Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 14 de 16

Páginas do PDF

Não Conta Lá em Casa

Afeganistão

Em m uitas de nossas viagens (na verdade, praticam ente em todas), fica difícil arranj ar um tem po ou local adequado para escrever. Estou sem pre com o iPhone em m ãos e vou usando esse substituto nerd do descolado Moleskine para as anotações que, graças ao teor aventureiro das

m issões em que nos m etem os, vão se acum ulando freneticam ente. O problem a é conseguir um m om ento calm o em um lugar sereno para desenvolver e nos aprofundar nas im pressões

anotadas no calor do m om ento. Apesar de nosso program a de TV ter sido m uito apropriadam ente batizado de Não conta lá em casa, a desculpa para não enviar e-m ails para os parentes, atualizar o blog ou dar aquele update do orçam ento para nossa chefia fica m ais

com preensível quando ainda estam os em um lugar com o o Afeganistão. A sim ples m enção ao nom e j á faz todo o trabalho, nos poupando de m aiores explicações. Mesm o que m uitas vezes não corresponda à realidade, a im agem que esse tipo de destino invoca geralm ente é a de quatro

j ovens do Leblon m ortos de m edo e entrincheirados em um bunker enquanto bom bas e tiros de diversos calibres pipocam à sua volta. Isso j á basta para afastar de nossos interlocutores qualquer tipo de cobrança ou pedido, exceto o de que a gente saia de lá rápido e com vida.

Quando o trabalho term ina e finalm ente voltam os para casa, é hora de editar, sonorizar, finalizar, participar de ações de divulgação e... férias (que ninguém é de ferro). Curtas, porém

m erecidas, férias para a equipe se dedicar à praia, ao ócio criativo e a outros proj etos de sim ilar relevância. Então, aquelas anotações que fui arm azenando vão criando raiz na m em ória virtual do iPhone e esm aecendo cada vez m ais no m eu HD cerebral. E perm anecem assim até a hora

em que, proposital ou m esm o acidentalm ente, m e deparo novam ente com elas. Nesse m om ento, parece que todas as lem branças voltam de um a vez só, tal qual um a inj eção em m eu córtex cerebral. É com o se transportar para aquela situação: os m esm os cheiros, as m esm as

im pressões, a alegria ou, m ais frequentem ente, a tensão. É, de certa form a, reviver aqueles m om entos. A escritora Anaïs Nin j á dizia no início do século: “Eu escrevo para experim entar a vida duas vezes: no m om ento e em retrospecto.” Colocar essas sensações no papel é guardar

para sem pre um a parte do Não conta lá em casa que inevitavelm ente acaba se perdendo na ilha de edição, quando tem os a com plicada tarefa de explicar em trinta m inutos histórias tão

com plexas e, entre um corte e outro, nos vem os obrigados a deixar de fora da edição final lances que fariam parte de um clipe de m elhores m om entos de qualquer produção. Escrevendo, tam bém posso registrar im pressões, sensações e detalhes que câm era nenhum a consegue captar

e que im agem nenhum a poderia traduzir. Um privilégio poder eternizar “as aventuras e confusões” de quatro am igos de infância descobrindo histórias, revelando questões e aprendendo m uito sobre o m undo e sobre si m esm os em m eio aos destinos m ais perigosos e encantadores do planeta.

 

É bem raro partirm os os quatro j untos do Brasil para um a viagem . Por diferentes m otivos, geralm ente um de nós está a trabalho na Ásia, outro de férias em Los Angeles, outro dando

palestras no Rio e um quarto com prando equipam entos em Nova York. Acaba virando um a ginástica geográfica conseguir j untar todo m undo em um a escala em Istam bul, Pequim ,

Munique ou outro ponto qualquer do globo. Para essa viagem ao Afeganistão, conseguim os realizar a tarefa hercúlea de coordenar todas as agendas e seguirm os j untos aqui do Brasil para Cabul. Óbvio que com algum as (m uitas) escalas. É legal que esta parte de preparativos,

ansiedade e planej am ento acaba sendo realizada em conj unto e fazendo parte do program a. É bem interessante perceber o que esperam os de cada lugar e o contraste com o que realm ente encontram os em nosso destino. Propositalm ente, servim os de cobaias de nosso próprio proj eto, e

deixam os que nossa surpresa, decepção, m edo e excitação sej am analisados com o parte do processo de aprendizado ao entrar em contato real com os polêm icos focos de nosso trabalho. Procuram os representar o viaj ante com um e carregam os conosco as m esm as expectativas e

“pré-conceitos” (no sentido m ais inocente que o term o pode ter) de um cidadão do m undo à procura de expandir seus horizontes. Deixam os que o obj eto de nosso “estudo”, os nossos

destinos, falem por si próprios.

