Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 4 de 16

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Não Conta Lá em Casa

Irã

Ao ouvir o term o “Oriente Médio”, os prim eiros países que m e vêm à m ente são: Irã e Iraque. Ao pensar em guerra, tam bém (o conflito entre os dois países durou oito anos, de 1980 a

1988). Problem as com os EUA? De novo: Iraque (supostas arm as de destruição em m assa e Saddam Hussein) e Irã (da am eaça nuclear e Ahm adinej ad). Obviam ente que, dentro da proposta do nosso proj eto de viagens, tínham os que conferir esses dois lugares de perto. Fosse

para desm istificar ou com provar. E sem pre torcendo para que a roubada não fosse tão intensa. Escolhem os o Irã para encabeçar a pequena lista. Além da questão histórica da ditadura im posta pelos EUA, do sequestro da em baixada am ericana e da revolução islâm ica, o país estava nas

m anchetes de todos os j ornais por conta dos protestos m otivados pela reeleição do presidente Ahm adinej ad, quando m ilhares de pessoas foram às ruas protestar. Isso gerou um a série de confrontos, repressão extrem am ente violenta e até a em blem ática m orte de um a m anifestante

captada pelas câm eras de um cinegrafista am ador e espalhada pelo m undo todo via YouTube (considerada a m orte m ais assistida pela hum anidade, devido ao caráter viral que as fortes

im agens ganharam na internet). Ainda havia um outro lado m uito rico e que nos atraía possivelm ente m ais do que essa parte tensa (naturalm ente), que era toda a história dos poetas iranianos, da antiga Persépolis, e até o fato de poderm os conhecer um a cultura um tanto

diferente da nossa e de grande parte do Oriente Médio. Afinal, pouco se diz que os iranianos são persas e não árabes, com o a m aioria de seus vizinhos.

Um a vez decidido o destino, este foi o capítulo que m ais dem orei para escrever de todo o

livro. Ele não é o m ais longo, o m eu favorito, o m ais rico em inform ações, ou nada do gênero. Acontece que ele foi escrito durante a viagem de aproxim adam ente dez dias por diversas cidades

do Irã. Com o laptop avariado, foi difícil m anter um a regularidade de textos durante o período. Entretanto, m esm o nos m om entos m ais im prováveis, foi possível fazer um registro. Fosse na capital Teerã ou durante paradas em cidades rem otas no m eio do nada. Tive que contar com lan

houses de parede de barro e telhado de palha e com putadores j á em idade avançada, achados em pousadas que pareciam oásis, onde o cabo da lentíssim a internet cruzava o chão da “sala de com putadores” coberto pelas areias do próprio deserto. Dá para im aginar o que foi digitar estas

m altraçadas linhas diretam ente de um teclado em persa! Para não perder a em oção, decidi m anter o capítulo tal com o o escrevi, no calor (sem trocadilho) dos m om entos. Pingando suor no teclado.

Em nossa prim eira parada no Irã, fom os conhecer o lendário Grande Bazar de Teerã, o m aior do m undo. Além de tapetes, essências, ervas, j oias e figuras hum anas de todos os tipos, escolhem os esse lugar porque ali perto encontra-se o m ausoléu de um dos m aiores (se não o

m aior) líderes da história do Irã, Aiatolá Khom eini, conhecida e polêm ica figura da história da hum anidade. Meio hom em , m eio “santo”, foi o principal líder político e religioso iraniano e o

grande responsável pela revolução islâm ica no país, em 1979. Seu nom e ganhou ainda m ais destaque durante a Crise dos Reféns, alguns anos após a revolução, quando 52 am ericanos ficaram presos por 444 dias na em baixada dos Estados Unidos! Um episódio que m arcou e que

define até hoj e a relação entre os dois países.

