Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 6 de 16

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Não Conta Lá em Casa

Dinamarca

Infelizm ente, os focos de conflito m undo afora estão longe de se esgotarem . Mas, para m ostrar que tam bém há outro tipo de destino inóspito am eaçando a todos nós e o planeta onde vivem os, decidim os abordar o tem a do aquecim ento global. Assim com o as guerras civis, as

ditaduras opressoras, a exploração e o crim e organizado, esse outro m al, não tão recentem ente descoberto, e que, claram ente, tam bém tem o dedo do hom em , está em um m om ento-chave e decisivo. Muitos cientistas acreditam que ou m udam os agora o nosso destino clim ático ou…

babau! Outros chegam a argum entar que essa história toda é conversa para boi dorm ir, um a falácia que atende a interesses privados. Tínham os acabado de voltar do tórrido Iraque e, naquele

m om ento, só havia um lugar no m undo para quem quisesse se aprofundar no delicado tem a do aquecim ento global, entrar em contato com defensores das principais teorias sobre o assunto e aproveitar para ouvir o m aior núm ero de especialistas (e lunáticos) do tem a: a gelada

Dinam arca.

Foi assim que resolvem os dar um passo estratégico e inovador com o proj eto Não conta lá em casa e em barcam os com destino à Escandinávia. Em Copenhague, tentaríam os acom panhar

o m áxim o possível os acontecim entos da COP 15, a conferência da ONU que, teoricam ente, iria propor alternativas, m etas e obrigações com o obj etivo de evitar um destino poluído, aquecido e catastrófico para o nosso planeta. E se eu digo que nossa ideia era acom panhar o m áxim o

possível e não o evento em sua totalidade é porque, bem ao nosso estilo, decidim os tudo de últim a hora. Não tínham os credenciam ento algum e o esquem a por lá, obviam ente, era de segurança

m áxim a. Os eventos principais aconteceriam em um pavilhão im enso e superm oderno m ontado pela ONU e guardado por forças especiais treinadas exclusivam ente para a ocasião. As credenciais para acom panhar as palestras e os discursos no interior do local eram garantidas

apenas para profissionais da CNN para cim a. Mas, com o tam bém é de costum e, nessas horas nos desdobram os em m il, contam os com a aj uda divina e a sorte nos sorri, proporcionando encontros e situações que nenhum crachá ou pulseirinha VIP conseguiria facilitar.

A JUVENTUDE ENGAJADA DE COPENHAGUE PEDINDO MAIS AÇÃO E COMPROMISSO COM A CAUSA AMBIENTAL.

A MENSAGEM ÀS VEZES ERA DADA DE

MANEIRA DIVERTIDA: “APENAS

POLÍTICOS DE PAU PEQUENO PRECISAM

DE UM CLIMA MAIS QUENTE.”

Mas, antes de m ais nada, nossa prim eira preocupação era chegar lá. Algo tão corriqueiro com o conseguir passar pela im igração dinam arquesa não prom etia ser um a tarefa das m ais fáceis. Nossos passaportes a essa altura j á estavam carim bados com os m ais fam osos e

polêm icos destinos do Oriente Médio. E, para quem não lem bra, foi m ais ou m enos nessa época que um cartunista dinam arquês resolveu fazer um desenho debochado de Maom é, o que despertou a ira islâm ica contra este pacífico recanto escandinavo. Nesse m om ento em que o país

abrigava grandes líderes m undiais e se tornava o foco da atenção de todo o planeta, o m edo de um atentado era real. Tem íam os seriam ente que nossos passaportes não fossem vistos com bons olhos. Além do m ais, escapar do Iraque para ser vítim a de bom ba em um dos países com a

m elhor qualidade de vida do m undo seria côm ico se não fosse trágico. Para nossa surpresa e incredulidade, após atravessar a fronteira da União Europeia em Portugal (escala do nosso voo),

ouvindo apenas um as divertidas grosserias do oficial da im igração portuguesa, adentram os a Dinam arca sem revista nenhum a! Espero que, caso haj a terroristas que estej am lendo este livro, não tom em isso com o um a dica.

Copenhague, considerada um a das cidades m ais “verdes” do m undo, tinha abraçado m esm o o COP 15 se m ultiplicando em variados eventos de tem ática ecológica. Além do centro principal de convenções, havia dezenas de fóruns paralelos, atividades am bientais, flashm obs,

ativistas ilustres e m anifestações acontecendo por toda parte. Com destaque para as m uitas, variadas e diversificadas m anifestações! A cidade estava respirando CO2 e seus m ales 24 horas por dia durante os sete dias da sem ana. E foi nessa onda verde que a gente surfou. Trocadilhos

infam es à parte, estar sediando e vivendo aquele m om ento histórico era um verdadeiro orgulho para a Dinam arca e seu povo. A im prensa local incentivava e os dinam arqueses se esforçavam