 

Mas o fato de estarm os viaj ando j untos tam bém é legal por um outro aspecto bem m ais leve e divertido. É que as inevitáveis escalas, m uitas vezes de horas a fio, são aproveitadas em

quatro. Viaj ando sozinho, é difícil se anim ar para encarar trem , m etrô e táxi para dar um rolé de algum as horas por um a parada ainda inexplorada. Então, você acaba gastando o tem po de espera entre um voo e outro ouvindo iPod deitado nas cadeiras desconfortáveis das salas de em barque.

Estando em quatro, a coisa m uda. Geralm ente largam os as m alas em algum locker de aeroporto e rum am os com o crianças em polgadas em passeios anim ados e corridos por algum as das

principais capitais da Ásia ou da Europa. Nessa viagem para o Afeganistão, nosso últim o pit-stop seria de extenuantes seis horas em Frankfurt, na Alem anha. Acontece que era j ustam ente o prim eiro dia da Copa do Mundo de 2010. Nada m elhor com o experiência antropológica que

vivenciar o contraste Europa/Afeganistão passeando por um a ensolarada Frankfurt, sentar em um típico barzinho e tom ar um a cervej a local acom panhado de dezenas de alem ãs assistindo à partida entre África do Sul e México em um im enso telão. Futebol e cervej a! Na escala de volta

ainda repetiríam os a dose, só que o j ogo era entre Inglaterra e Argélia. No final, ainda tivem os direito a com em oração (do em pate), saindo pelas ruas da cidade com um enorm e grupo de im igrantes argelinos. Com o diria o sábio Kleber Bam Bam : faz parte!

O PALÁCIO DE DARUL AMAN, NOS ARREDORES DE CABUL. ERGUIDO EM

1920, FOI TESTEMUNHA E VÍTIMA DE DEZENAS DE CONFLITOS

DIFERENTES (SOVIÉTICOS, AFEGÃOS, MUJAHIDINS...).

O CAMINHO COMPLICADO QUE NOS CUSTOU ALGUNS PNEUS FURADOS E A RECOMPENSA NO FIM DA ESTRADA: O LAGO DE BAND-E AMIR, NO AFEGANISTÃO.

Ainda em solo europeu, tom am os o prim eiro choque cultural ao trocar o conforto das com panhias aéreas alem ãs pelas poltronas involuntariam ente vintage, digam os assim , da Ariana Afghan Airlines, com panhia aérea que fazia a últim a perna de nosso traj eto RJ-Cabul. Parecia

um a viagem de volta à década de 1980. O entretenim ento de bordo era um a proj eção em um a tela am arelada de um program a que parecia um a espécie de Chaves da Índia. As poltronas, com o estofo todo rasgado e puído, não reclinavam e ainda por cim a fediam . Os banheiros faziam os

sanitários do Maracanã parecerem aposentos reais. Mas o desconforto seria a m enor de nossas preocupações; soubem os, no ar ainda, que esta respeitável em presa havia tido toda a sua frota de aeronaves banida, por razões de segurança, do espaço aéreo da União Europeia. Com exceção

de um único e caquético Airbus, j ustam ente aquele em que voávam os. Oito horas de provação e finalm ente desem barcam os no Aeroporto Internacional de Cabul.

O lugar era condizente com a com panhia aérea local. Idosos e crianças carregavam nas costas im ensos sacos de lona am arrados im provisadam ente com cordas. Aparentem ente, esse era o estilo das “m alas” locais. O povo se am ontoava em torno da esteira de bagagem ,

engalfinhando-se atrás de seus pertences com o se fossem cair em um buraco negro caso não fossem recolhidos im ediatam ente. Zanzando em m eio a funcionários barbudos e não uniform izados, senhoras de burca passavam apressadas esbarrando na gente com o fantasm as

azuis desgovernados. Seguranças apontavam seus rifles nos encam inhando cada hora para um a fila diferente enquanto passam os por um a verdadeira epopeia para achar nossas bagagens. Vim os de tudo naqueles interm ináveis m inutos. Exceto o contato que iria nos receber no

aeroporto.

