Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 1 de 16

Páginas do PDF

Não Conta Lá em Casa

Introdução

SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO

MIANMAR

COREIA DO NORTE

IRÃ

IRAQUE

DINAMARCA

TUVALU

ETIÓPIA

DJIBUTI

SOMÁLIA

ITÁLIA

INDONÉSIA

JAPÃO

AFEGANISTÃO

MANUAL DO NERD NA ESTRADA

UM LIVRO SEM EPÍLOGO

ONDE TUDO COMEÇOU

 

Em dezem bro de 2006, eu m e preparava para finalm ente colocar o ponto

final no texto do Indo.doc, o docum entário sobre a tragédia do tsunam i na Ásia.

Quatro grandes am igos m eus rum aram para o epicentro da tragédia poucos m eses

após o acontecido e eu, além da produção no Brasil, fiquei responsável por traduzir

em palavras a experiência. Ao olhar para trás e enxergar a totalidade da história

que contam os, eu tentava captar o que ela m e dizia. Contem plando o resultado

daquela narrativa tão sim ples e ao m esm o tem po tão cheia de significados, a

m inha vontade era não digitar aquele fatídico ponto. Meu desej o era que aquela

história não term inasse ali e que aquele fosse só o início de algo m uito m aior, que

ultrapassasse os lim ites do m onitor do m eu com putador, das salas de cinem a ou até

m esm o das telas de TV.

Eu sabia que era exigir dem ais de um singelo film e que tinha seu charm e,

am bição e ousadia enraizados j ustam ente num a com pleta inexperiência do grupo

que o realizava. A viagem de férias entre am igos que foi transform ada em um

relato profundam ente hum ano sobre um a das m aiores tragédias naturais da

história era nosso prim eiro passo na produção cinem atográfica. Mas a gente j á

depositava naqueles 72 m inutos não só a esperança de reconhecim ento profissional

com o tam bém de um m undo m elhor.

Não era presunção afirm ar que nosso film e trazia um a m ensagem , até

porque essa m ensagem ganhava força em sua própria ingenuidade. De form a

leve, original e arriscadam ente autoral, o film e entra em contato direto e m ostra a

dura realidade de um povo hum ilde e resiliente em m eio a um dram a físico e

em ocional sem precedentes. De m aneira despretensiosa, ele se envolve (e envolve

o espectador) com o obj eto da obra, e talvez isso tenha tornado a experiência tão

única, verdadeira e enriquecedora para quem assiste a ele e, principalm ente, para

quem o fez.

 

Nossa hum ilde produção era a m etáfora perfeita de si própria. Ela

representava nossa crença de que até m esm o um pequeno gesto pode fazer um a

grande diferença. Basta acreditar e colocar a m ão na m assa! Esperávam os apenas

que nossa obra fizesse sua parte, tornando-se o início de um a im ensa reação em

cadeia.

E foi exatam ente isso que aconteceu! Graças ao sucesso de crítica e público

conquistado com o lançam ento do Indo.doc, eu e m eus am igos e parceiros

Leondre Cam pos, Felipe UFO e Bruno Pesca nos sentim os estim ulados e em

condições de criar algo novo e audacioso. Mais do que um proj eto audiovisual, de

viagens ou de aventuras, queríam os criar algo que ultrapassasse fronteiras,

rom pesse barreiras e sintetizasse nossos m aiores desej os e aspirações. Um a

am pliação e evolução de tudo aquilo que foi e representou nossa prim eira

em preitada oficial em produção para TV. A inquietação despertada com essa

nossa prim eira experiência foi m uito além do m ero proj eto bem realizado. Tocava

fundo em nossa alm a o desej o de conhecer outras realidades, apresentar novas

culturas e nos envolver diretam ente com o obj eto de nosso trabalho, que nada m ais

é que esse vasto planeta onde vivem os e seus confusos habitantes.

À m edida que esse proj eto se desenvolvia, percebíam os que ele ganhava

cada vez m ais espaço em nossas vidas e pretensões. O produto final em si dim inuía

em relevância, ao passo que íam os vislum brando e calculando as im ensas

im plicações (e riscos) da experiência de vida que seria proporcionada por ele.

