Não Conta Lá em Casa
Mianmar
Muita gente nunca ouviu falar em Mianm ar. Confesso que o m áxim o que eu sabia antes de com eçar as pesquisas sobre nosso prim eiro destino era que seu antigo nom e era Burm a. Ou seria Birm ânia? Bem , eu sabia bem pouco m esm o, além do aspecto principal pelo qual o país ficou
conhecido na com unidade internacional, que é por abrigar um a das ditaduras m ais fechadas e violentas. Já estava explicado por que esse parecia ser o ponto de partida ideal para um proj eto de viagens com o o Não conta lá em casa. Se conseguíssem os voltar com im agens de Mianm ar,
j á dava para considerar a m issão um sucesso e acreditar em voos ainda m ais altos (e arriscados). Mas, no fundo, no fundo, j á estávam os nos dando por satisfeitos se nossos pais não tivessem que passar as próxim as décadas nos visitando em um presídio fétido nos confins da Ásia.
Conform e ia chegando o dia do nosso em barque, eu m e aprofundava m ais nas pesquisas. Entre Google, Wikipedia, sites de viagem alternativos e blogs de aventureiros de todo o m undo,
fui descobrindo outros detalhes sobre essa polêm ica ditadura asiática. E os fatos que surgiam não só corroboravam tudo o que se falava sobre o local, com o conseguiam piorar ainda m ais a sua fam a.
Em 1989, após anos de ditadura, protestos e nenhum espaço para a vontade do povo, realizaram -se eleições. O partido dem ocrático venceu de form a avassaladora. Então, o que fez a j unta m ilitar que m anda no país? Não reconheceu as eleições e m andou a presidente eleita para a
prisão! Essa presidente cham a-se Aung San Suu Ky i e foi a vencedora do Nobel da Paz de 1990. Perm aneceu em prisão dom iciliar por quase duas décadas.
Quanto m ais eu buscava algo que m ostrasse um lado m ais seguro ou tranquilo de Mianm ar,
m ais dados alarm antes surgiam . O país parecia ser um a sucursal asiática do inferno, se analisado pelos núm eros e fatos encontrados em docum entos oficiais:
• Mianm ar é o 2o m aior país do m undo em volum e de tráfico de ópio.
• Mianm ar está em 170o (de 173 países) no ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras para liberdade de im prensa.
• Mianm ar é considerado o pior país do m undo para se ter um blog (!?).
• Em 2007, um a grande m anifestação que clam ava por m ais liberdade no país (liderada por sim páticos e indefesos m onges) term inou em m ilhares de presos, espancam entos e houve até
a m orte de um j ornalista j aponês, o que gerou protestos em todo o m undo.
• Dizem que Mianm ar tem um dos litorais m ais bonitos do planeta, m as poucos o conhecem por ser proibido para estrangeiros.
• Mianm ar consegue ter cem vezes m enos turistas que a vizinha Tailândia, que possui um a faixa litorânea m uito m enor.
• Apenas 0,6% da população do país tem acesso à internet.
No entanto, não havia com o recuar agora. Até porque o obj etivo do proj eto era j ustam ente ir em busca desses países considerados polêm icos, fechados, perigosos ou qualquer outro term o
que, com razão ou não (iríam os descobrir), os tirava dos roteiros de viagem m ais óbvios. Nossa intenção ao escolher esses destinos não era passar um a im agem de valentões, coraj osos ou loucos inconsequentes. Muito pelo contrário. Através de contatos, planej am ento e pesquisas, tentam os m inim izar todo e qualquer tipo de risco à nossa segurança (em prim eiro lugar) e ao trabalho que pretendíam os realizar. E isso serviu tanto para essa viagem com o para todas as outras que fazem os até hoj e. Independentem ente para onde estam os indo. Prim eiro, queríam os
conferir com nossos próprios olhos se Mianm ar era isso tudo m esm o que parecia ser. Seria desinform ação? Má interpretação? Desconhecim ento? Distorção? Em seguida, nossa ideia era apresentar o que vim os de form a sim ples, clara e, principalm ente, despida de j ulgam entos
precipitados. Passar adiante tudo o que aprendem os e descobrim os sobre destinos que poucos teriam disposição ou interesse em ir conferir. As pessoas que usem com o quiser essa inform ação. Um protesto, um boicote ou um a viagem de férias. Nada é tão sim ples e óbvio. O
m undo não é só preto ou branco, há m ilhares de cam adas de cinza no m eio do cam inho. Mas, com o diz um a fam osa organização crim inosa brasileira: “O certo é o certo, o errado é o errado.”
Sem pre.
Acontece que ainda faltava um pequeno detalhe para chegar ao nosso alm ej ado destino e com eçar o trabalho. Um não, dois. E nada pequenos, m uito grandes, por sinal. Dois longos voos
que som ados dariam m ais de 24 horas no ar. Isso só para chegar até a Tailândia. Porque de lá ainda teríam os que descobrir com o cruzar por terra a fronteira para Mianm ar. Tarefa que até o m om ento era considerada im possível por todas as fontes que checam os.
Após pegar a ponte área para São Paulo, e na sequência o voo m ais longo de m inha vida
(SP-Dubai), chegam os aos Em irados Árabes. Apesar do longo traj eto, o desconforto foi leve, ainda não havia com o ir se aclim atando à selvagem realidade que m e aguardava.
Desacostum ado ao luxo de certas com panhias aéreas, m e senti m im ado durante as 15 horas no ar, em que pude aproveitar um cardápio variado de refeições, entretenim ento de bordo com m ais de quinhentos film es e program as de TV, rádios, canais de notícias em tem po real, câm eras
on board, j ogos interativos, telefone para com unicação entre os assentos (passam os vários trotes para UFO) e por aí vai. Eu rezava para não ser a calm aria antes da tem pestade.
TÃO DIFERENTES, MAS TÃO IGUAIS. EU, PESCA, LEO E UFO COM
MONGES BIRMANESES QUE CONHECEMOS EM MAE SOT,
FRONTEIRA ENTRE TAILÂNDIA E MIANMAR.
NÓS QUATRO NA FRONTEIRA ENTRE A TAILÂNDIA E MIANMAR. DESTAQUE PARA LEONDRE COM NOSSA PANASONIC HVX200, A PRIMEIRA CÂMERA QUE USAMOS NO PROGRAMA.
A calm a, ou m elhor, a m ordom ia prosseguiu quando desem barcam os para um a escala de algum as horas no aeroporto de Dubai. Grandioso, com um a decoração ostensiva e abusando de detalhes em ouro, o lugar parecia um a espécie de shopping center da realeza árabe. Os serviços
faziam j us à decoração suntuosa: loj as variadas, diversas praças de alim entação e, m elhor de tudo, conexão wireless de graça. Eu poderia m orar nesse aeroporto, com o o personagem de Tom Hanks fez no JFK, de Nova York, no film e O term inal. Só que, diferente dele, eu não ia querer
nunca m ais voltar para o m eu país de origem .