 

Não era de adm irar que nosso contato estivesse MIA (Missing in Action), desaparecido em ação, em algum lugar do país. O problem a não estava no fato de todas as com binações terem

sido feitas apenas via e-m ail (nunca tínham os visto a cara do suj eito ou sequer falado com ele ao telefone). E nosso am igo tam bém não era nenhum m ilitar graduado, agente infiltrado ou

m ercenário estrangeiro com a cabeça posta a prêm io pelos talibãs. Se ele realm ente tivesse faltado ao seu com prom isso conosco, era por puro esquecim ento. Afinal, não dava para esperar m uita responsabilidade — e o que dizer de pontualidade — de um j ovem australiano que fugira

para Cabul em busca de um a ex-nam orada, levando na bagagem algum as poucas m udas de roupa e o seu inseparável skate. Este era apenas o início da história de Oliver Percovich. Desde que havia deixado Sy dney, em 2005, e seguido para a Cabul de sua garota, m uita coisa havia acontecido. Basta dizer que Oliver era o criador e responsável pelo Skateistan, um proj eto financiado por m ultinacionais do esporte e que ocupava um im enso galpão do Com itê Olím pico do Afeganistão em pleno centro da capital do país. Ele hoj e com anda um a equipe de dezenas de

voluntários vindos das m ais variadas partes do m undo e atende centenas de crianças carentes de Cabul, dando-lhes acesso à diversão, alim entação e educação de prim eiríssim a qualidade. Para serm os j ustos, se Oliver estava atrasado para o nosso encontro, era por conta de sua atribulada

agenda e não por sua inegável, porém louvável, dose de loucura. É que não dava para deixar de enfatizar a m ais absoluta verdade: para levar adiante um proj eto com esse perfil, ele provavelm ente era m eio doido, m esm o.

BAND-E AMIR, E SEU GELADO LAGO. UM DOS CENÁRIOS MAIS

INCRÍVEIS DO MUNDO ESCONDIDO ENTRE OS DESERTOS E OS

PICOS GELADOS DO AFEGANISTÃO.

Antes que saíssem os pelos portões do aeroporto desacom panhados, algo altam ente desaconselhado por todos os especialistas em Afeganistão com quem falam os, nosso celular tocou. Era ele: Oliver Percovich, o skatista de Cabul. Pedia desculpas pelo atraso, estava vindo de

um a reunião com oficiais alem ães que treinavam o exército afegão (olha a responsabilidade do rapaz) e j á estava apontando com sua van branca no estacionam ento. “Devem os esperá-lo onde estam os?”, perguntam os ainda receosos. “Que nada! Peguem suas m alas que eu estou aqui

fora.” Ele falou com o se tivéssem os desem barcado no aeroporto de Los Angeles ou algo do gênero. Oliver era o típico j ovem australiano: alto, m agro, branco, m eio ruivo e de olhos claros. Ele traj ava a indum entária típica do skatista de qualquer centro urbano do planeta: cam iseta de

um a m arca de eixos, j eans preto, cinto com um a corrente segurando a carteira e o tênis Vans rasgado e gasto. Nada m ais contrastante com o m ar de senhores de cara am arrada, pele escura e

traj es típicos que com punham a população nos arredores. Mas, de algum a form a, Oliver transitava por aquele cenário com a naturalidade e fluidez de quem desfila de skate por um a pista suave e conhecida. O trânsito do horário de rush em Cabul era intenso, e ele dirigia sua van

enferruj ada e barulhenta com as j anelas abertas, braço pendurado para fora, e interagindo com os locais com o se fosse um deles. Dava um alô para os m oradores conhecidos com quem cruzava pelo cam inho e xingava quando alguém lhe dava um a fechada. Parecia um peixinho

dourado nadando despreocupado e cheio de atitude em um aquário lotado de perplexos tubarões.