Pouco a pouco, um a am biciosa ideia de program a para TV tom ava contornos bem

m aiores. Estávam os falando de um proj eto de vida, m esm o. Nossos planos eram

viaj ar pelos destinos m ais polêm icos, inóspitos, perigosos, inacessíveis, m al

retratados ou desconhecidos do planeta em busca de verdades e lições que

m erecessem ser passadas adiante. Queríam os ir a lugares inalcançáveis, falar

com pessoas que m uito tinham a dizer e abraçar causas im possíveis. Viaj ar,

registrar e exibir grandes dram as e histórias. Descobrir a verdade doa a quem

doer. Tentar reagir a fatos im utáveis e oferecer nossa hum ilde interpretação sobre

ideologias, governos e culturas seculares. Rom per barreiras geográficas e derrubar

preconceitos. Com o São Tom é, queríam os “ver para crer”, estim ulando o

questionam ento a cada episódio. Fazer a diferença. Então, lá fom os nós encarar a

estrada, de novo. Dessa vez, com um singelo obj etivo na bagagem : m udar o

m undo.

AGORA, SIM:

NÃO CONTA LÁ EM CASA!

 

Desde o início de 2009, tenho viaj ado com esses m eus três grandes

parceiros, produzindo o program a Não conta lá em casa, para o canal de TV a

cabo Multishow, da Globosat. O program a consiste em quatro am igos (eu, Leo,

UFO e Pesca) viaj ando com o obj etivo de m ostrar a realidade de alguns dos

destinos considerados, por m otivos diversos, extrem am ente com plicados.

Batizam os a série com esse nom e pois im aginam os que, se fôssem os alertar nossos

fam iliares sobre os locais para onde iríam os ou o que estávam os pretendendo

fazer, corríam os o risco de nem sequer dar o prim eiro passo. Nunca foi nosso

desej o aparecer diante das câm eras, ser atores, apresentadores ou algo que o

valha. Pelo contrário, som os todos bastante discretos, tím idos e, inclusive, para

tristeza do público fem inino, não tem nenhum galã em nossa equipe. Apenas

concluím os que a m elhor m aneira de passar a m ensagem que queríam os era por

m eio de um a série de TV. Muito m ais ágil que um docum entário em longa-

m etragem com o o que havíam os realizado, com um a série de episódios

form atados para a televisão seríam os capazes de abordar um núm ero bem m aior

de destinos em um tem po m ais curto. A equipe que realizaria tam anha tarefa seria

com posta de exatam ente quatro profissionais. Sim , apenas nós quatro: Leo, UFO,

Pesca e eu. Dividim os as tarefas e decidim os os destinos a serem abordados,

cuidam os do roteiro de viagem , da pré-produção, fizem os (ou tentam os fazer) os

contatos, calculam os o orçam ento, cuidam os das film agens no local, da edição, da

trilha sonora, do texto e, finalm ente, fecham os com a arte-final. Obviam ente,

contam os com o estim ado suporte de nossos queridos am igos do Multishow. Mais

im portante que a relação de am izade que tem os com os profissionais do canal, que

a liberdade criativa e editorial que nos dão, do que a abertura que tem os para

escollher, discutir e, por vezes, m udar nosso planej am ento por com pleto (para

desespero da chefia do canal), está o fato de terem sido os prim eiros a acreditar no

Não conta lá em casa. Nada m enos óbvio e m ais arriscado para um canal de TV

focado no público j ovem do que um program a em que quatro feiosos apresentam

história e cultura de países que a m aioria das pessoas não está m uito disposta a

conhecer (especialm ente na hora do j antar)! Mas eles enxergaram a função social

por trás dos núm eros do Ibope e abraçaram a nossa causa. No fim das contas,

apostaram certo. Os “quatro am igos viaj ando pelos destinos m ais inóspitos do

planeta”, com o eles nos classificaram , até que conquistaram certo sucesso de

crítica e, quem diria, de público!

 

Nas prim eiras tem poradas, decidim os tratar de alguns dos tem as capitais de

destinos que fariam corar o m ais audacioso guia turístico. Na prim eira tem porada,

foram 13 episódios para apresentar o “Eixo do Mal”, na definição nada sim pática

do ex-presidente norte-am ericano George W. Bush. Conhecem os a ditadura

opressora de Mianm ar, que agride m onges indefesos e prende seus cidadãos por

com eterem o crim e de contar piadas sobre seus governantes, vim os do lado de

dentro a realidade surreal da fechadíssim a Coreia do Norte, fizem os am izades

(fem ininas!) no polêm ico Irã e quase choram os de m edo nas ruas de um Iraque

que m ais parecia um cenário de Ram bo.