É claro que, por estar em um país islâm ico, o aeroporto tam bém tinha suas particularidades. E descobri ali m esm o um a lição que m e acom panharia ainda por m uitas
paradas: ir ao banheiro em um país m uçulm ano faz-se epopeia acrobática digna dos m elhores film es pastelão. Prim eiro, a cabine não abriga um vaso sanitário, m as sim um buraco m etálico
no chão que o povo por essas bandas tanto am a. Segundo, não há cerim ônia, ao que parece, para flatos. Meus vizinhos de cabine pareciam travar um a batalha de proporções épicas. Enquanto eu fazia um m isto de contorcionism o com aeróbica para não cair no buraco que j azia entre m eus
pés, o senhor da esquerda com eçou a utilizar o chuveirinho com o quem apaga um incêndio. A água chegava a invadir m inha cabine por baixo e eu, agora em um pé só, lutava contra a gravidade que m e atraía para aquele desagradável poço sem fundo. Segurando a m ochila com os
dentes, o papel higiênico com a m ão esquerda e escorando a porta com a direita, m e vi em um esquete de film e do Jerry Lewis por alguns tensos m inutos. Entre m ortos e feridos, salvaram -se todos. Na saída, fiz questão de passar no tem plo m uçulm ano que ficava logo ao lado. Agradeci o
sucesso em m inha prim eira experiência m ulticultural no Oriente Médio, onde ir ao banheiro ou um sim ples pedido no Burger King pode reservar as surpresas m ais inesperadas.
Aproveitando a excelente infraestrutura do aeroporto da m aior cidade dos Em irados Árabes, percorrem os algum as livrarias em busca de um tradicional guia de viagens de Mianm ar. Já tínham os procurado esse livrinho por algum tem po, e, apesar de term os encontrado versões
dos m ais obscuros e isolados recantos do planeta, parecia que a de nosso destino era im possível de ser encontrada. Foi então que ficam os sabendo que a fam osa editora responsável pela publicação desses guias até hoj e sofre protestos por ter publicado um exem plar birm anês. Afinal,
um a das principais form as que a com unidade internacional descobriu de fazer pressão sobre a ditadura intransigente de Mianm ar foi j ustam ente por m eio do boicote ao seu turism o. Um a atitude com plexa e que gera bastante controvérsia. Os idealizadores do boicote e seus defensores
alegam que essa é a m aneira de deixar claro para a j unta m ilitar que oprim e o povo local que o m undo está de olho e não concorda com suas ações. Além de cortar um a im portante fonte de
renda que estaria sendo usada para a construção de resorts turísticos erguidos com m ão de obra escrava, que enriquece o poderio m ilitar que com anda o país criando um ciclo vicioso difícil de ser quebrado. Essa teoria foi acatada por diversas entidades oficiais, por grande parte da indústria
m undial de turism o e pelos governos de vários países.
Por outro lado, os defensores da abertura ao turism o afirm am que esse tipo de atitude apenas isolava o povo de Mianm ar j á tão sem forças para lutar por conta própria. Esse segundo grupo entendia as im plicações de viaj ar para o país, m as apontava um a terceira via: a do turism o ético e responsável. O certo, eles pregavam , era não fazer uso de restaurantes, hotéis e excursões oficiais do Estado, optando pelos em preendim entos turísticos e com erciais dos próprios
birm aneses. Turism o consciente era o term o que eles usavam e que constava em um guia alternativo que finalm ente encontram os ali no aeroporto. Decidim os que esse era o tipo de turism o que tentaríam os praticar um a vez que estivéssem os em Mianm ar. Antes disso, ainda
tínham os que enfrentar m ais sete horas de voo até Bangcoc, na Tailândia. Mas não dava para em barcar sem antes fazer um pit-stop no excelente restaurante na cobertura do nosso salão de em barque, que servia refeições de graça para quem tivesse escalas acim a de quatro horas
(nós!). Já estava ficando com saudades de Dubai. Ou do que pude ver desse excêntrico Em irado: o aeroporto.
BRUNO PESCA NO CAMPO DE REFUGIADOS EM MAE SOT, O MAIOR
DA REGIÃO, QUE ABRIGA CERCA DE 50 MIL HABITANTES.
PESCA, COM SUA POLÊMICA CAMISETA, LEO, UFO E EU.
Assim que chegam os à Tailândia, fom os direto do aeroporto de Suvarnabhum i para a
lendária Khao San Road. A Khao San, para os íntim os, é o point preferido de dez entre dez j ovens viaj antes europeus em Bangcoc. A Europa está para o m ochileiro brasuca com o o Sudeste Asiático está para o europeu. E a Tailândia parece ser o epicentro de todo exotism o, diversão e
loucura que esses j ovens viaj antes procuram em suas expedições além -m ar. Assim que coloquei os pés naquela rua suj a e esburacada, abarrotada de carrocinhas de com ida, am bulantes
diversos, bicicletas, táxis e gente de todos os lugares passeando freneticam ente de um lado para outro, pude perceber que o diretor Danny Boy le fez um retrato bastante fiel da realidade local em seu film e A praia. Com exceção do cheiro peculiar e desagradável, im possível de ser
reproduzido na telona (ou no livro). Fazendo um rápido com parativo, o lugar parecia um a m istura do bairro da Liberdade, em São Paulo, com o cam elódrom o da Uruguaiana, no Rio de Janeiro, só que frequentado pela j uventude alternativa europeia. Mas não há conotação negativa em m inha
descrição. Existe por aqui um a sensação de efervescência cultural, curiosidade e, principalm ente, liberdade, m uito grande. Para nós, brasileiros, às vezes essa sensação não é tão m arcante. Porém , para um j ovem inglês, alem ão ou sueco, que geralm ente tem taquicardia só
de atravessar a rua fora da faixa, poder andar descalço, com a cam iseta desabotoada, chapéu-panam á e pegar carona em um tuk-tuk (veículo característico do Sudeste Asiático usado com o
táxi. Um triciclo, geralm ente caindo aos pedaços, que transporta, no m áxim o, três pessoas) deve ser um a experiência sensacional.
Ainda no prim eiro dia, à tarde, alm oçam os no restaurante vegetariano favorito de UFO,
que j á havia viaj ado por estas bandas em outras oportunidades. O lugar estava abarrotado de turistas de diversos países, e o cardápio trazia em sua capa um a frase que nos acom panharia pelo resto da viagem : “Não se trata de conhecer lugares, m as de conhecer pessoas.” E nós viem os
aqui não só pela com ida, que era excelente, m as j ustam ente por conta da am izade de UFO com um dos atendentes do lugar. Ele lem brava que o cara era de Mianm ar e, com o j á im aginava, seu am igo nos deu preciosas dicas e alertas sobre sua terra natal. Além dos estrangeiros europeus, as
ruas ali perto eram apinhadas de com erciantes inform ais e, grande parte, refugiados de Burm a (todos se referem dessa m aneira ao país). Em conversas com esse pessoal, tanto os m ochileiros
europeus quanto os am bulantes birm aneses, não encontram os ninguém que apoiasse nossa ideia de fazer turism o em Mianm ar. O prim eiro grupo, por m edo ou desconhecim ento, nem sequer considerava incluir o polêm ico destino no seu heterogêneo roteiro de viagem . E o segundo
alertava até para o risco de vida que corríam os ao aparecer por lá portando câm eras.
Um senhor m ais velho nos cham ou a atenção por estar traj ando um a cam iseta com os dizeres “Free Burm a” estam pados no peito. Foi ele quem deu um a dica interessante que serviria perfeitam ente aos nossos propósitos se não fosse tão arriscada: entrar em Mianm ar cruzando a fronteira por dentro de um cam po de refugiados na cidade de Mae Sot, no extrem o oeste da Tailândia.
