Não Conta Lá em Casa
Indonésia
Deve ser estranho deparar com a agradável cidade de Bali em um livro com o este. Se o título desta obra fosse algo na linha Destinos paradisíacos ou As praias m ais bonitas do m undo,
ainda vá lá. Mas, com o j á deu para perceber, não é o caso. Acontece que dois dos principais destinos de nossa terceira tem porada são vizinhos bem próxim os desta deliciosa cidade pródiga em ondas perfeitas, tem plos hindus e escandinavas bronzeadas curtindo suas férias de verão.
Ironia do destino, o lugar que a gente ia visitar “a trabalho” ficava ali m esm o na Indonésia: a cidade de Banda Aceh. Cinco anos depois da prim eira viagem , íam os retornar ao ponto zero do
tsunam i de 2004 na Ásia e do próprio proj eto Não conta lá em casa. Queríam os ver os efeitos a m édio prazo de todo o investim ento que vim os chegar ao lugar em um m om ento tão em ergencial. Íam os continuar ali pelas redondezas e depois seguiríam os para o Tim or-Leste. A
ideia era conhecer esta j ovem nação e aprender sobre sua recente e trágica história, intim am ente ligada à própria Indonésia e até ao Brasil.
Fom os para Bali quando term inam os a nossa sem ana de treinam ento antiterrorism o em
Milão. A sensação de partir do aeroporto de Malpensa e voar em direção ao de Dem passar, em Bali, era altam ente representativa no m om ento. Sobrevoam os algum as das cidades m ais com plicadas que j á tínham os conhecido e pretendíam os conhecer. Bagdá, Saraj evo e Banda
Aceh ficavam para trás, lá em baixo, enquanto a gente seguia para aquele que é considerado o verdadeiro paraíso, não só para a nossa equipe com o para as hordas de turistas que visitam o
lugar todo ano (Bali recebe anualm ente m ais que o dobro de turistas do Rio de Janeiro). Única ilha hindu de um a Indonésia predom inantem ente m uçulm ana, era por si só a referência de um estilo de vida m ais leve e relaxado. A tranquilidade do voo que passava por cim a de regiões tão
tensas era a m etáfora perfeita para o nosso curto período ali. Algo com o estar acim a das preocupações e do estresse cotidiano inerente à produção de um program a com o o nosso.
A Indonésia, no todo, e Bali, em específico, têm um apelo forte para o surfe, e esse é um
dos principais m otivos que fazem esse destino ser tão querido entre os m em bros do Não conta lá em casa. São várias praias paradisíacas e com ondas que não deixam nada a desej ar ao visual de cartão-postal onde estão inseridas. Esquerdas ou direitas. Pequenas ou grandes. Longas paredes
azuis perfeitas para m anobras ou tubos na velocidade de um a locom otiva correndo sobre um a bancada de coral afiado. Há ondas para todos os níveis e gostos. Antes m esm o de fazer o check-
in em um hotel, dá para tirar o ranço da viagem com um a bela sessão de surfe. Em Airport Lefts, é possível encontrar esquerdas perfeitas para os m ais fissurados aproveitarem um a caidinha antes m esm o de deixar o aeroporto, que aliás é um a perfeita introdução ao tipo de
viagem que você vai vivenciar em Bali.
Da últim a vez que passam os por lá, um senhor vendia um Viagra genérico direto de um a pochete. “Strong banana!”, dizia, enquanto fazia um gesto de força com o punho. Recusam os o aditivo, m as acabam os com prando duas daquelas pulseirinhas Power Balance, que prom etem
equilíbrio físico e m ental com garantia da NASA. A gente nem queria os braceletes, m as é j ustam ente quando você negocia sem a intenção de com prar que consegue as m elhores barganhas na Indonésia, lugar onde a disputa de valores entre vendedor e com prador é parte
integrante da cultura. Depois de m uito regateio na negociação, chegam os a um ponto em que o preço de nossas pulseiras caiu quase 1.000%. Um a verdadeira pechincha! Com o estávam os indo para Banda Aceh, eu e Pesca acreditam os que não custava nada levar m ais essa sim patia em
form a de adereço para encararm os com equilíbrio um terreno extrem am ente suscetível a abalos sísm icos. Um m ês depois de nossa aquisição, um a nota oficial divulgada na im prensa de todo o
m undo revelava que o tal bracelete era tão som ente o esquem a da vez para enganar trouxas. Nossa decepção não foi assim tão grande. Afinal, não com pram os as tais pulseiras direto da Agência Espacial Norte-Am ericana, m as sua versão falsificada obtida direto da pochete de um
tiozinho que vendia Viagra contrabandeado.
