Morte e Vida Severina
O Rio
“Quiero que compongamos io
e tú una prosa.”
BERCEO
Da lagoa da Estaca a Apolinário
Sem pre pensara em ir
cam inho do m ar.
Para os bichos e rios
nascer j á é cam inhar.
Eu não sei o que os rios
têm de hom em do m ar;
sei que se sente o m esm o
e exigente cham ar.
Eu j á nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraibeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, tam bém com o gente,
não consigo m e lem brar
dessas prim eiras léguas
de m eu cam inhar).
Desde tudo que lem bro,
lem bro-m e bem de que baixava
entre terras de sede
que das m argens m e vigiavam .
Rio m enino, eu tem ia
aquela grande sede de palha,
grande sede sem fundo
que águas m eninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
cam inho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bocas m ultiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio m enino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêm eas da Mata.
Notícia do Alto Sertão Por trás do que lem bro,
ouvi de um a terra desertada,
vaziada, não vazia,
m ais que seca, calcinada.
De onde tudo fugia,
onde só pedra é que ficava,
pedras e poucos hom ens
com raízes de pedra, ou de cabra.
Lá o céu perdia as nuvens
derradeiras de suas aves;
as árvores, a som bra,
que nelas j á não pousava.
Tudo o que não fugia,
gaviões, urubus, plantas bravas,
a terra devastada
ainda m ais fundo devastava.
A estrada da ribeira
Com o aceitara ir
no m eu destino de m ar,
preferi essa estrada,
para lá chegar,
que dizem da ribeira
e à costa vai dar,
que deste m ar de cinza
vai a um m ar de m ar;
preferi essa estrada
de m uito dobrar,
estrada bem segura
que não tem errar
pois é a que toda a gente
costum a tom ar
(na gente que regressa
sente-se cheiro de m ar).
De Apolinário a Poço Fundo
Para o m ar vou descendo
por essa estrada da ribeira.
A terra vou deixando de m inha infância prim eira.
Vou deixando um a terra
reduzida à sua areia,
terra onde as coisas vivem
a natureza da pedra.
À m ão direita os erm os
do Brej o da Madre de Deus,
Taquaritinga à esquerda,
onde o erm o é sem pre o m esm o.
Brej o ou Taquaritinga,
m ão direita ou m ão esquerda,
vou entre coisas poucas
e secas além de sua pedra.
Deixando vou as terras
de m inha prim eira infância.
Deixando para trás
os nom es que vão m udando.
Terras que eu abandono
porque é de rio estar passando.
Vou com passo de rio,
que é de barco navegando.
Deixando para trás
as fazendas que vão ficando.
Vendo-as, enquanto vou,
parece que estão desfilando.
Vou andando lado a lado
de gente que vai retirando;
vou levando com igo
os rios que vou encontrando.
Os rios
Os rios que eu encontro
vão seguindo com igo.
Rios são de água pouca,
em que a água sem pre está por um fio.
Cortados no verão
que faz secar todos os rios.
Rios todos com nom e
e que abraço com o a am igos.
Uns com nom e de gente,
outros com nom e de bicho, uns com nom e de santo,
m uitos só com apelido.
Mas todos com o a gente
que por aqui tenho visto:
a gente cuj a vida
se interrom pe quando os rios.
De Poço Fundo a Couro d’Anta
A gente não é m uita
que vive por esta ribeira.
Vê-se algum a caieira
tocando fogo ainda m ais na terra;
vê-se algum a fazenda
com suas casas desertas:
vêm para a beira da água
com o bichos com sede.
As vilas não são m uitas
e quase todas estão decadentes.
Constam de poucas casas
e de um a pequena igrej a,
com o, no Itinerário,
j á as descrevia Frei Caneca.
Nenhum a tem escola;
m uito poucas possuem feira.
As vilas vão passando
com seus santos padroeiros.
Prim eiro é Poço Fundo,
onde Santo Antônio tem capela.
Depois é Santa Cruz
onde ao Senhor Bom Jesus se reza.
Toritam a, antes Torres,
fez para a Conceição sua igrej a.
A vila de Capado
cham a-se pela sua nova capela.
Em Topada, a igrej a
com um cem itério se com pleta.