Foi ali no bazar que conhecem os um verdadeiro ícone e representante perfeito da hospitalidade iraniana que tanto nos im pressionaria durante o resto de nossa viagem . Am ir, o

vendedor de tapetes persas. Não dava para ser m ais típico, m as era verdade. Desinibido, falastrão e gente boa com o todo bom com erciante, dá para dizer que com m enos de cinco m inutos de papo com Am ir j á éram os am igos de infância. Ele nos guiou por entre as dezenas de

corredores, vielas e becos do agitado bazar, m ostrando o que havia de m elhor em produtos, suvenires e até bebidas alcoólicas contrabandeadas dentro de peixes. Após entrarm os pelos

fundos de um a loj a, passarm os por um portão de grade e subirm os um a escada caracol toda enferruj ada, chegam os ao seu escritório. Sentam os em pilhas im provisadas de tapetes que cobriam cada m etro quadrado do am biente e bebem os chai oferecido por nosso anfitrião.

Mesm o avisado de que não com praríam os nada, ele fez questão de nos dar um a valiosa aula sobre a técnica de produção dos clássicos tapetes persas, sua correlação com a cultura iraniana, os hábitos m uçulm anos e, é claro, as m ulheres persas (na opinião dele, as m ais bonitas do m undo,

por terem “boca de cam elo”! Não entram os em detalhes). Ao fim do papo, Am ir nos m ostrou a lista de personalidades com quem j á havia feito negócios. Entre elas estava o em baixador brasileiro em Teerã, o que nos deu um a grande ideia.

Agradecem os a Am ir e nos despedim os. Saím os dali e fom os direto bater na porta do em baixador. De j eans e cam iseta, m esm o. Só não vestíam os os tradicionais chinelos e berm uda

porque as leis do Islã os proíbem no país. Seguim os para nosso destino levando conosco nada além de passaportes e um a dose im prescindível de cara de pau, a m ais im portante de todos. Afinal, a ideia era conseguir um a entrevista com algum funcionário da principal representação

brasileira no Irã, ou sej a, um parecer oficial do governo brasileiro sobre um dos m ais polêm icos países do planeta. Tudo isso j ustam ente sobre um período com plicadíssim o de m anifestações, pancadaria e acusações após o resultado das últim as eleições presidenciais. Coisa básica. Não ligam os antes, não levam os cartas de apresentação oficiais e não conhecíam os ninguém . Sequer sabíam os o endereço direito. Só brasileiro m esm o para achar que ia obter sucesso em um a

m issão com o essa. E só brasileiro tam bém para nos atender! Pois foi o que fizeram o em baixador e seus secretários, com quem tivem os um bate-papo sensacional de m ais de duas horas, com direito a cafezinho, pistaches e biscoitos típicos. Um a verdadeira aula de diplom acia

internacional, m inistrada ali, em plena Teerã. Um privilégio e um a honra que guardarem os para sem pre. Entre tantos m om entos da conversa, destaco o que o em baixador, ao ser inform ado de nossa intenção de tirar o visto e incluir o Afeganistão em nosso roteiro, disse: “Vocês querem a

opinião do em baixador ou do pai de fam ília? Em am bos os casos, não vão gostar da resposta.” Entendem os o recado e ele nem precisou continuar. Talvez não fosse o m om ento m ais adequado.

AOS PÉS DA TORRE AZADI, NA ENTRADA DA CAPITAL TEERÃ. CONHECIDA COMO MEMORIAL DO REI (SHAHYAD), ELA TEVE SEU NOME MUDADO PARA TORRE DA LIBERDADE (AZADI) DEPOIS DA REVOLUÇÃO DO IRÃ, EM 1979.

EU E UFO NA ESCADARIA DE ENTRADA DO MUSEU NACIONAL DO IRÃ,MOMENTOS ANTES DE FAZERMOS AMIZADE COM AS MENINAS QUE SERIAM NOSSAS GUIAS POR TEERÃ.

Com o j á tínham os percebido, o povo iraniano é, sem dúvida, o m ais hospitaleiro do m undo.

Chegava a ser inacreditável algum as vezes (ainda m ais para quatro desconfiados brasileiros), o que nos rendeu histórias e situações peculiares. Especialm ente convidados para o alm oço por um grupo de j ovens iranianas, que ainda se ofereceram para pagar a conta e passagens de ônibus,

um a vez que tínham os nos esquecido de trocar dinheiro. Sim , em um país onde a m ulher tem que se cobrir por inteiro (m esm o no calor que faz durante o verão), usar vagões separados nos transportes coletivos, sentar em lugares exclusivos nas m esquitas, nem sequer andar ao lado de

um hom em que não sej a seu parente ou esposo, nós circulam os para cim a e para baixo com três legítim as gatinhas persas. Esta espécie de apartheid sexual era o que nos causava m aior estranham ento no Irã, e que nos fazia ainda ter um certo “pé atrás” antes de cair em elogios

àquele país pacífico, hospitaleiro e belíssim o, que se revelou um a agradável surpresa.

