Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 17 de 25

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Morte e Vida Severina

Diálogo

A J. P. Moreira da Fonseca

A — O canto da Andaluzia

é agudo com seta

no instante de disparar

ainda m ais aguda e reta.

B — Mas quem atira essa seta

de tão penetrante fio

pensa que a faca m elhor

é a que recorta o vazio.

A — É um canto em que se sente

o que um a espada no frio,

desem bainhada, sem m esm o

ter ferrugem com o abrigo.

B — Mas é espada que não corta

e que som ente se afia,

que deserta se incendeia

em cham a que arde sozinha.

A — Tem alfinetes nas veias

que nas veias se atropelam ,

tem m antas de carne viva

cobrindo sua alm a inteira.

B — Mas o tim bre desse canto

que acende na própria alm a

o cantor da Andaluzia

procura-o no puro nada,

com o à procura do nada

é a luta tam bém vazia

entre o toureiro e o touro,

vazia, em bora precisa,

em que se busca afiar

em terrível parceria

no fio agudo de facas

o fio frágil da vida.

A — Até o dia em que essa lâm ina

abandone seu deserto,

encontre o avesso do nada,

tenha enfim seu obj eto.

Até o dia em que essa lâm ina,

essa agudeza desperta,

ache, no avesso do nada,

o uso que as facas com pleta.