Lendas dos Vegetais

Eduardo Sequeira · Capítulo 42 de 54

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Lendas dos Vegetais

Sensitiva.

«As meninas dos teus olhos são como duas flores de lotus que se abrem

na superficie esmeraldada dos lagos».

E Hevah que nunca ouvira a ninguem aquellas frases, continuava, pudica,

de rojo, ante o divino senhor dos mundos.

Porém, eis que Brahma repete terceira vez aquella phrase de amor.

Hevah, então, levantou a fronte do pó, cobriu o rosto com o veu e fugiu do

templo; e foi mirar-se na superficie do lago; e entrou pelo remanso das verdes

aguas.

Dormiam os saurios o somno da sesta. E as garças reaes, dormitavam

n'um pé só, sobre o dorso dos grandes reptis.

E eis que de repente ella sentiu que os seus pés tomavam raiz; e que os

seus braços se lhe tornavam duas enormes folhas verdes; e que os olhos se

lhe desabrochavam em dous formosos nenuphares; e ouvia-se a voz de

Brahma:

«Os teus olhos, ó minha bem amada, são como duas flores de lotus que se

abrem na superficie esmeraldada dos lagos».

 

SENSITIVA.

 

A sensitiva, a Mimosa pudica dos botanicos, é uma das plantas

que mais téem sido discutidas e das que até hoje mais despertaram a attenção não só dos homens da sciencia mas tambem de todos os profanos, pelos curiosos movimentos das suas folhas.

As sensitivas são dotadas de movimentos espontaneos e

movimentos provocados.

Ao cahir da tarde os foliolos começam a pender a unirem-se uns

aos outros, dispondo-se para o somno nocturno.

São os movimentos espontaneos.

Este somno póde ser provocado artificialmente colocando a planta

na obscuridade. A falta de luz faz com que o phenomeno acima apontado se produza logo nas suas folhas.

Os movimentos provocados são porém de todos os mais curiosos

e os que deram o nome e fama á planta. Basta que um pequenino insecto pouse em qualquer dos foliolos da sensitiva, ou que se toque n'elle com um corpo estranho, para o foliolo se comprimir immediatamente e apoz elle os outros proximos, movimento que se propaga ás folhas de todo o ramo e até ás de todo o vegetal, se o contacto do corpo estranho fôr violento ou demorado.

Estes movimentos estão em relação directa com o

desenvolvimento e vigor da planta.

Quanto mais a planta é forte e robusta tanto mais os movimentos

são accentuados e demorados.

Uma forte corrente d'ar, uma violenta trepidação do sólo, uma

obscuridade repentina do sol é o bastante para o apparecimento d'estes movimentos.

As excitações muito frequentes desorganisam porém o sistema

nervoso da sensitiva e fazem-a rapidamente morrer.

A Mimosa pudica foi conhecida dos antigos, a quem muito

impressionou a sua mobilidade. Escriptores gregos e romanos trataram repetidas vezes d'esta interessante leguminosa, e poetas varios cantaram-a enthusiasticamente.

É de um d'elles que aproveitamos a lenda que segue:

A nimpha Mimosa era tão casta e tão pura que apesar de estar

para casar com o pastor Iphis nunca consentira que elle lhe tocasse com os dedos sequer. Na vespera do dia em que devia ser para sempre unida ao eleito do seu coração, encontrou-se por acaso com elle no centro de um copado bosque. Iphis ao vêl-a tão seductoramente bella perdeu a cabeça, e quiz estreitamente unil-a de encontro ao coração. Mimosa conhecendo que não podia fugir ao doce amplexo do seu apaixonado, ficou tão tremula e aterrada, e implorou tão desesperadamente o deus Hymineu, que, este, compadecido, a transformou logo na planta que ainda hoje ao ser tocada por mão profana reproduz a extrema sensibilidade da casta nimpha.