No lugar Couro d’Anta,
a Conceição tam bém se celebra.
Sem pre um santo preside
à decadência de cada um a delas.
A estrada da Paraíba
Depois de Santa Cruz,
que agora é Capibaribe,
encontro um a outra estrada
que desce da Paraíba.
Saltando o Cariri
e a serra de Taquaritinga,
na estrada da ribeira
ela deságua com o num rio.
Juntos, na da ribeira,
continuam os, a estrada e o rio,
agora com m ais gente:
a que por aquela estrada descia.
Lado a lado com gente
viaj am os em com panhia.
Todos rum o do m ar
e do Recife esse navio.
Na estrada da ribeira
até o m ar ancho vou.
Lado a lado com gente,
no m eu andar sem rum or.
Não é estrada curta,
m as é a estrada m elhor,
porque na com panhia
de gente é que sem pre vou.
Sou viaj ante calado,
para ouvir histórias bom ,
a quem podeis falar
sem que eu tente m e interpor;
j unto de quem podeis
pensar alto, falar só.
Sem pre em qualquer viagem
o rio é o com panheiro m elhor.
Do riacho das Éguas ao ribeiro do Mel
Caruaru e Vertentes
na outra m anhã abandonei.
Agora é Surubim ,
que fica do lado esquerdo.
A seguir João Alfredo, que tam bém passa longe e não vej o.
Enquanto na direita
tudo são terras de Lim oeiro.
Meu cam inho divide,
de nom e, as terras que desço.
Entretanto a paisagem ,
com tantos nom es, é quase a m esm a.
A m esm a dor calada,
o m esm o soluço seco,
m esm a m orte de coisa
que não apodrece m as seca.
Coronéis padroeiros
vão desfilando com cada vila.
Passam Cheos, Malhadinha,
m uito pobres e sem vida.
Depois é Salgadinho
com pobres águas curativas.
Depois é São Vicente,
m uito m orta e m uito antiga.
Depois, Pedra Tapada,
com poucos votos e pouca vida.
Depois de Pirauíra,
é um só arruado seguido,
partido em m uitos nom es,
m as todo ele pobre e sem vida
(que só há esta resposta
à ladainha dos nom es dessas vilas).
Terras de Limoeiro
Vou na m esm a paisagem
reduzida à sua pedra.
A vida veste ainda
sua m ais dura pele.
Só que aqui há m ais hom ens
para vencer tanta pedra,
para am assar com sangue
os ossos duros desta terra.
E, se aqui há m ais hom ens,
esses hom ens m elhor conhecem
com o obrigar o chão
com plantas que com em pedra.
Há aqui hom ens m ais hom ens
que em sua luta contra a pedra
sabem com o se arm ar
com as qualidades da pedra.
Dias depois, Lim oeiro,
cortada a faca na ribanceira.
É a cidade m elhor,
tem cada sem ana duas feiras.
Tem a rua m aior,
tem tam bém aquela cadeia
que Sebastião Galvão
cham ou de segura e m uito bela.
Tem m elhores fazendas,
tem inúm eras bolandeiras
onde trabalha a gente
para quem se fez aquela cadeia.
Tem a igrej a m aior,
que tam bém é a m ais feia,
e a serra do Urubu
onde desses sím bolos negros.
Porém bastante sangue
nunca existe guardado em veias
para am assar a terra
que seca até sua funda pedra.
Nunca bastantes rios
m atarão tam anha sede,
ainda escancarada,
ainda sem fundo e de areia.
Pois, aqui, em Lim oeiro,
com seu trem , sua ponte de ferro,
com seus algodoais,
com suas carrapateiras,
persiste a m esm a sede,
ainda sem fundo, de palha ou areia,
bebendo tantos riachos
extraviados pelas capoeiras.
De Limoeiro a Ilhetas
Deixando vou agora
esta cidade de Lim oeiro.
Passa Ribeiro Fundo,
onde só vivem ferreiros,
gente dura que faz
essas m ãos m ais duras de ferro
com que se obriga a terra
a entregar seu fruto secreto.
Passa depois Boi-Seco,
Feiticeiro, Gam eleira, Ilhetas,
pequenos arruados
plantados em terra alheia,
onde vivem as m ãos
que calçando as outras, de ferro,
vão arrancar da terra
os alheios frutos do alheio.
