Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto · Capítulo 2 de 25

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Morte e Vida Severina

O Rio

“Quiero que compongamos io

e tú una prosa.”

BERCEO

 

Da lagoa da Estaca a Apolinário

Sem pre pensara em ir

cam inho do m ar.

Para os bichos e rios

nascer j á é cam inhar.

Eu não sei o que os rios

têm de hom em do m ar;

sei que se sente o m esm o

e exigente cham ar.

Eu j á nasci descendo

a serra que se diz do Jacarará,

entre caraibeiras

de que só sei por ouvir contar

(pois, tam bém com o gente,

não consigo m e lem brar

dessas prim eiras léguas

de m eu cam inhar).

Desde tudo que lem bro,

lem bro-m e bem de que baixava

entre terras de sede

que das m argens m e vigiavam .

Rio m enino, eu tem ia

aquela grande sede de palha,

grande sede sem fundo

que águas m eninas cobiçava.

Por isso é que ao descer

cam inho de pedras eu buscava,

que não leito de areia

com suas bocas m ultiplicadas.

Leito de pedra abaixo

rio m enino eu saltava.

Saltei até encontrar

as terras fêm eas da Mata.

 

Notícia do Alto Sertão Por trás do que lem bro,

ouvi de um a terra desertada,

vaziada, não vazia,

m ais que seca, calcinada.

De onde tudo fugia,

onde só pedra é que ficava,

pedras e poucos hom ens

com raízes de pedra, ou de cabra.

Lá o céu perdia as nuvens

derradeiras de suas aves;

as árvores, a som bra,

que nelas j á não pousava.

Tudo o que não fugia,

gaviões, urubus, plantas bravas,

a terra devastada

ainda m ais fundo devastava.

 

A estrada da ribeira

Com o aceitara ir

no m eu destino de m ar,

preferi essa estrada,

para lá chegar,

que dizem da ribeira

e à costa vai dar,

que deste m ar de cinza

vai a um m ar de m ar;

preferi essa estrada

de m uito dobrar,

estrada bem segura

que não tem errar

pois é a que toda a gente

costum a tom ar

(na gente que regressa

sente-se cheiro de m ar).

 

De Apolinário a Poço Fundo

Para o m ar vou descendo

por essa estrada da ribeira.

A terra vou deixando de m inha infância prim eira.

Vou deixando um a terra

reduzida à sua areia,

terra onde as coisas vivem

a natureza da pedra.

À m ão direita os erm os

do Brej o da Madre de Deus,

Taquaritinga à esquerda,

onde o erm o é sem pre o m esm o.

Brej o ou Taquaritinga,

m ão direita ou m ão esquerda,

vou entre coisas poucas

e secas além de sua pedra.

Deixando vou as terras

de m inha prim eira infância.

Deixando para trás

os nom es que vão m udando.

Terras que eu abandono

porque é de rio estar passando.

Vou com passo de rio,

que é de barco navegando.

Deixando para trás

as fazendas que vão ficando.

Vendo-as, enquanto vou,

parece que estão desfilando.

Vou andando lado a lado

de gente que vai retirando;

vou levando com igo

os rios que vou encontrando.

 

Os rios

Os rios que eu encontro

vão seguindo com igo.

Rios são de água pouca,

em que a água sem pre está por um fio.

Cortados no verão

que faz secar todos os rios.

Rios todos com nom e

e que abraço com o a am igos.

Uns com nom e de gente,

outros com nom e de bicho, uns com nom e de santo,

m uitos só com apelido.

Mas todos com o a gente

que por aqui tenho visto:

a gente cuj a vida

se interrom pe quando os rios.

 

De Poço Fundo a Couro d’Anta

A gente não é m uita

que vive por esta ribeira.

Vê-se algum a caieira

tocando fogo ainda m ais na terra;

vê-se algum a fazenda

com suas casas desertas:

vêm para a beira da água

com o bichos com sede.

As vilas não são m uitas

e quase todas estão decadentes.

Constam de poucas casas

e de um a pequena igrej a,

com o, no Itinerário,

j á as descrevia Frei Caneca.

Nenhum a tem escola;

m uito poucas possuem feira.

As vilas vão passando

com seus santos padroeiros.

Prim eiro é Poço Fundo,

onde Santo Antônio tem capela.