Durante o convívio de alguns dias com nossas novas am igas, fom os aos poucos conseguindo

entender a vida fem inina no Irã. Percebem os com o a busca, que é a de grande parte do país, por um a m aior liberdade não tem necessariam ente o obj etivo de bater de frente com as tradições e costum es seculares de sua cultura e religião. Segundo elas, m uito m ais degradante e hum ilhante

para a figura fem inina eram detalhes de nossa própria cultura, que encara com naturalidade biquínis fio dental e danças na boquinha da garrafa. Elas queriam a liberdade de escolha, com certeza. Mas não necessariam ente deixariam de usar o chale ou xador, que vestem com m uito

charm e e estilo, se essa liberdade fosse alcançada. Acreditavam que este costum e faz parte da valorização da m ulher, e não o contrário. E que esse tratam ento diferenciado dado à m ulher não

deveria ser encarado sim plesm ente com o um a im posição indigna.

Elas nos m ostravam que, entre tantos outros detalhes positivos e negativos dessas tradições, alguns aspectos m uitas vezes passam despercebidos. Com o o fato de existir essa diferenciação ao

lidar com a figura fem inina lhes ter garantido tam bém um a espécie de segurança que não havia antes na sociedade iraniana. Algo que hoj e lhes perm ite ser m aioria nas universidades, com petir em igualdade com hom ens por qualquer em prego (de m otoristas de cam inhão a professoras) e

ocupar cargos em altos escalões do governo. Além disso, são ainda m ais interessantes as im plicações da relação hom em versus m ulher no Irã quando percebidas em alguns de seus pequenos detalhes. Perm eia todo o trato com a m ulher no Irã certo respeito, quase cerim onioso e

inocente, que rem ete a outras décadas.

Durante o piquenique que elas organizaram para o dia de nossa despedida da capital, era

engraçado perceber o riso nervoso e a sensação anim ada de transgressão sim plesm ente por estarem sentadas em um gram ado com endo sanduíches com quatro j ovens estrangeiros. Tudo na m aior inocência. Quando perguntam os por que elas olhavam o relógio a todo m om ento, elas disseram que j á passava das seis da tarde, ou sej a, do toque de recolher im posto por suas m ães. Até aí nada dem ais, se estas m oças não estivessem j á na casa dos vinte e tantos anos de idade.

Outra interessante situação cotidiana que as m eninas nos contaram era que, com o não existem discotecas, boates ou até m esm o festas nas casas dos vizinhos, o clim a de paquera fica restrito ao bom e velho “nam oro de portão”. E sem pre com a m ãe, ou um a tia m ais zelosa (e solteirona), de

vigia.

Um m om ento m uito m arcante de todo esse convívio com nossas am igas iranianas — Mahsa, Dina e Janan — rolou quando elas, após algum a relutância, concordaram em nos dar

um a rápida entrevista. Já tínham os explicado todo o propósito de nossa viagem e qual era o tipo de trabalho que a gente estava fazendo. Desde o início, elas se m ostraram em polgadas em

colaborar e fazer parte de nossa “equipe de produção”. E nos aj udaram m uito m esm o! Deram dicas de lugares a serem visitados, apontaram aspectos im portantes de sua cultura que às vezes eram m al interpretados e, principalm ente, nos deram um a visão j ovem e engaj ada do atual e

conturbado m om ento que seu país atravessava. Quando oferecem os a elas a possibilidade de falar sobre a vida e a realidade de seu país, m esm o bem tím idas, agarraram -se à rara oportunidade com entusiasm o. A conversa foi m uito rica e interessante. Um autêntico bate-papo

