Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 13 de 25

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Morte e Vida Severina

Alguns toureiros

A Antonio Houaiss

Eu vi Manolo González

e Pepe Luís, de Sevilha:

precisão doce de flor,

graciosa, porém precisa.

Vi tam bém Julio Aparício,

de Madrid, com o Parrita:

ciência fácil de flor,

espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,

dos confins da Andaluzia,

que cultiva um a outra flor:

angustiosa de explosiva.

E tam bém Antonio Ordóñez,

que cultiva flor antiga:

perfum e de renda velha,

de flor em livro dorm ida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,

Manolete, o m ais deserto,

o toureiro m ais agudo,

m ais m ineral e desperto,

o de nervos de m adeira,

de punhos secos de fibra,

o de figura de lenha,

lenha seca de caatinga,

o que m elhor calculava

o fluido aceiro da vida,

o que com m ais precisão

roçava a m orte em sua fím bria,

o que à tragédia deu núm ero,

à vertigem , geom etria,

decim ais à em oção e ao susto, peso e m edida,

sim , eu vi Manuel Rodríguez,

Manolete, o m ais asceta,

não só cultivar sua flor

m as dem onstrar aos poetas:

com o dom ar a explosão

com m ão serena e contida,

sem deixar que se derram e

a flor que traz escondida,

e com o, então, trabalhá-la

com m ão certa, pouca e extrem a:

sem perfum ar sua flor,

sem poetizar seu poem a.