Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 22 de 25

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Morte e Vida Severina

Uma Faca Só Lâmina

Para Vinicius de Moraes

 

Assim como uma bala

enterrada no corpo,

fazendo mais espesso

um dos lados do morto;

assim como uma bala

do chumbo mais pesado,

no músculo de um homem

pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse

um vivo mecanismo,

bala que possuísse

um coração ativo

igual ao de um relógio

submerso em algum corpo,

ao de um relógio vivo

e também revoltoso,

relógio que tivesse

o gume de uma faca

e toda a impiedade

de lâmina azulada;

assim como uma faca

que sem bolso ou bainha

se transformasse em parte

de vossa anatomia;

qual uma faca íntima

ou faca de uso interno,

habitando num corpo

como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,

e sempre, doloroso, de homem que se ferisse

contra seus próprios ossos.

A

Sej a bala, relógio,

ou a lâm ina colérica,

é contudo um a ausência

o que esse hom em leva.

Mas o que não está

nele está com o bala:

tem o ferro do chum bo,

m esm a fibra com pacta.

Isso que não está

nele é com o um relógio

pulsando em sua gaiola,

sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está

nele está com o a ciosa

presença de um a faca,

de qualquer faca nova.

Por isso é que o m elhor

dos sím bolos usados

é a lâm ina cruel

(m elhor se de Pasm ado):

porque nenhum indica

essa ausência tão ávida

com o a im agem da faca

que só tivesse lâm ina,

nenhum m elhor indica

aquela ausência sôfrega

que a im agem de um a faca

reduzida à sua boca,

que a im agem de um a faca

entregue inteiram ente

à fom e pelas coisas

que nas facas se sente.

B

Das m ais surpreendentes

é a vida de tal faca:

faca, ou qualquer m etáfora,

pode ser cultivada.

E m ais surpreendente

ainda é sua cultura:

m edra não do que com e

porém do que j ej ua.

Podes abandoná-la,

essa faca intestina:

j am ais a encontrarás

com a boca vazia.

Do nada ela destila

a azia e o vinagre

e m ais estratagem as

privativos dos sabres.

E com o faca que é,

fervorosa e enérgica,

sem aj uda dispara

sua m áquina perversa:

a lâm ina despida

que cresce ao se gastar,

que quanto m enos dorm e

quanto m enos sono há,

cuj o m uito cortar

lhe aum enta m ais o corte

e vive a se parir

em outras, com o fonte.

(Que a vida dessa faca

se m ede pelo avesso:

sej a relógio ou bala,

ou sej a a faca m esm o.)

C

Cuidado com o obj eto,

com o obj eto cuidado, m esm o sendo um a bala

desse chum bo ferrado,

porque seus dentes j á

a bala os traz rom budos

e com facilidade

se em botam m ais no m úsculo.

Mais cuidado porém

quando for um relógio

com o seu coração

aceso e espasm ódico.

É preciso cuidado

por que não se acom passe

o pulso do relógio

com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido

não confunda a passada

com o sangue que bate

j á sem m order m ais nada.

Então se for a faca,

m aior sej a o cuidado:

a bainha do corpo

pode absorver o aço.

Tam bém seu corte às vezes

tende a tornar-se rouco

e há casos em que ferros

degeneram em couro.

O im portante é que a faca

o seu ardor não perca

e tam pouco a corrom pa

o cabo de m adeira.

D

Pois essa faca às vezes

por si m esm a se apaga.

É a isso que se cham a

m aré-baixa da faca.

Talvez que não se apague

e som ente adorm eça.

Se a im agem é relógio,

a sua abelha cessa.

Mas quer durm a ou se apague:

ao calar tal m otor,

a alm a inteira se torna

de um alcalino teor

bem sem elhante à neutra

substância, quase feltro,

que é a das alm as que não

têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâm ina,

sua cham a antes acesa,

e o relógio nervoso

e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo

de lâm ina que cega:

faz-se faca, relógio

ou bala de m adeira,

bala de couro ou pano,

ou relógio de breu,

faz-se faca sem vértebras,

faca de argila ou m el.

(Porém quando a m aré

j á nem se espera m ais,

eis que a faca ressurge

com todos seus cristais.)

E

Forçoso é conservar

a faca bem oculta,

pois na um idade pouco

seu relâm pago dura

(na um idade que criam

salivas de conversas,

tanto m ais pegaj osas quanto m ais confidências).

Forçoso é esse cuidado

m esm o se não é faca

a brasa que te habita

e sim , relógio ou bala.

Não suportam tam bém

todas as atm osferas:

sua carne selvagem

quer câm aras severas.