Ir até Mae Sot não foi tão difícil. Chegam os após um a viagem de oito horas de ônibus. O local é um contraste absoluto com o que conheci de Tailândia em Bangcoc. Há m uito m enos
turistas (na verdade, não vim os nenhum estrangeiro exceto dois m em bros de um a equipe da ABC, rede norte-am ericana de televisão, que estavam hospedados no m esm o lugar) e o cenário é bem m ais bucólico que o da capital. Mas nossa sorte com eçou a brilhar m esm o quando
esbarram os, na própria pousada, com Than, fam oso por estas bandas e reconhecido até em um livro por seu papel com o o “Padrinho dos Órfãos Birm aneses”. Than era um cara de seus 30 e tantos anos, alto e bem forte, pele m orena de tailandês e cabelo curto no estilo m ilitar, que à
prim eira vista intim idava. No entanto, sua fala m ansa, j eito delicado e o sarongue que usava diariam ente contrastavam com sua aparência, coragem e abnegação com que levava a vida. O trabalho com as crianças refugiadas em Mae Sot é realm ente um caso digno de livro, film e,
reportagem na TV e m uito m ais. A consequência de sua bondade e altruísm o em aj udar aqueles que queriam (e os que conseguiam ) fugir de Mianm ar para viver no Cam po de Mae Sot foi o
im enso reconhecim ento da com unidade local e de todos que o conheciam . E isso tam bém era um problem a, obviam ente. Afinal, aj udar pessoas a fugirem ilegalm ente de um país é crim e internacional. Mas essa era a causa que Than tinha abraçado e ele dizia não se sentir nem um
pouco especial por isso. Contava-nos que cada um naquela com unidade de desertores, com o pouco que tinha, descobria um m odo de tentar m udar o curso de sua história e de sua terra natal. Para ele, isso sim era inspirador.
Than não se furtou em nos aj udar da form a que pudesse a contar a história daquele povo oprim ido: sugeriu contatos relevantes, arrum ou um lugar para ficarm os e ainda nos levou ao Museu da Tortura. Um local ornado com fotos e relatos dantescos do que se passa na principal
prisão de Mianm ar, onde profissionais na arte de infligir sofrim ento físico se esm eram para desenvolver as m ais criativas m aneiras de torm ento ao próxim o. Além disso, Than conversava
por horas conosco na pousada, em papos que m ais pareciam verdadeiras aulas presenciais de liberdade e sobrevivência.
Por interm édio de Than, soubem os que ali m esm o na m esa de refeições do pátio da pousada, onde tradicionalm ente tom ávam os café e conversávam os, alguns dias antes de nós estava sentado John Yettaw, o am ericano tresloucado que ganhara os noticiários de todo o m undo (colocando novam ente Mianm ar no centro das atenções) ao invadir a nado a casa de Aung San
Suu Ky i, a líder dem ocrata em prisão dom iciliar, o que provocou um novo j ulgam ento e outra crise internacional no país. Já conhecíam os de cor essa história, pois recebem os a notícia ainda no avião.
A j unta m ilitar acusava Aung San Suu Ky i de estar envolvida na conturbada invasão, enquanto seus defensores diziam que tudo havia sido arm ado para im pedi-la de concorrer às novas eleições, m arcadas para dali a alguns m eses. De qualquer form a, ficou definido que a
Nobel da Paz e líder do m ovim ento dem ocrático birm anês teria que deixar a casa onde estava confinada havia anos e voltar para a prisão com um até que fosse definida a data para um novo
j ulgam ento. E, com o vim os, de com um essa prisão não tinha nada. Existem várias histórias e lendas aterrorizantes sobre o local. Tínham os acabado de adquirir um livro sobre ela no próprio Museu da Tortura, com ilustrações e explicações das inúm eras form as de crueldade praticadas
no com plexo de Insein. Ou Insane, com o preferia a im prensa internacional. O próprio form ato da prisão é extrem am ente intim idador: um pentágono im enso que se destaca em m eio às hum ildes construções e florestas das cercanias. A im prensa m ostrava que, com a desordem
gerada pelo j ulgam ento, os quarteirões próxim os ao local estavam fortem ente cercados pelo exército. O que tornava im possível nossa aproxim ação do local (sim , j á estávam os considerando essa hipótese). Mas nunca vou esquecer o m om ento em que avistam os, pela j anela do avião, a
im ponente e assustadora construção.
Voltando à fronteira com Mianm ar, Bruno Pesca escolheu um m odelito, digam os, especial para o m om ento. Alguns dias antes, com o form a de aj udar a causa birm anesa, com prara das
m ãos de nosso am igo Than um j ogo de quatro cam isas que traziam um desenho estilizado da silhueta de um m onge e a m ensagem : Birm ânia: Revolução Açafrão. Alguns locais solidários, ao
perceberem nossas intenções de cruzar a fronteira (e os traj es de Bruno Pesca), alertaram : “Vocês não pretendem entrar lá vestindo isso, certo?”
Ainda não. Nosso obj etivo para o m om ento era “apenas” penetrar no m aior cam po de
refugiados birm aneses da Tailândia. Ênfase na palavra “penetrar”. Soubem os que para entrar no local eram necessárias autorizações difíceis de serem obtidas e um a burocracia com plicada e dem orada para quem não tinha m uito tem po a perder. “Isso não é problem a”, disse Than que
m ais um a vez salvava o dia (e a viagem ). Ele fez alguns rápidos contatos por telefone e conseguiu um am igo que tinha um a pick-up e estava disposto a nos esconder no veículo e nos levar por um a excursão pelo cam po. Ele estava acostum ado a entrar lá, pois tem fam iliares no local, e disse que poderíam os até conhecê-los, se quiséssem os. Claro que queríam os! Apesar de
ser o m aior, esse era apenas m ais um dentre m uitos cam pos que abrigavam refugiados birm aneses fora de sua terra natal. O am igo de Than pedia apenas que film ássem os com m uito cuidado, de form a que não atraísse a atenção ou ofendesse alguém . Sobretudo algum dos oficiais
do exército tailandês que fazia ronda na área. Foi assim , m eio às escondidas e debaixo de m uita tensão, que vim os pela prim eira vez na vida um cam po de refugiados.
EU E MINHA BOLINHA DE SEPAK EM UMA RUA
DO CENTRO DE YANGUN.
SHWEDAGON PAGODA, A INCRÍVEL PAGODA DOURADA.
