Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 8 de 25

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Morte e Vida Severina

Vale do Capibaribe

por Santa Cruz, Toritam a:

cena para cronicões,

para épicas castelhanas.

Mas é paisagem em que nada

ocorreu em nenhum século

(nem m esm o águas ocorrem

na língua dos rios secos).

Nada aconteceu em bora

a pedra pareça extinta

e os om bros de m onum ento

finj am história e ruína.

(De que seriam ruína,

de que j á foram paredes?

Do forno em que o deus da seca

acendia a sua sede?)

E tam bém nada acontece:

raro o pobre rom anceiro

da cruz na estrada, m ais raro

o crim e não rotineiro

com acentos de gesta (ou

as façanhas cangaceiras)

que o vale possa ecoar

e sej a cantado em feira.

No m entido alicerce de

m orta civilização

a luta que sem pre ocorre

não é tem a de canção.

É a luta contra o deserto,

luta em que sangue não corre,

em que o vencedor não m ata

m as aos vencidos absorve.

É um a luta contra a terra

e sua boca sem saliva,

seus intestinos de pedra,

sua vocação de caliça,

que se dá de dia em dia,

que se dá de hom em a hom em ,

que se dá de seca em seca,

que se dá de m orte em m orte.