Com o se não bastassem as praias com j ovens de todas as partes do m undo, os tem plos com seus m acaquinhos ladrões de bugigangas e as estátuas hindus cobertas com sarongues coloridos,
Bali ainda consegue seduzir pelo ponto de vista econôm ico. Tudo é m uito barato! Além das ondas, esse é um dos m otivos que faz nosso querido Bruno Pesca optar por m orar e trabalhar direto na ilha durante grande parte do ano. E que faz com que UFO e Leo passem férias por lá,
todo ano, m uitas vezes estendendo a perm anência por m eses e m eses. Com o é a m inha prim eira passagem pelo lugar, eles prom eteram ser m eus guias oficiais e garantiram que conheceria a
verdadeira Bali. Alugam os m otos sem habilitação (prática com um no lugar) e fom os rodar a ilha. Vestim os os obrigatórios sarongues para conhecer os principais tem plos, passeam os pelas ruas m ovim entadas de Kuta, desviando das oferendas hindus que cobrem as calçadas e enchem
o ar com seu cheiro de incenso, visitam os as praias lotadas de australianos vivendo um clim a hippie dos anos 1970 e, finalm ente, a m elhor parte do dia: eles m e levaram ao seu restaurante favorito. A com ida era deliciosa. Suco de banana fresquinho e um prato m uito bem servido e
tem perado de m acarrão com frutos do m ar que parecia terem sido pescados na hora. Porém , o que m e deu água na boca m esm o foi o preço: 12 dólares! Pelas quatro refeições!
Diferentem ente do que acontece durante nossas viagens tradicionais, em Bali você acaba
ganhando peso em vez de perder. Especialm ente nessa viagem , quando passam os por um a provação que acabou por se tornar um a bênção disfarçada. Nossos poucos dias na cidade
coincidiram exatam ente com um feriado em endado dos hindus. Chegam os ao fim do dia procurando um lugar para passar a noite m as todos os hotéis estavam abarrotados. A gente parava na porta de algum dos locais assinalados em nosso guia e logo aparecia um funcionário
com cara de lam ento e fazendo um sinal com as m ãos que no Brasil seria interpretado com o “Peguei um peixe desse tam anho!”. Dem oram os a entender que aquele gesto significava a palavra que m ais tem íam os naquela situação: lotado. Mas, para quem j á passou por países onde o povo fala “sim ” m as balança a cabeça negativam ente, linguagem de sinais não era o m aior problem a. O grande dram a era que, hotel após hotel, albergue após albergue, pousadas, casas de fam ília... todas as acom odações na cidade estavam lotadas. Considerando a hipótese de dorm ir
na praia usando as m ochilas de travesseiros e as capas de prancha com o sacos de dorm ir, decidim os rum ar para um a últim a e arriscada cartada. O Ram ada Bintang Bali era referência em luxo e ostentação no coração da ilha. Para os padrões de instalação a que estávam os
acostum ados, seria com o hospedar quatro m endigos no Palácio de Buckingham . Apesar do cansaço e de nossos traj es nada de acordo com as nababescas instalações, cruzam os o portão de entrada com o lordes e nos dirigim os ao balcão do lobby. Havia apenas dois quartos duplos.
Exatam ente o que a gente precisava. Dava até m edo de perguntar o preço. Quando o funcionário disse 50 dólares cada quarto, não acreditam os. Cem dólares era o que a gente tinha pagado para
ficar em um cativeiro m ofado em Rangoon, Mianm ar! Essa m esm a quantia em Bali nos garantiu m anhãs de sol na piscina, drinques na beira da praia, internet Wi-Fi, salão de j ogos e um generoso café da m anhã. E, quando digo generoso, m e refiro a dez estações divididas entre: pães,
bolos, panquecas, saladas, sucos variados, shakes, cereais, iogurtes, frutas e queij os. Coisa de film e.
Apesar de ser um a espécie de zona de segurança, ou um hub de prazer e diversão antes de
alçarm os voos m ais tensos, em Bali passei por um dos m aiores traum as de todas as m inhas viagens. Foi quando m inha câm era digital, com a qual congelei para a posteridade m om entos únicos e de altíssim o valor visual e afetivo, desprendeu-se de m inhas m ãos durante um a sessão
de fotos pseudoartísticas na beira do m ar de Java. Ainda tentei salvá-la de seu destino m ortal, m as foi em vão. Já no Brasil, precisam ente às 9h25 de um a m anhã fria de inverno, foi decretada
oficialm ente a m orte de m inha m áquina fotográfica digital tão querida. Após o m ergulho acidental nas águas da praia de Changu, a pobrezinha vinha respirando por aparelhos nas dependências da loj a autorizada de m eu bairro. Seu estado inspirava profundos cuidados e sua
m anutenção estava sendo custosa. A m inha esperança quanto à sua recuperação equivalia em intensidade som ente à dedicação dos especialistas que dela tratavam com esm ero. Um sopro de vida parecia ainda insistir em bater em seu debilitado coraçãozinho coberto por circuitos. Um a
sobrevida com algum as sequelas inevitáveis parecia acenar no horizonte. Foi então que, finalm ente, fui retirá-la de sua m oradia provisória desde o seu acidente. Crente que iria rever os m om entos m em oráveis passados em Bali. A expressão pesarosa do encarregado por seus
cuidados fez com que o silêncio traduzisse eloquentem ente o grito que calou m inha alm a. A m inha com panheira de aventuras, em sua frágil condição, não resistira à atípica um idade a que
fora subm etida durante o m ergulho fatídico. Sua m orte havia sido decretada exatam ente na noite anterior. Preferi não levar com igo seus restos m etálicos. Achei que guardar na lem brança a sua presença associada apenas a alguns dos episódios m ais abençoados de m inha existência seria o
m ais adequado. A am iga digital, em sua breve passagem sob m inha custódia, retratou com eficiência im agens que ficarão para sem pre guardadas não só na m em ória virtual de m eu com putador, com o em m inha própria m em ória, agora abalada. Foi com esta câm era que congelei para sem pre passagens m ágicas que só um proj eto da m agnitude e perfil do Não conta lá em casa poderiam proporcionar. Com panheira, fiel, com petente e destem ida até sua últim a m issão, ela estará para sem pre viva em m inhas lem branças. Que m inha querida am iga estej a
bem onde estiver.
Tirando o prej uízo da m áquina, nossos dias de sultão em Bali valeram a pena. No entanto, apesar de relativam ente baratos, foram um duro golpe no orçam ento. Tão duro que, quando
precisam os tirar cópias do guia de viagem de nosso próxim o destino, antes de partir, tivem os que recorrer a atitudes drásticas de sobrevivência. O dinheiro estava contadinho, dava para cobrir as cópias, a gasolina até o aeroporto e só. Nós é que não contávam os que o estacionam ento onde
ficava localizada a copiadora era pago. O j eito foi parar no estacionam ento da loj a de vinhos ao lado, este, sim , gratuito. Porém , reservado som ente para o uso de clientes. Sobrou então para
m im , e acabei ficando por quase um a hora fingindo escolher entre m erlots, pinotages e chardonnay s enquanto m eus colegas gastavam nossos últim os centavos na xerox. Não conta lá em casa não é glam our, não. Devido às restrições orçam entárias, ainda tivem os que deixar a
única província hindu da Indonésia para encarar nosso período de film agem em Banda Aceh, a m ais radicalm ente islâm ica do país, viaj ando em um a com panhia aérea bem m ais hum ilde. A Merpati Airlines não é m uito conhecida por sua segurança, conforto, serviço de bordo ou
program a de m ilhagem , m as devo confessar que o Kit Kat servido no lanche foi um a agradável surpresa. E talvez o últim o prazer descom prom issado que teríam os durante nossa estada na Indonésia.
Em 26 de dezem bro de 2004, um terrem oto próxim o à costa da Indonésia atingiu 9,3 graus na escala Richter (terceiro m aior registrado até hoj e), desencadeando um tsunam i de proporções
aterradoras. Em questão de m inutos, um a sequência de ondas gigantescas atravessou o oceano Índico, chegando ao continente com até 30 m etros de altura. No final, m ais de 14 países foram atingidos e m ais de 230 m il pessoas m orreram no que foi considerado um dos m ais trágicos
desastres naturais da história. Com o o epicentro do terrem oto ficava a 160 quilôm etros da costa da ilha de Sum atra, o prim eiro ponto terrestre atingido pelo tsunam i foi a pequena cidade de Banda Aceh, na província de Aceh, Indonésia.
Esse foi o ponto de partida de todo o nosso proj eto. Apenas seis m eses após a tragédia, Leo, UFO e Pesca decidiram que não cancelariam sua viagem de férias. Um a surf trip j untos, que j á
vinha sendo planej ada e ansiosam ente aguardada há anos! Mas, com a nova realidade que se apresentava, eles teriam que fazer algum as drásticas adaptações. O roteiro ia ser m udado, alguns picos de surfe dariam lugar a novas ondas que apareceram do nada com as alterações no fundo da plataform a oceânica, e os hotéis reservados em certos destinos (que possivelm ente tinham
caído com o terrem oto) teriam que ser trocados por im provisadas barracas de cam ping. Mas a m ais im portante m udança era que o obj etivo da viagem havia se transform ado com pletam ente. O que era um a viagem de surfe entre am igos tornou-se um a expedição aos confins da Indonésia
devastada pelo m ais terrível desastre natural de sua história. Por fim , algum as pranchas tiveram que dar lugar ao equipam ento de film agem que Leondre levou para registrar cada m om ento. Na época, eu e ele j á trabalhávam os com produção audiovisual e acham os que não haveria
oportunidade m ais apropriada para nos arriscarm os em nosso prim eiro docum entário em longa-m etragem . Por m otivos pessoais não pude acom panhar m eus am igos nessa em preitada, fiquei no
Brasil fazendo a produção (consegui fechar a m aior piscina de ondas do m undo, na Malásia, para que os quatro surfassem com exclusividade para o film e. Um a coisa pela qual até hoj e eles m e agradecem ) e m ais tarde trabalharia direto com Leo na finalização do film e. UFO, que conhecia
com o poucos a região, foi responsável pelo roteiro, paradas e contatos ao longo do cam inho. O dublê de surfista e econom ista Bruno Pesca fez as vezes de produtor executivo de toda a em preitada. E assim estava criado o em brião do que seria o nosso program a hoj e.
Os surfistas am adores e agora cineastas profissionais perm aneceram por quase dois m eses no local, desbravando terrenos devastados, conhecendo pessoas e histórias em ocionantes e testem unhando em prim eira m ão a recuperação dos locais m ais afetados por aquela tragédia
sem precedentes. Voltaram de lá com m ais de cinquenta horas de film agem que se tornariam o Indo.doc, prim eiro film e de nossa produtora.