Seguíam os por vielas de terra batida com barracos de m adeira de am bos os lados. O terreno parecia m uito com os m orros cariocas com que estam os acostum ados, m as com um a vegetação bem m ais selvagem e fechada. Casinhas de m adeira com o teto forrado por grandes
folhas secas cobriam as encostas daqueles m orros a perder de vista. Parecia um a grande favela rural. Organizada e lim pa dentro de sua realidade hum ilde com o não poderia deixar de ser. A m aioria das pessoas ali tinha deixado Mianm ar com fam ília e filhos pequenos, trazendo nada
além da roupa no corpo, em busca da liberdade incerta em um país desconhecido. O governo tailandês dava um suporte m ínim o para o cam po, além do espaço físico. Porém , o que m ais nos im pressionou foi saber que os m oradores não podiam deixar o cam po em m om ento algum . A
pena ia desde a prisão até o que eles m ais tem iam : a deportação para seu país natal. A vida daquelas pessoas, então, se resum ia ao cam po. E ali elas criaram escolas para as crianças,
centros m édicos básicos e até igrej as. Violência não parecia ser um a das preocupações no local. Na estrutura social básica que geraram por conta própria, questões com o policiam ento ou segurança não estavam entre as prioridades. Com o pudem os perceber ao dar um a volta pelo
lugar acom panhados da fam ília do nosso m otorista, a sensação era que esse im enso grupo encarava orgulhosa um a rotina árdua de luta por um a vida m elhor, e para isso se apoiava na solidariedade, no auxílio m útuo e no sentim ento de com unidade (na m ais pura e louvável
acepção da palavra). Era assim m esm o entre os m ais j ovens. Felizes pela graça da liberdade, buscavam apenas um a vida m ais digna. Não havia espaço para crim es, violência ou desonestidade ali dentro. Ninguém queria perturbar a paz e o equilíbrio que tinham encontrado. O
sistem a parecia reger a si m esm o com extrem a tranquilidade apesar das condições do lugar. Era um a experiência m uito im pressionante ver em prim eira m ão o im pacto que um a ditadura pode
exercer sobre um povo. Consequências tristes e trágicas que rom piam até m esm o os lim ites de seu próprio território. Um a questão com desdobram entos que iam se revelando m ais com plexos, e em um a escala m uito m aior do que qualquer um de nós j am ais vislum brara. Se fora de
Mianm ar j á era assim , com o não seriam as coisas lá dentro?
Na volta do nosso passeio pelo cam po, ainda deu tem po de fazer um a parada para conhecer um retiro de m onges que participaram da tal Revolução Açafrão que enfeitava as
cam isetas que havíam os ganhado. Essa tentativa de revolução orquestrada pelos m onges ocorrera em 2007 e foi o m aior e m ais violento protesto até hoj e no país, com m ais de um a centena de m ortos. Chegam os ao local bem na hora da m editação, e a barreira da linguagem
tornou im possível qualquer tipo de interação além de gestos e sorrisos. Saindo de lá, ainda deu tem po de participarm os de um a partida de futebol com em orativa com alunos de um a escola
para crianças exiladas. Na verdade, Pesca representou nossa equipe e toda a m agia do futebol brasileiro durante a pelada. No fim do am istoso, perguntam os a um de seus pequenos adversários se aquele brasileiro do outro lado do cam po era um “j ogador bom ”. E ele: “Não, apenas um
j ogador.” Estava encerrado o sonho de Bruno Pesca de seguir a carreira futebolística em território asiático.
Mas um de nossos obj etivos na cidade não seria cum prido. Ficam os sabendo que um fotógrafo francês, últim o a tentar penetrar de Mae Sot a Mianm ar por terra, com o nós queríam os fazer, tinha conseguido m ais do que pretendia em sua perigosa em preitada. O tal j ornalista investigativo desej ava apenas cruzar a fronteira e registrar em fotos a vida do outro lado, m as
acabou sendo avistado e envolvido em um dram ático tiroteio, que conseguiu até registrar com sua câm era. As fotos renderam a ele m atérias de destaque em publicações de todo o m undo, m as quase lhe custaram a própria vida. A questão do visto não era problem a e, depois dessa
história, acham os por bem optar pelo percurso m ais tradicional e seguro (se é que isso era possível). Seguim os para o país de avião. Dessa form a, aterrissaríam os direto em Yangun, a m aior cidade do país, a m ais populosa e centro das atenções de todos. Deixaríam os os riscos e as
surpresas da m issão Mianm ar para quando j á tivéssem os ao m enos cruzado a fronteira.
UFO, TODO FELIZ PRESTES A VOAR PELA PRIMEIRA VEZ DE AIR BAGAN.
FELIPE UFO PAUSA PARA A FOTO DURANTE NOSSO DIA DE BIKE POR
BAGAN.
Yangun, que j á se cham ou Rangoon, era a antiga capital de Mianm ar. A j unta m ilitar decidiu em 2005 m udar o centro do poder no país para a isolada Nay py idaw, que fica a 200 quilôm etros para o norte, encerrada entre um a cadeia de m ontanhas e florestas. Os m otivos para
tais m udanças perm anecem um m istério. As suposições variam de m edo de um a invasão externa até m era superstição. O fato é que estrangeiros estão term inantem ente proibidos de entrar na capital oficial de Mianm ar, que tam bém serve de base para treinam entos do exército.
Mas nosso destino era a histórica ex-capital e cidade m ais relevante do país: Yangun. Ao chegar lá, você tem que fazer um longo e involuntário city tour que é o traj eto do aeroporto ao hotel. A
prim eira coisa que percebem os foi que o volante dos carros ficava do lado direito, m esm o as ruas não sendo de m ão-inglesa. Reza a lenda que o general líder da j unta m ilitar que governa o país é m uito ligado em astrologia. Dizem que ele não tom a um a única decisão sem dar um a
conferida em seu m apa astral. Certa vez, ao consultar sua astróloga particular sobre os rum os do país, ela teria dito: “O cam inho é à direita.” Em vez de encarar a observação com o um conselho político, ele levou a dica ao pé da letra e ordenou que se invertesse a m ão das ruas do país.
Mais adiante, surgia um a cidade com vários e enorm es tem plos dourados que m ais pareciam naves alienígenas de um a civilização riquíssim a que haviam resolvido pousar em determ inados pontos estratégicos entre os prédios velhos e m alcuidados daquele lugar m arcado
pela m iséria. As ruas de asfalto m altratado, os postes com fiação exposta e os carros em péssim o estado faziam com que as dezenas de serenos m onges que vagavam pelas ruas destoassem
com pletam ente da paisagem . Pareciam ter sido teletransportados direto de algum tem plo plácido nas m ontanhas nevadas do Him alaia.
Classificam os a área do nosso hotel com o um a espécie de Largo do Machado, para quem
conhece o Rio de Janeiro, só que depois do apocalipse. O próprio hotel, da decoração às instalações, seguia o estilo m ais sim ples possível. Luz elétrica só a partir das 6 da tarde, e isso valia para toda a cidade. O único m im o a que tínham os direito era um quadro do Ronaldinho
Gaúcho com a cam isa da seleção, que ficava bem acim a de um a das cam as, no lugar onde em qualquer outro país estaria um a im agem de Jesus Cristo, Dalai Lam a ou outro representante m áxim o de um a religião qualquer. De bom m esm o só o cy bercafé, um dos poucos em
funcionam ento na cidade, que ficava a algum as quadras do nosso hotel. O que tam bém não significava grande coisa, j á que YouTube, e-m ail, Facebook e outros sites básicos para a
sobrevivência eram bloqueados pelo governo. Para nossa sorte, e provando que não há com o frear a revolução digital, os próprios funcionários do cy bercafé descobriram um a form a de alterar a configuração de suas m áquinas burlando a arcaica tentativa de censura online. Era o
j eitinho brasileiro em Mianm ar!
Souvenir: Por 800 ky ats (m enos de um dólar), no m ercado Aung San, em
Yangun, você com pra um a bolinha (m aior que um a de tênis m as m enor que
um a de futebol) de Sepak Takraw. O Sepak é um dos esportes m ais populares
na Tailândia, atual cam peã m undial na m odalidade. A vizinha Mianm ar
parece ser grande adepta tam bém , apesar de cham á-lo por outro nom e: Chai-
lo. O negócio é um a espécie de futevôlei j ogado com um a bola feita de palha
trançada em um a quadra de badm inton. É preciso ter m uita habilidade com os
pés e elasticidade para j ogar, e os grandes craques conseguem até dar um a
espécie de bicicleta cortada. Nas ruas, sem pre tem um a galera j ogando em
quadras im provisadas. Um a pequena área de terra batida, duas varetas de
bam bu interligadas por um barbante e pronto: você tem um a quadra de Chai-
lo e m eia dúzia de garotos se enfrentando em acirradas disputas. Seria com o a
tradicional “pelada” no Brasil.
