Não Conta Lá em Casa
Um livro sem epílogo
HISTÓRIA SEM-FIM!
Epílogo é a parte que representa a conclusão ou fim de um a obra literária. Por m ais que este livro tenha que chegar ao fim (e, consequentem ente, que eu tenha que redigir um epílogo),
não m e sinto confortável em fazê-lo. Me parece tão inadequado quanto o fim do Indo.doc, que desencadeou todo o proj eto do Não conta lá em casa, tal qual citei no início deste livro (no prólogo?). Isso porque tem os a certeza de que este proj eto não acabará nunca. Ele agora faz
parte de nós. Talvez sem pre tenha feito, m as agora algo acordou este desej o, esta necessidade, o anseio que estava dorm ente. Conhecer, entender, questionar e agir. Sabem os que não vam os m udar o m undo, tão vasto e incom preensível. Porém , m ais do que nunca, sabem os que é possível
tentar. Som os um pequeno grão de areia na im ensidão do universo, m as agora tem os noção de nossa conexão com tantos outros grãos à prim eira vista tão distantes de nós. Vim os que um a
pequena borboleta batendo as asas na Am érica do Sul pode, sim , causar um a revolução no Oriente Médio. Terem os sucesso? Farem os a diferença? Denunciarem os grandes inj ustiças e derrubarem os governos im placáveis? Vam os transform ar a sociedade e quebrar preconceitos?
Provavelm ente, não. Mas vam os fazer a nossa parte. Afinal de contas, “a viagem é m ais im portante que o destino”, com o diria o sábio provérbio chinês.
Nossa curiosidade e o desej o de descobrir e entender as grandes questões do m undo e da
hum anidade passaram a ser com partilhados por um a grande horda de novos am igos, espectadores e, agora, leitores que nos estim ulam e cobram em igual e j usta m edida. Quando ainda estava na faculdade de j ornalism o, tive um m om ento que poderia ser classificado com o
um a epifania teen. Na ocasião, um a teoria convenientem ente m e agradava: “quem faz a faculdade é o aluno”. Até m esm o os professores diziam que nós deveríam os aproveitar aqueles
quatro anos de form ação acadêm ica para angariar o m aior núm ero de referências, lições e experiências pessoais que pudéssem os. No estágio é que se aprende a profissão na prática, diziam eles. Já que eu estava estagiando havia dois anos, por que diabos, então, perdia m inha m anhã na
aula quando poderia estar na praia? Pensava em um típico radicalism o adolescente.
No entanto, a bem da verdade, essas teorias foram bastante úteis para j ustificar a m im m esm o que ler toda a obra de Bill Bry son era m uito m ais fundam ental para m inha form ação do que prestar atenção às aulas de estatística, ou que trancar seis m eses de faculdade e ir fazer
m ochilão pela Europa valeriam a pena no final das contas. Dessa form a, posso dizer que, após todos esses anos, o que restou em m inha m em ória em term os de conteúdo program ático foi só aquilo que realm ente im portava e m e interessava. O sum o do que realm ente faria a diferença
em m inha vida. Atenção: não quero fazer apologia contra o ensino fundam ental, m édio ou superior. Muito pelo contrário, a cultura, a inform ação e o aprendizado são prim ordiais na form ação do ser hum ano e a base do desenvolvim ento de qualquer sociedade, com o todos
sabem os. E não há m elhor época e lugar para a troca e aglutinação de inform ações das m ais variadas do que durante a vida universitária.
Talvez essa espécie de faculdade alternativa e altam ente específica que cursei — m inistrada e adm inistrada por m im m esm o — em paralelo à oficial, de j ornalism o, tenha sido a preparação perfeita para o tipo de trabalho e m issão tão específicos que encaro hoj e. Após todo
estudo teórico e preparação de vida, o preceito básico com que encaro essas viagens é a sim ples (porém nada sim plista) m áxim a do filósofo Sócrates, com a qual esbarrei durante os prim eiros períodos desta errática j ornada em um a m açante aula de filosofia: “Só sei que nada sei.”
Seguindo a prem issa do grande m estre, tento m e despir de todo e qualquer pré-conceito (separado, m esm o) ao experim entar as diferenças, quase sem pre surreais, das culturas com as quais m e deparo. Então, m e lem brei de outro livrinho que se salvou naquela seleção natural que
prom ovi para a m inha faculdade exclusiva e pessoal. A edição de bolso de Etnocentrism o e relativism o cultural, que anos atrás eu não conseguia im aginar servindo para qualquer coisa em
m inha vida prática, contribuiu com outro conceito tão valioso quanto o do feioso filósofo grego, a saber: o j ulgam ento que fazem os de qualquer cultura é form ado com base em valores da nossa própria. Por isso, a ideia que fazem os de bem , m al, bom , ruim , bonito ou feio é relativa em cada
sociedade. Sinceram ente, depois do Lonely Planet, essa deveria ser a Bíblia (ou o Corão) do viaj ante com o m ínim o de hum ildade para não só conhecer outra cultura, m as vivenciá-la de verdade.
Foi assim que tive m ais facilidade em com preender, e não som ente aceitar, algum as situações com que nos deparam os pelo m undo, fosse ao vivo e em cores, nos noticiários de TV ou nas páginas dos j ornais. O que m e perm itiu absorver ensinam entos e tradições à prim eira vista
m uito contrários a m eus valores pessoais, que m e foram apresentados nos cenários m ais extrem os e catastróficos. Aprendi lições heroicas de povos oprim idos e indivíduos vivendo nas
realidades m ais dram áticas. Tudo isso para constatar que o grande fio que conduz a narrativa histórica do m undo em que vivem os som os nós m esm os. Nossas sem elhanças m ais básicas travestidas de extrem ism o, exotism o, fundam entalism o ou outros ism os que usam os para explicar
o inexplicável. A verdade reside na sabedoria do clichê: no fundo som os todos iguais. Estam os todos nós, ocidentais, orientais, árabes, soldados, civis, m onges, escravos, ricos e m iseráveis, atrás de soluções para as questões m ais sim ples e básicas da hum anidade. O desej o de liberdade. A garantia de saúde, educação e segurança. Paz. E dem ais versões e traduções da eterna busca da felicidade.
Um a câm era na m ão e nenhum a ideia na cabeça. Esta é a form a com que pretendo
continuar a encarar todas as m inhas viagens durante este proj eto. Deixando os personagens que cruzam m eu cam inho por esses países tão inusitados serem os responsáveis pela form ação crítica de m eus conceitos sobre suas culturas, suas histórias e suas vidas. E sobre o m undo em que
vivem os. Só sei que nada sei. O epílogo acaba sendo um a m era form alidade literária. Passo a passo, um lugar de cada vez, o Não conta lá em casa segue pelo m undo despindo-se de qualquer tipo de preconceito. Disposto a errar, se surpreender, ser contradito e m ostrar nossos acertos e
percalços nesse processo incessante e tão interessante, nessa busca por lições e aventuras. Por experiências enriquecedoras, relatos em ocionantes e m ensagens que valham a pena ser
divididas. Querem os descobrir, aprender, questionar e agir! O m undo precisa disso. E nós estam os dispostos e agradecidos por poder dar a nossa hum ilde contribuição. Felizes por fazer nossa pequena parte por um m undo m elhor.
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André Fran
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