O term o tsunam i, até então um a desconhecida palavrinha j aponesa, cresceu em popularidade e passou a rivalizar com avalanche, enxurrada e outros fenôm enos naturais usados para descrever grandes volum es em textos j ornalísticos e na boca do povo. Bilhões de dólares
foram doados em questão de dias. Reportagens especiais foram escritas em tem po recorde. Shows beneficentes enviam diversas celebridades em palcos por todo o m undo. E, ainda assim ,
com a m esm a velocidade com que ganhou as páginas dos j ornais, a tela das TVs e os sites de notícia, a tragédia do tsunam i da Ásia em 2004 saiu do foco das atenções. Em m enos do que algum as sem anas, ninguém sabia com o estava reagindo aquele povo sim pático direta e
dram aticam ente afetado por esse im enso desastre. Em vez de desm otivar, essa trivial e m arcante característica dos nossos tem pos nos serviu de estím ulo. Resolvem os rem ar contra a m aré e, j á vislum brando a possibilidade de outra m aneira de investigar, inform ar, aj udar e agir, decidim os m ergulhar fundo nessa história. A ideia era pôr a m ão na m assa, fazer a diferença e trazer à tona
de novo esse dram a que, tão recente, j á era considerado notícia velha. Nada de entrevistas caretonas, gráficos ilustrativos, dados lançados em um a narrativa ascética. Queríam os entrar em contato com as entranhas desta tragédia. Sem essa de isenção j ornalística, segurança profissional
ou relatos piegas e forçados. Queríam os vivenciar a verdade nua e crua do lugar, oferecer qualquer tipo de alento e trazer de volta o registro m ais verdadeiro possível de um a situação calam itosa. Não esperávam os que as lições que tiraríam os desse processo seriam tão m arcantes
e nos levariam a alçar voos m ais ousados.
Foi assim que nossa equipe conseguiu chegar a Banda Aceh, o ponto zero do tsunam i. A
região estava até então em um a violenta guerra civil que deu um a trégua por duas razões. Prim eira, para perm itir a entrada da aj uda hum anitária extrem am ente necessária. Segunda, porque grande parte dos guerrilheiros de am bos os lados havia sido vítim a da própria tragédia.
Leo, UFO e Pesca fizeram parte do reduzido grupo que conseguiu chegar ao prim eiro ponto terrestre atingido pelas ondas gigantes, além de outros locais drasticam ente afetados. Mas, quando tiveram que retornar ao Brasil, a situação ainda parecia longe de estar controlada. As
obras de infraestrutura nem tinham com eçado a sair do papel, desabrigados ainda viviam em tendas im provisadas, os hospitais perm aneciam lotados e, pior de tudo, havia um forte questionam ento popular sobre a aplicação da vultosa som a de dinheiro doada ao país.
Por todos esses m otivos, sem pre foi nosso desej o retornar. Não só para checar em que pé estava a recuperação do local alguns anos depois, m as principalm ente para ver a situação atual
dos diversos am igos feitos durante a prim eira passagem . É notório que os laços de am izade se estreitam durante um a viagem . O que dizer, então, de um a viagem em que fom os acom panhados por pessoas tão gentis e am áveis com o os indonésios? E j ustam ente quando
estavam passando pelo m om ento m ais delicado de suas vidas? A ideia era refazer todo o traj eto do film e que deu origem à série. Só que agora com um a nova visão. Era exatam ente aí que eu entrava. Com o ainda não havia estado em Aceh, m inhas im pressões seriam únicas. Pela
prim eira vez na história do program a, poderíam os com parar im pressões sobre o destino escolhido para ser retratado. UFO, Leo e Pesca poderiam fazer um “antes e depois”. Com o viram a situação do lugar em seu m om ento m ais extrem o, talvez fossem naturalm ente
sugestionados pelo contraste da evolução (independentem ente do grau em que estivesse). Eu estaria conhecendo o local, sendo im pactado por tudo que vivenciasse de positivo ou negativo.
Sem nenhum preconceito ou possibilidade de com paração. Um a viagem com o outra qualquer. Ou não.
Assim com o da prim eira vez, nossa viagem com eçou por Bali. Outra coincidência proposital com nossa incursão original e m uito útil para os nossos propósitos foi m arcar um encontro com o
fam oso surfista indonésio Ary a Sankay. Apesar de não term os guardado o e-m ail ou telefone dele, não foi difícil contatá-lo de novo. O cara é um a lenda na Indonésia e foi nosso prim eiro
contato quando nos aventuram os a registrar os efeitos do tsunam i cinco anos antes. Ele foi um dos prim eiros a chegar a Banda Aceh logo após o terrem oto e o tsunam i. Com o tam bém é m ergulhador profissional, Ary a levou seu equipam ento e constatou em prim eira m ão as
m udanças radicais no relevo subm arino do local.
Depois de cinco anos, nos encontram os novam ente na loj a de um am igo seu, o surfista profissional Tipi Jabrik. Loj a não é bem o term o apropriado para descrever o negócio de Tipi. O
lugar era um galpão im enso, com um pé-direito de quase 20 m etros e decorado de form a superm oderna e extrem o bom gosto. Parecia m ais um a galeria de arte contem porânea ou m useu de obj etos de design onde as obras em exposição eram roupas, pranchas, guitarras e outros
acessórios de m arcas inovadoras do m undo todo. Mesas de sinuca de forro verm elho, m otos, skates e m óveis que pareciam esculturas com pletavam o toque de arte deste revolucionário
estabelecim ento com ercial. Nos fundos, havia um quintal com um j ardim super bem decorado que desem bocava em um bar estiloso onde era servida a m elhor pizza de Bali, segundo nos disseram (e fizem os questão de com provar!). Um palco ficava perm anentem ente arm ado nessa
parte da loj a e, pouco a pouco, com eçaram a chegar j ovens balineses (m eio em o, m eio punks) para curtir um autêntico show de rock ao vivo que estava por com eçar. Entre os prim eiros acordes de guitarra e fatias de um a deliciosa pizza de m uçarela, iniciam os nosso papo com Tipi e
Ary a.
