Morte e Vida Severina
Uma Faca Só Lâmina
Para Vinicius de Moraes
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso, de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Sej a bala, relógio,
ou a lâm ina colérica,
é contudo um a ausência
o que esse hom em leva.
Mas o que não está
nele está com o bala:
tem o ferro do chum bo,
m esm a fibra com pacta.
Isso que não está
nele é com o um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está com o a ciosa
presença de um a faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o m elhor
dos sím bolos usados
é a lâm ina cruel
(m elhor se de Pasm ado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
com o a im agem da faca
que só tivesse lâm ina,
nenhum m elhor indica
aquela ausência sôfrega
que a im agem de um a faca
reduzida à sua boca,
que a im agem de um a faca
entregue inteiram ente
à fom e pelas coisas
que nas facas se sente.
B
Das m ais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer m etáfora,
pode ser cultivada.
E m ais surpreendente
ainda é sua cultura:
m edra não do que com e
porém do que j ej ua.
Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
j am ais a encontrarás
com a boca vazia.
Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e m ais estratagem as
privativos dos sabres.
E com o faca que é,
fervorosa e enérgica,
sem aj uda dispara
sua m áquina perversa:
a lâm ina despida
que cresce ao se gastar,
que quanto m enos dorm e
quanto m enos sono há,
cuj o m uito cortar
lhe aum enta m ais o corte
e vive a se parir
em outras, com o fonte.
(Que a vida dessa faca
se m ede pelo avesso:
sej a relógio ou bala,
ou sej a a faca m esm o.)
C
Cuidado com o obj eto,
com o obj eto cuidado, m esm o sendo um a bala
desse chum bo ferrado,
porque seus dentes j á
a bala os traz rom budos
e com facilidade
se em botam m ais no m úsculo.
Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasm ódico.
É preciso cuidado
por que não se acom passe
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,
e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
j á sem m order m ais nada.
Então se for a faca,
m aior sej a o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.
Tam bém seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.
O im portante é que a faca
o seu ardor não perca
e tam pouco a corrom pa
o cabo de m adeira.
D
Pois essa faca às vezes
por si m esm a se apaga.
É a isso que se cham a
m aré-baixa da faca.
Talvez que não se apague
e som ente adorm eça.
Se a im agem é relógio,
a sua abelha cessa.
Mas quer durm a ou se apague:
ao calar tal m otor,
a alm a inteira se torna
de um alcalino teor
bem sem elhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das alm as que não
têm facas-esqueleto.
E a espada dessa lâm ina,
sua cham a antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,
tudo segue o processo
de lâm ina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de m adeira,
bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou m el.
(Porém quando a m aré
j á nem se espera m ais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)
E
Forçoso é conservar
a faca bem oculta,
pois na um idade pouco
seu relâm pago dura
(na um idade que criam
salivas de conversas,
tanto m ais pegaj osas quanto m ais confidências).
Forçoso é esse cuidado
m esm o se não é faca
a brasa que te habita
e sim , relógio ou bala.
Não suportam tam bém
todas as atm osferas:
sua carne selvagem
quer câm aras severas.
Mas se deves sacá-los
para m elhor sofrê-los,
que sej a em algum páram o
ou agreste de ar aberto.
Mas nunca sej a ao ar
que pássaros habitem .
Deve ser a um ar duro,
sem som bra e sem vertigem .
E nunca sej a à noite,
que esta tem as m ãos férteis.
Aos ácidos do sol
sej a, ao sol do Nordeste,
à febre desse sol
que faz de aram e as ervas,
que faz de esponj a o vento
e faz de sede a terra.
F
Quer sej a aquela bala
ou outra qualquer im agem ,
sej a m esm o um relógio
a ferida que guarde,
ou ainda um a faca
que só tivesse lâm ina,
de todas as im agens
a m ais voraz e gráfica,
ninguém do próprio corpo poderá retirá-la,
não im porta se é bala
nem se é relógio ou faca,
nem im porta qual sej a
a raça dessa lâm ina:
faca m ansa de m esa,
feroz pernam bucana.
E se não a retira
quem sofre sua rapina,
m enos pode arrancá-la
nenhum a m ão vizinha.
Não pode contra ela
a inteira m edicina
de facas num erais
e aritm éticas pinças.
Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem m esm o o tem po
com os seus algodões.
E nem a m ão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
im agens de furor.
G
Essa bala que um hom em
leva às vezes na carne
faz m enos rarefeito
todo aquele que a guarde.
O que um relógio im plica
por indócil e inseto
encerrado no corpo
faz este m ais desperto.
E se é faca a m etáfora
do que leva no m úsculo,
facas dentro de um hom em
dão-lhe m aior im pulso.
O fio de um a faca
m ordendo o corpo hum ano
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai arm ando,
pois lhe m antendo vivas
todas as m olas da alm a
dá-lhes ím peto de lâm ina
e cio de arm a branca,
além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,
com o naquela história
por alguém referida
de um hom em que se fez
m em ória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palm a
o peso de um a m ão,
fem inina, apertada.
H
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, m ais, a faca.
Os hom ens que em geral
lidam nessa oficina
têm no alm oxarifado
só palavras extintas:
um as que se asfixiam
por debaixo do pó,
outras despercebidas
em m eio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o m etal
e a areia que detém a atenção que lê m al.
Pois som ente essa faca
dará a tal operário
olhos m ais frescos para
o seu vocabulário
e som ente essa faca
e o exem plo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um m aterial doente
o que em todas as facas
é a m elhor qualidade:
a agudeza feroz,
certa eletricidade,
m ais a violência lim pa
que elas têm , tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas.
I
Essa lâm ina adversa,
com o o relógio ou a bala,
se torna m ais alerta
todo aquele que a guarda,
sabe acordar tam bém
os obj etos em torno
e até os próprios líquidos
podem adquirir ossos.
E tudo o que era vago,
toda frouxa m atéria,
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.
Em volta tudo ganha
a vida m ais intensa,
com nitidez de agulha
e presença de vespa.
Em cada coisa o lado que corta se revela,
e elas que pareciam
redondas com o a cera
despem -se agora do
caloso da rotina,
pondo-se a funcionar
com todas suas quinas.
Pois entre tantas coisas
que tam bém j á não dorm em ,
o hom em a quem a faca
corta e em presta seu corte,
sofrendo aquela lâm ina
e seu j ato tão frio,
passa, lúcido e insone,
vai fio contra fios.
•
De volta dessa faca,
amiga ou inimiga,
que mais condensa o homem
quanto mais o mastiga;
de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;
da imagem em que mais
me detive, a da lâmina,
porque é de todas elas
certamente a mais ávida;
pois de volta da faca
se sobe à outra imagem,
àquela de um relógio
picando sob a carne,
e dela àquela outra,
a primeira, a da bala,
que tem o dente grosso porém forte a dentada
e daí à lembrança
que vestiu tais imagens
e é muito mais intensa
do que pôde a linguagem,
e afinal à presença
da realidade, prima,
que gerou a lembrança
e ainda a gera, ainda,
por fim à realidade,
prima, e tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta.