Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 7 de 16

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Não Conta Lá em Casa

Tuvalu

Nossa m issão é, claram ente, desbravar os países m ais polêm icos e perigosos do globo. Foi assim que, entre percalços e aventuras, nos deparam os com ditaduras opressivas, países em guerra, regiões arrasadas e algum as das m aiores lições que alguém pode levar dessa vida. Mas

nenhum dos locais que analisam os em pesquisas, que colocam os em debate com o possíveis destinos de film agem ou que sugerim os em nossas trocas de e-m ails de produção parecia aconselhável para um a viagem de turism o daquelas típicas, pelo m enos para o turista tradicional.

Tudo bem que o Irã se revelou um país super-hospitaleiro, que na Etiópia há cidades históricas lindíssim as ou que Mianm ar tem pelo m enos um patrim ônio da hum anidade em cada cidade,

m as todos esses destinos apresentam suas particularidades e requerem um m ínim o de espírito aventureiro (e ausência de frescura) para serem desbravados a fundo. Todos, exceto Tuvalu, um a pequena ilhazinha perdida no Pacífico Sul com praias desertas de areia branca e águas

cristalinas. Exatam ente com o m anda a cartilha da praia paradisíaca. Visuais que pareciam ter sido pintados a m ão. Paisagens iguais àquelas fotos que aparecem no Google quando você procura pelo term o “paraíso”.

Se há um destino do Não conta lá em casa que m erece ser visitado por am antes da natureza, casais em lua de m el e historiadores, tudo na m aior paz e tranquilidade, esse lugar é Tuvalu. Não havíam os chegado até lá por engano ou em rota de fuga de algum exército rebelde.

Conform e aprendem os na COP 15, o arquipélago de Tuvalu está am eaçado de se tornar o prim eiro país a sum ir do m apa. Literalm ente.

 

Nossa história com Tuvalu tinha com eçado algum tem po antes de colocarm os nossos pés nesse m inirrecanto polinésio localizado entre o Havaí e a Austrália. Conform e j á relatado neste livro, no início de 2010 fom os para a COP 15. Passeando entre os diversos sem inários ecológicos,

m anifestações populares, proj etos de ONGs e prom essas vazias dos líderes das grandes nações, sem pre esbarrávam os com a causa de Tuvalu. O nom ezinho desconhecido do quarto m enor país do m undo, com apenas 26 quilôm etros quadrados e m enos de 13 m il habitantes, crescia em

im portância no encontro, devido ao fato de inúm eros cientistas garantirem que esta seria a prim eira nação a desaparecer com pletam ente do globo por conta do aquecim ento global e a consequente subida das m arés. Segundo eles, a população inteira terá que m igrar para a Austrália ou a Nova Zelândia, um a cultura que irá desaparecer por com pleto e suas belas praias em breve serão apenas um a triste m em ória em um cartão-postal. Em resum o, Tuvalu seria engolida pelo

m ar. Um a Atlântida dos tem pos m odernos.

Então, antes que o dia do j uízo final ecológico acontecesse para a ilha, resolvem os ir até lá conferir a real situação. Mas o “ir até lá” não era tão sim ples assim . Tuvalu é form ada por nove

atóis e m ais de trinta ilhas. Desses nove atóis, apenas oito são habitados (daí o nom e Tuvalu, que significa “Grupo de Oito”). Funafuti é o principal deles e o que abriga a capital Vaiaku e o único aeroporto do país. Existe apenas um voo por sem ana para o local. O avião que traz você é o

m esm o que o levará em bora cinco dias depois. Chegar até esse idílico recanto no Pacífico leva tem po e são necessárias algum as escalas. A cada um a delas parece que os aviões vão

dim inuindo de tam anho, e o últim o deles é um legítim o teco-teco da Air Fij i, única com panhia que opera voos para o lugar e, m esm o assim , com severos lim ites de bagagem (m as, um a vez em Tuvalu, você vai perceber que não precisa de nada além de um a roupa de banho e um

protetor solar). Partindo do Brasil, a opção m ais rápida é via Chile, Nova Zelândia, Fij i e, finalm ente, Tuvalu. Quase três dias depois. Mas, se a ideia é conhecer um dos recantos m ais isolados do globo, não poderia ser diferente.

NOSSA ROTINA EM FUNAFUTI: ACORDAR, TOMAR CAFÉ, CAMINHAR DOIS MINUTOS E DAR UM MERGULHO MATINAL NESTA PAISAGEM.

Depois de passar talvez pela m enor alfândega do planeta, de im ediato você percebe o quão real é a am eaça clim ática para Tuvalu. O país é im pressionantem ente pequeno! O que o torna ainda m ais delicado, coloquial e sim pático. O “pico” m ais alto não passa de 4 m etros de altitude!