QUADRO NO LOBBY DO NOSSO HOTEL EM BANDA ACEH QUE MOSTRA
COMO FICOU A SUA ENTRADA NO FATÍDICO DIA DO TSUNAMI.
ACORDAR NO SEGUNDO ANDAR E AO CHEGAR À VARANDA SE DEPARAR
COM... UM BARCO!
Eles nos contaram que desde então m uita coisa havia m udado em Aceh, m as que, com o iam regularm ente ao local, talvez o im pacto das m udanças ficasse ainda m ais claro aos nossos olhos de forasteiros. Tipi enfatizou que a região num todo vinha se destacando com o um a das
províncias m ais proem inentes da Indonésia nos últim os anos, e que, diferente da prim eira vez, poderíam os nos aventurar em novos passeios a áreas totalm ente inacessíveis em 2005. Diferente daquela época, hoj e vários voos cum priam a rota Bali–Aceh. O nosso partia na m anhã seguinte.
Ainda dava tem po de curtir um pouco do rock balinês e da m elhor pizza da cidade antes de nos retirarm os à procura de um hotel (saga que j á contam os aqui).
Bem diferente da prim eira vez que estiveram em Banda Aceh, quando o cenário era o de um pós-guerra sem que tivesse havido guerra, Leondre e Pesca pareciam não acreditar no que
estavam vendo. O que antes era para eles a destruição total, um a terra arrasada sem vestígio sequer de civilização, parecia agora um a cidade novinha em folha. O entulho típico que resulta
de um terrem oto seguido de tsunam i, e que estava por toda Aceh cerca de cinco anos antes, havia sido inteiram ente rem ovido. É com um as pessoas se referirem ao cenário de desastre natural com o o que elas presenciaram em 2005 com o “a cidade desapareceu” ou “foi varrida do
m apa”. E isso dá um a im pressão errada da situação. Milhares de toneladas de cim ento, reboco e ferragem que form avam a base de prédios, casas e dem ais construções com uns a qualquer cidade grande não desaparecem sim plesm ente de um a hora para a outra. Na verdade, parecia
que um Godzilla bêbado tinha passado férias no local. Era com o se um gigante alucinado tivesse atravessado a cidade destruindo tudo a sua volta. Derrubando prédios, esm agando carros e
espalhando os destroços a esm o por quilôm etros e quilôm etros enquanto seguia em direção ao m ar para curar a ressaca. Mas a verdade é que, sentado em um Pizza Hut próxim o ao nosso hotel, saboreando um a bela pasta depois de um dia na praia, ficava difícil lem brar a dim ensão da
destruição que havia ocorrido ali. OK, era um a província m odesta. Não tinham erguido ali novos hotéis luxuosos ou shopping centers m aj estosos. Porém não existia m iséria, caos ou falta de infraestrutura. As ruas estavam relativam ente bem -pavim entadas, com ércio e escolas j á haviam
retom ado as atividades, e os hospitais, que só atendiam de m aneira im provisada e em ergencial, estavam reform ados e agora até m ais bem equipados para um a tragédia de grandes proporções. Centenas de casas pré-fabricadas se alinhavam ao longo da avenida que seguia para a praia.
Parecia um a enorm e fila de dom inós gigantes que, se Deus quiser, nunca serão derrubados. Alguém chegando desavisado poderia até esquecer, ou sequer vir a saber, que um dos m aiores
desastres naturais da história acontecera ali.
Mas bastava um olhar um pouquinho m ais atento para perceber que os registros da tragédia dem orariam m uito para ser apagados. Nosso hotel, bastante agradável e arrum ado, não apresentava m arcas de inundação, paredes rachadas ou m óveis destroçados. Com o ele se
localizava a algum as dezenas de quilôm etros da costa, achei que ia até passar por idiota ao perguntar à recepcionista se a força das águas tinha chegado até ali no fatídico 26 de dezem bro de 2004. Quando conseguiu entender a m inha pergunta, ela apenas se virou para trás e apontou
para um grande quadro na parede. Eu não tinha reparado, e tam bém dem orei alguns segundos para reconhecer, m as se tratava exatam ente de um a foto em oldurada da entrada do nosso hotel. O que dificultou m eu reconhecim ento do am biente é que na im agem em questão havia um barco
de m adeira de uns 40 pés “estacionado” bem no lobby onde eu estava! Reza a lenda que naquela trágica terça-feira tubarões e tartarugas m arinhas foram encontrados nas piscinas de hotéis das
redondezas depois que a m aré retrocedeu.
Vocês sabiam que os anim ais têm um a taxa de sobrevivência a desastres
naturais m uito m aior do que a dos seres hum anos? Prim eiro, podem os contar o
fator pânico, que acom ete m uito m ais os seres hum anos do que os anim ais. O
desespero perante a im inência de um desastre não raro faz com que o hom em
aj a de m aneira equivocada e tom e decisões que m uitas vezes o colocam em
m aior perigo e que podem custar sua própria vida e a de terceiros. O principal
m otivo desse índice de sobrevivência m ais alto é que a bicharada, com o é
notório e cientificam ente com provado, tem seus sentidos m uito m ais
aguçados. Cães m achos podem farej ar um a fêm ea no cio a quilôm etros de
distância. Morcegos voam no escuro fazendo uso de um radar natural.