Era tarde, estávam os cansados, com fom e e sono, então Oliver decidiu nos levar direto para o quartel-general do Skateistan. Era lá que iríam os ficar hospedados j unto com toda a equipe

do proj eto. “É quase com o um a com unidade hippie, com a diferença de que som os skatistas. Dividim os os quartos, a com ida, cada dia um cozinha para o resto da galera. Vocês vão se sentir

em casa!” E era um a bela casa! Dois andares bem am plos, um j ardim enorm e, apesar de um tanto m alcuidado, grafites na parte interna dos m uros e skates, peças de skate e ferram entas de skate espalhados por todos os côm odos. Eram eixos, rodinhas, shapes, rolam entos e equipam entos

de segurança que pareciam não acabar m ais. Nós ficam os no porão em poeirado e m ofado, onde dividim os o espaço com um a m esa de pingue-pongue e, é claro, m ais skates. Não ficam os m uito tem po descansando nos colchões im provisados pelo chão, guardam os as m ochilas e fom os

conhecer o resto da equipe que se reunia no j ardim . Eram m eia dúzia de am ericanos, duas canadenses e um francês, que trabalhavam diretam ente para o proj eto durante aquele sem estre. Exceto por algum as peças fixas e cruciais, com o o próprio Oliver, seu braço direito Sean, o ex-

skatista profissional Ty Cabay a e Sham s, o im portante aj udante/assistente/m otorista/contato/tradutor local, a fam ília Skateistan m udava a cada seis

m eses. O processo de seleção de voluntários era criterioso. Por incrível que pareça, o núm ero de j ovens dispostos a encarar a incerta rotina de assistente social em um país em guerra era bem alto. Esse exército da salvação sobre rodas era, em sua grande m aioria, form ado por engaj ados

skatistas, selecionados m ais pelo seu perfil hum anitário do que pelas habilidades nos esportes radicais. Apesar de não serem profissionais, todos tinham ido parar ali graças a essa conj unção perfeita entre o desej o de aj udar um a causa das m ais nobres e o prazer de ter um dos m aiores e m elhores skateparks do m undo com o parque de diversões exclusivo.

Sentados em um grande banco construído com peças de skate reaproveitadas, observávam os o cair da tarde em Cabul enquanto conversávam os com nosso exótico e eloquente

anfitrião. O skate, ele nos contava, representava apenas “a isca”. Era por m eio dele que as crianças eram atraídas para o proj eto. Um a vez “fisgadas”, condicionava a prática e as aulas m inistradas por sua legião de voluntários a um a presença regular nas aulas de inglês, inform ática,

ecologia e cidadania que eles m esm os ofereciam na sede do proj eto. Nenhum a pregação ou m issionarism o envolvido. Inclusive, as especificidades da religião local eram seriam ente respeitadas. Tudo fazia perfeito sentido, m esm o vindo da cabeça de caras que m ais pareciam

um a banda de punk-rock am adora. Ao longo dos últim os anos, esses anárquicos filantropos vinham colhendo os louros m erecidos de seu trabalho sério e dedicação. O reconhecim ento das

autoridades, da com unidade local e de grandes organizações internacionais vinha facilitando e am pliando o cam po de atuação do Skateistan a passos largos. Cada vez m ais o em preendim ento hum ilde de um australiano sem destino ganhava m oldes de grande em presa e, m ovido pela

necessidade, Oliver assum ia, com a m esm a naturalidade com que circulava de skate por Cabul, esse seu lado CEO.

O ENORME SKATEPARK DO PROJETO É DE FAZER INVEJA A QUALQUER MARMANJO AMANTE DO ESPORTE.

OS JOVENS ALUNOS DO SKATEISTAN SÓ PODEM CURSAR AS AULAS DE

SKATE SE COMPARECEREM ÀS CLASSES E USAREM EQUIPAMENTO DE

PROTEÇÃO COMPLETO.

Oliver, de skatista das ruas de Sy dney a presidente de um a organização de aj uda hum anitária em Cabul. Um feito e tanto! Mas com o ele dizia: “Alguém tem que fazê-la!” Os bilhões de dólares em doações enviados pelo m undo todo com destino ao Afeganistão raram ente

chegavam a quem realm ente necessitava. A violência e a corrupção governam o país há m ais tem po do que a m aioria ali poderia se lem brar. O país foi e ainda era palco de inúm eras invasões e guerras m otivadas pelos m ais diversos interesses. Só de guerra civil, foram m ais de trinta anos.

