Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 6 de 25

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Morte e Vida Severina

O vento no canavial

Não se vê no canavial

nenhum a planta com nom e,

nenhum a planta m aria,

planta com nom e de hom em .

É anônim o o canavial,

sem feições, com o a cam pina;

é com o um m ar sem navios,

papel em branco de escrita.

É com o um grande lençol

sem dobras e sem bainha;

penugem de m oça ao sol,

roupa lavada estendida.

Contudo há no canavial

oculta fisionom ia:

com o em pulso de relógio

há possível m elodia,

ou com o de um avião

a paisagem se organiza,

ou há finos desenhos nas

pedras da praça vazia.

Se venta no canavial

estendido sob o sol

seu tecido inanim ado

faz-se sensível lençol,

se m uda em bandeira viva,

de cor verde sobre verde,

com estrelas verdes que

no verde nascem , se perdem .

Não lem bra o canavial,

então, as praças vazias:

não tem , com o têm as pedras,

disciplina de m ilícias.

É solta sua sim etria:

com o a das ondas na areia

ou as ondas da m ultidão

lutando na praça cheia.

Então, é da praça cheia

que o canavial é a im agem :

vêem -se as m esm as correntes

que se fazem e desfazem ,

voragens que se desatam ,

redem oinhos iguais,

estrelas iguais àquelas

que o povo na praça faz.