Depois é Santa Cruz

onde ao Senhor Bom Jesus se reza.

Toritam a, antes Torres,

fez para a Conceição sua igrej a.

A vila de Capado

cham a-se pela sua nova capela.

Em Topada, a igrej a

com um cem itério se com pleta.

No lugar Couro d’Anta,

a Conceição tam bém se celebra.

Sem pre um santo preside

à decadência de cada um a delas.

A estrada da Paraíba

Depois de Santa Cruz,

que agora é Capibaribe,

encontro um a outra estrada

que desce da Paraíba.

Saltando o Cariri

e a serra de Taquaritinga,

na estrada da ribeira

ela deságua com o num rio.

Juntos, na da ribeira,

continuam os, a estrada e o rio,

agora com m ais gente:

a que por aquela estrada descia.

Lado a lado com gente

viaj am os em com panhia.

Todos rum o do m ar

e do Recife esse navio.

Na estrada da ribeira

até o m ar ancho vou.

Lado a lado com gente,

no m eu andar sem rum or.

Não é estrada curta,

m as é a estrada m elhor,

porque na com panhia

de gente é que sem pre vou.

Sou viaj ante calado,

para ouvir histórias bom ,

a quem podeis falar

sem que eu tente m e interpor;

j unto de quem podeis

pensar alto, falar só.

Sem pre em qualquer viagem

o rio é o com panheiro m elhor.

 

Do riacho das Éguas ao ribeiro do Mel

Caruaru e Vertentes

na outra m anhã abandonei.

Agora é Surubim ,

que fica do lado esquerdo.

A seguir João Alfredo, que tam bém passa longe e não vej o.

Enquanto na direita

tudo são terras de Lim oeiro.

Meu cam inho divide,

de nom e, as terras que desço.

Entretanto a paisagem ,

com tantos nom es, é quase a m esm a.

A m esm a dor calada,

o m esm o soluço seco,

m esm a m orte de coisa

que não apodrece m as seca.

Coronéis padroeiros

vão desfilando com cada vila.

Passam Cheos, Malhadinha,

m uito pobres e sem vida.

Depois é Salgadinho

com pobres águas curativas.

Depois é São Vicente,

m uito m orta e m uito antiga.

Depois, Pedra Tapada,

com poucos votos e pouca vida.

Depois de Pirauíra,

é um só arruado seguido,

partido em m uitos nom es,

m as todo ele pobre e sem vida

(que só há esta resposta

à ladainha dos nom es dessas vilas).

 

Terras de Limoeiro

Vou na m esm a paisagem

reduzida à sua pedra.

A vida veste ainda

sua m ais dura pele.

Só que aqui há m ais hom ens

para vencer tanta pedra,

para am assar com sangue

os ossos duros desta terra.

E, se aqui há m ais hom ens,

esses hom ens m elhor conhecem

com o obrigar o chão

com plantas que com em pedra.

Há aqui hom ens m ais hom ens

que em sua luta contra a pedra

sabem com o se arm ar

com as qualidades da pedra.

Dias depois, Lim oeiro,

cortada a faca na ribanceira.

É a cidade m elhor,

tem cada sem ana duas feiras.

Tem a rua m aior,

tem tam bém aquela cadeia

que Sebastião Galvão

cham ou de segura e m uito bela.

Tem m elhores fazendas,

tem inúm eras bolandeiras

onde trabalha a gente

para quem se fez aquela cadeia.

Tem a igrej a m aior,

que tam bém é a m ais feia,

e a serra do Urubu

onde desses sím bolos negros.

Porém bastante sangue

nunca existe guardado em veias

para am assar a terra

que seca até sua funda pedra.

Nunca bastantes rios

m atarão tam anha sede,

ainda escancarada,

ainda sem fundo e de areia.

Pois, aqui, em Lim oeiro,

com seu trem , sua ponte de ferro,

com seus algodoais,

com suas carrapateiras,

persiste a m esm a sede,

ainda sem fundo, de palha ou areia,

bebendo tantos riachos

extraviados pelas capoeiras.

 

De Limoeiro a Ilhetas

Deixando vou agora

esta cidade de Lim oeiro.

Passa Ribeiro Fundo,

onde só vivem ferreiros,

gente dura que faz

essas m ãos m ais duras de ferro

com que se obriga a terra

a entregar seu fruto secreto.