O trem de ferro
Agora vou deixando
o m unicípio de Lim oeiro.
Lá dentro da cidade
havia encontrado o trem de ferro.
Faz a viagem do m ar,
m as não será m eu com panheiro,
apesar dos cam inhos
que quase sem pre vão paralelos.
Sobre seu leito liso,
com seu fôlego de ferro,
lá no m ar do Arrecife
ele chegará m uito prim eiro.
Sou um rio de várzea,
não posso ir tão ligeiro.
Mesm o que o m ar os cham e,
os rios, com o os bois, são ronceiros.
Outra vez ouço o trem
ao m e aproxim ar de Carpina.
Vai passar na cidade,
vai pela chã, lá por cim a.
Detém -se raram ente,
pois que sem pre está fugindo,
esquivando apressado
as coisas de seu cam inho.
Diversa da dos trens é a viagem que fazem os rios:
convivem com as coisas
entre as quais vão fluindo;
dem oram nos rem ansos
para descansar e dorm ir;
convivem com a gente
sem se apressar em fugir.
De Ilhetas ao Petribu
Parece que ouço agora
que vou deixando o Agreste:
“Rio Capibaribe,
que m au cam inho escolheste.
Vens de terras de sola,
curtidas de tanta sede,
vais para terra pior,
que apodrece sob o verde.
Se aqui tudo secou
até seu osso de pedra,
se a terra é dura, o hom em
tem pedra para defender-se.
Na Mata, a febre, a fom e
até os ossos am olecem .”
Penso: o rum o do m ar
sem pre é o m elhor para quem desce.
Encontro com o canavial
No outro dia deixava
o Agreste, na Chã do Carpina.
Entrava por Paudalho,
terra j á de cana e de usinas.
Via plantas de cana
com sua cabeleira, ou crina,
m uita folha de cana
com sua lâm ina fina,
m uita soca de cana
com sua aparência franzina,
e canas com pendões
que são as canas m aninhas.
Com o terras de cana,
são m uito m ais brandas e fem ininas.
Foram terras de engenho,
agora são terras de usina.
Outros rios
Foram terras de engenho,
agora são terras de usina.
É o que contam os rios
que vou encontrando por aqui.
Rios bem diferentes
daqueles que j á viaj am com igo.
A estes tam bém abraço
com abraço líquido e am igo.
Os prim eiros porém
nenhum a palavra respondiam .
Debaixo do silêncio
eu não sei o que traziam .
Nenhum deles tam bém
antecipar sequer parecia
o ancho m ar do Recife
que os estava aguardando um dia.
Prim eiro é o Petribu,
que trabalha para um a usina.
Trabalham para engenhos
o Apuá e o Cursaí.
O Cum be e o Caj ueiro
cresceram , com o o Cam ilo,
entre cassacos do eito,
no m esm o duro serviço.
Depois é o Muçurepe,
que trabalha para outra usina.
Depois vem o Goitá,
dos lados da Chã da Alegria.
Então, o Tapacurá,
dos lados da Luz, freguesia
da gente do escrivão
que foi escrevendo o que eu dizia.
Conversa de rios
Só após algum cam inho
é que alguns contam seu segredo.
Contam por que possuem
aquela pele tão espessa;
por que todos cam inham
com aquele ar descalço de negros;
por que descem tão tristes
arrastando lam a e silêncio.
A história é um a só
que os rios sabem dizer:
a história dos engenhos
com seus fogos a m orrer.
Nelas existe sem pre
um a usina e um bangüê:
a usina com sua boca,
com suas várzeas o bangüê.
A usina possui sem pre
um a m oenda de nom e inglês;
o engenho, só a terra
conhecida com o m assapê.
E o que não pode entrar
nas m oendas de nom e inglês
a usina vai m oendo
com m uitos outros m eios de m oer.
A usina tem urtigas,
a usina tem m orcegos,
que ela pode soltar
com o am estrados exércitos
para aj udar o tem po
que vai roendo os engenhos,
com o toda j á roeu
a casa-grande do Poço do Aleixo.
Do Petribu ao Tapacurá
As coisas não são m uitas
que vou encontrando neste cam inho.
