Não Conta Lá em Casa
Itália
Um a das principais vantagens de quem passa grande parte do tem po entre aeroportos, aviões, lounges e salas de em barque são os program as de m ilhagem de com panhias aéreas. As tediosas e desconfortáveis horas em assentos apertados, a com ida insossa e a falta de sono são
recom pensadas com benefícios que vão desde passagens gratuitas até poder furar a fila do check-in. As m ilhas acum uladas eram m uitas desde que com eçam os o proj eto do Não conta lá
em casa. Felizm ente, a despeito de m ales, elas vinham acom panhadas tam bém de bônus. Só que, na m inha opinião, nenhum a dessas vantagens é tão agradável quanto a “bagagem prioritária”. Em qualquer viagem o obj etivo é chegar. Pagam os caro por ele, m as o voo é apenas o m eio e
não a atração principal. O que querem os na verdade é um m odo rápido, seguro e o m enos incôm odo possível de chegar a algum lugar. Se o destino vale a pena, você pode aturar até um a viagem longa e cansativa esprem ido entre dois obesos m órbidos e em balado pelo choro contínuo
de um recém -nascido. A recom pensa está sem pre na chegada. O destino final representa o térm ino do sofrim ento, o m om ento de descanso, a excitante exploração de um a terra nova, o reencontro com alguém distante... Nada m ais desagradável do que ter o prazer da sua chegada
interrom pido por um a espera interm inável pela bagagem . Por isso, quando a m oça do check-in coloca aquele adesivinho de “bagagem prioritária”, eu j á sinto o alívio por antecipação. Aquele
adesivinho significa que, entre tantas outras, a m inha m ala será escolhida para aparecer na esteira do aeroporto em prim eiro lugar. Enquanto os outros passageiros estão tensos, rogando para que sua m ala saia o quanto antes ou se posicionando com seus carrinhos de m aneira
estratégica para pegar seus pertences e deixar o aeroporto o m ais rápido possível, você fica lá, confiante e tranquilo. Certo do final feliz que sem pre acontece. Ou quase sem pre.
Estava eu, sozinho, no aeroporto do destino m ais fino entre todos aos quais o Não conta lá em casa j á tinha m e levado: o aeroporto de Malpensa, em Milão. Capital m undial da m oda e da alta-costura, Milão entrou em nosso roteiro por um m otivo nada chique: íam os fazer um curso de
sobrevivência na pequena cidade de Ravena a duas horas dali. Tinha chegado depois de m eus am igos ao Velho Continente e os encontraria apenas no dia seguinte, para com eçarm os o curso. Seria um a sem ana de sim ulações de tiros, facadas, bom bas e atentados terroristas. Mas por ora
eu estava em Milão. A garantia de m inha bagagem estar em m inhas m ãos em alguns instantes dava a certeza de poder ao m enos fazer um rápido tour pela cidade antes de seguir para m eu destino final. A esteira com eçou a se m over e eu logo abri um sorriso, ia tirar aquela onda com
m eus com panheiros de viagem ainda irritadiços. Foi quando avistei surgindo de trás daquela característica cortininha algo que não parecia m inha m ala. Aliás, não parecia nenhum a m ala.
Parecia... um a cueca? Era a m inha cueca!!! O que ela estava fazendo ali? Meu item m ais íntim o de vestuário desfilava por aquela esteira sob o olhar j ulgador de todos os passageiros! Era com o se ela estivesse em um a passarela da Sem ana de Moda de Milão. Eu ainda estava chocado, sem entender direito o que se passava, quando o segundo item a aparecer na esteira foi a m inha
bendita m ala. Com o devido adesivinho de “prioridade” colado, m as com a parte da frente totalm ente aberta. Tinham arrom bado m inha bagagem . Em plena Itália, segundo país de prim eiro m undo em que eu desem barcava desde o com eço do program a (o prim eiro foi a
Dinam arca). Eu havia sido roubado j ustam ente nesse berço de cultura, de alta gastronom ia, de im peradores, e que agora era testem unha de um triste capítulo na história de m inhas roupas íntim as. Obviam ente, até por tratar-se do local em questão, não tive com o assum ir a propriedade
da cueca. Deixei-a vagando perdida em direção ao nada. Vai que, além de roubado e hum ilhado, m inha cueca ainda era cafona? Afinal de contas, estava em Milão. Peguei m inha m ala do j eito
que estava, rasguei o adesivo de prioridade e saí rapidinho.
LEONDRE COM UMA ARMA DE BRINQUEDO NO INTERVALO DE UMA DAS EXAUSTIVAS AULAS.
O ARSENAL QUE ERA UTILIZADO EM NOSSOS TREINAMENTOS.