entre am igos, e as m eninas pareciam apreciar cada vez m ais a chance de fazer uso da nossa cam erazinha e expor suas ideias para quem quisesse ouvir. Elas foram se soltando e aos poucos revelaram seus m edos, desej os, planos e esperanças para o futuro. Tudo ali, em um a m esinha de

restaurante no Teerã. No entanto, o discurso central delas tinha algo em com um que soava quase com o um apelo. As denúncias e as críticas não eram o foco de suas falas. Elas pareciam m ais

felizes e excitadas por estarem participando dos m ovim entos j ovens dem ocráticos de protesto do que rancorosas e resignadas em viver em um estado teocrático regido pelos aiatolás. Na verdade, nossas am igas pediam enfaticam ente que m ostrássem os o seu país tal qual era de verdade. Com

suas m azelas, sim , m as tam bém com suas belezas tão raram ente expostas na m ídia ocidental. Não com o um a form a de denúncia ou súplica, porém de correção que elas consideravam um a grande inj ustiça e um a falsa representação do seu país.

Finalm ente, ao nos despedirm os, Janan, a m ais j ovem do grupo, pediu para recitar um poem a com o sua últim a m ensagem para os brasileiros. Isso, por si só, j á servia com o um interessante paralelo com outra m enina do Brasil, e da m esm a faixa de idade dela, que

provavelm ente está m ais preocupada com bolsas de grife ou baladas da m oda.

O poem a que ela recitou para nós é de autoria do lendário poeta persa Saadi e está gravado

no saguão de entrada do prédio das Nações Unidas, em Nova York.

 

ﺪﻧﺮﮑﯿﭘ ﯾ ﮏ یﺎﻀﻋا آ م ﺑ د ﯽ ﻨ

ﺪﻧﺮھﻮﮔ ﯾ ﮏ ز ﺶﻨﯾﺮﻓآ د ر ﮐ ﮫ

رﺎﮔزور دروآ د د ر ﺑ ﮫ ىﻮﻀﻋ ﭼ ﻮ

راﺮﻗ ﺪﻧﺎﻤﻧ ر ا ﺎھﻮﻀﻋ د ﺮ ﮔ

ﯽﻤﻏ ﺑ ﯽ ناﺮﮕﯾد ﺖﻨﺤﻣ ﮐ ﺰ ﺗ ﻮ

ﯽﻣدآ ﺪﻨﮭﻧ ﺖﻣﺎﻧ ﮐ ﮫ ﺪﯾﺎﺸﻧ

 

Hum an beings are m em bers of a whole,

In creation of one essence and soul.

If one m em ber is afflicted with pain,

Other m em bers uneasy will rem ain.

If y ou have no sy m pathy for hum an pain,

The nam e of hum an y ou cannot retain.

 

Os seres hum anos são parte de um todo,

Na criação de um a única essência e alm a.

Se um m em bro sofre dor,

Outros m em bros perm anecerão inquietos.

Se você não tiver respeito pela dor hum ana,

Você não pode ser considerado hum ano.

EM PRIMEIRO PLANO, NOSSO GUIA DO IRÃ. AO

FUNDO, A NOSSA GUIA IRANIANA.

NOSSA AMIGA FAZ POSE PARA FOTO DE BRUNO PESCA. AO

FUNDO, ALGUNS LOCAIS OBSERVAM COM OLHARES

REPROVADORES.

Nossa próxim a parada era exatam ente na cidade de Shiraz, paraíso das artes e da cultura

no Irã. Um pit-stop rápido antes de seguirm os para a histórica Persépolis, um dos lugares que m ais queríam os conhecer quando ainda estávam os esboçando as prim eiras linhas do proj eto que viria se transform ar no Não conta lá em casa. Em nosso único dia por aqui, deu para conhecer os

túm ulos dos dois principais poetas da cidade: Saadi, aquele do poem a recitado pela nossa am iga de Teerã, e Hafez. Na verdade, essas eram as duas grandes (e únicas) atrações da cidade. O que

não a tornava pouco interessante, pelo contrário. Apesar de pequena se com parada a Teerã, Shiraz m ostrava um a surpresa diferente a cada esquina. Palácios, castelos ou enorm es j ardins onde a gente podia entrar, passear e, m elhor de tudo, beber água e se refrescar em um dos vários

bebedouros providencialm ente espalhados por todo o espaço público da cidade.

