Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 5 de 25

Páginas do PDF

Morte e Vida Severina

Imagens em Castela

Im agens em Castela

Se alguém procura a im agem

da paisagem de Castela

procure no dicionário:

meseta provém de m esa.

É um a paisagem em largura,

de qualquer lado infinita.

É um a m esa sem nada

e horizontes de m arinha

posta na sala deserta

de um a am pla casa vazia,

casa aberta e sem paredes,

rasa aos espaços do dia.

Na casa sem pé-direito,

na m esa sem serventia,

apenas, com seu cachorro,

vem sentar-se a ventania.

E quando não é a m esa

sem toalha e sem terrina,

a paisagem de Castela

num grande palco se am plia:

no palco raso, sem fundo,

só horizonte, do teatro

para a ópera que as nuvens

dão ali em espetáculo:

palco raso e sem fundo,

palco que só fosse chão,

agora só freqüentado

pelo vento e por seu cão.

No m ais, não é Castela

m esa nem palco, é o pão:

a m esm a crosta queim ada,

o m esm o pardo no chão;

aquele m esm o equilíbrio,

de seco e úm ido, do pão,

terra de águas contadas

onde é m ais contado o grão;

aquela m aciez sofrida

que se pode ver no pão

e em tudo o que o hom em faz

diretam ente com a m ão.

E m ais: por dentro, Castela

tem aquela dim ensão

dos hom ens de pão escasso,

sua calada condição.