Mas se deves sacá-los

para m elhor sofrê-los,

que sej a em algum páram o

ou agreste de ar aberto.

Mas nunca sej a ao ar

que pássaros habitem .

Deve ser a um ar duro,

sem som bra e sem vertigem .

E nunca sej a à noite,

que esta tem as m ãos férteis.

Aos ácidos do sol

sej a, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol

que faz de aram e as ervas,

que faz de esponj a o vento

e faz de sede a terra.

F

Quer sej a aquela bala

ou outra qualquer im agem ,

sej a m esm o um relógio

a ferida que guarde,

ou ainda um a faca

que só tivesse lâm ina,

de todas as im agens

a m ais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo poderá retirá-la,

não im porta se é bala

nem se é relógio ou faca,

nem im porta qual sej a

a raça dessa lâm ina:

faca m ansa de m esa,

feroz pernam bucana.

E se não a retira

quem sofre sua rapina,

m enos pode arrancá-la

nenhum a m ão vizinha.

Não pode contra ela

a inteira m edicina

de facas num erais

e aritm éticas pinças.

Nem ainda a polícia

com seus cirurgiões

e até nem m esm o o tem po

com os seus algodões.

E nem a m ão de quem

sem o saber plantou

bala, relógio ou faca,

im agens de furor.

G

Essa bala que um hom em

leva às vezes na carne

faz m enos rarefeito

todo aquele que a guarde.

O que um relógio im plica

por indócil e inseto

encerrado no corpo

faz este m ais desperto.

E se é faca a m etáfora

do que leva no m úsculo,

facas dentro de um hom em

dão-lhe m aior im pulso.

O fio de um a faca

m ordendo o corpo hum ano

de outro corpo ou punhal

tal corpo vai arm ando,

pois lhe m antendo vivas

todas as m olas da alm a

dá-lhes ím peto de lâm ina

e cio de arm a branca,

além de ter o corpo

que a guarda crispado,

insolúvel no sono

e em tudo quanto é vago,

com o naquela história

por alguém referida

de um hom em que se fez

m em ória tão ativa

que pôde conservar

treze anos na palm a

o peso de um a m ão,

fem inina, apertada.

H

Quando aquele que os sofre

trabalha com palavras,

são úteis o relógio,

a bala e, m ais, a faca.

Os hom ens que em geral

lidam nessa oficina

têm no alm oxarifado

só palavras extintas:

um as que se asfixiam

por debaixo do pó,

outras despercebidas

em m eio a grandes nós;

palavras que perderam

no uso todo o m etal

e a areia que detém a atenção que lê m al.

Pois som ente essa faca

dará a tal operário

olhos m ais frescos para

o seu vocabulário

e som ente essa faca

e o exem plo de seu dente

lhe ensinará a obter

de um m aterial doente

o que em todas as facas

é a m elhor qualidade:

a agudeza feroz,

certa eletricidade,

m ais a violência lim pa

que elas têm , tão exatas,

o gosto do deserto,

o estilo das facas.

I

Essa lâm ina adversa,

com o o relógio ou a bala,

se torna m ais alerta

todo aquele que a guarda,

sabe acordar tam bém

os obj etos em torno

e até os próprios líquidos

podem adquirir ossos.

E tudo o que era vago,

toda frouxa m atéria,

para quem sofre a faca

ganha nervos, arestas.

Em volta tudo ganha

a vida m ais intensa,

com nitidez de agulha

e presença de vespa.

Em cada coisa o lado que corta se revela,

e elas que pareciam

redondas com o a cera

despem -se agora do

caloso da rotina,

pondo-se a funcionar

com todas suas quinas.

Pois entre tantas coisas

que tam bém j á não dorm em ,

o hom em a quem a faca

corta e em presta seu corte,

sofrendo aquela lâm ina

e seu j ato tão frio,

passa, lúcido e insone,

vai fio contra fios.

•

De volta dessa faca,

amiga ou inimiga,

que mais condensa o homem

quanto mais o mastiga;

de volta dessa faca

de porte tão secreto

que deve ser levada

como o oculto esqueleto;

da imagem em que mais

me detive, a da lâmina,

porque é de todas elas

certamente a mais ávida;

pois de volta da faca

se sobe à outra imagem,

àquela de um relógio

picando sob a carne,

e dela àquela outra,

a primeira, a da bala,

que tem o dente grosso porém forte a dentada

e daí à lembrança

que vestiu tais imagens

e é muito mais intensa

do que pôde a linguagem,

e afinal à presença

da realidade, prima,

que gerou a lembrança

e ainda a gera, ainda,

por fim à realidade,

prima, e tão violenta

que ao tentar apreendê-la

toda imagem rebenta.