Conform e avançávam os deserto adentro, dava para sentir cada vez m ais o clim a iraniano, que é exatam ente com o m uitos o im aginam : quente! Pelo m enos nessa época do ano. Porém

ficam os sabendo que no inverno chega a nevar. Aposto que poucos sabiam dessa! Pois até estação de esqui há no país. Mas o que sentim os m esm o foi calor. Muito calor! Um bafo quente e seco que deixava um a neblina de poeira cinza suspensa no ar enchendo nosso nariz de... deixa

para lá. Tudo isso era cercado por um a vegetação caracterizada pela... Bem , pela ausência de vegetação. É aquela paleta de cores riquíssim a, que vai do bege ao cinza e do cinza ao bege

continuam ente por centenas e centenas de quilôm etros. Um a paisagem m ontanhosa m uito bonita. E, até pela com pleta diferença com a típica natureza brasileira, se torna ainda m ais interessante e, por que não?, visualm ente rica aos nossos olhos.

ALGUMAS CENAS TÍPICAS DO DESERTO IRANIANO.

Tam bém descobrim os a m agia das caronas grátis por aqui! Basta você chegar à calçada e fazer sinal para um táxi que antes dele parar aparece um carro qualquer lhe oferecendo baldeação até o seu destino. Já pegam os carona em um carro caindo aos pedaços com um

senhor que se recusou a receber qualquer quantia pela aj uda e com um outro am igo que viaj ava com o filho, a quem presenteam os com um a cam isa da seleção brasileira (o m enino ficou louco!). Com isso o orçam ento deu um a m elhorada e perm itiu um a internetzinha. O problem a é

que ela era m ovida a carvão, cheia de bloqueios im postos pelo governo e, na correria em que estávam os, pouco deu para aproveitar. Seguiríam os de m anhã cedo para Persépolis, e de lá para Yazd, cidade cuj o lem a é “Se perca no deserto!” (não, obrigado).

 

Depois de um a hora fazendo sauna de cam isa social e calça j eans dentro de um a van

abarrotada com m ais quatro m achos, chegam os à antiga capital do Im pério Persa, Persépolis. Im agens dos m ais poderosos guerreiros do Oriente Médio se digladiando com as tropas de

Alexandre, o Grande, m uitos anos antes do nascim ento de Cristo, sem pre tornaram nossas aulas de história especialm ente interessantes. Difícil im aginar que estas belas ruínas abandonadas no m eio do deserto j á form aram a cidade que dom inou toda essa im ensa região na Antiguidade. Os

relatos divergem quanto ao fim de Persépolis. A versão que consta dos livros escolares e enciclopédias diz que o próprio Alexandre III, após invadir o apreciado local, decidiu queim á-lo por inteiro em vingança ao que foi feito na acrópole original grega, de Atenas, destruída em um

incêndio ordenado por Xerxes durante a segunda guerra entre as duas nações. Outra versão, que corre à boca pequena entre o povo iraniano, diz que o grande incêndio que destruiu Persépolis foi

provocado por acidente, quando Alexandre e seus generais prom oviam um a grande bebedeira em um dos palácios do local. O fato é que este lugar de grandiosas colunas, tum bas e artefatos é considerado hoj e um dos principais sítios arqueológicos do m undo, tendo sido declarado pela

Unesco, em 1979, Patrim ônio da Hum anidade.

Hoj e, o lugar é um a das m aiores referências turísticas de todo o Oriente Médio. Andar por ali é ter um a experiência única de com o é fazer turism o na região. O que se torna ainda m ais

especial para um ocidental. O estacionam ento abarrotado, as filas para entrar, a loj inha de suvenires são algum as das sem elhanças do lugar com qualquer grande atração turística do planeta. A diferença está nos detalhes. Em vez de fotos com constrangidos suj eitos travestidos de

personagens de desenho anim ado, você pode posar m ontado em um cam elo vivinho e enfeitado para a ocasião. Em vez de cam isetas tem áticas, você pode com prar um a autêntica burca. E o