Passa depois Boi-Seco,

Feiticeiro, Gam eleira, Ilhetas,

pequenos arruados

plantados em terra alheia,

onde vivem as m ãos

que calçando as outras, de ferro,

vão arrancar da terra

os alheios frutos do alheio.

 

O trem de ferro

Agora vou deixando

o m unicípio de Lim oeiro.

Lá dentro da cidade

havia encontrado o trem de ferro.

Faz a viagem do m ar,

m as não será m eu com panheiro,

apesar dos cam inhos

que quase sem pre vão paralelos.

Sobre seu leito liso,

com seu fôlego de ferro,

lá no m ar do Arrecife

ele chegará m uito prim eiro.

Sou um rio de várzea,

não posso ir tão ligeiro.

Mesm o que o m ar os cham e,

os rios, com o os bois, são ronceiros.

Outra vez ouço o trem

ao m e aproxim ar de Carpina.

Vai passar na cidade,

vai pela chã, lá por cim a.

Detém -se raram ente,

pois que sem pre está fugindo,

esquivando apressado

as coisas de seu cam inho.

Diversa da dos trens é a viagem que fazem os rios:

convivem com as coisas

entre as quais vão fluindo;

dem oram nos rem ansos

para descansar e dorm ir;

convivem com a gente

sem se apressar em fugir.

 

De Ilhetas ao Petribu

Parece que ouço agora

que vou deixando o Agreste:

“Rio Capibaribe,

que m au cam inho escolheste.

Vens de terras de sola,

curtidas de tanta sede,

vais para terra pior,

que apodrece sob o verde.

Se aqui tudo secou

até seu osso de pedra,

se a terra é dura, o hom em

tem pedra para defender-se.

Na Mata, a febre, a fom e

até os ossos am olecem .”

Penso: o rum o do m ar

sem pre é o m elhor para quem desce.

 

Encontro com o canavial

No outro dia deixava

o Agreste, na Chã do Carpina.

Entrava por Paudalho,

terra j á de cana e de usinas.

Via plantas de cana

com sua cabeleira, ou crina,

m uita folha de cana

com sua lâm ina fina,

m uita soca de cana

com sua aparência franzina,

e canas com pendões

que são as canas m aninhas.

Com o terras de cana,

são m uito m ais brandas e fem ininas.

Foram terras de engenho,

agora são terras de usina.

 

Outros rios

Foram terras de engenho,

agora são terras de usina.

É o que contam os rios

que vou encontrando por aqui.

Rios bem diferentes

daqueles que j á viaj am com igo.

A estes tam bém abraço

com abraço líquido e am igo.

Os prim eiros porém

nenhum a palavra respondiam .

Debaixo do silêncio

eu não sei o que traziam .

Nenhum deles tam bém

antecipar sequer parecia

o ancho m ar do Recife

que os estava aguardando um dia.

Prim eiro é o Petribu,

que trabalha para um a usina.

Trabalham para engenhos

o Apuá e o Cursaí.

O Cum be e o Caj ueiro

cresceram , com o o Cam ilo,

entre cassacos do eito,

no m esm o duro serviço.

Depois é o Muçurepe,

que trabalha para outra usina.

Depois vem o Goitá,

dos lados da Chã da Alegria.

Então, o Tapacurá,

dos lados da Luz, freguesia

da gente do escrivão

que foi escrevendo o que eu dizia.

Conversa de rios

Só após algum cam inho

é que alguns contam seu segredo.

Contam por que possuem

aquela pele tão espessa;

por que todos cam inham

com aquele ar descalço de negros;

por que descem tão tristes

arrastando lam a e silêncio.

A história é um a só

que os rios sabem dizer:

a história dos engenhos

com seus fogos a m orrer.

Nelas existe sem pre

um a usina e um bangüê:

a usina com sua boca,

com suas várzeas o bangüê.

A usina possui sem pre

um a m oenda de nom e inglês;

o engenho, só a terra

conhecida com o m assapê.

E o que não pode entrar

nas m oendas de nom e inglês

a usina vai m oendo

com m uitos outros m eios de m oer.

A usina tem urtigas,

a usina tem m orcegos,

que ela pode soltar

com o am estrados exércitos

para aj udar o tem po

que vai roendo os engenhos,

com o toda j á roeu

a casa-grande do Poço do Aleixo.