E a extensão da ilha não ultrapassa 10 quilôm etros. Até pelo tam anho da pista de pouso em relação ao país, essa acaba sendo a grande referência local. Fam ílias se aglom eram nas cercanias do aeroporto para receber os visitantes, os hotéis ficam a poucos passos dali e para se

locom over pela cidade você acaba cruzando-a algum as vezes ao dia. Não, não existem cercas, seguranças ou proteção. É apenas um a grande rua asfaltada no m eio de um a pequena ilha. Scooters são o m eio de transporte favorito de dez entre dez tuvaluanos. Elas podem ser alugadas

em um a loj inha que fica a poucos m etros do aeroporto (e do hotel, do restaurante...), e passear de um a ponta a outra da ilha em um a dessas m otocas não leva m ais do que vinte m inutos. Afinal,

há apenas um a rua paralela à pista de pouso que atravessa toda a capital. De um lado, um a zona de preservação am biental com praias de águas perm anentem ente calm as e azuis em um tom que lem bra o de um a piscina. Do outro, um a barreira de corais com ondas se chocando

violentam ente. Um onipresente alento da m aré que se aproxim a.

Conseguir um hotel em Tuvalu é bem fácil. Prim eiro pelos poucos turistas, exceto os engaj ados clim áticos, que circulavam no lugar. Segundo, não precisa de táxi, trem ou m etrô para

ir até lá. A alguns passos da saída do aeroporto, chega-se à Filam ona Guest House. E, se esta não for de seu agrado, alguns passos adiante existem outras acom odações de estilo bem parecido. Ao todo são cinco hospedarias; aquelas casas de fam ília em que os quartos são alugados para

hóspedes. Só há um hotel tradicional na capital, o Vaiaku Lodge, que possui 16 quartos e um a vista privilegiada da praia. No caso, para nos sentirm os m ais no clim a da ilha, ter um a interação

m aior com os locais (OK, isso j á não era tão difícil assim ) e econom izar um trocado, optam os por um a hospedaria, m esm o. E não nos arrependem os. Não há luxo ou m im os com o xam puzinho de hotel, touca de banho, café colonial ou outras regalias. A diária oferece um quarto com duas

cam as, um ventilador de teto e um a ducha de água doce. Ponto. Mas o clim a fam iliar com pensa. A m atriarca coordena a adm inistração (e ela é quem cobra religiosam ente o pagam ento de sua diária, com o se fosse possível fugir da ilha a nado sem pagar) e o restaurante no pátio externo, as

filhas trabalham na arrum ação dos quartos e a m ais velha consegue até configurar a internet no seu com putador. O café da m anhã é servido em conj unto na cozinha, hóspedes e funcionários/m oradores m isturados. Não custa aj udar lavando sua louça, a vovó responsável pela

copa agradece. A sala fica reservada para um m om ento de relaxam ento após um dia cansativo na praia, e todos se reúnem em torno da velha TV para assistir a algum a partida de rúgbi

(influência dos países vizinhos).

Mas o grande atrativo de Tuvalu é m esm o a sua beleza natural. O atol de Funafuti tem o form ato de um a im ensa lagoa azul e sua costa interna é form ada por um a sucessão de praias de

cenário incrível! E o m elhor: desertas! Você fica esperando ver a qualquer m om ento Brooke Shields — 15 anos m ais nova e vestida em seu figurino de A lagoa azul — sair do m ar vindo de

um m ergulho. Menos de m il turistas visitam o rem oto destino anualm ente. A grande m aioria é form ada por ativistas ecológicos que chegam ao país em m issões que não incluem pescarias ou m anhãs ao sol, m as análises do solo e m edições geológicas. Então, as chances de você esbarrar

com outros visitantes são rem otas. Dessa form a, Tuvalu acaba se tornando um paraíso particular. E ele pode ficar ainda m ais exclusivo. É possível chegar aos outros atóis e ilhas m ais afastados, porém som ente com a aj uda de um navio cargueiro. O tal navio visita as áreas m ais rem otas em

intervalos de três a quatro sem anas e por um a quantia bem baixa aceita dar um a “carona” aos turistas m ais aventureiros. Não existem acom odação, restaurantes ou m ercados. É necessário levar barraca, provisões e um kit de prim eiros socorros por garantia. Mas os locais garantem que

o visual é ainda m ais belo que o da j á estonteante capital e com pensa qualquer sacrifício. Para os pacatos, há a opção de um passeio pelas ilhas próxim as, localizadas no atol principal. Por pouco

m ais de 20 dólares (o preço é acertado com os barqueiros locais), você sai em um barquinho de pesca e quarenta m inutos depois está em um a pequena ilha deserta. O preço inclui m áscaras de m ergulho para você desbravar todo o redor da ilha enquanto seu barqueiro prepara um churrasco

de peixe arpoado ali na hora. Um isopor carregado com cervej a gelada, sucos e refrigerantes com pleta a festa na areia. Outras destas ilhas m enores podiam fazer parte do m esm o roteiro, m as os locais garantem que parte delas j á foi com pletam ente engolida pelas águas ao longo das

últim as décadas. O cem itério de palm eiras que é possível ver em um rápido m ergulho próxim o à m argem com prova as alegações e é um triste lem brete do dram a que vive esse lindo paraíso e

seu povo.