Pássaros são capazes de sentir m ínim os deslocam entos de ar e m udar o curso
de um voo coletivo. Cobras e elefantes, particularm ente, são apontados em
estudos com o anim ais capazes de perceber a chegada de um terrem oto com
horas de antecedência. Na Tailândia, há relatos de elefantes dom esticados
que, sem querer, salvaram diversas pessoas durante o tsunam i de 2004.
Quando seus sentidos os alertaram , com m uita antecedência, do perigo
em inente das ondas que se aproxim avam da costa, os anim ais partiram em
desabalada carreira em direção aos m orros m ais altos. Muitos deles
carregando em suas costas incautos turistas, pegos de surpresa durante um
passeio exótico. Depois dessa, eles com certeza tornaram -se ávidos defensores
das causas anim ais.
Há ainda outro aspecto dessa tragédia que dinheiro nenhum do m undo ou cam panhas de doação poderão apagar. Tivem os um a dura cham ada à realidade durante um a corriqueira corrida de táxi, quando acreditávam os estar som ente batendo m ais um desses papos vazios de
m otorista e cliente com o é com um em qualquer lugar do m undo. Para levantar m ais inform ações, e m atar nossa curiosidade sobre detalhes da passagem do tsunam i por Banda Aceh, perguntam os ao nosso sim pático interlocutor se ele estava na cidade durante o trágico episódio.
Ele afirm ou que sim , e com pletou com um a inform ação que j á nos deixou em clim a pesado: ele tinha sido o único m em bro de sua fam ília a sobreviver à força das águas. Com o se tratava de um senhor de certa idade, perguntam os se ele tinha m ulher ou filhos. Novam ente ele disse que sim .
Calculam os, consternados, que o pobre hom em tinha perdido pelo m enos uns três ou quatro entes queridos para o tsunam i. Mas ele fez questão de deixar claro, para nossa surpresa e desespero:
“Éram os 26, entre tios, avós, prim os, irm ãos, sobrinhos e filhos. Hoj e, só eu restei.” Ficava claro que, independentem ente de sua exem plar recuperação, Aceh estaria para sem pre m arcada pelo dram a do tsunam i.
Havia ainda outros detalhes indeléveis na paisagem local que para sem pre estam pariam a passagem do tsunam i devastador por ali. Tam anha foi a dem onstração do poder da natureza naquele trágico dia de dezem bro em 2004 que, m uitas vezes, o esforço hum ano para tentar
desfazer o que as ondas de 30 m etros haviam feito nem sequer com pensava. Quantos dias de trabalho, litros de com bustível ou m aquinário pesado seriam necessários, por exem plo, para retornar ao m ar a im ensa em barcação da com panhia elétrica da Indonésia que havia sido
arrastada pelas águas, parando a 12 quilôm etros da costa? Até porque, enquanto as autoridades decidiam o que fazer, a população j á tinha dado um j eito de puxar um fio e utilizar os geradores
do m otor para garantir a ilum inação do bairro. Ou quanto trabalho daria retirar um grande barco de pesca que j azia equilibrado no teto de um a casa (que tam bém não ficava nada perto do litoral)? A fam ília que m orava em baixo dele parecia não se im portar m uito em acordar e dar de
cara com a hélice de 50 quilos estacionada em sua varanda. Sendo assim , a prefeitura local deu um a pintada, colocou um a cerca em volta, m ontou um m irante para adm iração e transform ou o pitoresco acidente em m ais um a atração aberta à visitação pública. Prático. Diferentem ente de
m useus ou m onum entos de guerra que vem os em qualquer parte do globo, e que servem para hom enagear heróis ou de alento para episódios que j am ais devem acontecer novam ente, esses m onum entos criados pela força da natureza em Banda Aceh têm um único propósito: servir
com o ponto turístico.
Em quase todos os lugares da cidade nos deparávam os com um pequeno m em orial, um a
colagem de fotos, um m ural ou qualquer outra coisa que não só fazia referência ao tsunam i, m as tam bém inform ava e alertava a população sobre o fenôm eno. O governo, por interm édio de seu secretário de Turism o (com quem tivem os o prazer de conversar), havia sido bastante inteligente
ao deixar de lado o aspecto em ocional e conseguir de certa form a reverter algum as consequências do desastre. Porque, apesar de parecer estranho, existiam duas grandes bênçãos que vieram na onda (com o perdão do trocadilho infam e) de todo esse dram ático episódio. A prim eira se deu ainda em 2005, poucos dias após a tragédia. Desde 1976, Aceh vivia um a violenta guerra civil. Um m ovim ento separatista autodenom inado MAL (Movim ento Aceh Livre) lutava fervorosam ente pela independência da província, em função da acentuada diferença
cultural e religiosa entre a região e o resto da Indonésia. Em 2003 esse conflito atingiu um de seus m om entos m ais críticos, chegando ao ponto de ser declarado estado de em ergência na região. Desde então, diversas áreas de Aceh ficaram isoladas. Literalm ente fechadas aos visitantes.