 

Do Petribu ao Tapacurá

As coisas não são m uitas

que vou encontrando neste cam inho.

Tudo planta de cana

nos dois lados do cam inho;

e m ais plantas de cana nos dois lados dos cam inhos

por onde os rios descem

que vou encontrando neste cam inho;

e outras plantas de cana

há nas ribanceiras dos outros rios

que estes encontraram

antes de se encontrarem com igo.

Tudo planta de cana

e assim até o infinito;

tudo planta de cana

para um a só boca de usina.

As casas não são m uitas

que por aqui tenho encontrado

(os povoados são raros

que a cana não tenha expulsado).

Poucas tem Rosarinho

e Desterro, que está pegado.

Paudalho, que é m aior,

está m enos am eaçada,

Paudalho essa cidade

construída dentro de um valado,

com sua ponte de ferro

que eu atravesso de um salto.

Santa Rita é depois,

onde os trens fazem parada:

só com m edo dos trens

é que o canavial não a assalta.

 

Descoberta da Usina

Até este dia, usinas

eu não havia encontrado.

Petribu, Muçurepe,

para trás tinham ficado,

porém o m eu cam inho

passa por ali m uito apressado.

De usina eu conhecia

o que os rios tinham contado.

Assim , quando da Usina

eu m e estava aproxim ando,

tom ei cam inho outro

do que vi o trem tom ar:

tom ei o da direita,

que a cam biteira vi tom ar,

pois eu queria a Usina

m ais de perto exam inar.

Vira usinas com er

as terras que iam encontrando;

com grandes canaviais

todas as várzeas ocupando.

O canavial é a boca

com que prim eiro vão devorando

m atas e capoeiras,

pastos e cercados;

com que devoram a terra

onde um hom em plantou seu roçado;

depois os poucos m etros

onde ele plantou sua casa;

depois o pouco espaço

de que precisa um hom em sentado;

depois os sete palm os

onde ele vai ser enterrado.

Muitos engenhos m ortos

haviam passado no m eu cam inho.

De porteira fechada,

quase todos foram engolidos.

Muitos com suas serras,

todos eles com seus rios,

rios de nom e igual

com o crias de casa, ou filhos.

Antes foram engenhos,

poucos agora são usinas.

Antes foram engenhos,

agora são im ensos partidos.

Antes foram engenhos,

com suas caldeiras vivas;

agora são inform es

partidos que nada identifica.

 

Encontro com a Usina

Mas na Usina é que vi

aquela boca m aior que existe por detrás

das bocas que ela plantou;

que com e o canavial

que contra as terras soltou;

que com e o canavial

e tudo o que ele devorou;

que com e o canavial

e as casas que ele assaltou;

que com e o canavial

e as caldeiras que sufocou.

Só na Usina é que vi

aquela boca m aior,

a boca que devora

bocas que devorar m andou.

Na vila da Usina

é que fui descobrir a gente

que as canas expulsaram

das ribanceiras e vazantes;

e que essa gente m esm a

na boca da Usina são os dentes

que m astigam a cana

que a m astigou enquanto gente;

que m astigam a cana

que m astigou anteriorm ente

as m oendas dos engenhos

que m astigavam antes outra gente;

que nessa gente m esm a,

nos dentes fracos que ela arrenda,

as m oendas estrangeiras

sua força m elhor assentam .

Por esta grande usina

olhando com cuidado eu vou,

que esta foi a usina

que toda esta Mata dom inou.

Num a usina se aprende

com o a carne m astiga o osso,

se aprende com o m ãos

am assam a pedra, o caroço;

num a usina se assiste

à vitória, de dor m aior,

do brando sobre o duro,

do grão am assando a m ó;

num a usina se assiste à vitória m aior e pior,

que é a de pedra dura

furada pelo suor.

Para trás vai ficando

a triste povoação daquela usina

onde vivem os dentes

com que a fábrica m astiga.

Dentes frágeis, de carne,

que não duram m ais de um dia;

dentes são que se com em

ao m astigar para a Com panhia;

de gente que, cada ano,

o tem po da safra é que vive,

que, na braça da vida,

tem m arcado curto o lim ite.

Vi hom ens de bagaço

enquanto por ali discorria;

vi hom ens de bagaço

que m orte úm ida em bebia.