Tudo planta de cana
nos dois lados do cam inho;
e m ais plantas de cana nos dois lados dos cam inhos
por onde os rios descem
que vou encontrando neste cam inho;
e outras plantas de cana
há nas ribanceiras dos outros rios
que estes encontraram
antes de se encontrarem com igo.
Tudo planta de cana
e assim até o infinito;
tudo planta de cana
para um a só boca de usina.
As casas não são m uitas
que por aqui tenho encontrado
(os povoados são raros
que a cana não tenha expulsado).
Poucas tem Rosarinho
e Desterro, que está pegado.
Paudalho, que é m aior,
está m enos am eaçada,
Paudalho essa cidade
construída dentro de um valado,
com sua ponte de ferro
que eu atravesso de um salto.
Santa Rita é depois,
onde os trens fazem parada:
só com m edo dos trens
é que o canavial não a assalta.
Descoberta da Usina
Até este dia, usinas
eu não havia encontrado.
Petribu, Muçurepe,
para trás tinham ficado,
porém o m eu cam inho
passa por ali m uito apressado.
De usina eu conhecia
o que os rios tinham contado.
Assim , quando da Usina
eu m e estava aproxim ando,
tom ei cam inho outro
do que vi o trem tom ar:
tom ei o da direita,
que a cam biteira vi tom ar,
pois eu queria a Usina
m ais de perto exam inar.
Vira usinas com er
as terras que iam encontrando;
com grandes canaviais
todas as várzeas ocupando.
O canavial é a boca
com que prim eiro vão devorando
m atas e capoeiras,
pastos e cercados;
com que devoram a terra
onde um hom em plantou seu roçado;
depois os poucos m etros
onde ele plantou sua casa;
depois o pouco espaço
de que precisa um hom em sentado;
depois os sete palm os
onde ele vai ser enterrado.
Muitos engenhos m ortos
haviam passado no m eu cam inho.
De porteira fechada,
quase todos foram engolidos.
Muitos com suas serras,
todos eles com seus rios,
rios de nom e igual
com o crias de casa, ou filhos.
Antes foram engenhos,
poucos agora são usinas.
Antes foram engenhos,
agora são im ensos partidos.
Antes foram engenhos,
com suas caldeiras vivas;
agora são inform es
partidos que nada identifica.
Encontro com a Usina
Mas na Usina é que vi
aquela boca m aior que existe por detrás
das bocas que ela plantou;
que com e o canavial
que contra as terras soltou;
que com e o canavial
e tudo o que ele devorou;
que com e o canavial
e as casas que ele assaltou;
que com e o canavial
e as caldeiras que sufocou.
Só na Usina é que vi
aquela boca m aior,
a boca que devora
bocas que devorar m andou.
Na vila da Usina
é que fui descobrir a gente
que as canas expulsaram
das ribanceiras e vazantes;
e que essa gente m esm a
na boca da Usina são os dentes
que m astigam a cana
que a m astigou enquanto gente;
que m astigam a cana
que m astigou anteriorm ente
as m oendas dos engenhos
que m astigavam antes outra gente;
que nessa gente m esm a,
nos dentes fracos que ela arrenda,
as m oendas estrangeiras
sua força m elhor assentam .
Por esta grande usina
olhando com cuidado eu vou,
que esta foi a usina
que toda esta Mata dom inou.
Num a usina se aprende
com o a carne m astiga o osso,
se aprende com o m ãos
am assam a pedra, o caroço;
num a usina se assiste
à vitória, de dor m aior,
do brando sobre o duro,
do grão am assando a m ó;
num a usina se assiste à vitória m aior e pior,
que é a de pedra dura
furada pelo suor.
Para trás vai ficando
a triste povoação daquela usina
onde vivem os dentes
com que a fábrica m astiga.
Dentes frágeis, de carne,
que não duram m ais de um dia;
dentes são que se com em
ao m astigar para a Com panhia;
de gente que, cada ano,
o tem po da safra é que vive,
que, na braça da vida,
tem m arcado curto o lim ite.
Vi hom ens de bagaço
enquanto por ali discorria;
vi hom ens de bagaço
que m orte úm ida em bebia.