Antes da nossa chegada, havia chovido na cidade por alguns dias. O que fez a situação j á precária de Yangun ficar ainda pior. Com o não bastassem a falta de luz (que j á era rotina) e a
suj eira, as ruas esburacadas e caóticas ficaram com pletam ente alagadas. Um cheiro de toalha m olhada pairava perm anentem ente no ar. Mas dem os sorte: durante os dias em que estivem os
por lá, conseguim os rodar o país com sol o tem po todo. Foi possível conhecer os principais tem plos e passear a pé por toda a cidade. Mas, antes que desse para agradecerm os a São Pedro, percebem os um outro inconveniente: o calor extrem o. Na ausência de am bulantes vendendo
água m ineral gelada, m áquinas de refrigerante ou casas de suco, havia um a m aneira especial para a gente se hidratar.
Sabe o tradicional bebedouro que encontram os em qualquer lugar no Brasil? Não aquele de
escola, m as aquele de repartição pública ou consultório de dentista, que tem o galão de água com um a torneirinha e os copinhos descartáveis para a gente se servir? Pois é, ele tam bém existe em Mianm ar. A “pequena diferença” é que lá não há os copinhos descartáveis. Para substituí-los
você tem um a canequinha de m etal, que fica presa por um a correntinha ao bebedouro, e que é usada de form a com unitária. Até aí, nada dem ais. Se não fosse o hábito dos birm aneses de
m ascar um a frutinha verm elha que faz com que seus dentes fiquem perm anentem ente cobertos por um a espessa cam ada de saliva cor de sangue que provoca costum eiras escarradas que lotam as calçadas de pequenas pocinhas averm elhadas. Só sei que na hora do calor fizem os fila para
entornar uns copinhos em m eio à galera local e suas gengivas cheias dessa bizarra gosm a.
DA SACADA DE UM TEMPLO, UFO OBSERVA ALGUNS DOS OUTROS 2 MIL QUE COMPÕEM O INESQUECÍVEL VISUAL DE BAGAN AO PÔR DO SOL.
PESCA AO VOLANTE DO MINITÁXI" QUE PEGAMOS EMPRESTADO
PARA DAR UMA VOLTINHA POR MANDALAY.
Apesar de Yangun ser a capital inform al de Mianm ar, a região adm inistrativa da cidade foi transferida para outro lugar em 2005. Um a nova capital foi construída literalm ente no m eio da floresta, estrategicam ente afastada da m aioria da população. Mas, para um país que m udou de
nom e de um dia para o outro, m udar um a capital de lugar era m ero detalhe. Pois é, a confusão que todo m undo faz entre Birm ânia, Burm a ou Mianm ar não é loucura. Em 1989, o governo decidiu m udar o nom e do país. Autoridades estrangeiras, j ornalistas de todo o m undo e
praticam ente todos os refugiados se opuseram à troca, até com o protesto contra a ditadura. Com o isso não bastasse, um a leva de cidades, bairros e até ruas tam bém m udaram de nom e nessa época. O próprio caso de Yangun, que se cham ava Rangoon até 1989. Então, era um tal de ouvir
Burm a lá, Mianm ar aqui, que a gente m esm o m isturava os dois. Houve inclusive um a reunião para decidir que form a adotaríam os no program a. Ficam os com a que é oficialm ente usada no
Brasil. Ou sej a: Mianm ar, com “i”.
Outras coisas difíceis de pronunciar, sem levar em consideração a m udança de nom enclatura, eram os nom es dos principais tem plos do país. A Shwedaghon Pagoda, ou Pagoda
de Ouro, é a grande atração de Yangun. Ela é a m aior pagoda do m undo. Pagoda, ou pagode (não dá para usar o term o “pagode” no Brasil neste contexto, pois a im agem invocada nunca é de tem plos asiáticos, m as de grupos de m úsica vestidos com roupas espalhafatosas e fazendo
dancinhas coreografadas), é aquele tipo de construção em form a de torre geralm ente construída dentro de tem plos budistas. O ponto m ais alto dessa torre de ouro cravej ada com m ais de cinco m il diam antes chega a 98 m etros de altura.
Além de ser um dos principais destaques de Mianm ar, a Pagoda de Ouro tam bém sem pre foi o ponto central das m anifestações políticas do país. Aqui, em 1988, Aung San Suu Ky i fez um
discurso para m ais de 500 m il pessoas clam ando por dem ocracia e convocando o povo a um dos m aiores e m ais violentos protestos que o país j á conhecera. Infelizm ente, a m aior consequência desse episódio foi o troca-troca de nom es. Em setem bro de 2007, o lugar foi novam ente palco de
m anifestações, quando m ilhares de pessoas lideradas por m onges e insatisfeitas com suas condições precárias de vida protestaram contra a j unta m ilitar, pedindo liberdade e dem ocracia na fam osa Revolução Açafrão. Óbvio que novam ente a reação do governo foi de extrem a
violência, prom ovendo im agens lam entáveis de cidadãos e m onges sendo agredidos e m ortos.
Entre sussurros e revelações escondidas, ficam os sabendo que a construção de pagodas estupendas e de custo altíssim o era um a form a que os líderes da ditadura do país buscavam para
expiar seus pecados. Eles praticavam os m ais terríveis e desum anos atos em benefício próprio e depois construíam im ensos tem plos faraônicos na tentativa de obter o perdão divino. Para aqueles
com quem a gente conseguia, a m uito custo, conversar abertam ente, esse tipo de atitude só servia m esm o com o dem onstração de poder. Arbitrário e inj usto poder que em conj unto com a força da j unta m ilitar m antinha o povo calado e obediente, m aquiavelicam ente governado pelo m edo.
Para nós, ficava evidente que não havia m ais com o extrair m uita coisa dali. Até porque não sabíam os o quão arriscado seria a esses cidadãos abrirem a boca a fim de denunciar seu governo para nossas câm eras.
Bagan é a cidade m ais “turística” de Mianm ar. As aspas são porque, na prática, não vim os
nenhum turista na cidade. A cada novo passo podíam os perceber que Mianm ar é um lugar tão inacreditável quanto inexplorado. Bagan, com seus m ais de 2 m il tem plos, é obviam ente um dos principais destinos do país e do m undo no quesito viagem de aventura em cenário surreal. Mas
poderia ser um bom point até para um casal de m eia-idade ensaiando um a segunda lua de m el m eio fora dos padrões. São poucas as opções de hotéis na cidade. Mas os dois principais atendem com louvor às necessidades do m ais exigente viaj ante internacional. Dem os um a olhada em
am bos e optam os pelo m ais barato, que não deixava nada a desej ar ao seu rival. Espaçoso, lim po, m oderno e bem decorado. Quartos am plos e agradáveis, atendim ento de qualidade e um a belíssim a piscina com um deque de m adeira ornam entado por estátuas budistas (onde
testem unhei um a cobra devorando um sapo, em um a cena digna de Discovery Channel).