Com o sucesso conquistado com o retrato que fizem os dos nossos prim eiros

destinos, ganham os coragem e respaldo para alçar voos m ais distantes (em todos

os sentidos) e abordar outros assuntos com plicados, m as não m enos perigosos.

Resolvem os de início abordar outra terrível am eaça ao planeta: o aquecim ento

global. Na Dinam arca, durante a reunião do COP 15, a cúpula da ONU sobre o

tem a, tivem os contato pela prim eira vez com a história triste e desconhecida de

Tuvalu. Da Europa seguim os, então, para a ilha-nação que periga se tornar o

prim eiro país do m undo a sum ir com pletam ente do m apa por conta da subida das

m arés provocada pelas agressões do hom em ao m eio am biente. Nessa m esm a

tem porada, tam bém em barcam os pela prim eira vez no continente africano. E o

adequado portão de entrada do Não conta lá em casa ali foi j ustam ente o

conturbado Chifre da África. Lá passam os por Etiópia, Dj ibuti e Som ália, o país

m ais perigoso do m undo, que nos trouxe pesadelos tem áticos no m elhor estilo do

film e Falcão negro em perigo. Para encerrar com chave de ouro, conseguim os

cum prir um a m issão que vinha sendo adiada havia algum tem po por questões de

segurança (sim , na m edida do possível prezam os pela nossa segurança): visitam os

o polêm ico Afeganistão.

Na terceira tem porada encaram os duas propostas diferentes e originais:

fizem os um (há m uito necessário) curso de sobrevivência em situações extrem as.

Para isso, fom os até a Itália receber spray de pim enta nos olhos, tiros de festim na

bunda e passar por sim ulações de atentados diversos sob a alegação de que nos

tornaríam os m ais preparados para um a situação dessas no m undo real.

Aprendem os m uito nas sádicas m ãos de Jim Wagner, um a das m aiores

autoridades m undiais em sobrevivência ao terrorism o. Pela prim eira vez tam bém ,

repetim os (de certa form a) um destino. Voltam os ao ponto zero do tsunam i de

2004, na Indonésia, onde film am os o Indo.doc. Fom os conferir, cinco anos depois,

em que pé estava o processo de reconstrução do m arco inicial do proj eto Não

conta lá em casa, a região de Banda Aceh.

Em nossa quarta tem porada, abandonam os o roteiro preestabelecido e

partim os rum o ao Japão pouco depois do terrem oto e consequente tsunam i que

arrasaram grande parte da sua costa norte. Entre destroços, am eaças nucleares,

racionam ento de com ida e energia, e o tem or da população, pudem os avaliar em

prim eira m ão com o um dos m ais im portantes países do m undo estava reagindo a

tam anha calam idade. Mais do que isso, pela prim eira vez na história do program a

pudem os participar de um a m issão de aj uda hum anitária. Algo extrem am ente

gratificante e em ocionante.

Infelizm ente, por culpa da ganância, prepotência e estupidez do hom em , ou

por eventualidades do ecossistem a, tem as para o program a surgem em grande

quantidade a cada ano. Seguim os buscando pelo m undo histórias e pessoas que

sirvam de m otivação. Que possam inspirar ou revoltar, m as sem pre provocar um a

reação, um a necessidade de questionar, agir e transform ar. Novos desastres

naturais devastam países sem fazer distinção geográfica, política ou econôm ica.

Novas guerras são travadas por m otivos raram ente j ustificáveis. Novas revoluções

ganham força e são transm itidas ao vivo pela internet. Enquanto houver

desinteresse ou interesses escusos, desconhecim ento ou m anipulação na

inform ação, um a causa j usta ou um a inj ustiça global, estarem os dispostos e

interessados em entender, m ostrar, denunciar e (por que não?) aj udar.

Com o o próprio proj eto, som os pequenos, porém audaciosos. Acreditam os

que por isso m esm o podem os servir de exem plo e, de um a m aneira hum ilde e

carregada de autocrítica, estim ular as pessoas à ação. A acreditarem que outro

m undo, m ais j usto e igual, é possível. E, se nós quatro conseguirm os fazer um a

diferença, qualquer um conseguirá!