Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 11 de 25

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Morte e Vida Severina

Encontro com um poeta

Em certo lugar da Mancha,

onde m ais dura é Castela,

sob as espécies de um vento

soprando arm ado de areia,

vim surpreender a presença,

m ais do que pensei, severa,

de certo Miguel Hernández,

hortelão de Orihuela.

A voz desse tal Miguel,

entre palavras e terra

indecisa, com o em Fraga

as casas o estão da terra,

foi um dia arquitetura,

foi voz m étrica de pedra,

tal com o, cristalizada,

surge Madrid a quem chega.

Mas a voz que percebi

no vento da param eira

era de terra sofrida

e batida, terra de eira.

Não era a voz expurgada

de suas obras seletas:

era um a edição do vento,

que não vai às bibliotecas,

era um a edição incôm oda,

a que se fecha a j anela,

incôm oda porque o vento

não censura m as libera.

A voz que então percebi

no vento da param eira

era aquela voz final

de Miguel, rouca de guerra

(talvez ainda m ais aguda

no sotaque da poeira;

talvez m ais dilacerada

quando o vento a interpreta).

Vi então que a terra batida

do fim da vida do poeta,

terra que de tão sofrida

acabou virando pedra,

se havia m ultiplicado

naquelas facas de areia e que, se m ultiplicando,

m ultiplicara as arestas.

Naquela edição do vento

senti a voz m ais direta:

igual que árvore am putada,

ganhara gum es de pedra.