Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 4 de 25

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Morte e Vida Severina

Medinaceli

(Terra provável do autor anônim o do Cantar de Mío Cid )

Do alto de sua m ontanha

num a lenta hem orragia

do esqueleto j á folgado

a cidade se esvazia.

Puseram Medinaceli

bem na entrada de Castela

com o no alto de um portão

se põe um leão de pedra.

Medinaceli era o centro

(nesse elevado plantão)

do tabuleiro das guerras

entre Castela e o Islão,

entre Leão e Castela,

entre Castela e Aragão,

entre o barão e seu rei,

entre o rei e o infanção,

onde engenheiros, arm ados

com abençoados proj etos,

lograram edificar

todo um deserto m odelo.

Agora, Medinaceli

é cidade que se esvai:

m ais desce por esta estrada

do que esta estrada lhe traz.

Pouca coisa lhe sobrou

senão ocos m onum entos,

senão a praça esvaída

que im ita o geral exem plo;

pouca coisa lhe sobrou

se não foi o poem ão

que poeta daqui contou

(talvez cantou, cantochão), que poeta daqui escreveu

com a dureza de m ão

com que hoj e a gente daqui

diz em silêncio seu não.