O traum a não perm itiu que conhecesse Milão direito. Aquele lugar que parece viver m ais
de aparências que qualquer outra coisa era m eio que o oposto do que procuram os com o obj etivo para o nosso proj eto. Portanto, fiquei até feliz em pegar um trem para encontrar m eus
com panheiros e m e j untar a eles em sessões diárias de socos, chutes, chaves de braço e estrangulam entos. Quando fizem os nossas inscrições pela internet, Jim Wagner, o m entor e criador do curso, deixou bem claro: “Meu obj etivo é treiná-los em situações o m ais próxim o do
real, para que no evento de um cenário verdadeiro vocês saibam com o se portar.”
Foi um a dura sem ana no curso de sobrevivência de Jim Wagner. O cara é um sargento linha-dura am ericano que j á foi air m arshall (aqueles agentes de segurança especiais que viaj am
à paisana em voos am ericanos), guarda penitenciário, do special ops (batalhão de operações especiais da PM, a Tropa de Elite deles), da polícia secreta, deu aula para forças-tarefa de todo o m undo (inclusive Brasil) e estam pa em seu site, com o m aior orgulho, um a foto ao lado do ex-
presidente am ericano George W. Bush. Ah, sem falar em seu gosto e defesa apaixonada das arm as de fogo. Guardadas as nossas diferenças de realidade e opiniões, o cara é um m estre no
que se propõe a ensinar. “No pain, no gain” [Sem dor, não há aprendizado!] ou “Nobody said it was gonna be easy ” [Ninguém disse que seria fácil!] foram frases ouvidas repetidas vezes durante os dias de aula na m inúscula cidade italiana. A verdade é que, entre hem atom as e
escoriações, aprendem os m uito com ele.
O dia com eçava às seis da m anhã, quando acordávam os com o crianças indo para a escola. Entre resm ungos de “Não quero ir pra aula!” e “Escola hoj e nããããooo!”, saltávam os da cam a e,
m ochilas nas costas, seguíam os a pé por uns cinco quarteirões da pacata Ravena até chegar ao m odesto ginásio que servia de palco para as aulas práticas e teóricas. Chegando lá, nos
encontrávam os com nossos colegas de classe para um rápido café da m anhã antes do início das atividades. Ao todo, eram dez hom ens e duas m ulheres de diversas idades e vindos dos m ais variados cantos da Europa. Em com um , o desej o de estarem preparados para um sequestro de
avião, um psicopata na fila do banco ou o eventual ataque terrorista no superm ercado.
Marco Desideri era um senhor de seus quarenta anos, branco com o um fantasm a, esquálido, careca e dotado de um nariz enorm e que autom aticam ente o transform ava na
caricatura de algum vilão decrépito dos livros de Asterix. Ele era em presário e, a j ulgar por suas roupas caras, de sucesso. Marco fazia um esforço enorm e para ser o aluno predileto do professor Jim Wagner. Em nossas sim ulações, geralm ente seus parceiros não ofereciam resistência por
gentileza ou pena. Cada vez que ele, atrapalhadam ente, conseguia desarm ar alguém , utilizando golpes totalm ente inverossím eis que j am ais funcionariam em um a situação real, dava um a olhada orgulhosa para Jim com o que pedindo a aprovação do m estre. Marco dizia que queria controlar pessoalm ente a segurança de suas em presas. Não entendi bem por que não optava por contratar um aparato eletrônico de vigilância ou um m oderno sistem a de alarm es. Im aginei-o
vestido de ninj a e vigiando noite após noite a entrada de suas fábricas, aguardando ansiosam ente a oportunidade de dar um a lição em algum m alfeitor com as técnicas assim iladas no curso. Rem y e Jean eram dois j ovens irm ãos franceses que devem ter assistido a film es dem ais do
Ram bo. Superdedicados e atléticos, em penhavam -se m uito nas sim ulações de cenário que invariavelm ente m achucavam um ao outro e acabavam se xingando na língua de Sartre. Paolo era um loiro m uito calado, ar soturno, olhos arregalados e cicatriz na testa. Não m e surpreenderia
se estivesse ali fazendo pesquisa de cam po para um futuro atentado. Marcel era um senhor italiano de m eia-idade, bem forte e faixa preta em caratê. Achava que o sistem a “Sej a um alvo
difícil”, desenvolvido por Jim Wagner, era a nova evolução das artes m arciais. Concluí que ele nunca tinha sido apresentado ao UFC ou ao MMA. Sonia era um a m orena de cabelos longos encaracolados, m aquiagem pesada, unhas verm elhas sem pre bem -feitas, que vestia traj es um
tam anho m enor do que deveria. Ela parecia estar ali para... Bem , para arrum ar um pretendente. Quaisquer que fossem nossos m otivos para estar cursando aquelas aulas ou o proveito que tiraríam os delas, o fato é que havia m uita utilidade no que iríam os aprender. Afinal, o curso de
Jim era proj etado para situações com uns que poderiam , em um piscar de olhos, se transform ar no m om ento m ais crucial e decisivo de nossas vidas.