para ficar conhecidos com o os m elhores anfitriões de toda a história dos encontros am bientais. E isso não era algo im posto pelo governo local ou pela ONU, que organizava a grande conferência. Eles estavam se desdobrando para prom over a causa ecológica e tornar possível ao m aior

núm ero de pessoas a participação nos eventos. Foi assim que a gente conseguiu até lugar para ficar por lá. Vários m oradores de Copenhague estavam abrindo seus lares a estrangeiros que gostariam de fazer parte deste grande acontecim ento, m as que não haviam conseguido lugar nos

hotéis e albergues totalm ente lotados da cidade. Bastou que a gente tom asse conhecim ento disso, para contatar um dinam arquês (ou dinam arquesa, no caso) no Facebook e pronto: estadia para quatro pessoas em um a típica casinha de m adeira com direito a lareira em um idílico subúrbio da

cidade. E de graça! Tudo em nom e da cidadania. Era m uito prim eiro m undo para nossas cabecinhas.

Tudo que acontecia em Copenhague naqueles dias estava ligado ao tem a da conferência. Dos anúncios no aeroporto às opções naturebas nos cardápios dos restaurantes. Passando por feiras nas praças, exposições, outdoors... Era pisar na rua e se sentir parte desta causa sim pática a

todos. Mas o ponto central de todo esse m ovim ento era o encontro dos grandes líderes m undiais no COP 15, que acontecia no tal pavilhão fortem ente guardado no Bella Center. Ele ficava em um a área estrategicam ente afastada do centro da cidade. E foi j ustam ente devido a esse distanciam ento, não só físico com o tam bém ideológico, que surgiram algum as das m ais interessantes iniciativas paralelas. O pessoal envolvido diretam ente com a causa do aquecim ento global acha que as decisões tom adas dentro do centro de convenções principal não refletiam o

verdadeiro desej o da população m undial. Os principais e m ais contundentes m em bros de ONGs e ativistas das causas ecológicas acreditam que as m edidas tom adas nas excludentes reuniões oficiais do COP 15 quase não são im plem entadas e que os chefes de Estado estão m ais

preocupados em parecer conscientizados do que em definir m etas efetivas a serem cum pridas. Em outras palavras: de m udança clim ática m esm o, querem m uito pouco. Por isso, esses voluntariosos am bientalistas se esm eravam em organizar suas próprias conferências alternativas

que, segundo eles, eram bem m ais com prom etidas com a causa.

BRUNO PESCA EXIBE UMA MENSAGEM DOS MANIFESTANTES ( “PLANETA, E NÃO LUCRO”)

BRUNO PESCA PASSA A SUA PRÓPRIA MENSAGEM ( “A MUDANÇA ESTÁ EM VOCÊ”) PARA UMA REDE DE TV LOCAL.

Apesar das ressalvas, não havia com o ir para a Dinam arca e ignorar o foco da atenção de todo o planeta naquele m om ento. Dem os um a passada pelo Bella Center e o clim a era frio (ops...), a proteção aos líderes m undiais que ali estavam para discursar e se reunir era fortíssim a.

Era possível vislum brar por entre as grades de proteção os principais âncoras e repórteres da grande im prensa m undial flanando com garbo na área restrita. Produzindo suas m atérias assépticas, felizes por fazerem parte da alta-roda do j ornalism o m undial. Muita segurança, pouco

debate e quase nada do que realm ente interessa: pessoas interessadas em fazer a diferença. No fim das contas, acabou que só passávam os todo dia ali pela área do Bella Center para pegar uns deliciosos sanduichinhos de pepino com m aionese que um a defensora da causa vegan oferecia

de cortesia para divulgar os benefícios da dieta vegetariana ao planeta. Você dim inui em 80% seu gasto de carbono com um a dieta livre de produtos de origem anim al, sabia?

Das principais opções ao COP, tanto o Hopenhagen, patrocinado por m egacorporações e que ocupava um a grande praça no centro da cidade com diversas exposições interativas, quanto o Klim aforum , que acontecia no prédio de um grande com plexo esportivo e representava um a

espécie de versão “verde” do Fórum Social Mundial (que acontece em paralelo ao oficial Fórum Social Econôm ico), eram m uito m ais divertidos, contundentes e interessantes do que o badalado evento principal que ocupava com exclusividade as páginas dos j ornais m undo afora. Foi nesses

fóruns alternativos que entrevistam os representantes de ONGs de diversos países e causas e onde atuam os diretam ente contra a m udança clim ática, m esm o que de um a form a bastante sim bólica. Das teorias defendidas, vim os algum as particularm ente interessantes. Com o, por exem plo, a de

um grupo liderado por um am istoso senhorzinho que pregava o boicote aos voos dom ésticos (um a solução que parece tresloucada, m as que era defendida com bastante fundam ento por europeus