A coisa era tão feia que o próprio Sham s, nascido e criado no centro de Cabul, nos contou em um inglês m uito bom para quem não havia tido nenhum a educação form al: “Diferentem ente do que os defensores da liberdade e dos direitos hum anos acreditam , o afegão m édio, trabalhador e

desvinculado de qualquer m ovim ento extrem ista, pensa que a presença ostensiva das forças am ericanas é um bom sinal! A linguagem da guerra im pera no país há décadas! Resolver

desavenças na base da violência é com um . Por isso, som ente um a força m aior consegue coibir as constantes batalhas que afetam o cidadão com um .” Quais eram as vítim as m ais inocentes dessa situação eternam ente caótica? As crianças, claro. E elas form am 70% da população do

Afeganistão. “Cabul é um a cidade que foi proj etada para abrigar duzentos m il habitantes, e hoj e eles são quase 5 m ilhões. Em um cotidiano de pobreza e violência, sobram poucas oportunidades para as crianças aqui. A m aioria delas fica nas ruas. Não há m uito o que fazer. Ou não havia”,

com pletou Sham s, com indisfarçável orgulho por colaborar com o proj eto.

 

No dia seguinte, acordam os cedo e fom os conhecer o verdadeiro coração do proj eto: o skatepark. Dentro do im enso galpão cedido pelo Com itê Olím pico, foi construído um enorm e

parque de skate que não deixa a desej ar ao de nenhum país de prim eiro m undo. Para quem não é tão fam iliarizado com o esporte, um skatepark é o sonho de todo e qualquer skatista. Seria o equivalente à Meca dos m uçulm anos, à Disney da criançada ou a um a piscina de ondas perfeitas

para os surfistas. Milhões de praticantes do esporte em todo o m undo têm que se contentar com a dura realidade das ruas de asfalto esburacado, ladeiras de cim ento tosco, estacionam entos vazios e túneis em m anutenção, apenas sonhando em um dia ter acesso a um parque com o aquele que a

gente via ali em pleno centro de Cabul.

Ram pas de m adeira nova em folha, que pareciam ter sido lixadas por um artesão renascentista, se fundiam em transições m agistralm ente calculadas, lisinhas, perfeitas e

entrem eadas pelos delicadam ente polidos obstáculos. Tudo com acabam ento de prim eira. Era um a visão im pressionante. A sede do proj eto, a sala onde Oliver trabalhava com sua equipe e

recebia algum as figuras im portantes do cenário político afegão, ficava no segundo andar e tinha vista privilegiada para todo o com plexo. Quatro escrivaninhas com m uito papel em pilhado provavam que ali não faltava trabalho. Os com putadores, todos com conexão à internet (pela qual eles pagavam extrem am ente caro), piscavam em sua tela planilhas de Excel e form ulários

do Word.

Erika era um a j ovem canadense de olhos azuis que com binava com m uito estilo os seus traj es de m enina skatista com a echarpe afegã que, com o m andavam as leis do Islã, cobria

perm anentem ente seus longos cabelos castanhos. Sua responsabilidade exclusiva era abastecer o site do proj eto com notícias e fotos, além de m anter atualizada toda a presença do Skateistan nas diversas redes sociais. Esse braço virtual, j unto com o trabalho da assessoria de im prensa

internacional (um a outra funcionária dedicava todo o seu tem po a essa tarefa), era a principal form a de contato do proj eto com o resto do m undo e, consequentem ente, o m elhor m eio para

conseguir o apoio que vinha de diversos países e aj udava a m anter toda aquela engrenagem social funcionando. Foi através da internet que nós m esm os viem os a saber do proj eto durante nossa fase de pesquisas.

No lado sul da sala, de um a j anela im ensa se avistava toda a pista. Mas Oliver raram ente tinha tem po de ficar ali adm irando o fruto de seu suor, que proporcionava a alegria da m olecada carente de Cabul. Ele nem sequer ficava parado m uito tem po em sua m esa. Dali, ele contou que

assistiu apenas a algum as aulas das turm as fem ininas. “Apesar de não serem proibidas as aulas m istas, percebem os que as m eninas se sentiam m ais à vontade para tentar, errar, cair e até se divertir em m eio a professoras e alunas do m esm o sexo. Juntam os as turm as de todas as idades

apenas nos dias de com petição, e as garotas têm levado a m elhor!”, disse em um m isto de vergonha e satisfação. Todos sabem que, apesar de a situação ser difícil para todos no

Afeganistão, as m eninas são um caso à parte. Mesm o crianças, elas são proibidas de andar de bicicleta, por exem plo. Os m eninos eram ensinados a não em purrar as m eninas para fora do skate quando bem entendessem , e que elas tinham direitos iguais aos deles ali no Skateistan. Ao

entrar na adolescência, as garotas trocam o véu pela burca, m uitas vezes a burca com pleta, aquela que cobre todo o corpo, inclusive com um a renda na abertura para os olhos. E, desse j eito, ficam autom aticam ente afastadas das aulas de skate e de outros aspectos ainda m ais

fundam entais da vida da m ulher ou de qualquer ser hum ano.