E vi todas as m ortes
em que esta gente vivia:
vi a m orte por crim e,
pingando a hora na vigia;
a m orte por desastre,
com seus gum es tão precisos,
com o um braço se corta,
cortar bem rente m uita vida;
vi a m orte por febre,
precedida de seu assovio,
consum ir toda a carne
com um fogo que por dentro é frio.
Ali não é a m orte
de planta que seca, ou de rio:
é m orte que apodrece,
ali natural, pelo visto.
Da Usina a São Lourenço da Mata
Agora vou deixando
a povoação daquela usina.
Outra vez vou baixando entre infindáveis partidos;
entre os m ares de verde
que sabe pintar Cícero Dias,
pensando noutro engenho
devorado por outra usina;
entre colinas m ansas
de um a terra sem pre em cio,
que o vento, com carinho,
penteia, com o se sua filha.
Que nem ondas de m ar,
m ultiplicadas, elas se estendiam ;
com o ondas do m ar de m ar
que vou conhecer um dia.
À tarde deixo os m ares
daquela usina de usinas;
vou entrando nos m ares
de algum as outras usinas.
Sei que antes esses m ares
inúm eros se dividiam
até que um m ar m ais forte
os m ais fracos engolia
(hoj e só grandes m ares
a Mata inteira dom inam ).
Mas o m ar obedece
a um destino sem divisa,
e o grande m ar de cana,
com o o verdadeiro, algum dia,
será um a só água
em toda esta com um cercania.
De São Lourenço à Ponte de Prata
Vou pensando no m ar
que daqui ainda estou vendo;
em toda aquela gente
num a terra tão viva m orrendo.
Através deste m ar
vou chegando a São Lourenço,
que de longe é com o ilha
no horizonte de cana aparecendo;
através deste m ar,
com o um barco na corrente, m esm o sendo eu o rio,
que vou navegando parece.
Navegando este m ar,
até o Recife irei,
que as ondas deste m ar
som ente lá se detêm .
Ao entrar no Recife,
não pensem que entro só.
Entra com igo a gente
que com igo baixou
por essa velha estrada
que vem do interior;
entram com igo rios
a quem o m ar cham ou,
entra com igo a gente
que com o m ar sonhou,
e tam bém retirantes
em quem só o suor não secou;
e entra essa gente triste,
a m ais triste que j á baixou,
a gente que a usina,
depois de m astigar, largou.
Entra a gente que a usina
depois de m astigar largou;
entra aquele usineiro
que outro m aior devorou;
entra esse bangüezeiro
reduzido a fornecedor;
entra detrás um destes,
que agora é um sim ples m orador;
detrás, o m orador
que nova safra j á não fundou;
entra, com o cassaco,
esse antigo m orador;
entra enfim o cassaco,
que por todas aquelas bocas passou.
Detrás de cada boca,
ele vê que há um a boca m aior.
Da Ponte de Prata a Caxangá
A gente das usinas
foi m ais um afluente a engrossar
aquele rio de gente
que vem de além do Jacarará.
Pelo m esm o cam inho
que venho seguindo desde lá,
vam os j untos, dois rios,
cada um para seu m ar.
O trem outro cam inho
tom ou na Ponte de Prata;
foi por Tij ipió
e pelos m angues de Afogados.
Sem pre com retirantes,
vou pela Várzea e por Caxangá,
onde as últim as ondas
de cana se vêm espraiar.
Entra-se no Recife
pelo engenho São Francisco.
Já em terras da Várzea,
está São João, um a antiga usina.
Depois se atinge a Várzea,
a vila propriam ente dita,
com suas árvores velhas
que dão um a som bra tam bém antiga.
A seguir, Caxangá,
tam bém velha e recolhida,
onde com eça a estrada
dita Nova, ou de Iputinga,
que quase reta à cidade,
que é o m ar a que se destina,
leva a gente que veio
baixando em m inha com panhia.
Vou deixando à direita
aquela planície aterrada
que desde os pés de Olinda
até os m ontes Guararapes,
e que de Caxangá
até o m ar oceano,
para form ar o Recife
os rios vão sem pre atulhando.
Com água densa de terra
onde m uitas usinas urinaram ,
água densa de terra e de m uitas ilhas engravidada.
Com substância de vida
é que os rios a vão aterrando,
com esses lixos de vida
que os rios viem os carreando.