EU ENTRE NOSSOS INSTRUTORES FABRIZIO E JIM WAGNER.
MAIOR DESAFIO DESTA VIAGEM, A MONTANHA-RUSSA ISPEED NO PARQUE MIRABILÂNDIA.
A grande verdade é que o ponto focal e grande atrativo do curso era a própria figura dele, Jim Wagner. Texano de m eia-idade, que apesar da barriguinha saliente era forte com o um touro, Jim discursava para a classe com o se fosse um m isto de herói de guerra, super-hom em e líder
espiritual. E a im pressão que dava era que a turm a toda o via m esm o dessa m aneira. A cada frase de im pacto ele fazia um a pausa dram ática para a inserção dos “ooohhhsss” de adm iração de sua plateia, que sem pre correspondia com tim ing perfeito. Auxiliado por um tradutor, ele
apresentava para a turm a tem as do tipo: “Com o se portar em um a briga de facas”, “Fugindo de um tiroteio”, “Voando com terroristas” e por aí vai. Esse conteúdo program ático era sem pre precedido de um episódio ilustrativo em que o próprio Jim era o personagem principal. No qual,
invariavelm ente, era o herói que salvava a todos com seu instinto de sobrevivência e bravura. A turm a ouvia em bevecida, com o se tratasse dos relatos reais da vida de Chuck Norris.
Após um rápido alongam ento, era a hora de colocar em prática o que aprendêram os na teoria. Vestíam os óculos protetores, capacetes, luvas e partíam os para a porrada! Jim fazia a exibição inicial e, sem m ostrar os truques do ofício logo de prim eira, conseguia sem pre desarm ar
ou fuzilar com balinhas de borracha as suas cobaias indefesas (nós). Depois, ensinava a parte técnica e era a vez de praticarm os o que tínham os visto com nossos colegas. Na m aioria das vezes, usávam os sangue de m entirinha. “É para dar m ais realidade...”, com o dizia nosso sádico
professor. E, então, seguiam -se horas e m ais horas de tiros de borracha (as m arcas dem oram sem anas para sum ir), spray de pim enta (fiquei com a cara ardida por dois dias), socos, chutes,
cotoveladas e facadas de borracha. Tudo em nom e do aprendizado. O exercício era cansativo de verdade. A cada dia acordávam os com novos hem atom as e dores em m úsculos que nem sequer sabíam os que existiam .
Muito do que vim os ali era puro bom -senso. O que era até interessante e provava que a coisa toda tinha um valor real e prático, não era apenas um a diversão inusitada. Jim não queria criar um exército de soldados urbanos ou proj etos de heróis prontos a fazer j ustiça em qualquer
ocasião. Muitas vezes a lição era sim plesm ente: não faça nada. Se um psicopata invadir o aeroporto m etralhando tudo em sua direção, apenas se j ogue no chão e reze. Se perceber um
grupo de facínoras vindo em sua direção na calçada, corra! Sim ples. Outras lições eram aquelas típicas sacadas geniais que sem pre parecem óbvias. Depois que você é apresentado a elas, claro. Dicas úteis que levarem os conosco em todas as viagens. Com o, por exem plo: sentar-se sem pre
perto de um a saída de em ergência (para o caso de um a... em ergência); não revelar o itinerário de sua viagem para estranhos; em localidades inseguras evitar aglom erações; inform ar a em baixada de seu país sobre a sua chegada; só alugar carros de em presas conhecidas; não
m arcar encontros com desconhecidos em lugares rem otos... Enfim , um a série de dicas que, se fôssem os seguir à risca, im possibilitariam a realização de nosso program a. E no final, entre m ortos e feridos, fom os aprovados com louvor no curso e até ganham os um diplom a de
especialista em sobrevivência. Anexada a um a foto autografada do nosso heroico guru e m entor, Jim Wagner, é claro.