Eram locais dom inados por grupos rebeldes ou focos frequentes de violentos conflitos arm ados. Esses lugares ainda perm aneciam em guerra quando nossa equipe esteve por lá para as film agens do Indo.doc, em 2005. Algum tem po depois da tragédia do tsunam i, um a trégua foi
quase que forçadam ente assinada entre separatistas e o governo indonésio. Era necessário perm itir que as forças nacionais e internacionais de aj uda hum anitária chegassem até as áreas
dom inadas pela guerrilha e que haviam sido gravem ente afetadas pelo tsunam i. Além disso, o próprio exército separatista sofrera enorm es baixas, um a vez que grande parte de seu contingente tam bém havia sido vítim a do desastre.
Outro ponto que pode ser considerado positivo, ainda que decorrente desse dram ático evento, tivem os a oportunidade de conferir em prim eira m ão. Fom os um dos prim eiros grupos de “turistas” (no nosso caso, com aspas) em Aceh. A cidade ganhou renom e por conta da tragédia e
aos poucos vinha se tornando opção de destino para viaj antes curiosos que percorriam os m ais populares roteiros turísticos do sudeste asiático. A Indonésia é considerada um a pérola por turistas do m undo inteiro. Um arquipélago de ilhas banhadas por água azul, sol, ondas perfeitas, praias
lindas, tem plos e, com o j á vim os: a incrível Bali, considerada por m uitos o paraíso na Terra. Não havia por que Aceh não capitalizar em cim a de sua vizinha m ais popular. Qual o problem a se sua
fam a tinha sido conquistada por conta de um trágico acidente natural? Pois essa fam a agora poderia ser revertida diretam ente em prol da recuperação do próprio país. E assim estava sendo feito. O trabalho era árduo e m uitas vezes esbarrava na questão em ocional, m as povo e governo
estavam determ inados a superar os obstáculos. Com um a infraestrutura básica funcionando e em condições de receber o turism o em potencial, lançaram a cam panha “Visite Aceh”, prom ovendo-a ao posto de nova cidade turística da Indonésia a partir de 2011.
Em nossa segunda visita a Banda Aceh, faltava ainda o com ponente principal, o m ais im portante, a verdadeira m otivação não só desta, m as de toda e qualquer viagem que fazem os:
as pessoas. São as vítim as que tornam ainda m ais chocantes os desastres naturais, as casualidades que evidenciam o absurdo da guerra e, ao m esm o tem po, são os opressores, os agressores e aqueles que fazem deste m undo um lugar tão m aravilhoso quanto com plicado e inj usto. São elas que necessitam de aj uda ou estão lutando para aj udar de algum a m aneira a quem precisa. São quem com põe as fileiras de exércitos invasores e organizações hum anitárias. Podem os dizer que, se encarado dessa form a, o fator hum ano é a força m otriz de nosso proj eto. Sendo assim , por
m ais que docum entássem os a evolução de Aceh, nossa viagem não estaria com pleta sem checarm os este últim o “detalhe”. Faltava ainda reencontrar os contatos que fizéram os em Aceh m ais de cinco anos antes. Se não pela razão citada acim a, pelo m enos para tom ar um café
(lem brem que Aceh é um a província que segue fervorosam ente a charia, lei canônica do Islã, o que significa que tom ar um as cervej inhas estava fora de cogitação), trocar um as histórias e dar boas risadas.
Durante todo esse tem po, m anter um contato m ais estreito com esse grupo especial foi bastante difícil. O que j á era de se im aginar dadas as circunstâncias e prioridades de todos que
tínham os conhecido naquela ocasião. Foram várias pessoas que nos apresentaram seu país, sua cultura, suas histórias e dram as particulares. Tudo isso durante o m om ento m ais delicado que j á haviam enfrentado na vida. Muitos desses indivíduos tinham perdido entes queridos, m oradia,
pertences e ainda assim se deram ao trabalho de interrom per sua rotina de sobrevivência e reconstrução para aj udar quatro turistas brasileiros que tentavam achar o sentido das coisas em m eio àquele m ar de destroços e desespero.
BARCO QUE PERMANECE ATÉ HOJE SOBRE O TETO DE UMA CASA.
A GRANDE EMBARCAÇÃO DA COMPANHIA DE LUZ QUE HOJE É PARTE INTEGRANTE E IMPRESCINDÍVEL DE UM BAIRRO A QUILÔMETROS DA
COSTA.
Em todo esse conturbado cenário, ninguém representava m elhor a sim patia, a força, a atitude positiva e a fé em seu povo do que nosso grande am igo Aloy Suby ako. Surfista em polgado, ele tinha visto o sonho de sua vida ser levado pelas águas em 26 de dezem bro de
2004, quando a loj a de surfwear que acabara de inaugurar foi varrida pela furiosa invasão do m ar. “Quando a água retrocedeu e consegui entrar na loj a, ela estava com pletam ente destruída. Não havia nada dentro dela, a não ser corpos que tinham sido arrastados pelas águas”, contou na
época. E-m ails esporádicos em um inglês confuso traduzido pelo Google levavam ao Brasil, de tem pos em tem pos, as únicas poucas notícias que nos perm itiam seguir de longe a árdua saga de recuperação de nosso cam arada. Mas sem pre que chegava um a m issiva virtual com rem etente
de Banda Aceh, éram os tranquilizados por Aloy, que garantia que as coisas estavam cam inhando e que tudo em m uito breve voltaria a ser com o antes. Nos m eses que antecederam nossa partida,
procuram os em vão estabelecer um contato m ais dinâm ico para avisar que iríam os visitá-lo e tentar deixar m arcado com antecedência um encontro. Nada surtiu efeito. Então, quando ligam os para o celular dele, de um a praça ali em Aceh, avisando que estávam os na cidade, ele nem
acreditou. Largou o trabalho e foi direto nos encontrar. Aloy, com suas atitudes, era a encarnação perfeita da palavra am igo, essa figura tão im portante para nossa segurança física e m ental por esse m undo afora.