EMBARQUE NO PORTÃO 6!

UM PASSEIO PELAS MENORES E CADA VEZ MAIS RARAS ILHAS DO

ARQUIPÉLAGO.

O turism o, ao m esm o tem po que aj uda com sua valiosa contribuição econôm ica, deve ser realizado de form a extrem am ente consciente. Em um a ilha daquele tam anho, a quantidade de lixo acum ulado pode acarretar um desequilíbrio ecológico desastroso. Por isso, ao deixar Tuvalu,

você não sairá com sacolas dos últim os lançam entos da m oda ou novos gadgets eletrônicos, m as com os detritos gerados em sua passagem por ali. Um a atitude fundam ental para não perturbar o equilíbrio ecológico local. E que faz refletir.

ARQUIBANCADA PARA ASSISTIR AO

PÔR DO SOL.

PARA TODO LUGAR QUE VOCÊ OLHAVA EM TUVALU O CENÁRIO

ERA DE CARTÃO-POSTAL.

TRECHO MAIS ESTREITO DE TUVALU, JÁ QUASE DIVIDINDO A ILHA EM DUAS.

Entre passeios de pés descalços pelas praias m ais próxim as, m anhãs de m ergulho no m ar azul e fins de tarde com endo peixe fresco e pulaka (prato típico à base de um legum e local) em sua casa/hotel, o clim a da ilha acaba tom ando conta do seu cotidiano. Não há grande variedade

de program ações, a vida sim ples no paraíso se transform a em rotina. Até a econom ia local é um atestado do cotidiano tranquilo de Tuvalu. Mais de dois terços da população vive do m ercado inform al, da agricultura e da pesca para subsistência. Grande parte da receita do país vem de

fontes curiosas, com o a venda do dom ínio “.tv” para sites de internet ou do prefixo 900 de telefonia, além de um fundo m antido pela Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia. O dólar local tem paridade com o australiano, e é possível fazer o câm bio no aeroporto, no hotel, no

restaurante... Mas todo m undo aceita o dólar am ericano ou australiano tam bém . Cartão de crédito? Claro que não. Os dias se fundem e o island sty le, com o eles cham am , acaba se

tornando seu m odo de vida. Até o tem po parece ganhar um ritm o diferente, e fica cada vez m ais difícil ter que deixar Tuvalu.

Aquela grande fam ília que é a população local em alguns dias j á o cham a pelo prim eiro

nom e, m arca passeios para você e o recebe em casa com seu prato favorito na m esa e um a cervej a australiana geladinha para acom panhar. Um povo de sorriso aberto e hospitaleiro que nos acolheu com o convidados de honra e se despediu com o se fôssem os seus novos filhos

adotivos. Ao ir em bora, recebem os de nossos anfitriões colares de conchas com o suvenires e foi im possível não pensar que nossa realidade m udaria tanto, m as que essa enorm e fam ília continuaria ali quase alheia ao silencioso destino que se aproxim ava im placavelm ente. Muitos

sem saber o que está acontecendo, outros desacreditando da provável tragédia. No entanto, um a enorm e quantidade de pessoas sim ples seguirá lutando com o pode pela sobrevivência de sua

terra, de sua cultura, de seus filhos. Era duro e nunca m ais, nem por um m inuto, sairia da nossa cabeça o im pacto direto, m esm o que m uitas vezes despercebido, das nossas ações na vida de cada um que conhecem os ali.

O DESCANSO DOS GUERREIROS!

VAI DIZER QUE O CENÁRIO NÃO É MESMO DE “FIM DO MUNDO”?

Tuvalu é em blem ático! Sej a por seu tam anho, por seu povo alegre ou por sua beleza natural. E tudo isso som ado é que tornava ainda m ais desesperador o fato de que som os nós que estam os diariam ente apertando o gatilho que vai dar cabo daquilo. Desperdício de água, de

energia, consum ism o exacerbado, poluição, em issão de carbono... No fundo, todos sabem os o que está causando essa tragédia no Pacífico. Mas o que estam os fazendo para m udar o triste destino desse pedacinho de paraíso? Porque Tuvalu nada m ais é que o exem plo im ediato do que

pode acontecer com todos nós. Com nossos filhos, nosso país, nosso planeta. Com o disse um a das pessoas que conhecem os lá: “Será que a gente não consegue pensar um pouco no dram a do próxim o? Será que vam os esperar a situação bater à nossa porta para tom ar um a atitude quando

j á for tarde dem ais?” Para os nossos am igos de Tuvalu a hora é agora. Eles j á estão sofrendo as consequências das ações dos outros. Cabe a nós tentar m udar o destino desse paraíso que está

m orrendo. Cabe a cada um de nós lutar para que Tuvalu não desapareça. Pois lutar por eles é lutar pelo que há de m ais belo no nosso planeta. E é lutar por nós m esm os.

COM A MOLECADA ETÍOPE NO MONUMENTO EM HOMENAGEM AO IMPERADOR HAILÊ SELASSIÊ NO CENTRO DE ADIS-ABEBA.