Apesar da opulência de suas estalagens e da paisagem arrebatadora, a cidade é bem
sim ples. Um a im ensa planície coberta por um a terra m arrom -averm elhada que m e fazia lem brar os desertos australianos, localizada na área m ais seca do centro do país, e com pouca ou quase nenhum a vegetação. Carro era raridade. Até pessoas e anim ais eram bem raros (apesar
da cobra e do agora falecido sapo que vi na piscina). As ruas são apenas trilhas m arcadas no solo. Não há asfalto, sinais, placas ou outras construções que não sej am tem plos. E os tem plos são o que define a cidade de Bagan. São m ais de 2 m il espalhados por toda parte e construídos no
século XI, quando a cidade era a capital do Im pério da Birm ânia. É m ais tem plo do que habitante! A cidade chegou a ter 5 m il tem plos, até que um terrem oto em 1975 botou abaixo
m ais da m etade deles. Em qualquer direção que se olhe é possível avistar um a dezena de tem plos. Alguns pequenos, com o se fossem torres de apenas uns 2 m etros de altura, e outros im ensos, verdadeiros castelos de pedra com m ais de 50 m etros. Mas todos seguindo o m esm o
estilo arquitetônico e m aterial de construção (tij olos verm elhos). Apesar do calor absurdo que fazia, o m eio de transporte predom inante era a bicicleta. A tradição na cidade é sair pedalando e conhecendo os tem plos das im ediações. O nosso hotel tinha um estacionam ento de bicicletas das
quais os hóspedes podiam fazer uso à vontade. Não havia nenhum a m oderna, com 18 m archas, am ortecedor ou selim acolchoado. Com o tam bém não era necessário o uso de equipam ento de segurança, com o capacete, j oelheira ou coisa do gênero. Era pegar um a das bicicletas e pedalar
sob o sol escaldante. Passam os o dia inteiro nessa função, o que quase m e rendeu um a insolação. Mas ver o pôr do sol do topo do tem plo m ais alto da cidade, com a vista de toda a árida planície e
seus m ilhares de tem plos em destaque no horizonte, faz valer todo o esforço. E entendem os o m otivo de o pôr do sol em Bagan ser “um a das cem coisas para ver antes de m orrer”, com o consta em diversas publicações de turism o.
Bagan era isso. Um visual deslum brante e incom parável. Talvez um dos cenários m ais lindos que j á tínham os visto na vida. Um im enso e belíssim o cerrado com m ilhares de tem plos
brotando do solo. Mas em poucas horas j á tínham os percebido que m ais dias por ali pouco iam acrescentar à nossa história ou ao obj etivo de desbravar a verdadeira Mianm ar. Óbvio que esta era um a parada superim portante, até para denunciar com o um dos lugares m ais incríveis e
visualm ente im pactantes do m undo perm anecia virtualm ente escondido e inacessível por estar encravado no coração de um a im placável e im penetrável ditadura. Em nossa prim eira grande viagem com o Não conta lá em casa, íam os percebendo que grandes lições estão em lugares
onde m enos esperam os e podem se apresentar de diferentes form as. O que tínham os a fazer então era m anter a m ente sem pre aberta, alerta e inquisitiva. Analistas políticos e sociais em
tem po real, um processo constante de quebra de paradigm as realizado no calor do m om ento e na poeira da estrada. Seguindo nosso roteiro, o próxim o destino prom etia ser um contraponto perfeito à beleza visual sem m uito conteúdo hum ano de Bagan. Íam os pegar um voozinho da Air
Bagan (sim , existe) e aterrissar direto em Mandalay, considerada a capital econôm ica e cultural do país.
Em Mandalay, tínham os conversas interessantíssim as sem sequer precisar pisar na rua. É que ficam os hospedados na casa de um casal de velhinhos tão fofos quanto esclarecidos na situação geopolítica de seu país. Se aloj ar na casa de alguém é tradição por lá e um a das poucas
form as que os cidadãos têm para fazer um extra. Aum entar a renda fam iliar dessa form a não é novidade em parte algum a do m undo, m as aqui tinha um sabor bem m ais fam iliar e todo especial. Alugar um quarto não significava apenas ter um teto, um a cam a e o direito a um a
chuveirada ocasional para os que gostam de banho (o que não costum a ser o caso de Leondre), m as se tornar parte da fam ília. A partir do m om ento em que decidim os nos hospedar ali, o sim pático casal passou a nos tratar im ediatam ente com o seus netos voltando para casa após
vários anos na estrada. Sem a m enor cerim ônia, Vovó, com o a apelidam os, entrava em nosso quarto a qualquer hora do dia para nos levar toalhas de banho, m ata-m osquitos ou um a m antinha
extra para a noite. Quando resolvíam os sair, ela fazia questão de nos preparar um sanduichinho “para viagem ”. Todos os dias tom ávam os o café da m anhã no j ardim com Vovó e Vovô, que não desgrudava um m inuto de seu radinho de pilha. Ela era um a professora de história
aposentada e ele, um m ilitar da reserva. Eles passavam o dia com um leve sorriso no rosto, vendo o tem po passar ou cuidando do j ardim . Am bos eram m uito cultos, inform ados e cheios de opinião sobre a situação de seu país, seus generais (“O general é com o Hitler”, segundo Vovô) e sua grande ídolo, Aung San Suu Ky i. E estavam sem pre dispostos a um a boa conversa.
OS PRIMEIROS DOS 1.729 DEGRAUS QUE LEVAM AO TOPO DO
MANDALAY HILL.
UFO E LEO CONFEREM AS IMAGENS DO DIA COM NOSSO AMIGO ANANDA NO TOPO DO
MANDALAY HILL.
Mais um a vez, a sorte que ainda nos acom panharia em diversas m issões nos fez cair direto no colo de nossos queridos avozinhos, tão carinhosos com estes quatro forasteiros a ponto de nos em prestarem a sua m aior preciosidade. Na garagem da casa, coberto por um plástico preto e
em poeirado, ficava o grande orgulho da fam ília: um táxi clássico de Mandalay, reform ado pessoalm ente por Vovô do m otor à carenagem . Aquele veículo frágil e pequenino parecia m ais um a charrete de bodinho dessas de praça de cidade do interior. Só que no lugar do bode havia
um a pequena cabine para dois (esprem idos) e um m otorzinho que dava a im pressão de ter sido adaptado de um kart. Esse era o grande troféu da fam ília, que Vovô exibia orgulhoso apenas para visitas especiais. Seu sobrinho era o único autorizado a realizar a m anutenção do veículo, pois
tam bém o utilizava com o ganha-pão: táxi em corridas curtas pelo centro da cidade. Nossos anfitriões tiveram a bondade — e a insanidade — de nos em prestar para um a volta.