De Caxangá a Apipucos
Até aqui as últim as
ondas de cana não chegam .
Agora o vento sopra
em folhas de um outro verde.
Folhas m uito m ais finas
as brisas daqui penteiam .
São cabelos de m oças
que vêm cortar capinheiros;
são cabelos das m oças
ou dos bacharéis em direito
que devem habitar
naqueles sobrados tão pitorescos
(pois os cabelos da gente
que apodrece na lam a negra
geram folhas de m angue,
que são folhas duras e grosseiras).
De Apipucos à Madalena
Agora vou entrando
no Recife pitoresco,
sentim ental, histórico,
de Apipucos e do Monteiro;
do Poço da Panela,
da Casa Forte e do Caldeireiro,
onde há poças de tem po
estagnadas sob as m angueiras;
de Sant’Ana de Fora
e de Sant’Ana de Dentro,
das m uitas olarias,
rasas, se agachando do vento.
E m ais sentim ental,
histórico e pitoresco vai ficando o cam inho
a cam inho da Madalena.
Um velho cais roído
e um a fila de oitizeiros
há na curva m ais lenta
do cam inho pela Jaqueira,
onde (não m ais está)
um m enino bastante guenzo
de tarde olhava o rio
com o se film e de cinem a;
via-m e, rio, passar
com m eu variado cortej o
de coisas vivas, m ortas,
coisas de lixo e de despej o;
viu o m esm o boi m orto
que Manuel viu num a cheia,
viu ilhas navegando,
arrancadas das ribanceiras.
Vi m uitos arrabaldes
ao atravessar o Recife:
alguns na beira da água,
outros em deitadas colinas;
m uitos no alto de cais
com casarões de escadas para o rio;
todos sem pre ostentando
sua ulcerada alvenaria;
todos porém no alto
de sua gasta aristocracia;
todos bem orgulhosos,
não digo de sua poesia,
sim , da história dom éstica
que estuda para descobrir, nestes dias,
com o se palitavam
os dentes nesta freguesia.
As primeiras ilhas
Rasas na altura da água
com eçam a chegar as ilhas.
Muitas a m aré cobre
e horas m ais tarde ressuscita (sem pre depois que afloram
outra vez à luz do dia
voltam com chão m ais duro
do que o que dantes havia).
Rasas na altura da água
vê-se brotar outras ilhas:
ilhas ainda sem nom e,
ilhas ainda não de todo paridas.
Ilha Joana Bezerra,
do Leite, do Retiro, do Maruim :
o touro da m aré
a estas j á não precisa cobrir.
O outro Recife
Casas de lam a negra
há plantadas por essas ilhas
(na enchente da m aré
elas navegam com o ilhas);
casas de lam a negra
daquela cidade anfíbia
que existe por debaixo
do Recife contado em Guias.
Nela deságua a gente
(com o no m ar deságuam rios)
que de longe desceu
em m inha com panhia;
nela deságua a gente
de existência im precisa,
no seu chão de lam a
entre água e terra indecisa.
Dos Coelhos ao cais de Santa Rita
Mas deixo essa cidade:
dela m ais tarde contarei.
Vou naquele cam inho
que pelo hospital dos Coelhos,
por cais de que as vazantes
exibem gengivas negras,
leva àquele Recife de fundação holandesa.
Nele passam as pontes
de robustez portuguesa,
anúncios lum inosos
com m uitas palavras inglesas;
passa ainda a cadeia,
passa o Palácio do Governo,
am bos robustos, sólidos,
plantados no chão m ais seco.
Rio lento de várzea,
vou agora ainda m ais lento,
que agora m inhas águas
de tanta lam a m e pesam .
Vou agora tão lento,
porque é pesado o que carrego:
vou carregado de ilhas
recolhidas enquanto desço;
de ilhas de terra preta,
im agem do hom em aqui de perto
e do hom em que encontrei
no m eu com prido traj eto
(tam bém a dor desse hom em
m e im põe essa passada de doença,
arrastada, de lam a,
e assim cuidadosa e atenta).
Vão desfilando cais
com seus sobrados ossudos.
Passam m uitos sobrados
com seus telhados agudos.
Passam , m uito m ais baixos,
os arm azéns de açúcar do Brum .