E vi todas as m ortes

em que esta gente vivia:

vi a m orte por crim e,

pingando a hora na vigia;

a m orte por desastre,

com seus gum es tão precisos,

com o um braço se corta,

cortar bem rente m uita vida;

vi a m orte por febre,

precedida de seu assovio,

consum ir toda a carne

com um fogo que por dentro é frio.

Ali não é a m orte

de planta que seca, ou de rio:

é m orte que apodrece,

ali natural, pelo visto.

 

Da Usina a São Lourenço da Mata

Agora vou deixando

a povoação daquela usina.

Outra vez vou baixando entre infindáveis partidos;

entre os m ares de verde

que sabe pintar Cícero Dias,

pensando noutro engenho

devorado por outra usina;

entre colinas m ansas

de um a terra sem pre em cio,

que o vento, com carinho,

penteia, com o se sua filha.

Que nem ondas de m ar,

m ultiplicadas, elas se estendiam ;

com o ondas do m ar de m ar

que vou conhecer um dia.

À tarde deixo os m ares

daquela usina de usinas;

vou entrando nos m ares

de algum as outras usinas.

Sei que antes esses m ares

inúm eros se dividiam

até que um m ar m ais forte

os m ais fracos engolia

(hoj e só grandes m ares

a Mata inteira dom inam ).

Mas o m ar obedece

a um destino sem divisa,

e o grande m ar de cana,

com o o verdadeiro, algum dia,

será um a só água

em toda esta com um cercania.

 

De São Lourenço à Ponte de Prata

Vou pensando no m ar

que daqui ainda estou vendo;

em toda aquela gente

num a terra tão viva m orrendo.

Através deste m ar

vou chegando a São Lourenço,

que de longe é com o ilha

no horizonte de cana aparecendo;

através deste m ar,

com o um barco na corrente, m esm o sendo eu o rio,

que vou navegando parece.

Navegando este m ar,

até o Recife irei,

que as ondas deste m ar

som ente lá se detêm .

Ao entrar no Recife,

não pensem que entro só.

Entra com igo a gente

que com igo baixou

por essa velha estrada

que vem do interior;

entram com igo rios

a quem o m ar cham ou,

entra com igo a gente

que com o m ar sonhou,

e tam bém retirantes

em quem só o suor não secou;

e entra essa gente triste,

a m ais triste que j á baixou,

a gente que a usina,

depois de m astigar, largou.

Entra a gente que a usina

depois de m astigar largou;

entra aquele usineiro

que outro m aior devorou;

entra esse bangüezeiro

reduzido a fornecedor;

entra detrás um destes,

que agora é um sim ples m orador;

detrás, o m orador

que nova safra j á não fundou;

entra, com o cassaco,

esse antigo m orador;

entra enfim o cassaco,

que por todas aquelas bocas passou.

Detrás de cada boca,

ele vê que há um a boca m aior.

 

Da Ponte de Prata a Caxangá

A gente das usinas

foi m ais um afluente a engrossar

aquele rio de gente

que vem de além do Jacarará.

Pelo m esm o cam inho

que venho seguindo desde lá,

vam os j untos, dois rios,

cada um para seu m ar.

O trem outro cam inho

tom ou na Ponte de Prata;

foi por Tij ipió

e pelos m angues de Afogados.

Sem pre com retirantes,

vou pela Várzea e por Caxangá,

onde as últim as ondas

de cana se vêm espraiar.

Entra-se no Recife

pelo engenho São Francisco.

Já em terras da Várzea,

está São João, um a antiga usina.

Depois se atinge a Várzea,

a vila propriam ente dita,

com suas árvores velhas

que dão um a som bra tam bém antiga.

A seguir, Caxangá,

tam bém velha e recolhida,

onde com eça a estrada

dita Nova, ou de Iputinga,

que quase reta à cidade,

que é o m ar a que se destina,

leva a gente que veio

baixando em m inha com panhia.

Vou deixando à direita

aquela planície aterrada

que desde os pés de Olinda

até os m ontes Guararapes,

e que de Caxangá

até o m ar oceano,

para form ar o Recife

os rios vão sem pre atulhando.

Com água densa de terra

onde m uitas usinas urinaram ,

água densa de terra e de m uitas ilhas engravidada.