A idade avançada daquele singelo veículo, as ruas de terra esburacada e o trânsito caótico som ados à direção nada defensiva de Pesca nos fizeram logo abandonar o veículo. E foi j usto nesse m om ento que conhecem os um a das figuras m ais m arcantes da nossa passagem por
Mianm ar: o m onge Ananda. Após largar o carrinho são e salvo na garagem , resolvem os dar um a volta a pé pelas im ediações, a fim de achar um cy bercafé para m andar os tradicionais e-m ails para casa e dar aquela conferida rápida no Facebook. Apesar de parecer im provável, nosso
m apa afirm ava que a duas ruas dali havia um pequeno centro com internet. Então, foi para lá que rum am os. Chegando ao local m arcado, estranham os o chão gram ado, o silêncio sepulcral, as galinhas ciscando no pátio e um a cabana de m adeira ao fundo. Não era o tipo de lugar onde
esperávam os encontrar um a conexão à internet ou um a rede Wi-Fi. Lá do fundo do terreno, um a figura saiu lentam ente da cabana e se aproxim ou de nós. Era um m onge. Estávam os em um
m osteiro budista. Bom , pelo m enos ele não estava sob voto de silêncio e ainda falava inglês bem razoável apesar do sotaque (os birm aneses não conseguem pronunciar o som de “v”, que sem pre sai com o um “b”. E aí, um a view [vista] vira um a bill [conta] e você dem ora dez m inutos para
entender que não há nada a ser pago). Ananda riu tanto de nosso engano que im aginam os ser im possível achar um a internet na cidade. Mas ele disse que havia sim um cy bercafé bem ao lado e que inclusive poderíam os segui-lo, pois ele estava a cam inho de lá para checar seus e-m ails?! E
lá fom os nós, seguindo um m onge budista a caráter pelas ruas de Mandalay .
NOSSO AMIGO, O MONGE ANANDA.
O novo am igo era realm ente o retrato da bondade. Por conta disso, soavam ainda m ais absurdas as atrocidades que a j unta m ilitar de seu país com etera contra os m onges apenas alguns anos atrás. Em pouquíssim o tem po, Ananda j á tinha se tornado quase o quinto integrante do Não
conta lá em casa. Sem ser invasivo, abusado ou grudento, ele perguntou tim idam ente se poderia nos acom panhar em nossas cam inhadas pela cidade: “É que seria bom para praticar o m eu
inglês. Não tenho m uito essa oportunidade por aqui, com o vocês podem im aginar.” Poucas horas depois, j á tínham os até esquecido que ele era m onge. Brincávam os com Ananda e ele conosco, com o se fôssem os todos am igos de longa data. Ele ria e se divertia durante todo o passeio,
enquanto nos inform ava sobre vários aspectos im portantes de sua cultura e da vida em Mandalay e Mianm ar. Fazíam os graça de nossas diferenças, m as a verdade é que tínham os m ais sem elhanças com aquele m onge do que poderíam os supor à prim eira vista.
COM PAR PAR LAY (AO CENTRO, ALGEMADO), O MOUSTACHE BROTHER
NÚMERO 1 (SEGUNDO ELE MESMO) PRESO TRÊS VEZES POR CONTAR
PIADAS SOBRE O GOVERNO.
CRIANÇAS BRINCAM NAS AREIAS DE NGAPALI BEACH, O
PARAÍSO PROIBIDO NO LITORAL DE MIANMAR.
Talvez por ter se integrado tão bem ao espírito da nossa equipe, ele tenha nos convencido tão facilm ente a subir ao topo da colina que dá nom e à cidade. De início parecia um a subidinha tranquila. Ananda anunciava que o percurso era todo pavim entado, coberto por degraus, e que
ele cum pria esse ritual de ir até o alto para m editar m ais de um a vez por sem ana. Acontece que não fazíam os ideia do que nos esperava. Eram m ais de m il degraus até o topo do Mandalay Hill! A cada 50 m etros, um novo tem plo e m ais um interm inável lance de escadaria íngrem e. O
percurso chega tão alto que lá de cim a dá para ter um a visão panorâm ica da cidade e avistar até m esm o os m orros que a separam do Shan State, o território controlado por traficantes de ópio a centenas de quilôm etros.
Finalm ente, ao dar por encerrada essa extenuante escalada, o m isto de cansaço e alívio só nos perm itiu largar as m ochilas e descansar. Sentados ali no chão, relaxando tranquilam ente
perto das nuvens do céu de Mandalay, iniciam os um a conversa descontraída sobre os m ais variados assuntos com nosso m onge-guia. De cultura geral a futebol. Nada de política, liberdade e religião dessa vez. Bebem os um pouco de água, deitam os à som bra e, refeitos do cansaço, nos
preparam os para a descida. Foi quando percebem os que do outro lado do m orro havia nada m ais nada m enos que... elevadores! Sim , nós poderíam os ter trocado o exercício de duas horas de escadas, calor, suor e desidratação por um pequeno traj eto de carro e m ais uns m inutinhos de
elevador! Perguntam os a Ananda por que ele não tinha nos avisado desta m aravilha da tecnologia instalada ali em pleno Mandalay Hill, e ele disse rindo: “Mas aí teria sido m uito fácil! Vocês não dariam o valor m erecido.” Em um a certa lógica distorcida, faz sentido. Mas
preferim os refletir sobre m ais este ensinam ento budista enquanto descíam os de elevador.
De volta ao sopé da m ontanha, ainda teríam os m ais um program a antes de encerrar o dia,
provavelm ente um dos m ais esperados por todos nós desde que com eçam os a planej ar esta visita a Mianm ar. Assistir a um show dos Moustache Brothers é um a das referências m ais fortes quando se fala nesta fechada ditadura asiática. Os três irm ãos bigodudos são conhecidos
internacionalm ente por causa de sua história revoltante e absurda. É que os três j á foram presos e subm etidos a trabalhos forçados inúm eras vezes por sim plesm ente contarem piadas sobre a
ditadura de seu país. Cada vez que eram soltos, eles voltavam a realizar seu protesto em form a de com édia. E novam ente iam presos. Por isso, são considerados sím bolos m undiais da resistência local.
Hoj e em dia, o espetáculo é encenado na garagem da casa onde os artistas vivem com suas fam ílias, que, inclusive, se apresentam com eles. O show inteiro dura cerca de um a hora e na plateia (cadeiras de plástico encostadas em um a das paredes) cabem um as oito pessoas por vez. No nosso dia, éram os apenas quatro brasileiros e dois em polgados holandeses. Os núm eros de dança e esquetes côm icos têm um tipo de hum or pastelão clássico, difícil de ver hoj e em dia. É um teatrinho vaudeville do século passado encenado nos tem pos atuais dentro de um a caquética
garagem asiática de terceiro m undo. Parecia um a viagem no tem po. Com o experiência cultural é ótim o, m as com o show é bem distante do que estam os habituados. Foi, sem dúvida, um a valiosa aula de coragem , atitude e am or à liberdade por parte dos heroicos senhores.
É claro que eles não nos deixaram sair de lá sem m ostrar o grande m om ento de glória de suas carreiras. Foi quando foram citados nom inalm ente em um a cena do film e Um grande garoto, com Hugh Grant. Fecham as cortinas (na verdade, só avisam que o show term inou
pedindo aplausos) e é o m om ento de com prar algum as cam isetas oficiais dos Moustache Brothers de recordação. Assim com o você passa na loj inha de suvenires após qualquer grande
espetáculo. O detalhe pitoresco é que eram cam isas j á usadas, de outras m arcas e m odelos, que eles sim plesm ente pegaram aleatoriam ente e sobre as quais colocaram um silk com seu nom e. Não dava para deixar de levar!