cachorro-quente, a pipoca e os sorvetes são naturalm ente substituídos por litros e litros de água fresca. Apesar do calor inclem ente, ficam os horas passeando m aravilhados com todos os resquícios de salões, palácios e tum bas de grandes reis. É totalm ente diferente a sensação de cam inhar por entre os restos deste m agnífico im pério no exato local onde alguns dos episódios

m ais m arcantes da história se desenrolaram . Um lugar que respira e encarna episódios grandiosos e dram áticos de diversos povos e nações. Atravessar corredores por onde passaram nobres de outras eras e passear por palácios onde lutaram e sangraram grandes guerreiros é algo

que conseguiria despertar o interesse até do m ais relapso estudante fundam ental. É inevitável nessa hora relativizar o valor de estar vendo estas peças únicas no local que lhes é de direito.

PAUSA PARA O REFRESCO EM PERSÉPOLIS. PENA DA MULHERADA NESSE DIA...

SE ESCONDENDO DO SOL NA SOMBRA DAS COLUNAS MILENARES DE PERSÉPOLIS, A “CIDADE PERSA”.

O Metropolitan Museum de Nova York ou o British Museum , em Londres, são

dois m useus que abrigam coleções originais de Persépolis. Peças saqueadas de

sua terra natal para serem observadas em grandes salas na Europa, no

conforto do ar condicionado. A alegação feita por esses m useus — e m uitos

outros que abrigam itens dos m ais diversos lugares do m undo — para não

terem ainda restaurado essas obras a seus países de origem é que seu obj etivo

é am pliar o acesso de história e cultura a um núm ero m uito m aior de pessoas,

o que séculos atrás era a dem onstração de superioridade de um a nação sobre

a outra e ainda continua sendo. Só que, atualm ente, acaba se tornando um a

questionável exibição de superioridade econôm ica. Napoleão Bonaparte e

Adolf Hitler, além de expansionistas sanguinários, eram notórios am antes das

artes que tom aram para os m useus da França e da Alem anha artefatos de

valores artístico e histórico inestim áveis. A verdade é que o m ercado das artes

hoj e m ovim enta enorm es som as de dinheiro nas m ãos de colecionadores,

agentes, leiloeiros e em presas especializadas. A tradição de um país com prada

por governos de particulares que pilharam artefatos e partes de arquitetura de

diversas culturas ancestrais. Egito, Grécia, Peru e o próprio Irã são alguns dos

países que reivindicam e negociam a devolução de seus patrim ônios históricos

há anos. Felizm ente, pouco a pouco eles vêm tendo algum sucesso na difícil

j ornada de repatriar sua própria história.

 

Nossa últim a parada no Irã foi a cidade de Yazd. A prim eira im pressão que tive do lugar é

que era um a m istura de Tatooine (os fãs de Guerra nas estrelas estão fam iliarizados com o desértico planeta natal de Luke Sky walker) com um dos m apas do Counter Strike, aquele j ogo online no qual polícia e terroristas se enfrentam em cenários desérticos que designers de gam es

norte-am ericanos im aginam com o abrigos de m alfeitores árabes. Vista do terraço do nosso hotel, parecia um a m aquete de barro ainda por ser pintada. E, de fato, argila era a base de 90% das construções da cidade. Yazd é o que se denom ina cidade-oásis, um pequeno lugar com vida

isolado no m eio do deserto. E esse oásis, em particular, ficava incrustado no m eio da região m ais seca de todo o Irã. Foi por esse m otivo que a cidade (cuj as prim eiras m enções datam de três m il

anos antes de Cristo) nunca foi im portunada por invasores ou conquistadores que passaram pelas

redondezas (exceto por Gêngis Khan. Mas aí tam bém , não é?3). Yazd conseguiu, portanto, m anter m uitas de suas tradições m ais antigas e desenvolver um a arquitetura toda especial, característica e, por vezes, irritante. São diversos corredores, passagens estreitas e becos que

form am um verdadeiro labirinto de barro. Era sair do hotel, dobrar duas esquinas, e parecia que você havia entrado em um j ogo de espelhos com o obj etivo de o levar às raias da loucura. Mas existia um a lógica por trás desta form ação arquitetônica de dar nos nervos.