Passam m uitas barcaças
para Itapissum a, Igaraçu.
No cais de Santa Rita,
enquanto vou norte-sul,
surge o m ar, afinal,
com o enorm e m ontanha azul.
No cais, Joaquim Cardozo
m orou e aprendeu a luz
das costas do Nordeste,
m ineral de tanto azul.
As duas cidades
Mas antes de ir ao m ar,
onde m inha fala se perde,
vou contar da cidade
habitada por aquela gente
que veio m eu cam inho
e de quem fui o confidente.
Lá pelo Beberibe
aquela cidade tam bém se estende,
pois sem pre j unto aos rios
prefere se fixar aquela gente;
sem pre perto dos rios,
com panheiros de antigam ente,
com o se não pudessem
por um m inuto som ente
dispensar a presença
de seus conhecidos de sem pre.
Conheço todos eles,
do Agreste e da Caatinga;
gente tam bém da Mata,
vom itada pelas usinas;
gente tam bém daqui
que trabalha nestas usinas,
que aqui não m oem cana,
m oem coisas m uito m ais finas.
Muitas eu vi passar:
fábricas, com o aqui se apelidam ;
têm bueiro com o usina,
são iguais tam bém por fam intas.
Só que as enorm es bocas
que existem aqui nestas usinas
encontram m uitas pedras
dentro de sua farinha.
A gente da cidade
que há no avesso do Recife
tem em m im um am igo,
seu com panheiro m ais íntim o.
Vivo com esta gente,
entro-lhes pela cozinha;
com o bicho de casa
penetro nas cam arinhas.
As vilas que passei sem pre abracei com o am igo;
desta vila de lam a
é que sou m ais do que am igo:
sou o am ante, que abraça
com corpo m ais confundido;
sou o am ante, com ela
leito de lam a divido.
Tudo o que encontrei
na m inha longa descida,
m ontanhas, povoados,
caieiras, viveiros, olarias,
m esm o esses pés de cana
que tão iguais m e pareciam ,
tudo levava um nom e
com que poder ser conhecido.
A não ser esta gente
que pelos m angues habita:
eles são gente apenas
sem nenhum nom e que os distinga;
que os distinga na m orte
que aqui é anônim a e seguida.
São com o ondas de m ar,
um a só onda, e sucessiva.
A não ser esta cidade
que vim encontrar sob o Recife:
sua m etade podre
que com lam a podre se edifica.
É cidade sem nom e
sob a capital tão conhecida.
Se é tam bém capital,
será um a capital m endiga.
É cidade sem ruas
e sem casas que se diga.
De outra qualquer cidade
possui apenas polícia.
Desta capital podre
só as estatísticas dão notícia,
ao m edir sua m orte,
pois não há o que m edir em sua vida.
Conheço toda a gente
que deságua nestes alagados.
Não estão no nível de cais, vivem no nível da lam a e do pântano.
Gente de olho perdido
olhando-m e sem pre passar
com o se eu fosse trem
ou carro de viaj ar.
É gente que assim m e olha
desde o sertão do Jacarará;
gente que sem pre m e olha
com o se, de tanto m e olhar,
eu pudesse o m ilagre
de, num dia ainda por chegar,
levar todos com igo,
retirantes para o m ar.
Os dois mares
A um rio sem pre espera
um m ais vasto e ancho m ar.
Para a gente que desce
é que nem sem pre existe esse m ar,
pois eles não encontram
na cidade que im aginavam m ar
senão outro deserto
de pântanos perto do m ar.
Por entre esta cidade
ainda m ais lenta é m inha pisada;
retardo enquanto posso
os últim os dias da j ornada.
Não há talhas que ver,
m uito m enos o que tom bar:
há apenas esta gente
e m inha sim patia calada.
Oferenda
Já deixando o Recife
entro pelos cam inhos com uns do m ar:
entre barcos de longe,
sábios de m uito viaj ar;
j unto desta barcaça
que vai no rum o de Itam aracá;
lado a lado com rios
que chegam do Pina com o Jiquiá.
Ao partir com panhia
desta gente dos alagados
que lhe posso deixar,
que conselho, que recado?
Som ente a relação
de nosso com um retirar;
só esta relação
tecida em grosso tear.