Com substância de vida

é que os rios a vão aterrando,

com esses lixos de vida

que os rios viem os carreando.

 

De Caxangá a Apipucos

Até aqui as últim as

ondas de cana não chegam .

Agora o vento sopra

em folhas de um outro verde.

Folhas m uito m ais finas

as brisas daqui penteiam .

São cabelos de m oças

que vêm cortar capinheiros;

são cabelos das m oças

ou dos bacharéis em direito

que devem habitar

naqueles sobrados tão pitorescos

(pois os cabelos da gente

que apodrece na lam a negra

geram folhas de m angue,

que são folhas duras e grosseiras).

 

De Apipucos à Madalena

Agora vou entrando

no Recife pitoresco,

sentim ental, histórico,

de Apipucos e do Monteiro;

do Poço da Panela,

da Casa Forte e do Caldeireiro,

onde há poças de tem po

estagnadas sob as m angueiras;

de Sant’Ana de Fora

e de Sant’Ana de Dentro,

das m uitas olarias,

rasas, se agachando do vento.

E m ais sentim ental,

histórico e pitoresco vai ficando o cam inho

a cam inho da Madalena.

Um velho cais roído

e um a fila de oitizeiros

há na curva m ais lenta

do cam inho pela Jaqueira,

onde (não m ais está)

um m enino bastante guenzo

de tarde olhava o rio

com o se film e de cinem a;

via-m e, rio, passar

com m eu variado cortej o

de coisas vivas, m ortas,

coisas de lixo e de despej o;

viu o m esm o boi m orto

que Manuel viu num a cheia,

viu ilhas navegando,

arrancadas das ribanceiras.

Vi m uitos arrabaldes

ao atravessar o Recife:

alguns na beira da água,

outros em deitadas colinas;

m uitos no alto de cais

com casarões de escadas para o rio;

todos sem pre ostentando

sua ulcerada alvenaria;

todos porém no alto

de sua gasta aristocracia;

todos bem orgulhosos,

não digo de sua poesia,

sim , da história dom éstica

que estuda para descobrir, nestes dias,

com o se palitavam

os dentes nesta freguesia.

 

As primeiras ilhas

Rasas na altura da água

com eçam a chegar as ilhas.

Muitas a m aré cobre

e horas m ais tarde ressuscita (sem pre depois que afloram

outra vez à luz do dia

voltam com chão m ais duro

do que o que dantes havia).

Rasas na altura da água

vê-se brotar outras ilhas:

ilhas ainda sem nom e,

ilhas ainda não de todo paridas.

Ilha Joana Bezerra,

do Leite, do Retiro, do Maruim :

o touro da m aré

a estas j á não precisa cobrir.

 

O outro Recife

Casas de lam a negra

há plantadas por essas ilhas

(na enchente da m aré

elas navegam com o ilhas);

casas de lam a negra

daquela cidade anfíbia

que existe por debaixo

do Recife contado em Guias.

Nela deságua a gente

(com o no m ar deságuam rios)

que de longe desceu

em m inha com panhia;

nela deságua a gente

de existência im precisa,

no seu chão de lam a

entre água e terra indecisa.

 

Dos Coelhos ao cais de Santa Rita

Mas deixo essa cidade:

dela m ais tarde contarei.

Vou naquele cam inho

que pelo hospital dos Coelhos,

por cais de que as vazantes

exibem gengivas negras,

leva àquele Recife de fundação holandesa.

Nele passam as pontes

de robustez portuguesa,

anúncios lum inosos

com m uitas palavras inglesas;

passa ainda a cadeia,

passa o Palácio do Governo,

am bos robustos, sólidos,

plantados no chão m ais seco.

Rio lento de várzea,

vou agora ainda m ais lento,

que agora m inhas águas

de tanta lam a m e pesam .

Vou agora tão lento,

porque é pesado o que carrego:

vou carregado de ilhas

recolhidas enquanto desço;

de ilhas de terra preta,

im agem do hom em aqui de perto

e do hom em que encontrei

no m eu com prido traj eto

(tam bém a dor desse hom em

m e im põe essa passada de doença,

arrastada, de lam a,

e assim cuidadosa e atenta).

Vão desfilando cais

com seus sobrados ossudos.

Passam m uitos sobrados

com seus telhados agudos.