Cinco anos antes, ele nos dizia estar ressabiado com o destino das doações feitas por m ilhares de alm as solidárias de todo o m undo e que chegavam à Indonésia em um tsunam i de cifras e m oedas de nações que ele nem sabia que existiam . Ao m esm o tem po que não percebia
um a resposta efetiva por parte das autoridades de seu país em face do tam anho desastre, afirm ava que não havia tem po para choro ou lam entações. Dizia que o povo devia ser vigilante e
cobrar, sim , m as não existia tem po para sentar, discutir ou debater m uito. Era hora de se m obilizar com o nunca e reconstruir o país com as próprias m ãos, se fosse necessário. Um a involuntária interpretação do fam oso discurso de John Kennedy, posto em prática ali na ilha de
Sum atra: “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, m as o que você pode fazer pelo seu país!”
“Nós tem os que ser fortes, se ficarm os chorando e olhando para o passado nossa vida não
m udará. Não podem os esperar que a solução caia do céu ou que a aj uda de fora resolva todos os nossos problem as. Só o trabalho e a atitude positiva vão nos tirar dessa situação. Nós vam os sobreviver. A Indonésia vai sobreviver.” Foi o que ele disse para nossas câm eras em 2005.
Tocada pelo espírito abnegado de Aloy , a equipe Indo.doc se m obilizou para lhe dar um presente. Um a recom pensa hum ilde por todo o seu esforço em nos aj udar e um a form a de parabenizá-lo e
estim ulá-lo em suas atitudes. Pesca, então, sacou um a prancha em perfeito estado e pouquíssim o utilizada que havia levado especificam ente para essa viagem e a entregou a Aloy em nom e de todos nós. Ele agradeceu im ensam ente, com um a ressalva: “Muito obrigado. Vou usar com
m uito carinho. Mas não será um presente só para m im , vou doá-la ao Clube de Surfe de Aceh para que todos os nossos am igos surfistas possam desfrutar dela.” Aloy havia perdido tudo, inclusive suas preciosas e am adas pranchas. Mesm o assim , em um m om ento com o aquele, não titubeou em m ostrar de m aneira natural o seu tão louvável altruísm o e que nos fazia ter esperança em tem pos m elhores para seu país e para essa gente que ele representava tão bem . Confirm ar que a Indonésia, principalm ente Banda Aceh, estava em franca recuperação cinco
anos depois foi com o a cerej a no topo do bolo. Era com o dar um a espiadinha no futuro e respirar aliviado, com a certeza de que, com o Aloy tinha garantido, tudo ficaria bem . Tudo estava bem !
O outro lado da filantropia
É im portante que os antenados de todo o m undo abram bem os olhos na hora
de escolher a organização filantrópica que usarão de pretexto para tirar onda
com o m ais recente item da m oda pseudoengaj ada. Se o obj etivo é aj udar de
verdade, vej a direitinho para onde está indo o seu dinheiro. Pulseiras, colares,
cam isetas... Muita gente não sabe, m as, ao contribuir com um a organização de
assistência às vítim as do tsunam i (ou qualquer outra), você pode, na realidade,
estar aj udando um espertinho qualquer a com prar tacos de golfe, uísque 12
anos, fantasias de nazista ou passagens para resorts paradisíacos em
sossegadas ilhas do Pacífico. A últim a que fez isso foi a cultuada cantora Lady
Gaga, acusada de tascar o tradicional “toda a renda da venda dessas pulseiras
será revertida para as vítim as do tsunam i do Japão” e de reverter a renda
direto para os bolsos de seus bizarros vestidos de grife.
Estatísticas oficiais garantem que, em 2005, pelo m enos 10% das doações
feitas em todo o m undo para Indonésia, Sri Lanka, Índia e dem ais países
vitim ados pelo tsunam i acabaram sendo desviadas para as contas de escroques
cuj a com paixão não faria m arola em aquário. O adereço preferido de dez
entre dez antenados de todo o m undo, aquelas pulseirinhas coloridas de gosto
altam ente duvidoso, tam bém era o item favorito dos falsários internacionais.
Os braceletes falsificados podem ser m ais um a form a de fisgar o incauto
cidadão com vocação para perder dinheiro para m alandro. Se sua intenção for
m esm o de fazer o bem , e não sim plesm ente ostentar o item fashion da vez:
cuidado! Sej a criterioso, analise e pesquise antes de fornecer o núm ero do seu
cartão na internet!
PLACA COM O NÚMERO DE VÍTIMAS DO TSUNAMI
DE 2004, SOMENTE NA PROVÍNCIA DE ACEH.
CENÁRIO DE COMPLETA DESTRUIÇÃO DENTRO DA ESCOLA PRIMÁRIA DE ISHINOMAKI.