Nesse dia, fom os os prim eiros a chegar ao parque. Tiram os as trancas dos portões de entrada lá pelas oito da m anhã, com o “dono da casa”, Oliver. O resto da equipe ia chegando aos

poucos e todos se cum prim entavam com o m ais do que apenas colegas de trabalho. A m ão de obra local, que trabalhava na cozinha e lim peza em troca de um a renum eração excelente para os

padrões locais, se m isturava a essa divertida legião estrangeira naqueles m om entos de convívio social antes de com eçar o batente para valer. Dava para perceber que todos se sentiam igualm ente parte da fam ília Skateistan. Sobretudo os locais, agradecidos pela oportunidade e

adorando o em prego e a responsabilidade de trabalhar em um proj eto daquela proporção e im portância. Não havia distinção entre os diferentes cargos ali dentro. Na hora do alm oço, o CEO, a cozinheira, os m eninos da m anutenção e nós, os convidados, alm oçávam os todos na m esm a m esa com prida na área de convivência do segundo andar.

Mas, na tranquilidade das prim eiras horas da m anhã, a visão de um skatepark com o aquele com pletam ente vazio despertou em nós quatro a vontade im ediata de subir em um a pranchinha

daquelas e arriscar algum as m anobras. Lem bram os a nossa adolescência e as inúm eras vezes em que esperam os os quatro j untos, em um a fila interm inável, a oportunidade de dar um a única volta na m ísera ram pinha de m adeira que im provisávam os com o resto de nossa turm a em um a

calçada qualquer do Leblon. Agora, tínham os aquele am ontoado de ram pas perfeitas só para a gente. Um cenário que vislum bráram os apenas em rascunhos feitos durante as aulas m ais m açantes na escola, quando im aginávam os com o seria o paraíso do skate. Muito provavelm ente,

lá se iam m ais de quinze anos desde o últim o ollie que havíam os executado, m as a fissura em pegar um dos vários skates à disposição para dar algum as voltas por ali nos transform ava em pré-

adolescentes com o que em um passe de m ágica. Era fácil com preender agora a genialidade por trás do Skateistan. Com o um a criança afegã, habituada a privações, violência, guerras, arm as e às dificuldades de sua vida cotidiana, iria resistir a um a oportunidade com o aquela? Se Oliver

exigisse que fizéssem os um a prova de m atem ática ou um ditado de português antes que nos lançássem os naquela pista lisinha, teríam os aceitado no ato. Nos apresentar ao seu m aior orgulho e realização, aquele im pressionante skatepark, foi o golpe final perfeito. As peças se encaixavam

direitinho. Tudo fazia sentido.

Nossa m issão tinha term inado. Pelo m enos no que dizia respeito a esse incrível proj eto. Com certeza, o m ais original e efetivo que havíam os conhecido até então. As crianças chegariam

para as prim eiras aulas do dia a qualquer m om ento. Íam os film á-las utilizando a pista para som ar as im agens ao m aterial que tínham os conseguido conversando com Oliver e sua equipe de

“professores”, e encerrar as atividades por ali. Ainda era o início da m anhã e a pista, ilum inada de leve pelos prim eiros raios de sol em Cabul, perm aneceria quieta, vazia e convidativa por apenas m ais alguns m inutos. Nossas m entes com certeza processaram essa inform ação ao

m esm o tem po e, quase que em um m ovim ento sincronizado, viram os a cabeça em direção a Oliver. Nosso olhar dizia tudo. Sem pronunciar um a palavra, ele abriu um sorriso de satisfação e fez que sim com a cabeça. Foi assim que, por uns quarenta m inutos, nós fom os as quatro

“crianças” m ais felizes do Afeganistão.