muito que appareceram em varios tumulos egypcios restos reconheciveis de rosas.

Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas

antigos asseveram que as rosas eram todas brancas ao principio tomando a côr vermelha do sangue de Adonis, segundo uns, de Venus, segundo outros.

A Aurora era representada outr'óra sob a forma de uma grinalda

de rosas, a rosa deu o nome ás festas da primavera (rusalija), a Virgem christã que substituiu no culto a Venus antiga adoptou como seu o mez das rosas e tem tambem o nome de rosario o cordão com contas, primitivamente composto com tractos da Rosa canina, com que as mulheres piedosas marcam as suas rezas.

Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa,

dando annualmente na Paschoa uma rosa d'oiro aos principes mais religiosos da christandade.

Na Idade media, reminiscencia sem duvida do costume das

dissolutas da Roma antiga se ornarem de rosas na festa da Venus Erycina, condemnavam as mulheres publicas, as raparigas deshonradas e os judeus, a trazerem como signal distinctivo uma rosa.

Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça

e ornavam com ellas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas bellas flores preservavam da embriaguez.

A rosa foi não só simbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas

tambem simbolo funerario. Nas lendas persas as rosas e os cyprestes andam unidos; junto dos tumulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos cyprestes.

Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma

rosa é signal e morte.

Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Mahomet, os

Indianos fazem-a apparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galiano é filha do orvalho, e a crêr-se no que affirma Justin de Mieckow brotou do suor de uma mulher chamada Jone, suor que por um phenomeno singular era branco de manhã e vermelho ao meio dia. D'ahi as rosas brancas e as vermelhas.

Anacréonte ensina-nos que Cybéle, para se vingar de Venus,

creou a rosa com o fim de pôr em parallelo a belleza de Venus com a belleza da rosa.

Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua

historia:

«Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua

bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais

distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as mais

illustres allianças.

O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que se

orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses por possuir

dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas depoz tambem os seus

louros aos pés da joven princeza possuido dos sentimentos affectivos de

todos os outros adoradores. Mas a altiva belleza respondeu aos amantes que

a importunavam: Não é facil obter um coração como o meu, nem julgueis que

vos é possivel seduzir-me. Quem me quizer ha-de vencer-me.

Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado a

Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha

approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade. N'isto os

amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e travou-se um combate

encarniçado; a joven rainha sustentou o choque com firmesa, e defendeu-se

com tanto vigor que expulsou para longe os ferozes amantes, cujo

procedimento pouco delicado a ultrajava.

Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a victoria

a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um esplendor tão divino

que o povo deslumbrado exclamou em côro:

Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este templo.

Tiremos Diana do altar.

A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado por este

cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e com um raio

luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que tinha a Rhodante, e

logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes fórtemente ao altar, raizes

alongaram-se e, privada repentinamente de todo o sentimento, ficou immovel,

tornando-se-lhe duros os incantos vencedores. Os braços estenderam-se e

transformaram-se em ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a

bella Rhodante, a orgulhosa rainha, mas uma arvore.

Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma

conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante.

Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos olhos

dos adoradores que a amaram.

Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e esforçou-

se pola vingar.

Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a prejudicar

lhe serviram de defesa.

Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi

transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob esta

forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a metamorphose

não mudou».

O marquez de Chesnel dá-nos noticia da seguinte lenda grega:

«Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana,

Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro.

Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava

de pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados, uma

flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro com a

cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh prodigio! em

lugar das formas seductoras da noiva só estreita de encontro ao peito um

arbusto coberto de espinhos e flores odoriferas que recebeu depois o nome

da infeliz Rosalia».

Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi

transmittida por Joseph Balmont:

«Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir

em cada dia um novo sêr.

N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha

brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre no

mesmo estado.

Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e cantando

melodiosamente, approximou-se da planta.

Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o

vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou seiva e