bem servidos em m atéria de sistem a ferroviário), ou os representantes de países-ilha que em breve sum irão do m apa, literalm ente, por conta do aquecim ento global e o aum ento do nível dos oceanos. Havia até gente defendendo que essa história toda é um factoide (!) criado pelo

m egainvestidor George Soros (!!) para dom inar o m undo (!!!). O que não faltava eram conversas legais. Das m ais profundas às m ais surreais. Além das discussões acaloradas, e para espantar o frio que congelava até nossas ceroulas, participam os de algum as inusitadas ações

ecológicas. Andam os em um carro elétrico criado para ser o veículo-m odelo da polícia da Dinam arca, pedalam os para ilum inar de form a não poluente a árvore de Natal da cidade, alm oçam os em um restaurante 100% orgânico e fizem os parte (com o espectadores, é claro) de

um m ergulho gelado nas águas do porto de Copenhague, um dos m ais lim pos do m undo.

ENTREVISTANDO UM “URSO-POLAR”

NO FRIO DINAMARQUÊS.

O ponto alto de nossa estadia sem dúvida algum a ficou guardado para nosso últim o dia na cidade, quando participam os da grande m anifestação que j untou m ais de cem m il pessoas nas ruas de Copenhague. A segurança era um a preocupação não só da polícia, que era ostensiva

com o nunca havíam os visto em um grande evento em outro lugar do m undo, com o do próprio povo e do pessoal que organizava e participava desta im ensa passeata. Havia o m edo de atentados, óbvio, m as a preocupação m aior, acredito, era com os tradicionais anarco-punk-

socialistas-rebeldes-etc. que eram vistos em todas as ruas da cidade. Vestidos de preto dos pés à cabeça, calçando coturnos com tachinhas, correntes no lugar de cintos e penteados cuidadosam ente desgrenhados, eram facilm ente reconhecíveis onde quer que estivessem (o que

passava um a m ensagem m eio confusa sobre suas reais intenções). Não basta ser rebelde, tem que parecer rebelde, não é? Chegam os a ver um as confusõezinhas causadas por esta rapaziada,

m as nada que assustasse brasileiros que j á tenham ido a um j ogo de futebol ou corrido de um arrastão na praia.

Apesar das notícias de confrontos e m ais de novecentas prisões, a im ensa passeata foi um

show de civilidade e paz. Era m uita gente nas ruas, m ilhares de cartazes, carros de som , faixas de protesto, j ovens, velhos, pais, bebês (m uitos), punks, hippies, políticos, e até ursos polares! Claro que era só um casal de gringos fantasiados! O frio era grande, m as nem tanto. Ironia das ironias

foi não só percorrer alguns dos destinos considerados m ais tensos, perigosos e violentos do planeta, j usto no país teoricam ente m ais evoluído (pelo m enos em term os econôm icos) de todos que j á tínham os visitado até então, com o tam bém sofrer nossa prim eira agressão física desde o

início do Não conta lá em casa. Ao film ar um desses grupos de revoltados j ovens europeus criados à base de leite Ninho m archando cheios de atitude por entre um m ar de gente alegre e

pacífica, nosso intrépido Leondre tom ou um safanão que quase lhe arrem essa a câm era longe. Se seus traj es e atitudes têm com o obj etivo cham ar a atenção para sej a lá qual for sua causa, m ais um a vez não fica m uito claro por que a aversão a um a film adora. Para m im , ficou a

im pressão de que o negócio deles era se rebelar. Contra o quê, não sei. Legítim os rebeldes sem causa.

Participar daquele evento foi algo único e sem precedentes para a gente. Apesar da

urgência da causa, talvez pelo fato de o aquecim ento global ser um a am eaça lenta, silenciosa (o que a torna ainda m ais m ortal), e que aflige a todos igualm ente e que não carrega aquele caráter pesado de indignação e revolta com o em passeatas contra guerras e outros crim es contra a

hum anidade. O inim igo era com um a todos. Por isso, estavam ali em torno de um só ideal. Abraçando um a só causa. Justam ente por esta ser, infelizm ente, um a das causas m ais

cruelm ente dem ocráticas dos nossos tem pos. Nossa ideia inicial era não só docum entar, m as tam bém fazer parte disso tudo. Até porque, e nesse caso felizm ente, um a das grandes lições que trouxem os de lá é que todos devem os e podem os dar nossa contribuição para tentar im pedir esse

desastre natural que cresce em progressão avassaladora. Diferente dos outros grandes conflitos e tem as urgentes que presenciam os em nossas viagens, atuar de form a efetiva contra o aquecim ento global é algo que todos nós podem os fazer. Com pequenos gestos e diariam ente. Sej a no gelo da Dinam arca, no quintal de casa ou em um a ilhazinha isolada no m eio do Pacífico.

CENAS DO GRANDE PROTESTO NO ÚLTIMO DIA DA COP15: PUNKS, SENHORES DE IDADE, ATIVISTAS E CARRINHOS DE BEBÊ MARCHANDO PACIFICAMENTE.