Morte e Vida Severina
Diálogo
A J. P. Moreira da Fonseca
A — O canto da Andaluzia
é agudo com seta
no instante de disparar
ainda m ais aguda e reta.
B — Mas quem atira essa seta
de tão penetrante fio
pensa que a faca m elhor
é a que recorta o vazio.
A — É um canto em que se sente
o que um a espada no frio,
desem bainhada, sem m esm o
ter ferrugem com o abrigo.
B — Mas é espada que não corta
e que som ente se afia,
que deserta se incendeia
em cham a que arde sozinha.
A — Tem alfinetes nas veias
que nas veias se atropelam ,
tem m antas de carne viva
cobrindo sua alm a inteira.
B — Mas o tim bre desse canto
que acende na própria alm a
o cantor da Andaluzia
procura-o no puro nada,
com o à procura do nada
é a luta tam bém vazia
entre o toureiro e o touro,
vazia, em bora precisa,
em que se busca afiar
em terrível parceria
no fio agudo de facas
o fio frágil da vida.
A — Até o dia em que essa lâm ina
abandone seu deserto,
encontre o avesso do nada,
tenha enfim seu obj eto.
Até o dia em que essa lâm ina,
essa agudeza desperta,
ache, no avesso do nada,
o uso que as facas com pleta.