Passam , m uito m ais baixos,

os arm azéns de açúcar do Brum .

Passam m uitas barcaças

para Itapissum a, Igaraçu.

No cais de Santa Rita,

enquanto vou norte-sul,

surge o m ar, afinal,

com o enorm e m ontanha azul.

No cais, Joaquim Cardozo

m orou e aprendeu a luz

das costas do Nordeste,

m ineral de tanto azul.

As duas cidades

Mas antes de ir ao m ar,

onde m inha fala se perde,

vou contar da cidade

habitada por aquela gente

que veio m eu cam inho

e de quem fui o confidente.

Lá pelo Beberibe

aquela cidade tam bém se estende,

pois sem pre j unto aos rios

prefere se fixar aquela gente;

sem pre perto dos rios,

com panheiros de antigam ente,

com o se não pudessem

por um m inuto som ente

dispensar a presença

de seus conhecidos de sem pre.

Conheço todos eles,

do Agreste e da Caatinga;

gente tam bém da Mata,

vom itada pelas usinas;

gente tam bém daqui

que trabalha nestas usinas,

que aqui não m oem cana,

m oem coisas m uito m ais finas.

Muitas eu vi passar:

fábricas, com o aqui se apelidam ;

têm bueiro com o usina,

são iguais tam bém por fam intas.

Só que as enorm es bocas

que existem aqui nestas usinas

encontram m uitas pedras

dentro de sua farinha.

A gente da cidade

que há no avesso do Recife

tem em m im um am igo,

seu com panheiro m ais íntim o.

Vivo com esta gente,

entro-lhes pela cozinha;

com o bicho de casa

penetro nas cam arinhas.

As vilas que passei sem pre abracei com o am igo;

desta vila de lam a

é que sou m ais do que am igo:

sou o am ante, que abraça

com corpo m ais confundido;

sou o am ante, com ela

leito de lam a divido.

Tudo o que encontrei

na m inha longa descida,

m ontanhas, povoados,

caieiras, viveiros, olarias,

m esm o esses pés de cana

que tão iguais m e pareciam ,

tudo levava um nom e

com que poder ser conhecido.

A não ser esta gente

que pelos m angues habita:

eles são gente apenas

sem nenhum nom e que os distinga;

que os distinga na m orte

que aqui é anônim a e seguida.

São com o ondas de m ar,

um a só onda, e sucessiva.

A não ser esta cidade

que vim encontrar sob o Recife:

sua m etade podre

que com lam a podre se edifica.

É cidade sem nom e

sob a capital tão conhecida.

Se é tam bém capital,

será um a capital m endiga.

É cidade sem ruas

e sem casas que se diga.

De outra qualquer cidade

possui apenas polícia.

Desta capital podre

só as estatísticas dão notícia,

ao m edir sua m orte,

pois não há o que m edir em sua vida.

Conheço toda a gente

que deságua nestes alagados.

Não estão no nível de cais, vivem no nível da lam a e do pântano.

Gente de olho perdido

olhando-m e sem pre passar

com o se eu fosse trem

ou carro de viaj ar.

É gente que assim m e olha

desde o sertão do Jacarará;

gente que sem pre m e olha

com o se, de tanto m e olhar,

eu pudesse o m ilagre

de, num dia ainda por chegar,

levar todos com igo,

retirantes para o m ar.

 

Os dois mares

A um rio sem pre espera

um m ais vasto e ancho m ar.

Para a gente que desce

é que nem sem pre existe esse m ar,

pois eles não encontram

na cidade que im aginavam m ar

senão outro deserto

de pântanos perto do m ar.

Por entre esta cidade

ainda m ais lenta é m inha pisada;

retardo enquanto posso

os últim os dias da j ornada.

Não há talhas que ver,

m uito m enos o que tom bar:

há apenas esta gente

e m inha sim patia calada.

 

Oferenda

Já deixando o Recife

entro pelos cam inhos com uns do m ar:

entre barcos de longe,

sábios de m uito viaj ar;

j unto desta barcaça

que vai no rum o de Itam aracá;

lado a lado com rios

que chegam do Pina com o Jiquiá.

Ao partir com panhia

desta gente dos alagados

que lhe posso deixar,

que conselho, que recado?

Som ente a relação

de nosso com um retirar;

só esta relação

tecida em grosso tear.