Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 34 de 54

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Lendas dos Vegetais

Pinheiro.

Na Grecia e em Roma antiga coroavam com myrtho os recem-

casados, por isso que na sua qualidade de planta dedicada a Venus, a deusa do amor, não só tinha a virtude de fazer nascer um violento amor no coração dos esposos mas tambem de o conservar constante por toda a vida.

Este uso ainda está ao presente em vigor em algumas localidades

da Europa central, especialmente na Allemanha.

Em todo o imperio romano era prohibido, sob severas penas,

colocar ramos de myrtho nos altares da Bona Dea, por isso que o myrtho fazia recordar aos fieis os gosos materiaes que no logar sagrado deviam ser completamente esquecidos.

 

PINHEIRO.

 

O pinheiro é simbolo da geração e da immortalidade.

Da geração pela fórma do fructo que os antigos pensavam

representar uma parte do corpo de Atys, sacerdote de Cybele, que violando o voto de castidade feito á deusa, mutilara-se, sendo em seguida transformado por Cybele em pinheiro.

Da vida eterna por causa da folhagem sempre verde, mesmo sob

as maiores neves, da solidez da madeira e por fructificar em pleno inverno.

Na Russia enfeitam as mesas dos banquetes nupciaes com

ramos de pinheiro e no Japão os noivos bebem tres pequenas taças de saké diante de um pinheiro, que significa a fidelidade conjugal e a perpetuidade do genero humano, a imagem de um grou simbolo tambem da fidelidade, a de uma tartaruga como desejo de longa vida, pois os orientaes acreditam que este chelonio vive dous mil annos, e de um grupo representando um velho e uma velha, secularmente celebres por causa do intenso amor e da harmonia em que vireram durante toda a longa vida.

A resina do pinheiro é empregada desde tempos immemoriaes

como o melhor remedio para as doenças pulmonares, e dos fructos do pinheiro extrahiam tambem os gregos e os romanos um remedio afamado para o mesmo fim.

Os vinhos eram outr'ora conservados por meio de resina e de

pinhas que deitavam de infusão nas vasilhas onde elle era guardado.

Ha na Roumania uma lenda que diz que morrendo de pesar dois

amantes violentamente separados pelas respectivas familias, e sendo sepultados no mesmo cemiterio foram transformados um em pinheiro e outro em vide, continuando a enlaçar-se ternamente mesmo depois da morte.

O christianismo consagrou tambem o pinheiro. É a arvore

empregada de preferencia na noite de Natal, a arvore querida e amada pelos povos do norte que a vêem verdejante e cheia de fructo na epocha em que as neves fazem desapparecer a vegetação da superficie da terra.

Parece que o uso do pinheiro como arvore do Natal vem da

seguinte e poetica lenda:

Quando a sagrada familia fugia á perseguição de Herodes,

apertada de perto pela soldadesca, chegou a um descampado onde havia apenas um pinheiro de quem a Virgem, chorosa, supplicou protecção.

A arvore, compadecida, curvou os ramos até ao sólo e

escondendo Jesus no centro de uma larga pinha retomou a primitiva posição natural. Passado o perigo Jesus abençoou a boa arvore, dando-lhe não só a particularidade de vegetar em todos os terrenos e resistir a todas as intemperies, mas tambem permittindo-lhe que em recordação da sua demorada estada na pinha esta conservasse, para sempre, no interior o signal da divina mão que a abençoara.