Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 19 de 25

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Morte e Vida Severina

Outro rio: o Ebro

Vou quase sem pre entre o gesso

do esqueleto do anim al

que veio cair de sede

nestas terras de Aragão.

O gesso tam bém perece,

não m orde m ais com o a cal.

Dir-se-ia que até a pedra

m orreu de sede e de sol.

Vou entre as estreitas hortas,

fresco o lábio vegetal,

do corredor tão estreito

que a vida habita em Aragão,

entre casas extraviadas

no deserto literal

e que ao passar alinhavo

com água de m eu carretel,

entre vilas desm aiadas

(hipnose de sol e azul)

e aldeias de entranhas secas

feitas do gesso geral

(sem que a água j am ais reflita,

água de cego cristal,

as torres de barro opaco

que o m ouro abriu a cinzel).

Disponho de um leito largo

com o cam a de casal,

m as é pouco deste leito

que cubro com m eu lençol.

Pois assim m esm o tão fraco

no duro chão m ineral,

só veia regando ainda

curtido couro anim al, sou destas terras ossudas

líquida espinha dorsal

e até m esm o fui trincheira

(quando do front de Aragão).