O lugar é realm ente m uito quente, de m odo que seus corredores têm com o obj etivo canalizar e propagar os ventos que entram refrescando um pouco m ais a cidade. Diversas outras invenções altam ente criativas e evoluídas para o seu tem po foram criadas com esse m esm o

propósito e continuam sendo utilizadas séculos depois de sua concepção. Para sobreviver ao verão inclem ente, foram desenvolvidos dispositivos cham ados “captadores de vento”, grandes

colunas com entradas verticais em um a de suas faces que canalizam o vento para um a grande estrutura subterrânea. Foram antigos engenheiros persas que inventaram a m ãe de todas as geladeiras, fam osa por aqui com o y akhchal (“poço de gelo”), um a das invenções m ais

interessantes que j á vi e que havia aos m ontes espalhadas por Yazd. Eram estranhas e im ensas cúpulas com espirais esculpidas nas faces internas que pareciam m ais túm ulos de faraós ou qualquer coisa do tipo, até que nos explicaram seu funcionam ento genial. Grandes placas de gelo

eram coletadas durante o inverno nas m ontanhas das redondezas e depositadas bem no topo interno destas cúpulas construídas com m aterial que isola o calor. Conform e as placas geladas iam derretendo, sua água fria descia lentam ente pela espiral até a base subterrânea do y akhchal.

Dessa form a, o interior da estrutura ficava perm anentem ente frio e eles conseguiam arm azenar e conservar alim entos m esm o durante o im piedoso verão no deserto. Engenhoso, para dizer o

m ínim o.

FAZENDO GRAÇA E PASSANDO CALOR, EM

PERSÉPOLIS.

UFO E PESCA EM PERSÉPOLIS, EM PLENO DESERTO IRANIANO.

EU FOTOGRAFANDO E O LEO ME FILMANDO. EM UM BAZAR NO IRÃ.

Entretanto, o m ais curioso de toda essa nossa passagem por Yazd foi o passeio de cam elos. Talvez influenciado por im agens de Lawrence da Arábia desbravando desertos m ontado nesses esplêndidos anim ais, ou de beduínos m al-encarados singrando pelo Saara em cam elos do

tam anho de um a m inivan, nosso intrépido Felipe UFO havia colocado na cabeça a ideia de que tinha porque tinha que cavalgar (ou cam elear?) em um desses poderosos quadrúpedes. E o m ais isolado deserto iraniano não podia ser cenário m ais perfeito. UFO se inform ou no hotel, descobriu

onde podia encontrar um criador de cam elos e rum am os ainda inseguros para os confins do local. Chegando lá, fom os recebidos pelo dono dos anim ais. “Bem -vindos ao inferno!”, ele disse em um inglês carregado que tornava a frase ainda m ais apropriadam ente intim idadora. Ao fundo

dava para ouvir os gritos altos de suas crias. Pareciam bestas sanguinárias ávidas por derrubar e atropelar turistas inexperientes em busca de um a singela foto para a posteridade. Neste

m om ento, vieram im agens de nós quatro sendo arrastados a toda a velocidade pelo Irã por cam elos desem bestados e sendo encontrados sem anas depois, quando nossos am iguinhos desem bocassem em algum oásis para beber água, carregando apenas nossos esqueletos

ressecados em suas corcovas. Mas quem está na chuva é para se m olhar. Ou m elhor: quem está no deserto é para se queim ar.

EQUIPE REUNIDA SOB O SOL DE SHIRAZ, EM FRENTE À CIDADELA

DE KARIM KHAN.

PÁTIO INTERNO DE NOSSA POUSADA EM SHIRAZ, UM OÁSIS NO DESERTO. LITERALMENTE!

DETALHES DA MESQUITA AZUL DE YAZD (JAMEH). A CIDADE ERA PEQUENA MAS ABRIGAVA ESSA QUE É UMA DAS MAIS BONITAS MESQUITAS DO IRÃ E QUE APARECE ATÉ NO VERSO DA NOTA DE 200 RIALS.