Cum pridas as principais tarefas na cidade, percebem os que a grande lem brança que levávam os de Mandalay era exatam ente o que esperávam os dela: as am izades que fizem os e as histórias que conhecem os. Um casal de velhinhos, três ex-presidiários com ediantes e um m onge
tinham sido o portão de entrada para a realidade escondida de Mianm ar. Todos nos aj udaram m uito e terão sem pre um lugar guardado nas m em órias do Não conta lá em casa, m as este
últim o era especial. Ananda tinha se tornado am igo, m esm o. Daqueles com quem a gente quer m anter contato e tudo o m ais. Tentam os até deixar um a grana com ele, com o agradecim ento por seus serviços de guia inform al. Ele se recusou categoricam ente. Tivem os a boa ideia, então, de
oferecer um j antar de despedida a ele. Dissem os que era tradição em nosso país e que seria um a enorm e desfeita ele não com er conosco, de form a que Ananda não teve com o recusar. Um a vez convencido, ele se m ostrou m uito feliz em dividir com estes quatro brasileiros m ais um a
experiência de sua vida. A gente só não tinha ideia de quão nova era esta experiência para ele.
O local escolhido para a nossa confraternização foi o restaurante italiano de um hotel, um a das poucas opções na cidade. E, desde o m om ento em que entram os no local, Ananda parecia
encantado com tudo. Da decoração ao atendim ento, as cadeiras, a arrum ação da m esa, ele fitava tudo, com um olhar curioso e interrogativo. Com o se estivesse descobrindo um fantástico
achado arqueológico, os apetrechos de um a civilização desconhecida. Escolhem os o item m ais básico possível do cardápio e fizem os o pedido para toda a m esa: cinco pizzas de m uçarela. Ananda continuava em bevecido, perguntando para a gente o que era e para que servia aquele m onte de coisas postadas a sua frente. Garfos, guardanapos, saleiro... nada escapava à sua análise m inuciosa. A cada explicação, um “ohhh...” im pressionado. Até que chegaram as pizzas.
“Delícia”, disse UFO. “Cheirosa”, observou Leo. “Que fom e!”, exclam ou Pesca. “O que é isso?”, indagou Ananda. Surreal! Um m onge que possuía perfil no Facebook, m as nunca tinha visto um a pizza. Para nossa sorte, ele provou e aprovou. Deve ter ficado até com o telefone de
entregas do restaurante, e im agino que o alm oço de dom ingo em seu m osteiro passou a ser m ais gostoso depois desse dia.
Aguardando nosso voo, o prim eiro de um a sequência de três que nos levariam à praia de Ngapali, últim o ponto de nossa expedição por Mianm ar, j á estávam os bem m ais relaxados e com
a sensação de dever cum prido. O obj etivo para o encerram ento m agistral de nossa viagem era m ostrar esse litoral que diziam ser m ágico e que prom etia ser o verdadeiro paraíso proibido de
Mianm ar. Dessa form a, teríam os abordado todas as principais questões da polêm ica e dram ática história desse país. Os voos foram curtos com o as aeronaves em que viaj am os, e, algum as horas depois, desem barcam os em um aeroporto que seguia o m esm o sim plório padrão.
FIM DO DIA EM NGAPALI BEACH, MIANMAR. FOI
ESTA IMAGEM QUE ENCERROU O ÚLTIMO
EPISÓDIO DE NOSSA PRIMEIRA VIAGEM.
Ao chegarm os à tal praia, nós quatro pensam os a m esm a coisa: se tinha um lugar na extensa costa de Mianm ar que poderia ser a expressão do paraíso, nós o tínham os encontrado. Sabíam os que era enorm e a possibilidade de darm os de cara com praias incríveis, de areia
branca, m ar azul e palm eiras. Afinal de contas, tínham os acabado de pousar num litoral im enso e que era ainda m aior em extensão do que o das paradisíacas praias do sul da Tailândia, que recebiam m ilhares de turistas todos os anos. O que fazia a diferença e tornava a experiência e o
local tão especialm ente encantadores para nós era que naquela praia em questão só existia a gente. Um paraíso particular, por razões que depois de nossas andanças pelo país ficou ainda m ais evidente.
O UFO não se conteve e, antes que pudéssem os nos dar conta do lugar surreal em que nos encontrávam os, j á saiu correndo para experim entar as águas m ornas e as ondas que quebravam
solitárias bem ali na nossa frente. Não dem orou m uito e todos o seguim os. Meu prim eiro (e provavelm ente único) m ergulho em Mianm ar. Para uns seria m ais do que um m ergulho, m as a prim eira sessão de surfe na baía de Bengala. O Pesca não quis nem m edir o tam anho das ondas,
direção do swell etc. Pegou a prancha que trazia com ele desde Yangun e se lançou na água. Leondre não se fez de rogado, só que ele não tinha prancha, ou berm uda ou... nada. Pegou a prancha reserva do Pesca (sem quilhas ou parafina) e o seguiu de cueca, cam inhando calm o e
tranquilo rum o ao m ar, tal qual um a antítese perfeita dos reis havaianos inventores do esporte. Era com o se tivéssem os recebido um a m erecida recom pensa depois de toda aquela peregrinação, e só passava pela nossa cabeça aproveitar cada segundo que teríam os ali.
Quando concebem os esse proj eto de viagens, j á sabíam os que nosso prim eiro destino tinha que ser em blem ático. Escolhem os então um autêntico paraíso proibido, escondido pela opressão
de um a ditadura brutal e tem ido pelos m ais destem idos viaj antes ocidentais. Lá dentro, nos sentíam os com o desbravadores ou pioneiros em um a terra desconhecida. Tem plos m ilenares, pagodas que alcançavam o céu, praias paradisíacas... Dava até um a certa tristeza não ter com
quem com partilhar lugares que poderiam estar atraindo visitantes do m undo todo. Era duro perceber que, apesar da opressão e da falta de dem ocracia, os m oradores locais tinham um a intensa vontade de contar suas histórias, seus problem as e seu desej o de m udança. Mas era um a
vontade contida pelo m edo. Medo dos seus próprios governantes.
O que vivenciam os em alguns poucos dias de viagem era há décadas a luta diária de um povo. E, agora, de um a form a ou de outra, tam bém ia fazer parte da história da nossa vida. O
prim eiro destino de nosso proj eto. Mianm ar, ou Burm a, ou Birm ânia, ficaria para sem pre gravado na nossa m em ória e nas im agens, relatos e histórias que agora a gente ia tentar levar ao
m aior núm ero possível de pessoas. É assim que tentaríam os fazer a nossa parte. Por m ais que pareça difícil, ou que a gente sej a apenas um grão de areia nessa im ensa praia. Nós agora tínham os um caso de sucesso, um a prova de que esse sonho não era tão inalcançável assim .
Tínham os um a m otivação para ir atrás de outros lugares e m ais histórias. De pessoas e lições. Sem pre tentando fazer um a diferença. Mesm o que fosse um grãozinho de cada vez.
Fato curiosíssim o com que m e deparei na Ásia foi que as pessoas não
aceitavam em hipótese algum a notas de dólar velhas. Sua verdinha pode ser
de cem doletas, m as, se estiver com um am assadinho, um risquinho que sej a,
não tem j eito. Sej a pagando um “pad thai” (prato clássico de m acarrão com
legum es e m olho agridoce vendido em carrocinhas de am bulantes) nas ruas
de Bangcoc ou em um a casa de câm bio oficial em Kuala Lum pur, para um a
nota que não estiver im pecável a resposta vai ser sem pre a m esm a:
“Desculpe, notas velhas são um problem a para a gente.” Você pode perguntar
até ao rei da Tailândia o m otivo dessa prática pouco usual, m as ninguém vai
saber dizer o porquê do preconceito com as notas m ais “rodadas”. Um não
aceita porque não vai poder repassar ao outro, que não vai poder repassar
adiante… e assim sucessivam ente.