Antes de nos despedirm os da pacata Ravena, ainda restava um a im portante m issão a ser cum prida. Fanático por m ontanhas-russas, Leondre estava ansioso por nossa passagem por essa
desconhecida cidadezinha do Mediterrâneo. É que, se havia algum a coisa pela qual Ravena era conhecida, era por abrigar o principal parque de m ontanhas-russas de toda a Europa: o Mirabilândia. Um a feliz coincidência o destino ter colocado isso no cam inho de nosso intrépido
colega. UFO não veio para a Itália conosco por m otivos técnicos. Pesca declarou que não iria nem am arrado. Leo, portanto, voltou sua m unição para m im . “Duas das m ontanhas m ais sinistras
se encontram nesse parque, Fran!”, tentava m e coagir a acom panhá-lo sem perceber que seus argum entos m e afastavam cada vez m ais do tal parque. Já m e bastavam as em oções proporcionadas pelos destinos escolhidos para nossas viagens: desastres naturais, ditaduras
sanguinárias, nações em guerra... Eu realm ente não precisava acrescentar loopings a 300 km /h a esse cardápio. Além do m ais, esse tipo específico de parque não estava relacionado em m inha m em ória à palavra “diversão”.
Assim que Leo m e contou sobre o Mirabilândia, m e lem brei do dram ático e tragicôm ico episódio vivido por um am igo que, em viagem a Los Angeles, resolveu conferir as atrações do Six Flags, parque de diversões renom ado dos Estados Unidos. Estava ele, alegre e faceiro,
divertindo-se nas m ontanhas-russas m ais altas, rápidas e am edrontadoras do hem isfério norte quando, após quatro horas de em oção, resolveu dar o dia por encerrado. Convencido por um de
seus parceiros de aventuras, decidiu encarar um a saideira repetindo o passeio na besta-fera conhecida com o Superm an. Cinto de segurança devidam ente afivelado, ele ia subindo vagarosam ente pelo trilho em seu carrinho, aguardando o declive que o faria atingir 206 km /h em
apenas três segundos. Início de descida. O carrinho acelerado com o um raio. A pressão atm osférica fica cada vez m ais forte, em purrando as bochechas de m eu colega para os lados. Os gritos delirantes da galera aum entam em intensidade. Quando a engenhoca parecia atingir a
velocidade de pico nas alturas, m eu am igo sente um golpe incrivelm ente forte no rosto. Levem ente desorientado, ele tenta se localizar ainda incapaz de saber o que aconteceu e onde está. Sua consciência vai voltando em flashes ainda em pleno percurso. A dor chega j unto com o
pânico, e ele tenta abrir os olhos acreditando que algo de m uito errado ocorreu com o “brinquedo”, que estaria agora levando aquele trenzinho apinhado de j ovens para um m ergulho
fatal. Felizm ente, o carrinho seguiu seu curso sem problem as. O gosto de sangue enche sua boca e ele tenta olhar para os lados em busca de socorro. Som ente quando o danado freia na estação final, o pesadelo dá indícios de term inar. Sua face dilacerada e ensanguentada afasta o pessoal
que aguarda a sua vez na fila horrorizado. Um a equipe m édica aparece rapidam ente e até um a am bulância o assiste no próprio local. Som ente m ais tarde m eu am igo recobraria parte da m em ória, lem brando ter avistado um pássaro m om entos antes do trágico choque. Testem unhas confirm am tratar-se de um falcão desavisado que atingiu o rosto de m eu cam arada que viaj ava
a m ais de 100 km /h. A “brincadeira” lhe custou um a noite no hospital e alguns m ilhares de dólares em indenização ao parque.
Lem bro desse caso sem pre que vej o a face histericam ente alegre e desavisada da garotada
que viaj a pelos céus nessas m ontanhas-russas radicais tendo apenas um pequeno cabo de aço separando-as de um a m orte espetacular. Mas acabei cedendo à chantagem em ocional de Leondre e fom os j untos enfrentar as m ais tem idas m ontanhas-russas do Velho Continente. E
devo confessar que, para m inha surpresa, aquela foi um a das tardes m ais divertidas que j á vivi na Europa. O parque é realm ente im enso e, para quem esperava um a versão clássica e datada,
com carrinhos de ferro enferruj ado passeando por trilhos de m adeira, m e deparei com um a autêntica versão italiana do tem ido Six Flags. Eram diversos restaurantes, atrações, loj inhas e passeios tem áticos. Todos eles, obviam ente, radicais. Se vangloriavam de possuir os m ais rápidos
e altos passeios, o m aior núm ero de loopings, as m aiores quedas... Havia até um a votação na saída do parque para você escolher qual fora a viagem m ais am edrontadora. Marquei em pate, pois m eu coração saltou pela boca e foi até o pé igualm ente em todas elas. Mas com eçam os este
proj eto sabendo que teríam os que encarar desafios aterradores. Fiquei feliz de a Mirabilândia ter sido m ais um a m issão cum prida.
CARTAZ QUE TE RECEBE NO AEROPORTO DE BALI.