O DRAMA DA CIDADELA HISTÓRICA DE ARG-É BAM, QUE FOI DESTRUÍDA

EM UM TERREMOTO EM 2003, FEZ PARTE DE NOSSA MISSÃO NO IRÃ. ESSE

DESASTRE NATURAL ACONTECEU NO DIA 26/12/2003, EXATAMENTE UM

ANO ANTES DO TSUNAMI ASIÁTICO, OUTRA HISTÓRIA QUE CONTAMOS NO

PROGRAMA E QUE RELATO NESSE LIVRO.

Concluí que, na m elhor das hipóteses, conseguiria m e equilibrar nas costas do bicho por alguns rápidos segundos que ao m enos renderiam boas im agens para o program a. UFO, ainda em polgado em seus devaneios de T.E. Lawrence, perguntava que velocidade m áxim a um

cam elo podia atingir. Talvez vislum brando a quebra de algum recorde que ele tinha pesquisado no Google na noite anterior. “Vou buscar os anim ais. Esperem aqui”, disse o criador com um sorriso m aroto no rosto que m e deixou ainda m ais ansioso. O suor escorria por nossa face m uito

m ais pela tensão do m om ento do que pelo calor que fazia. UFO m antinha um sorriso diabólico na face, Pesca perm anecia quieto e focado com o um com petidor prestes a enfrentar o grande desafio de sua carreira, Leondre m esclava oração e palavrões am aldiçoando a todos por o

term os colocado nessa situação de m orte im inente. Até que nossos algozes de quatro patas com eçaram a surgir perfilados de dentro de seu estábulo de pau a pique. Com o em um a

passarela de m oda, eles iam dando o ar da graça um a um . Cada qual m ais pangaré que o outro! Eram versões decrépitas do que a gente tinha im aginado. Os bichinhos eram verdadeiros anciãos de duas corcovas! Devidam ente ornam entados para a ocasião, eles pareciam árvores de Natal

decoradas por um a versão persa da Lady Gaga sob efeito de ácido. Vinham se arrastando lenta e preguiçosam ente, com o quem bate ponto em um a repartição pública contando os dias para a aposentadoria. Pareciam quatro senhores de terceira idade que tiveram seu soninho da tarde

interrom pido. UFO, decepcionado com o um a criança que teve seu pirulito roubado, fazia m enção de desistir. “Agora, não!” Já que estávam os ali, íam os andar de cam elo. Nem que fosse para contar a história em casa depois (tornando-a m uito m ais destem ida e glam ourosa, claro).

Depois de duas voltas a 5 km /h por um cercadinho no deserto, abandonei o navio. Ou m elhor, o cam elo. Pulei lá de cim a dando um descanso para m inha lom bar e m ais ainda para a do pobre

anim al cansado de guerra. A triste criatura parecia respirar m ais aliviada do que eu, por poder seguir o resto do traj eto no autom ático e sem a carga extra. Leo m e acom panhou na m esm a hora. E logo fom os seguidos por Pesca. O único a m anter a pose durante todo o traj eto foi ele:

Felipe UFO, o nosso beduíno brasileiro. Ele m antinha a postura séria de conquistador fenício enquanto seu cam elo fétido seguia para a terceira volta no parquinho, sendo puxado por um guri iraniano de uns dez anos de idade. Eu, Pesca e Leo sentam os no carro que aguardava para nos

levar de volta e rivalizam os com nossos colegas do reino anim al na quantidade de água que entornam os (o cam elo pode chegar a beber 200 litros de água em um dia). O calor ia dim inuindo à m edida que a tarde caía. O sol ia se pondo e a silhueta de UFO e seu cam elo contrastava com o

laranj a que parecia cobrir todo o horizonte do deserto naquele m om ento. Ao se aproxim ar de nós pela terceira vez, UFO não se conteve. Sorriso tím ido no canto da boca, se virou para nós

com pungido, e, quando acham os que ia se desculpar pela furada em que tinha nos m etido, ouvim os o apelo: “Só m ais um a voltinha?”

Nota

 

3 Gêngis Khan foi um conquistador m ongol, considerado um dos m aiores com andantes m ilitares

da história da hum anidade. Ele invadiu a China e expandiu seu im pério para além do oeste e sul,

chegando a dom inar partes da Pérsia, Rússia e Ucrânia.